OPINIÃO
Bom senso sobre os brasões florais da Praça do Império
Como autora do projeto de renovação do Jardim da Praça do
Império, e por todo o significado que a Praça tem para todos nós, sugiro que os
brasões florais passem agora a brasões em calçada à portuguesa.
Cristina
Castel-Branco
20 de Fevereiro
de 2021, 11:00
1. Como diria o
nosso Presidente, quando era comentador, três notas: desta vez sobre os brasões
florais da Praça do Império, as quais me levarão a um post scriptum
Place attachment,
jardinagem avançada, restauro de jardins históricos, e a Carta de Florença que
contém a solução pacífica para os símbolos que a Praça do Império encerra, são
os três temas a desenvolver e, como nota final, tantas outras coisas da nossa
cidade para as quais se deveria mobilizar a população e que estão adormecidas.
O fenómeno de uma
movimentação dinâmica em redor de um tema de jardins, de flores e de espaço
público a que assistimos merece uma análise atenta à luz das teorias da
Arquitetura Paisagista e da Psicologia Ambiental.
Há muito que me
interessa o tema do apego ou ligação ao lugar (place attachment) que muitas
vezes se expressa nos jardins, quando o seu dono quer celebrar uma paisagem
onde viveu, onde foi feliz ou quando um emigrante volta e constrói uma casa e
um jardim e nele coloca os símbolos ou mesmo as peças que trouxe de longe.
O mais bonito
caso, e o mais antigo, é o da Quinta da Penha Verde, em Sintra, onde D. João de
Castro deixou expressa a sua ida e vivência na Índia. Trouxe pedras escritas em
sânscrito que ainda hoje se encontram no jardim, construiu uma capela onde
registou a história da sua vida em Goa, Diu e Baçaim. Inscreveu no espaço do
jardim a sua saudade e a sua pertença. Muitos outros jardins em Portugal
revelam esta ligação de saudade emocional ao lugar, como a Casa da Ínsua com o
Brasil, ou a Quinta da Bacalhoa com Goa, Malaca e Ormuz.
Foi algo idêntico
que fizeram os jardineiros, que nos anos 60 decidiram celebrar na Praça do
Império cidades e territórios, expressando a ligação de saudade e pertença
trazidos de além-mar.
O fenómeno da
assinatura da petição, tão rápido e tão numeroso, pela defesa dos símbolos de
um jardim em Lisboa merece também ser analisado pela sua profunda expressão de
ligação ao Lugar. Um estudo por inquérito aos peticionários permitiria levantar
o tema do significado e da história dos lugares representados pelos brasões na
mente dos peticionários – muito variados, devendo incluir veteranos da guerra
colonial e os que de lá voltaram no pós 25 de Abril.
Independentemente
dos resultados de um estudo sobre esta pertença e esta saudade, torna-se
obrigatório respeitar esta efusão comunitária e dar uma resposta física no
espaço do jardim em restauro, através do projeto que o atelier ACB –
Arquitetura Paisagista, que fundei, assina após ter sido declarado vencedor do
concurso de ideias por um júri qualificado e independente em 2016.
2. Após a
primeira nota, vamos à segunda, que parece nada ter a ver com a primeira, mas
ambas se juntarão quando abordarmos a terceira. Falo da ciência e arte da
jardinagem.
A jardinagem em
Portugal tem vindo a perder sabedoria e os parques e jardins, tanto públicos
como privados, foram-se simplificando e usando cada vez menos flores. O
modernismo e os seus traços limpos (como queria o Cottinelli Telmo, autor do
projeto da Praça do Império) retirou, na maioria dos jardins públicos, os
canteiros de flores, os complicados arranjos de mosaico-cultura que visavam uma
permanente exposição de cor e obrigavam a uma troca de plantas nos canteiros de
três em três meses, exigindo uma rica e constante produção de flores em
viveiro, também feita pelos sábios jardineiros.
Em Lisboa, como
alunos de Arquitetura Paisagista, em visita de estudo a estes centros de saber
hortícola, fascinávamo-nos com o que nos ensinavam o Sr. Guilhas ou o Sr.
Argentino no Jardim Botânico da Ajuda. Todo esse mundo de ornamento floral
desapareceu por se terem reformado os antigos jardineiros, por exigir muita mão
de obra, por os decisores políticos terem preferido comprar fora fazendo-o por
outsourcing.
Deixámos de ter
os sábios jardineiros que tratavam (e amavam) o nosso espaço público e a
mosaico-cultura já não é, por isso, viável em Lisboa. Dizem-me que em Braga
ainda lá estão e que a UTAD vai lançar um curso de Jardinagem Avançada para
preservar os saberes. Em Lisboa não se fala nisso, mas era isso mesmo que seria
preciso para se manterem os ditos brasões em mosaico-cultura da Praça do
Império e para dar mais beleza aos nossos jardins.
Não chegam, no
entanto, os 24.000 € que o sr. presidente da Junta de Belém disponibiliza para
repor os brasões. Realmente, uma vez plantados com os moldes em madeira e o
cuidado que cada cor nos brasões exigisse, eles precisariam de um apoio dos
viveiros em continuidade, todo o ano, todos os anos. Uma operação de preparação
de jardineiros e saberes demora dois anos com um sólido curso de jardinagem
promovido pela Universidade de Lisboa... tema sem dúvida a pensar, através de
uma parceria com a CML e, porque não, com outras autarquias da Área
Metropolitana de Lisboa.
