PRESIDENCIAIS
2021
O que levou 28.404 alentejanos a votar em Ventura?
Abandono, protesto e perceções de realidade
Ventura ganhou freguesias com maior incidência da
comunidade cigana, mais do que uma questão de segurança, é uma questão de
perceção e de distribuição de rendimentos. Contas feitas e números comparados,
Ventura ganhou em quatro freguesias e ficou muito próximo dos resultados dos
sociais-democratas nas legislativas de 2019. João Ferreira perdeu votos em
relação àqueles que foram obtidos por Edgar Silva há cinco anos
25 JANEIRO 16:42
Liliana Valente
Jornalista
A vitória é de Marcelo, o sorriso é de Ventura
Em Moura conta-se
uma história, seja ela mais ou menos verdadeira, sobre a aldeia de Póvoa de São
Miguel. Quando, depois do 25 de Abril, as câmaras municipais começaram a
investir em infra-estruturas básicas, a Câmara de Moura chegou àquela aldeia
para criar as primeiras infra-estruturas de esgoto e água. A população não
queria, preferia que o dinheiro fosse empregue numa praça de touros. O que por
aqui aconteceu há 40 anos pode dizer pouco sobre como estas pessoas votam em
2021, nos últimos anos entre o PS e o PCP, mas diz muito sobre o sentimento que
por ali corre, mais tradicionalista e de grande "revolta" contra o
sistema.
Póvoa de São
Miguel foi uma das quatro freguesias nos distritos do Alentejo (os três
distritos, Beja, Évora e Portalegre mais os quatro concelhos do distrito de
Setúbal) a dar a vitória a André Ventura, ficando em segundo, na maioria das
restantes. Em termos percentuais, a freguesia onde Ventura conseguiu uma
vantagem superior foi a de São Vicente e Ventosa, em Elvas (freguesia PS), com
42% dos votos. Ganhou então a freguesia de Póvoa de São Miguel (freguesia
também PS), em Moura, com 41,23%, e Sobral da Adiça (PCP), no mesmo concelho,
com 34,05%. Alcançou ainda a vitória na freguesia de Mourão (PS), no concelho
de Mourão, com 37,05%. Apesar de ter vencido na sede, perdeu o concelho para
Marcelo Rebelo de Sousa, por 70 votos, num território de fraca densidade
populacional, onde votaram mil pessoas (o mapa interativo onde pode ver estes
detalhes está aqui).
"O abandono
a que o interior tem sido votado, justifica muito deste voto. As pessoas
viram-se despojadas de serviços essenciais: fecham escolas, postos de
segurança, GNR, PSP, postos dos CTT... sentem que o país está a desistir delas
e isso cria um sentimento de revolta facilmente canalizado por estes populismos",
diz ao Expresso Zélia Parreira, bibliotecária natural de Moura. A bibliotecária
lembra que depois de terem sido construídas as infra-estruturas principais,
"o investimento acabou completamente na zona do interior". Muitas
vezes as "autarquias preferem fazer investimentos em festas" do que
no essencial.
A realidade dos
três distritos alentejanos (mais os concelhos de Setúbal) é muito díspar,
apesar de em todos André Ventura ter ficado em segundo lugar nestas eleições
presidenciais que reelegeram Marcelo Rebelo de Sousa. No total conseguiu 28.404
votos. Beja, Évora e Portalegre saltaram cedo nos noticiários com os
resultados, mas Ventura acabaria por conseguir bons resultados no interior (e
em alguns distritos do litoral). No total dos quatro distritos alentejanos, não
ganhou nenhum concelho, mas ficou em segundo em 33 dos 48 municípios, em 14 em
terceiro. A exceção foi Castro Verde, onde ficou atrás de Marcelo Rebelo de
Sousa, João Ferreira e Ana Gomes.
A ideia de
abandono pelos governos tem feito crescer alguma revolta que não se traduzia em
voto e que agora se tem ido organizando. De notar que no concelho alentejano
onde Ventura teve um pior resultado, Castro Verde, é também um dos que tem o
PIB per capita mais elevado, por causa das minas Neves-Corvo. O mesmo se passa
no concelho vizinho, de Aljustrel, onde Ventura ficou em terceiro e com uma
percentagem das mais baixas (11,94%).
O PROTESTO CONTRA
O GOVERNO E CONTRA OS CIGANOS
Há vários
fenómenos que o podem explicar. Um deles é o adormecimento de parte da
população. Enquanto uns dormem, os outros levantam-se em revolta e nem sempre o
protesto tem um fim: "As pessoas não perdem tempo a pensar nas coisas que
lhes dizem. Há uma grande alienação", diz Zélia. "Aparece este
Ventura com este discurso populista e oco - é o que mais me espanta, as pessoas
não perdem tempo a pensar nisso. Ele aparece como porta-voz de alguns
problemas, mas bastaria tomar um pouco de atenção para perceber que não é nada
disso, é o contrário". Mas muitos não chegam a esta parte.
