quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O exemplo de um homem com honra // O grave não é a demissão do sr. Ramos – é a sua escolha

 



EDITORIAL CORONAVÍRUS

O exemplo de um homem com honra

 

Se um ministro não se demite por causa do horror do SEF no aeroporto de Lisboa, se uma ministra não se demite por causa da trapalhada da nomeação de um procurador europeu que afecta a imagem de Portugal, haja um homem que renuncia por haver alguém que, no seu hospital, deu vacinas a quem não devia.

 

Manuel Carvalho

3 de Fevereiro de 2021, 20:02

https://www.publico.pt/2021/02/03/sociedade/editorial/exemplo-homem-honra-1949216

 

Quando descobriu que no hospital que lhe cabia gerir tinha havido uma violação das prioridades no acesso a vacinas, Francisco Ramos fez o que se espera de um homem com honra e sentido de dever público: demitiu-se. É óbvio que a sua função como coordenador da task force do plano de vacinação se tornara insustentável. É evidente que o país indignado e revoltado com tantos casos de abusos no acesso às vacinas não aceitaria que se mantivesse no cargo depois de se provar que os mesmos abusos aconteceram numa instituição onde tem responsabilidade. Mas, ainda assim, a decisão de Francisco Ramos merece nota e elogio público, porque contraria uma tendência, cada vez mais frequente na vida pública e política: a de não haver quem dê a cara pelos erros, abusos ou indignidades cometidas nas autarquias ou ministérios sob a sua dependência.

 

Francisco Ramos é vítima neste processo. Não foi ele que autorizou a concessão de privilégios na vacinação de pessoas do Hospital da Cruz Vermelha fora das prioridades. Não foi ele que actuou nos bastidores para que esses abusos pudessem ser cometidos. A sua demissão tem por isso um outro significado, para lá do exemplo e da defesa do seu bom nome e consciência: o de expor, aos olhos de todos os portugueses, o grau inaceitável de velhacaria, imoralidade e de ausência de escrúpulos dos que permitiram a vacinação abusiva nas suas costas. Não é que exemplos destes façam muita diferença nos que espreitam a primeira oportunidade para subverter as regras e exibir os seus pequenos poderes em benefício próprio ou dos amigos; mas para todos os outros, a maioria dos portugueses, é reconfortante saber que ainda há quem se indigne e bata com a porta.

 

Espera-se que o gesto de Francisco Ramos e a repetição até à náusea de casos de aproveitamento abusivo das vacinas force o Governo a agir com mais determinação. Esta quarta-feira, vá lá, conseguimos ouvir o primeiro-ministro dizer que quem abusa tem de ser punido. Mas é pouco – porque é desproporcional face aos danos morais que a multiplicação de maus exemplos está a causar no esforço nacional para a vacinação. Também por isso, o exemplo de Francisco Ramos é importante para preservar os valores éticos indispensáveis à coesão nacional num tempo assim tão terrível. Se um ministro não se demite por causa do horror do SEF no aeroporto de Lisboa, se uma ministra não se demite por causa da trapalhada da nomeação de um procurador europeu que afecta a imagem de Portugal, haja um homem que renuncia por haver alguém que no seu hospital deu vacinas a quem não devia.

 

OPINIÃO CORONAVÍRUS

O grave não é a demissão do sr. Ramos – é a sua escolha

 

Quando se vai buscar para líder da operação mais importante da década um coleccionador de secretarias de Estado do PS, com uma cabeça estruturalmente partidária, paga-se o preço.

 


João Miguel Tavares

3 de Fevereiro de 2021, 22:45

https://www.publico.pt/2021/02/03/opiniao/opiniao/grave-nao-demissao-sr-ramos-escolha-1949213

 

Francisco Ramos apresentou a sua demissão esta quarta-feira, e há duas coisas a lamentar. 1) Não se ter demitido há mais tempo. 2) Ter sido escolhido em Novembro para liderar uma missão desta importância quando não tinha nem perfil nem capacidade para isso. Se o atraso na demissão é da sua exclusiva responsabilidade, a responsabilidade pela sua escolha é de quem assina o despacho de nomeação. A saber: o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho; o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita; e a ministra da Saúde, Marta Temido. Todos eles falharam brutalmente na identificação do perfil certo para coordenar a task force da vacinação – e, acima de todos eles, o primeiro-ministro, último responsável por uma nomeação desta importância.

 

A gota que fez transbordar o copo e impôs a demissão parece ter sido, segundo o comunicado do Ministério da Saúde, as “irregularidades no processo de selecção para vacinação de profissionais do Hospital da Cruz Vermelha”, onde Francisco Ramos preside à comissão executiva. Mas há muito que sobravam motivos para ele se demitir. 1) Começou por definir prioridades de vacinação que deixavam as pessoas saudáveis com mais de 75 anos de fora, tendo sido prontamente corrigido pelo primeiro-ministro; 2) estabeleceu um plano assente nos centros de saúde e em médicos de família que tem tudo para correr mal, desde logo porque há pelo menos 700 mil portugueses sem médico de família; 3) produziu  inenarráveis declarações na televisão, como se fosse comentador político, insultando quem votou em André Ventura, já depois de ter achado boa ideia apoiar publicamente Marisa Matias numa campanha eleitoral; 4) esqueceu-se de que as sobras da vacina mais desejada do planeta poderiam ser um enorme problema, e que era fundamental assegurar que não acabavam distribuídas por pastelarias e restaurantes de francesinhas; 5) desculpou-se com a vacinação indevida em lares com o argumento de que “confiámos em quem cuida dos nossos pais e dos nossos avós”; 6) decidiu distribuir mil vacinas por titulares de órgãos de soberania, deixando a cada instituição a decisão sobre quem vacinar, com a confusão e a falta de critério que se tem visto; 7) promoveu, com a sua inépcia, uma quantidade absurda de trafulhices relativamente a vacinações não prioritárias, multiplicando-se os esquemas manhosos e os casos de compadrio um pouco por todo o país (parece que já são mais de 340). Será que esta lista chega ou preciso ainda de continuar?

 

O resultado do equívoco Francisco Ramos é o agravar da enorme desconfiança dos portugueses face às suas instituições. As aldrabices em torno da vacinação são veneno que corrói o regime. E o grande responsável por isso não é Francisco Ramos, mas quem o escolheu

Sim, muitos destes casos poderiam ter acontecido com qualquer pessoa. Mas quando se vai buscar para líder da operação mais importante da década um coleccionador de secretarias de Estado do PS, com uma cabeça estruturalmente partidária, paga-se o preço. Paga-se o preço quando ele entra na chicana política. Paga-se o preço quando ele se mostra insensível às estruturas de compadrio da sociedade portuguesa. Paga-se o preço quando não se opta por alguém independente e acima de qualquer suspeita para liderar um processo com tamanha sensibilidade e responsabilidade (e, já agora, com experiência em distribuição e logística, fosse nas Forças Armadas, na Sonae ou na Jerónimo Martins).

 

O resultado do equívoco Francisco Ramos é o agravar (como se precisássemos disso) da enorme desconfiança dos portugueses face às suas instituições. As aldrabices em torno da vacinação são veneno que corrói o regime. E o grande responsável por isso não é Francisco Ramos, mas quem o escolheu.

 

Jornalista

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