sexta-feira, 7 de maio de 2021

Moradores do Meco contra construção grandes empreendimentos turísticos na aldeia

 


AMBIENTE

Moradores do Meco contra construção grandes empreendimentos turísticos na aldeia

 

Residentes queixam-se que 600 novos fogos e 1800 camas põem em risco localidade com 300 habitantes. Município responde que avaliação ambiental é positiva e estranha que contestação surja agora

 

Francisco Alves Rito

7 de Maio de 2021, 0:33

https://www.publico.pt/2021/05/07/local/noticia/moradores-meco-construcao-empreendimentos-turisticos-aldeia-1961481

 

Os empreendimentos turísticos previstos para as proximidades da Aldeia do Meco, no concelho de Sesimbra, estão a ser contestados por residentes na zona, que se queixam de que a volumetria das construções em causa não respeita a dimensão e as características da localidade e lembram que esta é uma zona classificada, pela sua riqueza natural, como no Sítio de Interesse Comunitário Arrábida/Espichel.

 

Uma petição pública promovida por um grupo de moradores, que já contava nesta quinta-feira com mais de 3100 assinaturas, identifica quatro projectos turísticos, num total de 600 fogos, entre moradias e prédios de apartamentos com dois e três pisos, e mais de 1800 camas.

 

Estes moradores recordam que a aldeia tinha 337 habitantes e 205 habitações, no Censos de 2011, e referem que a pressão imobiliária tem vindo a crescer.

 

“Até à data têm-se conseguido evitar esses projectos e a aldeia tem crescido de uma forma mais equilibrada e sustentável, com a construção de habitações unifamiliares e, mais recentemente, de pequenos condomínios que não alteram significativamente as características demográficas, paisagísticas, ambientais e socioeconómicas desta zona”, dizem, mas alertam que “essa realidade parece estar prestes a mudar”.

 

De momento há projectos imobiliários, em diferentes fases de licenciamento, previstos para as zonas de matas, no caminho entre a aldeia e a Praia das Bicas, sendo que na Mata dos Cardosos já há movimentação no terreno para vedação da propriedade.

 

Segundo a petição, neste local, vai nascer o aparthotel Pinhal do Atlântico, da empresa Turimeco, num conjunto de 23 prédios de três pisos, com 411 unidades de alojamento com capacidade para 1168 camas, edifício de recepção com spa, três restaurantes, piscinas, bares, campos de jogos, parque infantil e espaços comerciais.

 

A mesma empresa tem previsto também o aldeamento turístico Pinhal da Prata, para o Pinhal do Rio da Prata, com 95 fogos, 53 apartamentos em edifícios de dois pisos e 42 moradias, num total de 360 camas.

 

Além destes, há ainda outros dois projectos, o empreendimento turístico na Rua do Casalinho – de 58 fogos, 50 em apartamentos e oito moradias, 212 camas – ,e o Empreendimento MecoMar, junto à saída para o Cabo Espichel, onde está prevista a construção de 36 unidades de alojamento com 92 camas.

 

Os moradores dizem que, “a magnitude destes projectos, caso se concretizem, representará uma aberração ambiental”.

 

José Manuel Lopes, residente na aldeia há mais de 20 anos, disse, ao PÚBLICO, que não se trata de defender o privilégio de ter casa numa zona protegida.

 

“Isto não é um problema de meia dúzia de moradores que não querem ser importunados. Afecta toda a aldeia. São projectos de tal dimensão que põem em causa um desenvolvimento sustentado. Ninguém está contra o desenvolvimento do Meco”, afirma.

 

“Estamos a tentar alertar para que isto não seja feito desta forma. Edifícios de dois a três pisos numa área de mata não se coadunam com o desenvolvimento que se pretende numa zona protegida”, acrescenta José Lopes.

 

Câmara não teria como inviabilizar

A Câmara Municipal de Sesimbra confirma a existência dos projectos, mas diz que são ainda “projectos de intenção” uma vez que se trata “ainda de pedidos de informação prévia” e acrescenta não pode opor-se a estas intenções de iniciativa privada.