Um desses
exemplos é o discurso em relação à comunidade cigana. Cruzando os dados do
Estudo Nacional Sobre as Comunidades Ciganas (de 2014), percebe-se que Ventura
ganhou lastro nos concelhos com maior peso relativo desta comunidade. No top 10
de concelhos com mais peso relativo, sete são no Alentejo e em seis Ventura
ficou em segundo, atrás de Marcelo. Estes foram os resultados de Ventura nesses
concelhos:
1. Monforte -
31,41%, 360 votos - 2º
2 . Moura -
30,85%, 1430 votos - 2º
3. Estremoz -
23,32%, 1108 votos - 2º
4. Alter do Chão
- 25,25%, 298 votos - 2º
5. Vidigueira -
16,26%, 357 votos - 2º
6. Elvas - 28,76%
- 2086 votos - 2º
7. Serpa -
19,21%, 1095 votos - 3º
Acresce que, por
exemplo, no concelho de Moura são exatamente as freguesias com comunidades
ciganas mais relevantes que votaram mais em Ventura. Aqui, o discurso passa
mais pela perceção do que pela realidade. Não há grandes problemas de
segurança. Ventura sabe disso, mas trabalha na perceção há largos meses: em
julho do ano passado foi visitar o posto da GNR de Moura, pouco depois de ter
havido um surto na comunidade cigana naquele concelho e de ter sugerido um
confinamento especial para a comunidade.
Contudo, naquelas
aldeias, o que mais faz arder os ódios é a questão de rendimentos. O discurso
de Ventura, que repete à exaustão, de que há metade a trabalhar para a outra
metade que não trabalha, é fósforo a pegar no rastilho. Os dados mostram que a
comunidade cigana recebe uma ínfima parte do Rendimento Social de Inserção,
apenas 3,8%, mas a perceção é a de que recebem mais do que quem trabalha. Os
vizinhos vêem pessoas de etnia cigana a levantar os cheques do RSI nos
correios, lembra Zélia, e isso cria a ideia de que lhes está a ser dado
dinheiro por nada. Mas essas pessoas não trabalham porque "não têm acesso
ao trabalho, não vamos fingir que têm".
A bibliotecária
conta que chegou a falar com alguns empregadores a perguntar-lhes se estariam
dispostos a empregar membros da comunidade cigana e que lhe disseram que não.
"Se não lhes dão emprego, eles só têm duas hipóteses para terem dinheiro
para comer: ou roubam ou temos de lhes dar dinheiro para se sustentarem".
Escolhe a segunda opção. Zélia pede que se pense sobre afinal que solução tem o
Chega para resolver esta questão entre vizinhos: "Nenhuma", responde.
Zélia é ativa na
sociedade alentejana e defende que neste momento é necessária uma formação
"dia-a-dia", para tentar não deixar as pessoas sozinhas, sem
respostas, porque muitas "entraram naquele túnel, vamos tentar que não
entrem mais", diz.
E OS IMIGRANTES?
No último dia de
campanha eleitoral, o "Diário do Alentejo" entrevistou a mandatária
de Ventura para o distrito de Beja. O discurso tocava em todos os pontos,
gerais, do que é o discurso do candidato. Não apresentava soluções, mas falava
de "problemas" sem os detalhar ou sequer basear em dados ou factos:
"Há o facto da invasão que temos tido por migrantes, que tem de ser
controlada", dizia Andreia Agostinho.
Muitos dos
concelhos alentejanos conheceram nos últimos anos um crescimento acentuado do
olival e da vinha e, como consequência, um aumento da população imigrante,
muita dela flutuante, para as campanhas anuais. Uma questão que é visível
sobretudo em concelhos como Serpa, Ferreira do Alentejo e Moura. O recurso a
imigrantes tem no entanto uma explicação, acredita Fernando Caeiros, autarca
independente eleito pela CDU durante 32 anos, em Castro Verde: "O
proletariado rural desapareceu, é diminuto. Se não fossem estas pessoas os
empresários não tinham quem lhes apanhasse as uvas e as azeitonas".
Um desses
empresários é o comendador António Silvestre Ferreira, da Herdade do Vale da
Rosa, no concelho de Ferreira do Alentejo. Para cada campanha de apanha da
famosa uva sem grainha, o comendador chega a precisar de mil trabalhadores e
tem de os recrutar pelo mundo, porque não os encontra em Portugal. Em 2018
começou um programa de acolhimento de luso-venezuelanos, mas enquanto não
consegue cativar trabalhadores permanentes, tem de recrutar noutros países,
sobretudo nos países asiáticos.
