OPINIÃO
Não ter medo de ser livre
Manuel Alegre
7 de Fevereiro de
2021, 0:20
https://www.publico.pt/2021/02/07/politica/opiniao/nao-medo-livre-1949598
Em Dezembro de
2011 publiquei um artigo intitulado “Pedro Nuno, o malvado”. Era uma resposta
aos ataques de que estava a ser alvo por ter a coragem de pensar pela sua
própria cabeça, criticar os bancos alemães e, suprema heresia, defender uma
alternativa ao dogma neoliberal dominante.
Foi acusado de
populismo e as colunas convenientes puseram-no de seta para baixo. Os
alinhadinhos do PS acharam que não era oportuno, os instalados de fora
pressentiram que aquele jovem, ainda sem peso político, podia representar a
ameaça de levar o PS para um projecto de esquerda. Ajudaria a concretizá-lo
como Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares nas negociações para a
“Geringonça”. Podia ter começado a pensar numa carreira bem comportada. Mas no
último Congresso subiu à tribuna para defender uma moção de esquerda, subscrita
também por Duarte Cordeiro. De novo acusado de populista, levantou os
congressistas e ainda me lembro como terminou: “Isto não é populismo, isto é
socialismo.”
Houve quem
concluísse que era um desafio ao Secretário-Geral que, pelo sim pelo não,
avisou que ainda não tinha metido os papéis para a reforma.
Agora Pedro Nuno
(PN) apoiou Ana Gomes, criticou a ausência do PS nas presidenciais, alertou
contra a tentação do regresso ao centrismo que, por toda a Europa, tem
enfraquecido a esquerda democrática abrindo espaço ao crescimento da
extrema-direita, lembrou o erro dos socialistas franceses por terem subestimado
Jean Marie Le Pen e sublinhou a urgência de federar as esquerdas e combater as
causas que originam a zanga das pessoas contra o sistema.
Convém ter
presente que maioria dos dirigentes do PS sonha com o centrismo. Resignou-se à
“Geringonça” como expediente táctico para manter o Governo. Mas também é
preciso repensar a esquerda: uma perspectiva progressista consistente exige um
debate sério para que a convergência não se limite a uma negociação orçamental.
Mas enfim, PN
manifestou com autonomia a sua posição. Exerceu o seu direito de opinião e de
crítica, apontou uma via política. Como o tem feito, noutro sentido, Francisco
Assis. Tudo normal num partido de cultura democrática, se não vivêssemos um
tempo de “respeitinho”, em que parece ter-se perdido o hábito e o gosto do
debate político e em que é arriscado ter ideias.
O monolitismo não
é socialista. Nasceu em 1903, quando Lenine impôs, no Congresso de Londres do
Partido Social Democrata Russo, “o centralismo democrático”. Conceito contra o
qual sempre se bateram os socialistas, desde Martov, passando pela rotura de Léon
Blum com a Internacional Comunista até ao combate do PS contra o estalinismo.
Monolitismo não rima com PS. Embora alguns dos seus tiques possam ser
contagiosos. É uma espécie de vitória póstuma do estalinismo. O carreirismo
convive mal com a liberdade de pensar. Ora, mais do que concordar ou não com
PN, o que está em causa é a liberdade.
Eu também apoiei
Ana Gomes. E não aceito a explicação estapafúrdia de que a eleição de Marcelo
Rebelo de Sousa (MRS) foi uma vitória do PS. A eleição de MRS é uma vitória
dele próprio, pessoal e não partilhável. O PS perdeu as eleições presidenciais
por falta de comparência. E foi graças a Ana Gomes que o candidato da
extrema-direita não ficou em segundo lugar.
Mas eis que um
simples artigo vem incomodar os acomodados. Dirão que não é oportuno (nunca é).
E que PN pretende candidatar-se a Secretário-Geral. E depois? Ninguém está
proibido de pensar e divergir. Nem de se candidatar a qualquer cargo no PS.
António Costa também não foi proibido de se candidatar contra António José
Seguro. Vão ainda utilizar o argumento das prioridades: a pandemia, a crise
económica e social. E daí? A liberdade não está suspensa. É nos momentos mais
difíceis que ela é mais precisa. Sem liberdade nenhum projecto político tem
sentido. Recordo a frase de Mário Soares que me fez aderir ao PS: “A liberdade
é um valor em si mesmo revolucionário”. Liberdade que será sempre a liberdade
de pensar de maneira diferente, dizia Rosa Luxemburgo. Mais do que nunca é
preciso gente que não tenha medo de ser livre.
Militante histórico do PS, escritor


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