Da “bosta da bófia” à “morte do homem branco”, as
polémicas de Mamadou Ba
O dirigente da SOS Racismo voltou a ter os holofotes
apontados após as declarações sobre Marcelino da Mata. André Ventura, Nuno Melo
e Jorge Jesus também foram alvos recentes do luso-senegalês
RUI ANTUNES
JORNALISTA
SOCIEDADE
19.02.2021 às
10h59
O luso-senegalês
Mamadou Ba, dirigente da associação SOS Racismo e antigo assessor parlamentar
do Bloco de Esquerda, saltou para a ribalta em janeiro de 2019, ao qualificar
de “bosta” uma intervenção policial no bairro da Jamaica, no Seixal, numa
declaração que dava azo a dupla interpretação. A outra leitura, mais polémica,
apontava para que considerasse a polícia, no seu todo, uma “bosta”. Na sua
página de Facebook, Mamadou Ba escreveu o seguinte: “Sobre a violência
policial, que um gajo tenha de aguentar a bosta da bófia e da facho esfera é
uma coisa natural, agora levar com sermões idiotas de pseudo radicais
iluminados é já um tanto cansativo, carago!”
É óbvio que a
segunda interpretação é legítima, mas as explicações posteriores do ativista
antiracismo permitiram esclarecer que a expressão se referia à atuação policial
naquele contexto específico e não a uma qualificação da PSP enquanto força de
segurança. “Sim, bater em alguém porque é negro ou cigano é uma bosta”,
escreveria, mais tarde, depois de ter começado a receber “vários tipos de
insultos e ameaças”, na sequência da publicação inicial.
Da intervenção no
bairro social da margem sul resultariam cinco arguidos, quatro moradores e um
agente da polícia, além de uma chuva de críticas a Mamadou Ba. O próprio Bloco
de Esquerda se demarcou das palavras do então seu assessor parlamentar, que
meses mais tarde haveria de desfiliar-se do partido.
Não era a
primeira nem seria a última vez que os comentários deste homem nascido no
Senegal há 47 anos, e a viver em Portugal há mais de duas décadas (já com
nacionalidade portuguesa adquirida), geravam controvérsia no espaço público.
Mas o que estava para trás eram, sobretudo, denúncias enquadradas por uma
linguagem mais compatível com as suas funções na SOS Racismo, como a das
agressões a seis residentes no bairro da Cova da Moura, na Amadora, em 2015, na
esquadra de Alfragide – oito agentes acabariam condenados em tribunal.
Daí em diante,
Mamadou Ba tem sido mais incisivo nas suas intervenções públicas, sendo muitas
vezes acusado de incitar ao ódio e até de racista. Os insultos a André Ventura,
líder do Chega, são uma constante na sua página de Twitter.
Em novembro do
ano passado, um jogo de palavras deixou-o outra vez no centro das críticas,
quando falou na necessidade de “matar o homem branco”, durante a conferência
online “Racismo e avanço do discurso de ódio no mundo”. O luso-senegalês
referia-se, no entanto, a um homem branco específico, “assassino, colonial e
racista”, no contexto de uma reflexão sobre o racismo no mundo, como se pode
ver no vídeo original (clicar no link e ver a partir da 1h19m).
Uns dias depois,
foi Jorge Jesus quem o indignou, ao desvalorizar o comportamento do quarto árbitro
no jogo da Liga dos Campeões entre o Paris Saint-Germain e o Basaksehir
Istambul. Embora desconhecendo os pormenores do caso – o romeno Sebastian
Coltescu identificou o treinador adjunto da equipa turca, Pierre Webó, como
“aquele negro ali” -, o técnico do Benfica afirmou que, “hoje, qualquer coisa
que se possa dizer contra um negro é sempre sinal de racismo e a mesma coisa
dita contra um branco já não é”. Benfiquista assumido, Mamadou Ba ironizou no
Twitter:
O ativista
antiracismo também não tinha ficado indiferente à polémica da ausência de vozes
de atores negros na versão portuguesa do filme de animação “Soul”, cujo
protagonista ambiciona tocar numa banda de jazz. Jorge Mourato foi o escolhido
para lhe dar voz.
