A pandemia urbanística
António Guerreiro
26 de Fevereiro
de 2021, 8:13
https://www.publico.pt/2021/02/26/culturaipsilon/cronica/pandemia-urbanistica-1951813
“Airbnb” é o nome
de uma empresa fundada em 2008, em São Francisco, na Califórnia, exemplo máximo
da ascensão do capitalismo das plataformas. Antes da pandemia, já não era
apenas uma marca, tinha-se tornado quase um nome comum para dizer “alojamento
local” ou “arrendamento temporário”. No último ano, esse nome quase
desapareceu, deixou de ser uma das palavras do poder.
Este
desaparecimento tem uma tradução bem visível no plano da nossa realidade
urbana. Os centros históricos das cidades turistificadas ficaram vazios e
emergiu com dramática evidência o que era bem sabido e longamente
diagnosticado, mas que era visto pelos poderes gestionários — económicos,
políticos, mediáticos — como um mal menor que até era fácil esconder ou
menosprezar porque neste domínio tem valor de evidência a regra segundo a qual
“tudo o que aparece é bom e tudo o que é bom aparece”. Quando, subitamente, por
efeito de uma pandemia, o fenómeno do aparecimento espectacular foi
interrompido, o que se torna conspícuo é o desaparecimento. Medir os seus
efeitos e contabilizar as suas vítimas é por enquanto uma tarefa impossível
porque o processo não chegou ao fim e não é fácil prever o que se vai passar.
Mas se há aspectos em que é possível dizer com alguma segurança que nada será
como dantes, a vida das cidades é um deles. Por agora, a paisagem dos centros
históricos das cidades turísticas, onde se tinha instalado uma monocultura,
permanecem vazios, espectrais. São imagens de pesadelo que deixam adivinhar
miséria e projectos interrompidos que por agora ainda é possível silenciar, mas
que hão-de tornar-se vozes desesperadas e de revolta. Os actuais tumultos
nalgumas cidades espanholas, principalmente em Barcelona e Madrid, tendo muito
embora sido incendiados por uma sentença que a Justiça aplicou a um rapper, têm
a motivação anárquica das revoltas actuais. Como mostram as reportagens, são
quase exclusivamente os jovens desocupados ou precários que têm alimentado
estas manifestações inorgânicas que resultam em destruição e confrontos com a
polícia. Quando o turismo desaparece, as cidades que dependiam dele começam a
ser obrigadas a erguer barricadas.
Sabemos bem, até
porque não há promessa mais reiterada no último ano, que tudo será feito para
que a vida anterior retome o seu curso, com os mesmos ou, substituindo os que
sucumbiram de vez, com outros. Mas há aqui um problema de tempo. Um ano de
interrupção, medido pela escala da velocidade e da aceleração necessárias para
o equilíbrio do sistema, é muito tempo, produz instabilidade destruidora. Há
muita coisa que não vai, pura e simplesmente, ser retomada. E entre essas
coisas sujeitas à descontinuidade está a lógica que governava as cidades
turísticas. Evidentemente, não é de esperar que Veneza ou Roma continuem, como
agora, vazias. Mas alguns factores de esvaziamento vão manter-se mesmo quando
acabar a pandemia, por razões psicológicas, mas também por questões logísticas
(por exemplo: como é que as companhias aéreas de low cost vão retomar a sua
actividade, depois de um desastre desta dimensão?).
Entretanto, vamos
tendo notícias que indiciam algumas mudanças que podem tornar-se irreversíveis,
mesmo que se façam todos os esforços para retomar a “normalidade”. De Itália,
chega-nos através da revista Micromega, dirigida por Paolo Flores d’Arcais, um
dossier sobre o “depois do vírus”, onde se faz o retrato de uma “pandemia
urbanística” que obriga a uma tarefa ingente: nada mais nada menos do que
“redesenhar a Itália”, mudar o “perfil do nosso território” e deter a “corrida
da urbanização”. Em suma: o desastre da pandemia ocorrido no último ano mostrou
o verdadeiro rosto de um desastre muito anterior que muitos queriam disfarçar.
E em França, na semana passada, o Le Monde publicou uma reportagem sobre o
êxodo das pessoas para cidades mais pequenas, como menos de 100 mil habitantes,
porque o custo de vida é mais baixo, a qualidade é melhor e o modelo da
megalópole como Paris só já atrai o turismo ou quem tem muito dinheiro. Neste
modelo de desenvolvimento, as fronteiras da periferia atravessam os centros.
Quanto à vida urbana, a pandemia tem efeitos devastadores, mas o fim da cidade
tal como a conhecemos no auge da turistificação e do neo-liberalismo estava
anunciado e já não pode ser detido.


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