OPINIÃO
Já imaginou o rio Douro sem barcos rabelos? Nós também
não
Inacreditavelmente, está neste momento um processo em
curso por parte do Porto de Leixões para o despejo deste estaleiro, instalado
nas margens ribeirinhas do Douro, ao lado do Cais de Gaia. Que todas as vozes
em defesa do património se façam ouvir, que todos e todas aquelas que não
aceitam que se perca a história da nossa cidade se levantem.
Luís Monteiro
4 de Fevereiro de
2021, 17:00
Na passada
semana, a empresa detentora do estaleiro naval de barcos rabelos sediado no
Cais de Gaia foi notificada com um aviso. Esse ultimatum, assinado pela
Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo S.A. (APDL), vem
assim terminar o contrato de ocupação de domínio público hídrico por parte da
empresa Socrenaval. Mas não é só isso que termina se esta empresa desaparecer
daquelas instalações. Consigo, leva mais de um século de construção artesanal
de barcos rabelos: o único estaleiro que, atualmente, mantém uma produção
artesanal.
É por demais
evidente que o interesse da APDL naquele terreno ribeirinho tem em vista a sua
utilização para fins que lhe permitam rentabilizá-lo financeiramente. A
história já é antiga e as tentativas de despejar o estaleiro de barcos rabelos
já aconteceu várias vezes. Para aquele espaço, já se imaginaram as mais
variadas soluções para despejar o estaleiro. O menu de novas atrações
turísticas fast-food para a zona é extenso e apetitoso para quem imagina a
transformação de um património histórico numa Disneylândia.
À Câmara
Municipal de Vila Nova de Gaia cabe mais do que a timidez de se propor
intermediar o conflito que, tudo indica, será resolvido nos tribunais e não
através de um acordo. A intransigência da APDL não parece permitir outra saída
que não essa. Um município que tem assumido para si a responsabilidade de
reabilitar a orla marítima e ribeirinha, valorizar turisticamente esta zona histórica
onde o Vinho do Porto é tema central, tem de utilizar os meios ao seu dispor
para preservar o interesse público daquilo que – pasme-se – é a razão da tão
atrativa zona turística.
Não cabe a um
executivo autárquico defender este ou aquele negócio privado. A ética
republicana exige prudência e transparência na gestão de processos desta
natureza. Mas há uma verdade absoluta à qual ninguém pode virar as costas: o
património material e imaterial constituído hoje por um conjunto de
significantes sociais e históricos onde os barcos rabelos (a sua conceção e
produção, a sua ligação à região, à economia do Vinho do Porto e à história de
um rio) se encaixam tem de estar acima de qualquer interesse privado.
Para esse efeito,
há já ações que podem e devem ser tomadas. A empresa detentora deu entrada,
muito antes de este episódio ter sucedido, de um pedido de classificação do seu
estaleiro e da atividade ali desenvolvida como de interesse público, dada a sua
importância patrimonial. Este elemento é fundamental para o próprio município
potenciar a classificação da zona ribeirinha como Património da Humanidade.
Qualquer apoio da autarquia nesse processo lançado pela empresa deve ser
entendido como de interesse público. Em segundo plano, devem ser estudadas
medidas para o estudo histórico e a musealização desta atividade artesanal. Só
fortalecendo os laços entre a história e as políticas públicas é que
conseguiremos prevenir mais abusos como este.
É possível
imaginar a erguer políticas públicas que preservem o nosso património e
mantenham as portas abertas a todos que queiram conhecer o nosso município. E
para isso, lanço o apelo: que todas as vozes em defesa do património se façam
ouvir, que todos e todas aquelas que não aceitam que se perca a história da
nossa cidade se levantem.
O autor escreve
segundo o novo acordo ortográfico

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