domingo, 21 de fevereiro de 2021

Da “bosta da bófia” à “morte do homem branco”, as polémicas de Mamadou Ba // A memória histórica como veneno

 



Da “bosta da bófia” à “morte do homem branco”, as polémicas de Mamadou Ba

 

O dirigente da SOS Racismo voltou a ter os holofotes apontados após as declarações sobre Marcelino da Mata. André Ventura, Nuno Melo e Jorge Jesus também foram alvos recentes do luso-senegalês

 

RUI ANTUNES

JORNALISTA

SOCIEDADE

19.02.2021 às 10h59

https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2021-02-19-da-bosta-da-bofia-a-morte-do-homem-branco-as-polemicas-de-mamadou-ba/?fbclid=IwAR1pxxj4__bv5Jc_nrIF4fGP-4M5zpWWfKqkQyNAM6DCvxj8v2ynjeFDuII

 

O luso-senegalês Mamadou Ba, dirigente da associação SOS Racismo e antigo assessor parlamentar do Bloco de Esquerda, saltou para a ribalta em janeiro de 2019, ao qualificar de “bosta” uma intervenção policial no bairro da Jamaica, no Seixal, numa declaração que dava azo a dupla interpretação. A outra leitura, mais polémica, apontava para que considerasse a polícia, no seu todo, uma “bosta”. Na sua página de Facebook, Mamadou Ba escreveu o seguinte: “Sobre a violência policial, que um gajo tenha de aguentar a bosta da bófia e da facho esfera é uma coisa natural, agora levar com sermões idiotas de pseudo radicais iluminados é já um tanto cansativo, carago!”

 

É óbvio que a segunda interpretação é legítima, mas as explicações posteriores do ativista antiracismo permitiram esclarecer que a expressão se referia à atuação policial naquele contexto específico e não a uma qualificação da PSP enquanto força de segurança. “Sim, bater em alguém porque é negro ou cigano é uma bosta”, escreveria, mais tarde, depois de ter começado a receber “vários tipos de insultos e ameaças”, na sequência da publicação inicial.

 

Da intervenção no bairro social da margem sul resultariam cinco arguidos, quatro moradores e um agente da polícia, além de uma chuva de críticas a Mamadou Ba. O próprio Bloco de Esquerda se demarcou das palavras do então seu assessor parlamentar, que meses mais tarde haveria de desfiliar-se do partido.

 

Não era a primeira nem seria a última vez que os comentários deste homem nascido no Senegal há 47 anos, e a viver em Portugal há mais de duas décadas (já com nacionalidade portuguesa adquirida), geravam controvérsia no espaço público. Mas o que estava para trás eram, sobretudo, denúncias enquadradas por uma linguagem mais compatível com as suas funções na SOS Racismo, como a das agressões a seis residentes no bairro da Cova da Moura, na Amadora, em 2015, na esquadra de Alfragide – oito agentes acabariam condenados em tribunal.

 

Daí em diante, Mamadou Ba tem sido mais incisivo nas suas intervenções públicas, sendo muitas vezes acusado de incitar ao ódio e até de racista. Os insultos a André Ventura, líder do Chega, são uma constante na sua página de Twitter.

 

Em novembro do ano passado, um jogo de palavras deixou-o outra vez no centro das críticas, quando falou na necessidade de “matar o homem branco”, durante a conferência online “Racismo e avanço do discurso de ódio no mundo”. O luso-senegalês referia-se, no entanto, a um homem branco específico, “assassino, colonial e racista”, no contexto de uma reflexão sobre o racismo no mundo, como se pode ver no vídeo original (clicar no link e ver a partir da 1h19m).

 

Uns dias depois, foi Jorge Jesus quem o indignou, ao desvalorizar o comportamento do quarto árbitro no jogo da Liga dos Campeões entre o Paris Saint-Germain e o Basaksehir Istambul. Embora desconhecendo os pormenores do caso – o romeno Sebastian Coltescu identificou o treinador adjunto da equipa turca, Pierre Webó, como “aquele negro ali” -, o técnico do Benfica afirmou que, “hoje, qualquer coisa que se possa dizer contra um negro é sempre sinal de racismo e a mesma coisa dita contra um branco já não é”. Benfiquista assumido, Mamadou Ba ironizou no Twitter:

 

O ativista antiracismo também não tinha ficado indiferente à polémica da ausência de vozes de atores negros na versão portuguesa do filme de animação “Soul”, cujo protagonista ambiciona tocar numa banda de jazz. Jorge Mourato foi o escolhido para lhe dar voz.