Nas últimas
semanas, Mamadou Ba tem disparado em várias frentes e voltou a ter os holofotes
apontados na sequência dos comentários contundentes que fez sobre Marcelino da
Mata. Mas, além de André Ventura, nenhum outro alvo tem merecido mais a sua
atenção do que Nuno Melo. Nesta quarta-feira, após um debate na TVI no qual
também participou Joana Cabral, dirigente da SOS Racismo, o luso-senegalês
utilizou o Facebook para comentar o desempenho do eurodeputado do CDS. Nestes
termos: “Foi igual a si próprio, ou seja, um marialva trafulha que mente com
todos os dentes. Ainda assim, mostrou-se um cobardola que, ao mesmo tempo que
exaltava a coragem do criminoso de guerra, não teve a coragem de assumir a sua
concordância com a minha deportação proposta por uma petição, patrocinada pelo
seu partido, entre outros. E, a dada altura, revelou o verdadeiro fascistoide
que é, quando falou nas “pessoas de bem”, copiando o Ventura.”
A memória histórica como veneno
Portugal fez-se
como projecto identitário à custa da ilusão e de dogmas que a verdade histórica
demoliu. Lê-lo e criticá-lo é indispensável: destruir o seu imaginário é uma
quimera. Uma parte dos portugueses nunca o aceitaria.
Manuel Carvalho
20 de Fevereiro
de 2021, 22:53
https://www.publico.pt/2021/02/20/politica/editorial/memoria-historica-veneno-1951512
A intensidade com
que o país repete as discussões em torno da sua memória histórica é sintoma de
uma sociedade doente. O conflito áspero sobre as heranças da Guerra Colonial ou
dos Descobrimentos expõe uma ferida a caminho da infecção. O radicalismo
alimenta discussões que expõem ódios profundos em favor dos extremos do
espectro político. E nada faz prever que a situação melhore. Em causa está uma
exigência impossível: que, num passe de mágica operado pela ideologia, o país
renegue alguns dos fundamentos mais profundos da sua identidade. Não se
recomenda silêncio sobre o problema: apenas prudência. Se o nacionalismo é um
vírus fratricida, o historicismo radical dos movimentos anti-racistas também o
é.
Entrámos num conflito no qual o diálogo e
compromisso parecem impossíveis. Numa oposição cada vez mais extremada entre
conceitos de uma direita fóssil e uma esquerda “antifa” absolutista e autoritária,
o país esquece até os consensos que a democracia produziu a propósito do
passado colonial. A brutalidade dos sistemas de exploração de outros povos, a
escravatura ou a persistência de uma Guerra Colonial muito para lá da vaga da
autodeterminação do pós-II Guerra passaram a ser aceites no consciente
colectivo. A Expansão perdeu a sua face idílica e glorificadora. A exaltação do
império colonial que mobilizou o país nos tempos do Ultimato, na Primeira
República ou no Estado Novo é passado. O Portugal europeu expurgou os
principais resquícios do salazarismo.
Os radicais de
uma certa esquerda querem ir mais longe e, na sua exigência, estão a alimentar
os radicais de direita que querem andar para trás. Dos dois lados há um
instinto de imposição das suas verdades aos outros. Ambos abdicam de encarar a
História na sua complexidade. Uns e outros retroalimentam-se com o veneno da
intolerância. Há até quem não se envergonhe por assinar uma petição em favor da
deportação de um cidadão português, por incendiário que seja nas suas posições.
A História da colonização foi o que foi. Ver o seu lado sinistro, sem contexto
civilizacional, como se fosse uma deliberação consciente de um Estado moderno
como a que levou ao Holocausto, é um erro. Vê-la como o testemunho de um povo
de heróis, um absurdo. Tem de haver uma zona de conforto para todas as
posições. A liberdade e a responsabilidade da democracia.
Portugal fez-se como projecto identitário à
custa da ilusão e de dogmas que a verdade histórica demoliu. Lê-lo e criticá-lo
é indispensável: destruir o seu imaginário é uma quimera. Uma parte dos
portugueses nunca o aceitaria. Como dizia Eduardo Lourenço, o passado não se
repara com a criação de um metafórico tribunal da inquisição para “pôr na pira
a história deste pequeno país”.



Sem comentários:
Enviar um comentário