quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Riqueza dada pelo Alqueva “não é para todos” e acelera a “saharização do Alentejo”

 


Riqueza dada pelo Alqueva “não é para todos” e acelera a “saharização do Alentejo”

 

A Assembleia Municipal de Beja avançou com uma iniciativa inédita no poder autárquico regional sob proposta da CDU: ordenou a elaboração de um relatório sobre o impacto das culturas intensivas no concelho. E o resultado obriga a uma reflexão.

 

Carlos Dias

24 de Fevereiro de 2021, 11:00

https://www.publico.pt/2021/02/24/local/noticia/riqueza-dada-alqueva-nao-acelera-saharizacao-alentejo-1951879

 

Prestes a completarem-se duas décadas do encerramento das comportas da barragem de Alqueva (8 de Fevereiro de 2002), a Assembleia Municipal de Beja apresentou, na sua reunião de segunda-feira à noite, o relatório Reflexões sobre a Intensificação da Agricultura – Perspectivas e Impactos” sobre o impacto do Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva (EFMA) na região. E as conclusões são pouco animadoras: desde os impactos no solo ao pouco retorno para as populações locais, passando pela destruição da paisagem, o actual modo produtivo na área regada está a ter uma factura muito pesada.

 

O documento elaborado por um grupo de trabalho (GT), formado em Fevereiro de 2019 no seio deste órgão autárquico, formula uma preocupação que sintetiza as incertezas que permanecem sobre o projecto hidroagrícola: qual “o real retorno do investimento no EFMA, em matéria de desenvolvimento económico e social da zona de intervenção”. O levantamento feito por técnicos e especialistas, instituições e entidades científicas, empresários, associações ambientais e de defesa do património e público em geral apresentou a panorâmica da situação actual e uma perspectiva das tendências de desenvolvimento futuras do EFMA, no concelho de Beja.

 

De entre os inúmeros contributos expostos no decorrer dos quatro debates realizados com os intervenientes e veiculados pelo relatório a que o PÚBLICO teve acesso, constata-se que as “perspectivas de subdesenvolvimento tendem, naturalmente, a manter-se”, pese embora o vultuoso investimento público aplicado no empreendimento.

 

Em reforço deste argumento salienta-se outro dado: o desenvolvimento “não chega a todos, não é equitativo”. É uma alegação recorrente que se baseia na percepção de que os paradigmas de crescimento económico seguidos “ainda não contrariaram a tendência de decréscimo demográfico” e, deste modo, o território acaba por não dispor de condições para atrair novos residentes.

 

Por outro lado, é reconhecida a existência de um “défice significativo de conhecimento” sobre a realidade local, que contribui para a “prevalência de uma cultura territorial débil que se traduz em sinais claros de um estado de forte fragilidade”.

 

 

 

Trabalho precário

Com efeito, o modelo cultural baseado na intensificação das monoculturas está a dar lugar “rupturas importantes que já se reflectiram em alterações na paisagem do território”. Da análise feita pelo GT acentua-se como a mudança que se regista “no mundo rural atinge, inclusive, imaginários individuais e colectivos”, cujos impactes “têm uma expressão visual possante na própria estrutura da paisagem que está a ser formatada”, sublinha o relatório.

 

O ritmo da mudança, marcado por uma “rapidez extrema”, alterou “equilíbrios biofísicos e de padrões estéticos há muito constituídos e consolidados em tempos imemoriáveis”, afectando sobretudo a noção de realidade das gerações mais idosas, e contribui para “desconstruções” significativas que afectam os referenciais de memória colectiva.

 

A realidade descrita no extenso documento, vem demonstrar que os “mecanismos de política adoptados não se têm revelado adequados para inverter tendências estruturantes de fundo”, dando como exemplo os condicionalismos impostos pelo emprego criado. Ao concentrar as tarefas agrícolas em determinados períodos, particularmente no Outono e início do Inverno, “não se está a contribuir para esbater a sazonalidade” na ocupação da mão-de-obra, na sua esmagadora maioria imigrante, que é acolhida em condições “pouco dignas e adequadas”. O modelo agrícola baseado nas culturas permanentes intensivas e superintensivas envolve operações “pouco exigentes”, em termos de ocupação de recursos humanos, mas acaba por “degradar as condições básicas de trabalho, proporcionando a precariedade laboral do espaço rural.”

 

A protecção dos solos foi também objecto de comentários dos intervenientes nos debates, tendo sido referida a “existência de processos erosivos intensos e transporte de sedimentos”. A erosão dos solos que surge associada à forte precipitação atmosférica, tem associada uma “elevada perigosidade” em áreas onde se depositam por arrastamento das terras, provocando alagamentos, em alguns casos cheias, e situações frequentes de destruição de caminhos.