 

Nas últimas semanas, Mamadou Ba tem disparado em várias frentes e voltou a ter os holofotes apontados na sequência dos comentários contundentes que fez sobre Marcelino da Mata. Mas, além de André Ventura, nenhum outro alvo tem merecido mais a sua atenção do que Nuno Melo. Nesta quarta-feira, após um debate na TVI no qual também participou Joana Cabral, dirigente da SOS Racismo, o luso-senegalês utilizou o Facebook para comentar o desempenho do eurodeputado do CDS. Nestes termos: “Foi igual a si próprio, ou seja, um marialva trafulha que mente com todos os dentes. Ainda assim, mostrou-se um cobardola que, ao mesmo tempo que exaltava a coragem do criminoso de guerra, não teve a coragem de assumir a sua concordância com a minha deportação proposta por uma petição, patrocinada pelo seu partido, entre outros. E, a dada altura, revelou o verdadeiro fascistoide que é, quando falou nas “pessoas de bem”, copiando o Ventura.”




A memória histórica como veneno

 

 Portugal fez-se como projecto identitário à custa da ilusão e de dogmas que a verdade histórica demoliu. Lê-lo e criticá-lo é indispensável: destruir o seu imaginário é uma quimera. Uma parte dos portugueses nunca o aceitaria.

 

 Manuel Carvalho

20 de Fevereiro de 2021, 22:53

https://www.publico.pt/2021/02/20/politica/editorial/memoria-historica-veneno-1951512

 

A intensidade com que o país repete as discussões em torno da sua memória histórica é sintoma de uma sociedade doente. O conflito áspero sobre as heranças da Guerra Colonial ou dos Descobrimentos expõe uma ferida a caminho da infecção. O radicalismo alimenta discussões que expõem ódios profundos em favor dos extremos do espectro político. E nada faz prever que a situação melhore. Em causa está uma exigência impossível: que, num passe de mágica operado pela ideologia, o país renegue alguns dos fundamentos mais profundos da sua identidade. Não se recomenda silêncio sobre o problema: apenas prudência. Se o nacionalismo é um vírus fratricida, o historicismo radical dos movimentos anti-racistas também o é.

 

 Entrámos num conflito no qual o diálogo e compromisso parecem impossíveis. Numa oposição cada vez mais extremada entre conceitos de uma direita fóssil e uma esquerda “antifa” absolutista e autoritária, o país esquece até os consensos que a democracia produziu a propósito do passado colonial. A brutalidade dos sistemas de exploração de outros povos, a escravatura ou a persistência de uma Guerra Colonial muito para lá da vaga da autodeterminação do pós-II Guerra passaram a ser aceites no consciente colectivo. A Expansão perdeu a sua face idílica e glorificadora. A exaltação do império colonial que mobilizou o país nos tempos do Ultimato, na Primeira República ou no Estado Novo é passado. O Portugal europeu expurgou os principais resquícios do salazarismo.

 

Os radicais de uma certa esquerda querem ir mais longe e, na sua exigência, estão a alimentar os radicais de direita que querem andar para trás. Dos dois lados há um instinto de imposição das suas verdades aos outros. Ambos abdicam de encarar a História na sua complexidade. Uns e outros retroalimentam-se com o veneno da intolerância. Há até quem não se envergonhe por assinar uma petição em favor da deportação de um cidadão português, por incendiário que seja nas suas posições. A História da colonização foi o que foi. Ver o seu lado sinistro, sem contexto civilizacional, como se fosse uma deliberação consciente de um Estado moderno como a que levou ao Holocausto, é um erro. Vê-la como o testemunho de um povo de heróis, um absurdo. Tem de haver uma zona de conforto para todas as posições. A liberdade e a responsabilidade da democracia.

 

 Portugal fez-se como projecto identitário à custa da ilusão e de dogmas que a verdade histórica demoliu. Lê-lo e criticá-lo é indispensável: destruir o seu imaginário é uma quimera. Uma parte dos portugueses nunca o aceitaria. Como dizia Eduardo Lourenço, o passado não se repara com a criação de um metafórico tribunal da inquisição para “pôr na pira a história deste pequeno país”.


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