MAFALDA ANJOS
DIRETORA
Há meio milhão de eleitores portugueses que alinham com a
extrema-direita. E dois líderes partidários felizes com isso
Marcelo Rebelo de
Sousa conseguiu uma vitória expressiva nestas eleições presidenciais. Mas há
uma clara reconfiguração à direita, com a ajuda de um PSD em missão harakiri
Nas eleições
presidenciais mais atípicas de sempre, ganhou a democracia. Apesar da pandemia,
apesar do medo, apesar do confinamento e dezenas de milhar de pessoas em
isolamentos profiláticos, os portugueses saíram à rua para votar, com confiança
nas instituições. Foi uma magnífica lição de civismo.
Escolheram a
segurança e a continuação e legitimaram o “sistema” que Marcelo Rebelo de Sousa
personifica. A sua vitória foi expressiva a todos os níveis: com 60,7%, fica
acima do limiar máximo das sondagens, acima dos votos que conseguiu no primeiro
mandato (8,7 pontos percentuais e cerca de 120 mil votos), e acima dos
resultados conseguidos nos segundos mandatos de Cavaco Silva (52,95%), Jorge
Sampaio (55,6%) e Ramalho Eanes (56,4%). Não fora a pandemia e a elevada
abstenção, e é bastante provável que conseguisse mesmo chegar ao resultado
histórico de Mário Soares.
Marcelo Rebelo de
Sousa sai pois reforçado para ser mais veemente perante o governo no combate à
pandemia, a sua “primeira missão”, para depois passar “ao resto”. E no remate
final do seu discurso marcou a diferença face a uma direita radical da qual se
afasta, ao ressaltar a expressão “sem separar uns e outros”. António Costa sai
reforçado, e a esquerda com uma derrota clara do PCP e do Bloco, que se viu
prejudicado por um voto útil em Ana Gomes.
Se é certo que a
democracia ganhou, a verdade é que não saiu ilesa do combate. Saiu abalada, com
mazelas evidentes. Não dá como encolher os ombros e tentar escamotear o
indisfarçável.
O elefante na
sala destas eleições e do sistema partidário nacional é o candidato que quer
precisamente “separar uns e outros” e que se apresentou para ser o Presidente
de apenas alguns deles. Os ditos “portugueses de bem”, por oposição a um grupo
indistinto de portugueses de mal que André Ventura veta a uma espécie de
cidadania diminuída. Ventura não ganhou o segundo lugar nem alcançou os 15% que
se tinha proposto, mas conseguiu quase meio milhão de votos. Sendo eleições
distintas, é certo, salta dos 1,2% conseguidos nas legislativas de 2019 para
quase 12% agora. Voto de protesto ou não, há 496.653 portugueses que se reveem
nas suas propostas de rutura: contra o estado de direito, contra os princípios
fundamentais, muitas vezes racistas, muitas vezes xenófobas, muitas vezes a
roçar o fascismo de má memória. Isto sem propostas consistentes para governar o
país e com um programa que é uma manta de retalhos de soundbytes e de um
“liberalismo copy paste”.
Estes votos
conseguiu-os como esponja do descontentamento, da frustração, do desalento e do
medo dispersos. Mas também à custa de um PSD à deriva, que acerta mais nos
próprios pés do que no alvo dos adversários. O discurso de Rui Rio nesta noite
confirmou-o: foi mais um tremendo balázio nos joelhos. Para embaraço de um eleitorado laranja cada
vez mais órfão, o líder do PSD ocupou-se mais a elogiar o candidato que lhe
corrói o eleitorado do que o seu candidato natural. “Chamo a atenção que o
André Ventura é o segundo classificado no Alentejo todo. Em Setúbal, o PSD
nunca, desde o 25 de Abril, conseguiu uma câmara municipal. Uma!” A dúvida é: e
sorri de quê?
E se Ventura não
foi mais longe, a Mayan o deve.
Há uma
reconfiguração da direita, é inquestionável. E, por este andar, com a enorme
ajuda do PSD em aparente missão harakiri, não vai ser bonita de se ver.


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