OPINIÃO
Confinamento e normalidade com Pascal
Viriato
Soromenho-Marques
20 Fevereiro 2021
— 00:09
https://www.dn.pt/opiniao/confinamento-e-normalidade-com-pascal-13370166.html
Blaise Pascal
(1623-1662) faz parte de uma pequeníssima seleção histórica de génios que
parece ter sido dotada de uma fibra superior aos próprios limites da condição
humana. Morreu com apenas 39 anos e 2 meses deixando uma obra vastíssima e
diversificada em tantos domínios que, apesar de centenas de académicos terem
dedicado a sua vida ao estudo da sua obra, não se encontrará um apenas que
consiga tratar com igual profundidade os resultados da sua prodigiosa
inteligência, seja na física (teoria do vácuo e dinâmica de fluidos), na
geometria, na matemática (máquina de calcular, cálculo das probabilidades),
como também na teologia (foi um jansenista fervoroso), na filosofia, na teoria
moral.
Como Marco
Aurélio, Montaigne ou Nietzsche, Pascal pode acompanhar um leitor ao longo da
sua existência, pois é sempre possível redescobrir na voz do autor dos
Pensamentos (Pensées) ângulos novos para iluminar as nossas experiências. Neste
tempo de novo confinamento geral, reencontrei uma passagem que pode suscitar
uma ponderação sobre a nossa situação atual: "Tenho dito muitas vezes que
toda a infelicidade humana tem uma só origem, a saber, a incapacidade de
permanecer em repouso num quarto." O impulso humano para a ação, a
inclinação para as atividades mais carregadas de emoção e adrenalina, como a
caça e a guerra, estariam associadas não a uma força positiva, mas a um impulso
geral negativo para afogar a nossa angústia perante a mortalidade da nossa
condição. É essa fuga antropológica que Pascal designa como "divertimento"
(divertissement).
Se estivermos
atentos, saberemos por experiência direta e indireta que o confinamento revela
e acentua também a desigualdade vigente na nossa sociedade. Nem todos os
quartos onde ficamos confinados têm o mesmo grau de conforto, e para muita
gente marcada pelo acicate do desemprego e da pobreza, ficar no quarto não é
sequer uma opção. Correm para a agitação, não para esquecer a sua mortalidade,
mas pelo imperativo da necessidade de sobreviver, face aos apoios insuficientes
das políticas públicas. Mas se não quisermos desperdiçar o melhor do que Pascal
nos pode oferecer, reconheceremos que o forte anseio de regresso à
"normalidade" a todo o custo pode também esconder a recusa em assumir
significados profundos da crise pandémica. Significados que vão para além da
nossa esfera psicológica individual, colocando-nos na condição mental de
membros da humanidade inteira, com a responsabilidade pelo futuro comum que lhe
é inerente. O apelo de Pascal a não confundir a procura insaciável do aturdimento
externo com a verdadeira felicidade, que se forma dentro da consciência de cada
um, e que aceita o tempo do silêncio e da solidão como oportunidade de
conhecimento e crescimento ético, talvez seja fundamental para não dissociarmos
os nossos estilos de vida e de organização coletiva das causas que nos
conduziram a esta tragédia pandémica. Saber permanecer no "quarto"
pode ser uma oportunidade para percebermos que o regresso literal à
normalidade, ao estilo de vida anterior à pandemia, seria a receita para perdermos
a estreita via que poderia afastar-nos da catástrofe ainda maior da crise
ambiental e climática, bem conhecida da retórica política antes de 2020, mas
que parece ter sido varrida pelo "tédio" (l'ennui) daqueles que não
conseguem ver a verdade factual de frente, sem dela desviarem rapidamente os
olhos.
Professor universitário


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