OPINIÃO
As novidades em Madrid não estão onde se julga
Entre a queda dos socialistas e o dramatismo das decisões
de Pablo Iglesias, ninguém fala afinal do partido que ficou em primeiro lugar à
esquerda: o Más Madrid.
Rui Tavares
7 de Maio de
2021, 0:05
https://www.publico.pt/2021/05/07/opiniao/noticia/novidades-madrid-nao-estao-onde-julga-1961532
O PP espanhol
ganhou nas últimas eleições em Madrid? Sim, como nas antepenúltimas. E nas
outras antes dessas. E por aí afora até 1995. Na verdade, o PP espanhol ganha
praticamente sempre na Comunidade Autónoma de Madrid, e mesmo quando não fica
em primeiro lugar (como em 2019) mantém ininterruptamente há 25 anos o governo
da região madrilena (diversamente do município de Madrid, onde a alternância é
mais frequente). Na verdade, novidade seria que a esquerda tivesse ganho ali e
se preparasse para governar a região de Madrid.
Numa análise
imediata, claro que a vitória da direita em Madrid tem importância e que Isabel
Ayuso revela ser uma política talentosa ao marcar umas eleições antecipadas e
ganhá-las, sendo a partir de agora uma política nacional que rivaliza com o seu
próprio presidente de partido por ser uma alternativa ao governo de esquerda.
Mas a análise imediata não tem de ficar pela superfície. Nem o maniqueísmo do
chavão “liberdade ou comunismo”, como se o comunismo estivesse mesmo para
aterrar no aeroporto de Barajas, nem as lições que se pretendem retirar para
Rui Rio, aqui em Portugal, terão prazo de validade alargado.
As novidades das
eleições madrilenas estão à direita, é certo — a implosão dos Cidadãos, que não
se conseguiram decidir entre ser centristas liberais ou claramente de direita,
e a emergência da extrema-direita, que meramente confirmou o que já se passara
a nível nacional. Mas a novidade que mais relevância tem para a política
europeia está à esquerda, e tem passado desapercebida do comentário político
fora de Espanha.
Visto de fora,
dois dados principais chamaram a atenção: a queda a pique da votação nos
socialistas, logo ofuscada pela demissão de Pablo Iglesias como líder do
Podemos. Entre a queda dos socialistas e o dramatismo das decisões de Pablo
Iglesias, que em poucas semanas passou de ser vice-presidente do governo de
Espanha para se tornar no aposentado mais jovem da política contemporânea,
ninguém fala afinal do partido que ficou em primeiro lugar à esquerda: o Más
Madrid, de Iñigo Errejón, com a candidatura de Mónica García. Este partido
local, que tem apenas dois anos e meio, e que nas eleições nacionais obteve
apenas dois deputados (aliado aos ecologistas do Equo, que faz parte do Partido
Verde Europeu), conseguiu agora superar os socialistas em votos, com quase 17%,
na peugada do feito que já alcançara nas eleições municipais de Madrid, nas
quais obtivera trinta por cento dos votos.
É a Pablo Iglesias que os comentadores são atraídos e que
a genialidade é atribuída, mas é Iñigo Errejón que está a construir um caminho
mais consistente e com mais futuro, embora dele pouco se fale fora de Espanha
O Más Madrid —
que a nível nacional se chama Más País — é um partido ecologista, socialista
democrático, federalista e feminista. A sua criação tem origem numa divergência
estratégica profunda dentro do Podemos, com uma ala próxima de Pablo Iglesias a
pretender que o Podemos ocupasse o espaço do Partido Comunista Espanhol, e a
ala liderada por Iñigo Errejón a querer que o Podemos representasse um novo
progressismo mais verde e europeu. A cisão entre Iglesias e Errejón teve tanto
de tático como talvez de trajetória — Pablo Iglesias militou entre comunistas
na juventude, Iñigo Errejón entre anarquistas — e de temperamento, com Pablo
Iglesias a ser dado ao grande gesto polarizador e Iñigo Errejón a demonstrar
mais paciência e discrição. É a Pablo Iglesias que os comentadores são atraídos
e que a genialidade é atribuída, mas é Iñigo Errejón que está a construir um
caminho mais consistente e com mais futuro, embora dele pouco se fale fora de
Espanha.
A aproximação aos
verdes do partido Equo, que foi fundado em 2013 e já fizera parte da
constelação do Podemos, consolidou a ancoragem do Más País/Más Madrid na área
da esquerda verde europeia e a sua principal proposta, que é a de um Green New
Deal, ou Novo Pacto Verde, uma estratégia de investimentos públicos de combate
à crise ecológica e social em simultâneo.
Ao passo que
Pablo Iglesias e o Podemos seguiram uma estratégia de polarização para superar
o limiar dos cinco por cento e poderem sobreviver em Madrid — estratégia essa
que teve o revés de mobilizar ainda mais voto da direita e extrema-direita que
fazem de Pablo Iglesias a sua bête noire —, o Más Madrid concentrou a sua
campanha na capacidade de fazer pontes da sua candidata Mónica García e nas
propostas concretas de espaços verdes, transição energética e contra o ruído —
não só nos espaços públicos mas também no espaço público, ou seja, na maneira
de fazer política.
O sucesso do Más
Madrid dá-nos duas lições. A primeira é que a “onda verde” na Europa não tem
necessariamente de estar limitada aos países do Centro e do Norte da Europa. A
segunda é que uma estratégia política de despolarização funciona. Como de
costume, porém, não tenho quaisquer esperanças de que estas lições sejam
registadas pelo comentariado profissional.
O autor escreve
segundo o novo acordo ortográfico


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