CDS-PP
Líder do CDS apela a paz interna, Mesquita Nunes desiste
de forçar congresso
Moção de confiança à direcção foi aprovada com margem
curta. Francisco Rodrigues dos Santos pede mobilização para as autárquicas
Sofia Rodrigues
7 de Fevereiro de
2021, 21:02
A pergunta ecoa
no CDS: Que capital político conseguiram granjear os críticos da direcção – e
com que prazo – depois de Francisco Rodrigues dos Santos passar o teste da
moção de confiança por uma margem pouco folgada? Adolfo Mesquita Nunes refreia
os ânimos dos que o apoiaram no desafio ao congresso antecipado: respeita os
resultados do conselho nacional e promete empenhar-se nas eleições autárquicas.
É também para essas eleições que o líder do CDS apela à mobilização dos
militantes. Recusando uma “vitória poucochinho”, Francisco Rodrigues pede,
sobretudo, paz interna.
Na madrugada
deste domingo, ao fim de 16 horas de um conselho nacional intenso, a moção de
confiança à comissão política nacional do CDS foi aprovada por 144 (54,4%)
votos a favor, 113 contra e oito abstenções num universo de 265 votantes. A
margem de 31 votos é vista como uma derrota com sabor a vitória pelos críticos
mas tem um gosto especial para os apoiantes da direcção: realizou-se por
escrutínio secreto.
Logo depois de
anunciados os resultados do conselho nacional, que decorreu por
videoconferência, Adolfo Mesquita Nunes reforçou os seus argumentos que
sustentaram o pedido de congresso antecipado e disputa de liderança. “Fiz
aquilo que a consciência me ditava: alertar o partido para uma crise de
sobrevivência”, escreveu no Facebook. O ex-vice-presidente do CDS assumiu
respeitar o resultado e apontou o seu rumo: “Agora há eleições autárquicas e
nelas estarei empenhado na minha terra [Covilhã]”.
Ficou o recado
para os que pretendiam forçar um congresso antecipado reunindo quatro mil
assinaturas. Esgotou-se a janela temporal para a realização de um congresso
extraordinário tendo em conta o calendário das eleições autárquicas. Logo a
seguir volta a abrir-se espaço para a reunião magna. E o assumido candidato à
liderança, se houvesse congresso já, volta a apresentar-se? Só a avaliação do
estado do partido nessa altura permitirá tomar uma decisão. Essa tem sido a
argumentação de Mesquita Nunes: só será candidato à liderança se o partido for
salvável.
João Almeida,
outro dos defensores do congresso antecipado (uma tese aliás sustentada pelos
cinco deputados do CDS), escusou-se a fazer interpretações sobre os resultados
da moção e assumiu que estará concentrado noutras causas. “Estou focado no
trabalho do Parlamento e nas autárquicas. Estou disponível para ser candidato
como fui em anteriores eleições”, disse ao PÚBLICO. O deputado costuma
concorrer a órgãos municipais em São João da Madeira (Aveiro), a sua terra
natal. Nesta reunião do conselho nacional, as eleições autárquicas serviram
como arma de arremesso entre os defensores do congresso antecipado e os da
direcção.
Com o objectivo
de “manter as seis câmaras” e aumentar o número de mandatos, Francisco
Rodrigues dos Santos pediu a mobilização dos militantes para as autárquicas em
coligação ou listas próprias. Numa intervenção no final do conselho nacional, o
líder do CDS disse que saberá “ler os contributos e as críticas” que foi
ouvindo, comprometeu-se com um encontro com Mesquita Nunes e deixou um apelo:
“Quero pedir-vos que o nosso partido possa beneficiar, finalmente, de um clima
de paz interna sem querelas”. É o desejo de um ponto final, depois de um
conselho nacional tenso mesmo já nos momentos finais quando a percepção era já
a da vitória da direcção. A porta-voz, Cecília Anacoreta Correia, pediu
“mandato reforçado” aos conselheiros nacionais e atacou directamente Adolfo
Mesquita Nunes ao dizer que quem “executou uma linha política e perdeu 13
deputados não é um salvador da pátria”.
Ao longo da
noite, outras vozes da direcção vieram tentar contrariar a tese do congresso
defendida, entretanto, pelo actual e antigos líderes parlamentares (Telmo
Correia e Nuno Magalhães), e pelo ex-deputado Hélder Amaral. Fernando de
Almeida, vice-presidente da distrital de Aveiro, fez uma intervenção dura,
acusando os apoiantes de Adolfo Mesquita Nunes de “gravitarem à volta do partido”
e se acharem “donos” do CDS.
Depois de a
deputada Cecília Meireles dizer que “o partido está em risco”, Fernando de
Almeida voltou a sugerir que a parlamentar abdicasse do cargo para permitir a
entrada do líder do CDS: “Se o partido está em risco, dê lugar a Francisco
Rodrigues dos Santos”.
O pedido para
“rolarem cabeças” e a realização de um congresso extraordinário antecipado é
uma “irresponsabilidade” em ano de eleições locais, atirou o coordenador
autárquico nacional. Fernando Barbosa, que também lidera a distrital do Porto,
adiantou que as deslocações nesse âmbito estão a ser feitas “do seu bolso”.
Mais uma vez, a
situação financeira do CDS foi exposta como uma das fragilidades a ter em
conta. O secretário-geral, Francisco Tavares, traçou um retrato da herança
deixada pela anterior direcção: o passivo de 1,2 milhões de euros, ameaças de
execução, carros na oficina sem pneus, dívidas a fornecedores e aos CTT, que
impedia o simples envio de cartas. Um partido “totalmente desfraldado”, nas
suas palavras. Agora, o CDS tem de obter financiamento para a campanha
autárquica.

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