Com esse investimento
estratégico no saber e na produção de plantas para os espaços públicos,
poder-se-ia então tornar possível replantar os brasões florais das comunidades
do Império, recriados em redor dos brasões de pedra que lá existem como
símbolos das famílias dos nossos navegadores.
3. A terceira
nota leva-nos ao mundo internacional dos jardins históricos e do seu restauro.
Esta matéria tem regras. A Unesco formulou em 1981 a Carta de Florença para as
consignar em defesa dos jardins históricos como monumentos. Tivemos no verão
passado, como nunca, uma intensa exposição ao conhecimento dos jardins
históricos através da RTP1, que transmitiu durante 15 dias programas
ininterruptos que nos levaram aos jardins históricos de todo o Portugal. Bem
haja a RTP1!
Os nossos
especialistas já inventariaram cerca de 800 espaços ajardinados com história e
distribuídos por Portugal continental e ilhas, podendo-se consultar em
www.jardinshistoricos.pt. São jardins com história que encerram a memória de
uma cultura e são verdadeiro património vivo. Não se pode deixar de agradecer à
Prof. Teresa Andresen, como presidente da Associação de Jardins Históricos
(fundada por mim e por outros paisagistas defensores de jardins em 2003), o
esforço e o sucesso na divulgação deste património nacional. E deve ser reconhecido
também que sem o estímulo do sr. vereador Sá Fernandes esse programa na
televisão e a Exposição de Jardins Históricos que ainda está na Biblioteca
Nacional (vão ver, mal reabra) não teria acontecido.
No projeto de
restauro da Praça do Império, o ACB, em 2016, retirou os brasões seguindo os
princípio do Artigo 17.º da Carta de Florença, que enuncia: “Se um jardim
desapareceu totalmente ou se os vestígios que restam servem apenas para traçar
conjecturas sobre as suas sucessivas fases, a reconstituição não deve ser
considerada um jardim histórico.” E também escrevemos na Memória Descritiva que
estes brasões florais estavam irrecuperáveis.
Se voltarmos a
Cottinelli Telmo e à Memória que escreveu para este jardim, encontramos a
solução: refazer os brasões em calçada à portuguesa. Isso não irá contra o que
escrevi no projeto em 2016
Voltemos ao tema
dos viveiros e dos jardineiros especializados. Face ao significado que estes
símbolos parecem dinamizar na memória da comunidade de Lisboa, relembro os
termos de Carmen Añon, perita da Unesco-Icomos e responsável, com outros
grandes paisagistas europeus dos anos 70, pela criação da Carta de Florença,
que referem a possibilidade de respeitar os aportes. Os aportes dos jardineiros
que juntaram à modernista Praça do Império estes símbolos de saudade e pertença
das cidades espalhadas pelos países de língua portuguesa podem ser repensados à
luz do século XXI e podem ser reintegrados no espaço.
Se voltarmos a
Cottinelli Telmo e à Memória que escreveu para este jardim, encontramos a
solução: refazer os brasões em calçada à portuguesa. Isso não irá contra o que
escrevi no projeto em 2016: “Parece ser, igualmente, um momento em que celebrar
a memória de Cottinelli Telmo – a sua criatividade, energia, capacidade de trabalho
– é pertinente e útil e pode ser feito tomando a oportunidade para a maior
aproximação possível ao conceito original de 1940, que tem de ‘ser de grande
simplicidade, ter inteireza' (...), ‘grandes relvados, zonas de lajedo e de
empedrado à portuguesa’ (...) e realisticamente de ‘conservação pouco
dispendiosa’. Por isso, e por todo o significado que a Praça tem para todos
nós, sugiro que os brasões florais passem agora a brasões em calçada à
portuguesa.
Quanto ao
património floral que compõe a forma, mas não o conteúdo, dos brasões florais
escrevi no Estudo Prévio do projeto que “está prevista a remoção dos brasões em
pranchas, retirando-se uma camada de terra em palettes, aproveitando as plantas
que os formam e transpondo-os para outros jardim que a CML irá indicar”. Por
vezes, uma simples operação de transplante é a melhor forma de respeito pelas
plantas e pelo seu significado.
4. A nota final é
apenas para recordar e pedir a mobilização dos peticionários e de todos os
cidadãos de Lisboa, para outras temáticas de Arquitetura Paisagista e Ecologia
Urbana que mereceriam ser melhoradas. Por exemplo:
O Plano de
Drenagem de Lisboa está a avançar sem armazenar a água da chuva em bacias de
retenção – para a rega de verão. Despeja-a inutilmente no Tejo;
A rega da cidade
de Lisboa feita com água tratada que vem do Castelo do Bode, como se fossemos
ricos esbanjadores;
A estrutura tão
preciosa de árvores de Lisboa, que devia ser acompanhada por um grupo
permanente de especialistas da câmara e não estar entregue a cada junta de
freguesia, que não tem a possibilidade financeira nem a dimensão para assegurar
a continuidade e o saber em silvicultura, de tratar devidamente estas nossas
companheiras de cidade que a tornam tão mais confortável e bonita;
Finalmente, não
deixar de reagir à construção de hotéis, hospitais e museus junto à linha de
frente Tejo, quando todos sabemos que daqui a 50 anos essas áreas,
correspondentes basicamente ao aterro oitocentistas de Lisboa, serão invadidas
pela subida do nível dos oceanos e serão inundadas pelas águas do estuário.
A autora escreve
segundo o novo acordo ortográfico

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