EDITORIAL
CORONAVÍRUS
O exemplo de um homem com honra
Se um ministro não se demite por causa do horror do SEF
no aeroporto de Lisboa, se uma ministra não se demite por causa da trapalhada
da nomeação de um procurador europeu que afecta a imagem de Portugal, haja um
homem que renuncia por haver alguém que, no seu hospital, deu vacinas a quem
não devia.
Manuel Carvalho
3 de Fevereiro de
2021, 20:02
https://www.publico.pt/2021/02/03/sociedade/editorial/exemplo-homem-honra-1949216
Quando descobriu
que no hospital que lhe cabia gerir tinha havido uma violação das prioridades
no acesso a vacinas, Francisco Ramos fez o que se espera de um homem com honra
e sentido de dever público: demitiu-se. É óbvio que a sua função como
coordenador da task force do plano de vacinação se tornara insustentável. É
evidente que o país indignado e revoltado com tantos casos de abusos no acesso
às vacinas não aceitaria que se mantivesse no cargo depois de se provar que os
mesmos abusos aconteceram numa instituição onde tem responsabilidade. Mas,
ainda assim, a decisão de Francisco Ramos merece nota e elogio público, porque
contraria uma tendência, cada vez mais frequente na vida pública e política: a
de não haver quem dê a cara pelos erros, abusos ou indignidades cometidas nas
autarquias ou ministérios sob a sua dependência.
Francisco Ramos é
vítima neste processo. Não foi ele que autorizou a concessão de privilégios na
vacinação de pessoas do Hospital da Cruz Vermelha fora das prioridades. Não foi
ele que actuou nos bastidores para que esses abusos pudessem ser cometidos. A
sua demissão tem por isso um outro significado, para lá do exemplo e da defesa
do seu bom nome e consciência: o de expor, aos olhos de todos os portugueses, o
grau inaceitável de velhacaria, imoralidade e de ausência de escrúpulos dos que
permitiram a vacinação abusiva nas suas costas. Não é que exemplos destes façam
muita diferença nos que espreitam a primeira oportunidade para subverter as
regras e exibir os seus pequenos poderes em benefício próprio ou dos amigos;
mas para todos os outros, a maioria dos portugueses, é reconfortante saber que
ainda há quem se indigne e bata com a porta.
Espera-se que o
gesto de Francisco Ramos e a repetição até à náusea de casos de aproveitamento
abusivo das vacinas force o Governo a agir com mais determinação. Esta
quarta-feira, vá lá, conseguimos ouvir o primeiro-ministro dizer que quem abusa
tem de ser punido. Mas é pouco – porque é desproporcional face aos danos morais
que a multiplicação de maus exemplos está a causar no esforço nacional para a
vacinação. Também por isso, o exemplo de Francisco Ramos é importante para
preservar os valores éticos indispensáveis à coesão nacional num tempo assim
tão terrível. Se um ministro não se demite por causa do horror do SEF no
aeroporto de Lisboa, se uma ministra não se demite por causa da trapalhada da
nomeação de um procurador europeu que afecta a imagem de Portugal, haja um
homem que renuncia por haver alguém que no seu hospital deu vacinas a quem não
devia.
OPINIÃO
CORONAVÍRUS
O grave não é a demissão do sr. Ramos – é a sua escolha
Quando se vai buscar para líder da operação mais
importante da década um coleccionador de secretarias de Estado do PS, com uma
cabeça estruturalmente partidária, paga-se o preço.
João Miguel
Tavares
3 de Fevereiro de
2021, 22:45
https://www.publico.pt/2021/02/03/opiniao/opiniao/grave-nao-demissao-sr-ramos-escolha-1949213
Francisco Ramos
apresentou a sua demissão esta quarta-feira, e há duas coisas a lamentar. 1)
Não se ter demitido há mais tempo. 2) Ter sido escolhido em Novembro para
liderar uma missão desta importância quando não tinha nem perfil nem capacidade
para isso. Se o atraso na demissão é da sua exclusiva responsabilidade, a
responsabilidade pela sua escolha é de quem assina o despacho de nomeação. A
saber: o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho; o ministro da Administração
Interna, Eduardo Cabrita; e a ministra da Saúde, Marta Temido. Todos eles
falharam brutalmente na identificação do perfil certo para coordenar a task
force da vacinação – e, acima de todos eles, o primeiro-ministro, último
responsável por uma nomeação desta importância.
A gota que fez
transbordar o copo e impôs a demissão parece ter sido, segundo o comunicado do
Ministério da Saúde, as “irregularidades no processo de selecção para vacinação
de profissionais do Hospital da Cruz Vermelha”, onde Francisco Ramos preside à
comissão executiva. Mas há muito que sobravam motivos para ele se demitir. 1)
Começou por definir prioridades de vacinação que deixavam as pessoas saudáveis
com mais de 75 anos de fora, tendo sido prontamente corrigido pelo
primeiro-ministro; 2) estabeleceu um plano assente nos centros de saúde e em
médicos de família que tem tudo para correr mal, desde logo porque há pelo
menos 700 mil portugueses sem médico de família; 3) produziu inenarráveis declarações na televisão, como
se fosse comentador político, insultando quem votou em André Ventura, já depois
de ter achado boa ideia apoiar publicamente Marisa Matias numa campanha
eleitoral; 4) esqueceu-se de que as sobras da vacina mais desejada do planeta
poderiam ser um enorme problema, e que era fundamental assegurar que não
acabavam distribuídas por pastelarias e restaurantes de francesinhas; 5)
desculpou-se com a vacinação indevida em lares com o argumento de que
“confiámos em quem cuida dos nossos pais e dos nossos avós”; 6) decidiu
distribuir mil vacinas por titulares de órgãos de soberania, deixando a cada instituição
a decisão sobre quem vacinar, com a confusão e a falta de critério que se tem
visto; 7) promoveu, com a sua inépcia, uma quantidade absurda de trafulhices
relativamente a vacinações não prioritárias, multiplicando-se os esquemas
manhosos e os casos de compadrio um pouco por todo o país (parece que já são
mais de 340). Será que esta lista chega ou preciso ainda de continuar?
O resultado do
equívoco Francisco Ramos é o agravar da enorme desconfiança dos portugueses
face às suas instituições. As aldrabices em torno da vacinação são veneno que
corrói o regime. E o grande responsável por isso não é Francisco Ramos, mas
quem o escolheu
Sim, muitos
destes casos poderiam ter acontecido com qualquer pessoa. Mas quando se vai
buscar para líder da operação mais importante da década um coleccionador de
secretarias de Estado do PS, com uma cabeça estruturalmente partidária, paga-se
o preço. Paga-se o preço quando ele entra na chicana política. Paga-se o preço
quando ele se mostra insensível às estruturas de compadrio da sociedade
portuguesa. Paga-se o preço quando não se opta por alguém independente e acima
de qualquer suspeita para liderar um processo com tamanha sensibilidade e
responsabilidade (e, já agora, com experiência em distribuição e logística,
fosse nas Forças Armadas, na Sonae ou na Jerónimo Martins).
O resultado do
equívoco Francisco Ramos é o agravar (como se precisássemos disso) da enorme
desconfiança dos portugueses face às suas instituições. As aldrabices em torno
da vacinação são veneno que corrói o regime. E o grande responsável por isso
não é Francisco Ramos, mas quem o escolheu.
Jornalista



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