Apesar do
crescimento da imigração, também ali não se conhecem problemas de segurança de
maior. Na verdade, lembra Fernando Caeiros, estas comunidades estão
praticamente "auto-confinadas", porque vivem em instalações dentro
das próprias herdades, não saindo muito nem socializando com os locais.
"Quando fez falta mais gente, não havia locais. O trabalho também não é
bem pago. As pessoas reagem, mas não faz sentido. Elas não quereriam trabalhar
ali".
Nestes concelhos,
seja Moura, Serpa ou Ferreira do Alentejo, o Chega obteve também um crescimento
assinalável, mas os números absolutos são baixos, sobretudo em Ferreira onde
houve 369 pessoas a votar em Ventura.
COINCIDÊNCIA COM
O PSD
Estas eleições
levaram a uma perda de votantes de mais de 35 mil pessoas nos distritos
alentejanos. Como o universo é mais pequeno, os resultados em percentagem
oscilam bastante o que levou a que fossem parar rapidamente aos noticiários.
Mas há mais notas a tomar nestes resultados, que parecem não ser muito
explicados pelos resultados obtidos pelo candidato apoiado pelo PCP, João
Ferreira.
O candidato
comunista perdeu 4.948 votos nos distritos do Alentejo quando se faz a
comparação com os resultados do candidato Edgar Silva, apoiado pelo PCP, nas
presidenciais de 2016. A perda de votos do PCP não parece assim explicar o
sucesso de Ventura no Alentejo, parecendo haver, isso sim, uma transferência de
voto para Ana Gomes, para Marcelo Rebelo de Sousa (que subiu bastante de
votação nos três distritos) e para a abstenção. Uma leitura possível de fazer é
a de que Ana Gomes conseguiu consumir parte dos votos que há cinco anos tinham
sido de Marisa Matias, como os que João Ferreira perdeu. Em Beja, os dois
candidatos da esquerda perderam um total de 6.259, Ana Gomes teve 5.613; em
Évora, os dois perderam 7.405 voto, Ana Gomes obteve 5.974; em Portalegre, os
dois perderam 4.292 votos e Ana Gomes obteve 4.034. Não explicará tudo, dado
que há cinco anos, Sampaio da Nóvoa, apoiado por uma ala do PS, conseguiu um resultado
elevado no Alentejo.
Nos três
distritos, Marcelo conseguiu mais 13.469 votos, o que parece significar que
conseguiu captar votos perdidos um pouco por todo o espectro político.
Caeiros acredita
que muitos dos votantes do PCP ficaram em casa, "confinados", dado
que é uma população mais velha. Mas há também aqui um ponto a reter: o PCP com
a "geringonça" já tinha tido dificuldades nas eleições autárquicas,
perdendo várias autarquias para o PS. Zélia Parreira acredita que houve também
alguma penalização: "O PCP deixou de ter a posição de oposição", o
PSD nunca conseguiu ter esse papel no Alentejo, por isso, o caminho estava mais
aberto para outro discurso, diz a bibliotecária.
O próprio Rui
Rio, líder do PSD, admitiu que o seu partido sempre teve muitas dificuldades no
extenso território a sul do Tejo e, a avaliar pelos votos de André Ventura,
parece que o espaço à direita do PS não cresceu assim tanto nos distritos do
Alentejo. Retirando Marcelo Rebelo de Sousa da equação, em quem muitos
socialistas, comunistas e bloquistas alentejanos terão votado, os votos dos
outros dois candidatos da direita (Ventura e Tiago Mayan Gonçalves) são quase
coincidentes com os votos que o PSD obteve nas legislativas de 2019.
Em Beja, Ventura
obteve 8.490 votos, o PSD tinha tido 8.544 (Mayan obteve 708); em Évora,
Ventura conseguiu 9.720 votos, o PSD tinha conseguido 12.937 (Mayan teve 1176,
o que perfaz os dois juntos mais próximos do resultado do PSD); o mesmo em
Portalegre, Ventura com 7.908 votos, Mayan com 703, perfazendo 8611, mais
próximo dos 10.375 que o PSD obteve.
A explicação
encontra-se no voto mais tradicional no PSD no Alentejo. A prova de fogo de
Ventura será em quem conseguirá mobilizar para as autárquicas nestes distritos.
Para Caeiros, "o Chega está a substituir a facção mais conservadora do PSD
e a reduzir a pó o CDS. Quando forem as autárquicas", se verá quais os
rostos que apresenta para tentar captar o voto mais de proximidade.

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