 

“Verificado o cumprimento do previsto em PDM, e existindo pareceres favoráveis de todas as entidades externas com capacidade para condicionar, nos termos da lei, a decisão a proferir, bem como a existência de uma Declaração de Impacte Ambiental favorável, o município não teria como inviabilizar as pretensões”, afirma o município em resposta enviada ao PÚBLICO, por escrito.

 

Segundo a autarquia, “trata-se de processos já com alguns anos, que não dependem da Câmara Municipal, mas sim de outras entidades com competências na gestão do território, que respeitam o PDM do município e que têm Declarações de Impacte Ambiental favoráveis dessas mesmas entidades”.

 

A Câmara de Sesimbra explica que o PDM, “ratificado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 15/98, de 2 de Fevereiro, prevê, no seu artigo 114.º, a possibilidade de, em solo rústico, em propriedades com área não inferior a 20 hectares, se poderem instalar empreendimentos turísticos, desde que observadas todas as condicionantes legais, nomeadamente a existência de uma Declaração de Impacte Ambiental favorável, condicionalismo que se verifica”.

 

Sobre a questão de a Aldeia do Meco poder não ter escala para a dimensão destes empreendimentos, o município recorda que os projectos foram sujeitos a Avaliação de Impacte Ambiental (RJAIA) e” mereceram parecer favorável por parte da Autoridade de Avaliação de Impacte Ambiental, no caso Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, Lisboa e Vale do Tejo”.

 

A autarquia sublinha que a legislação imposta a estes casos “dá relevância às questões ambientais, à eficiência e sustentabilidade dos recursos, à protecção da biodiversidade, ao território, bem como os efeitos cumulativos, ou seja, a existência de outros projectos para a mesma área de intervenção” e que “estes elementos são decisivos na avaliação e nos processos de tomada de decisão”.

 

Nas respostas enviadas ao PÚBLICO, a Câmara Municipal considera que a participação cívica dos cidadãos é “relevante para o desenvolvimento sustentável do território”, quando tem como objectivo a “preservação dos valores ambientais ou outros”.

 

“Não queremos acreditar que a recuperação destes temas nesta fase, se devam a um calendário eleitoral que se aproxima”, conclui a nota municipal.

 

Muitos projectos mas ainda nenhuma construção

A zona do Meco tem despertado interesse para implantação de vários grandes projectos turísticos, mas, até à data ainda nenhum saiu do papel. O maior de todos e dos mais antigos, é o inicialmente chamado Pelicano, que após demorados processos, tanto administrativos como judiciais, e grande controvérsia pública, mudou em quase tudo e continua a ser um activo do antigo BES, agora Novo Banco.

 

O Greenwoods - Ecoresorts Empreendimentos Imobiliários, Lda, assim se denomina actualmente o antigo projecto Pelicano, passou do Meco para a zona sul da Mata de Sesimbra e viu fortemente reduzida a área de construção.

 

A transferência de localização do Meco para a Mata de Sesimbra foi negociada no tempo do governo PSD, pelo então ministro Isaltino Morais, com as empresas envolvidas, e o Plano de Pormenor da Zona Sul Mata de Sesimbra acabou por ser publicado em Diário da República em 2008. Pelo meio, em 2017, ministro Francisco Nunes Correia, do governo PS, esteve quase a travar essa mudança de localização, que acabou por ser permitida com várias condicionantes e imposições na dimensão e características da construção.

 

Apesar disso, na zona sul da Mata de Sesimbra não avançou ainda qualquer empreendimento e o Greenwoods, avaliado em cerca de 70 milhões, continuava, em 2020, a figurar no balanço do Novo Banco, sendo que, até Dezembro de 2018, já tinha dado perdas de 19,6 milhões de euros.

 

Na Aldeia do Meco, além dos parques de campismo, também ainda não avançou qualquer empreendimento. Mesmo o Pinhal do Atlântico, que é o mais antigo e o que estará mais próximo de avançar, para conseguir luz verde da CCDR-LVT teve de reduzir o índice de construção.

 

Uma fonte ouvida pelo PÚBLICO diz que este projecto é “bem enquadrado” na envolvente. “Impacto maior tem o parque de campismo, um pouco mais à frente, que esteve para ser encerrado mas continua a funcionar”, refere a mesma fonte, que não quer ser identificada.

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