 

Foram identificadas por alguns participantes nos debates, componentes do território que estão a ser “alvo de agressões significativas”, tendo sido referidos o meio hídrico, águas superficiais e subterrâneas, destacando-se o aquífero dos gabros de Beja por ser evidente a sua contaminação. Este aquífero é um dos mais importantes do país, estende-se pelos concelhos de Ferreira do Alentejo, Beja e Serpa e ocupa uma área 328 quilómetros quadrados.

 

Os resultados analíticos efectuados pela Agência Portuguesa do Ambiente na rede de monitorização as águas subterrâneas para o período 2014-2017, revelam a presença de 10 pesticidas no aquífero dos gabros de Beja  com concentrações superiores ao limite de identificação do método analítico.

 

A nova agricultura em Alqueva, subordinada que está aos regimes monoculturais, é propícia ao aparecimento de pragas e doenças que requerem “a aplicação de fitofármacos em demasia, sem que se conheçam os danos colaterais e as suas consequências” revela o documento.

 

Agricultura competitiva

Dando voz aos empresários, estes explicaram as razões que sustentam o que definem como o “desenvolvimento de uma agricultura competitiva, assente em processos técnicos e tecnológicos de intensificação produtiva, frisando que esta foi uma das principais justificações que determinou a realização do EFMA”.

 

Contestando as críticas ao tipo de culturas que praticam, os representantes dos agricultores garantiram que “existe um sistema de controlo e certificação implementado”, baseado nos princípios da produção integrada e que são “cumpridos de acordo com os normativos.” 

 

Mas nas intervenções de vários intervenientes nos debates foram apresentadas inúmeras situações reveladoras de conflitualidades de usos e ocupações do espaço, em “desrespeito por enquadramentos formais ou legais, que se aplicam ao território concelhio.”

 

A falta de ordenamento nas intervenções agrícolas é “constatável em muitos casos” e estas são baseadas numa ocupação “indevida do solo rural, em desconformidade com o Plano Director Municipal de Beja”, sobretudo ao nível de ocupação do espaço “agro-silvopastoril e florestal” e na “excessiva proximidade” da instalação de culturas superintensivas com áreas residenciais.

 

Impactos na saúde

Acresce ainda que nas questões relacionadas com a precaução necessária para acautelamento de distâncias, de modo a evitar intervenções susceptíveis de gerar impactes negativos sobre a saúde pública, quando se procede ao tratamento de olivais, amendoais e vinhas, com herbicidas e pesticidas, não são observadas medidas de protecção e de salvaguarda de pessoas e animais. 

 

O relatório aponta a “insuficiência de meios” para fazer cumprir a legislação e os regulamentos. Os próprios instrumentos de gestão do território reconhecem “falhas importantes” por exemplo, no licenciamento de actividades no espaço rural, quando ocorrem mudanças de ocupação do solo. A “ausência de acompanhamento e fiscalização de operações com impactes no ordenamento físico e funcional do território”, sem responsabilização pelas consequências daí resultantes, é outras das lacunas observada, assim como a instalação de culturas intensivas em desconformidade com os instrumentos de suporte à gestão territorial. 

 

Os impactos provocados no ambiente pela desregulação na gestão do território no concelho de Beja “vieram numa altura muito desfavorável” para “agravar” os fenómenos das alterações climáticas, da degradação dos sistemas biofísicos, incluindo o montado ibérico, enquanto recurso florestal de referência, e assim potenciar o risco de “saharização do Alentejo”, adiantaram os ambientalistas que participaram num dos debates.

 

A este propósito destacam o que acontece de há três anos a esta parte. A compra de terrenos para plantação de culturas permanentes (olival, amendoal e vinha) deu lugar ao arrendamento fundiário de longo prazo (20/25 anos), coincidente com o ciclo do investimento, que proporciona ao arrendatário, “uma menor preocupação efectiva sobre a conservação da capacidade produtiva da terra”. Confrontados com este sinal, deixam uma alerta: “O que será do espaço das culturas intensivas daqui a 20 anos, quando deixar de ser sustentável a sua exploração”. Neste sentido, sugerem que seja feita uma reflexão antecipada. Antes que seja tarde.

 

O relatório final foi aprovado por unanimidade (PS, CDU, BE, PSD e Movimento Independente) na última reunião da Assembleia Municipal de Beja, realizada segunda-feira.

 

Contribuíram para este debate, além da população e da assembleia municipal, elementos da Escola Superior Agrária, Direcção Regional de Cultura do Alentejo, Águas Públicas do Alentejo, ACOS – Associação de Agricultores do Sul, Cimbal - Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, Anafre – Associação Nacional de Freguesias, Câmara Municipal de Beja, Innoliva, Olivum, De Prado, Associação de Beneficiários do Roxo, Federação Alentejana de Caçadores, Associação Portuguesa de Botânica e Movimento Alentejo Vivo.

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