Ryanair prepara novo ataque
Companhia irlandesa quer agora travar auxílio estatal à
TAP de 462 milhões feito em abril. ‘Guerra’ com Bruxelas vai prosseguir. Pedro
Nuno Santos dispara contra ‘concorrente’.
João Amaral
Santos
joao.santos@sol.pt
A Ryanair não vai
baixar a guarda. Desta vez, a empresa irlandesa prepara-se para avançar para
tribunal para contestar o aval da Comissão Europeia que permitiu ao Estado
português auxiliar a TAP com mais 462
milhões de euros no passado mês de abril.
A companhia aérea
low-cost mantém assim a pressão sobre a concorrente portuguesa, depois de na
passada quarta-feira o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) lhe ter
dado razão noutro processo, que anulou a decisão de autorizar o Estado
português a injetar 1,2 mil milhões na TAP em 2020, o que, segundo os
responsáveis da companhia e do Governo, permitiu salvar a empresa da falência
na sequência da crise que se instalou no setor da aviação devido à pandemia.
De acordo com o
TJUE, «a decisão da Comissão que declara o auxílio de Portugal a favor da
companhia aérea TAP compatível com o mercado interno é anulada por não estar
suficientemente fundamentada». A sentença de primeira instância (emanada do
Tribunal Geral) é passível de recurso e, por isso, a TAP não tem, para já, de
devolver os montantes, como confirmou o tribunal: «Os efeitos da anulação –
entre os quais a recuperação do auxílio – são suspensos enquanto se aguarda uma
nova decisão». A Comissão Europeia vai agora recorrer desta decisão.
Ministro critica
Ryanair O ministro Pedro Nuno Santos reagiu, na sexta-feira, à ‘guerra’ aberta
entre Ryanair e TAP considerando que a mesma não passa de «uma guerra
comercial» entre a TAP uma «companhia aérea que, aliás, respeita pouco as
legislações nacionais». O governante acusou mesmo a empresa low-cost de estar
«a aproveitar uma grande dificuldade no setor da aviação para tentar ganhar
negócio às companhias aéreas de bandeira». «É com alguma incompreensão que vejo
alguns quase a celebrar uma decisão que não é contra a TAP, é contra o nosso
país, contra os interesses nacionais. É uma empresa estrangeira que quer ganhar
negócio às outras empresas e que encetou uma ação contra um auxílio a uma
empresa pública, auxílio esse que foi decidido livremente por um Governo»,
disse Pedro Nuno Santos à margem de uma cerimónia de homologação de um acordo
na área da habitação, em Vila Nova de Gaia.
O ministro
desvalorizou a decisão em primeira instância garantindo que «há regras
europeias que devem ser cumpridas, há um tribunal que está a fazer essa
avaliação» e que a Comissão Europeia «terá de justificar junto do tribunal o
que está a acontecer», voltando a defender o «interesse nacional» em relação à
TAP. «Seria uma irresponsabilidade Portugal ser o único país europeu a deixar
cair a sua companhia área de bandeira», disse.
Companhia
low-cost satisfeita A ação da Ryanair travou o auxílio estatal à TAP, mas
também o do Governo holandês de 3,4 mil milhões de euros à KLM. Em reação a
estas duas decisões, a companhia irlandesa considero a mesma «uma importante
vitória para os consumidores e para a concorrência». «Uma das maiores
realizações da União Europeia (UE) é a criação de um mercado único para o
transporte aéreo, [mas] as aprovações da Comissão Europeia de auxílios estatais
à Air France-KLM e à TAP foram contra os princípios fundamentais da legislação
da UE e inverteram o processo de liberalização do transporte aéreo,
recompensando a ineficiência e encorajando a concorrência desleal», referiu a
Ryanair. A empresa voltou a apontar o dedo a Bruxelas e aos governos que
apoiaram as companhias de bandeira: «durante a pandemia de covid-19, mais de 30
mil milhões de euros de subsídios estatais discriminatórios foram concedidos a
transportadoras de bandeira da UE».
Groundforce
contra TAP A TAP também se prepara para enfrentar os tribunais, neste caso, na
sequência de uma ação judicial interposta pela Groundforce. A empresa liderada
por Alfredo Casimiro pretende garantir, desta forma, a rescisão do contrato que
permitiu à TAP comprar o material da Groundforce por 6,97 milhões de euros, que
depois passou a subalugar à própria empresa de handling (por 461 mil euros por
mês). O acordo foi a forma encontrada
para que fosse injetado de imediato dinheiro na empresa, permitindo pagar os
salários em atraso de fevereiro e os de março aos 2400 trabalhadores da empresa
(e ainda os impostos referentes a março). A Groundforce acabaria por anular
unilateralmente esses contratos – posição que Governo e TAP não aceitam –,
nunca tendo pago o aluguer dos equipamentos e passando a exigir a devolução
destes e ainda a devolução do dinheiro que recebeu através de um plano faseado
de pagamentos.

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