A nova vaga dos contaminados desconfinados e
despreocupados
Começamos a esquecer que ainda vivemos num Estado de
Calamidade por causa de uma pandemia. E o resultado está à vista
OPINIÃO
COVIDIÁRIO
21.06.2020 às
18h17
MAFALDA ANJOS
DIRETORA
Estamos cansados,
preocupados, fartos, desejosos de aproveitar o verão e recuperar o tempo
perdido. Começamos a facilitar porque só queremos desconfinar. Basta olhar à
nossa volta ou espreitar as redes sociais: os amigos já se juntam em festejos e
convívios, sem distanciamento social e com poucos cuidados. São aos montes as
fotografias de grupos de pessoas à molhada. Os avós, filhos e netos já se
encontram sem máscaras e com poucas seguranças. Há cada vez mais notícias – e
denúncias – de ajuntamentos, festas e encontros com dezenas ou centenas de
pessoas. É humano: depois de tantas semanas longe das nossas vidas normais,
regressar aos nossos e às velhas rotinas sabe muito bem. E se estamos todos
aparentemente bem, juntos em grupo depressa nos esquecemos que existe uma
pandemia por aí, que mata mesmo. E que ainda estamos em Estado de Calamidade.
Nos espaços
públicos, restaurantes e lojas, começa algum facilitismo, também é humano.
Poucas semanas depois da reabertura, já se nota um relaxar nos cuidados. Os dos
empregados e os nossos, os fregueses. Um dia desta semana fui jantar a um
restaurante japonês, onde um sushimen estava a trabalhar com a máscara no
queixo e outro com o nariz de fora. Alertei a empregada de mesa, ela riu-se com
o meu excesso de zelo. Nos cafés, as pessoas já se começam a acumular aos
balcões, as desinfeções das mesas entre clientes já nem sempre acontecem e as
distâncias entre as pessoas nas filas começam a encurtar. As praias estão
cheias e ainda nem chegou o bom tempo a sério.
Os jovens, esses,
são cada vez mais difíceis de manter em casa. Falo pelos meus dois teenagers,
cheios de programas e cada vez mais solicitações. “Mas se todos vão, porque é
que nós não podemos ir”, perguntam-me. “Porque os outros todos não são meus
filhos”, respondo muitas vezes. Outras cedo, claro está, massacrando-os com as
regras de segurança. Que fazer? Mantê-los em casa durante meses a fio até
existir uma nova vacina não me parece possível. O problema, em sociedade, é
sempre este: nós, os outros e o exemplos que recebemos.
Mas, sim, o
Estado de Calamidade continua aí. Temos de desconfinar para não morrer da cura,
mas a doença não desapareceu. Nem está a dar mostras de melhorar tão cedo.
António Costa já voltou a dizer: ou cumprimos as regras ou temos de voltar a
fechar.
Começa a ser
difícil de ignorar: os números estão a ficar preocupantes. Já sabíamos que com
o desconfinamento os novos contágios iriam aumentar. O problema é que passámos
dos países com melhor performance para a lista dos casos mais alarmantes.
Achatámos a curva no início, mas mantemo-nos num planalto que teima em descer.
Ali rés-vés a linha vermelha onde começa a espiral do crescimento descontrolado
e exponencial.
Há um novo rácio
ao qual devemos estar atentos: o número de novos casos por 100 mil habitantes
durante uma semana. Quando sobe acima de 20, soam os alarmes. É este, aliás, o
critério que muitos países começam a olhar para decidir se impõem ou não
restrições. E, neste indicador, Portugal sai-se
mal.
Os números de
casos de Covid-19 registados na última semana colocam Portugal com o segundo
pior rácio entre os 10 países europeus com mais contágios, com um valor de 23,2
novos casos, apenas atrás da Suécia (que chega aos 62) – o país europeu que
adotou uma estratégia mais liberal e que teve pior desempenho.
Durante seis dias
consecutivos Portugal teve mais de 300 casos, e hoje andou lá perto: 292 novas
infeções. Lisboa continua a ser a região mais afetada, mas agora há duas novas
zonas com aumentos mais expressivos: Algarve, por causa da festa ilegal em
Lagos, e Alentejo, onde um lar de idosos em Reguengos de Monsaraz tem sido um
foco preocupante.
As autoridades
explicam os números pela política de testagem abrangente – e a verdade é que
Portugal está entre os países que mais testa por milhão de habitantes. Mas há
outros sinais. Um deles é o tipo de pessoas sujeitas a internamento (neste
momento temos mais de 400 pessoas internadas). No Hospital de Santa Maria são
recebidos cada vez mais doentes mais novos e em estado considerado grave,
contaminados no dia a dia nas esplanadas, cafés e nas praias, como explicou
Sandra Braz, coordenadora da Unidade de Internamento de Contingência de Infeção
Viral Emergente ao Expresso. Se na primeira vaga tivemos os contaminados das
férias da neve, e na segunda foram os infetados dos lares, agora temos a vaga
dos contaminados jovens, desconfinados e despreocupados.
Parece evidente
que é preciso voltar a reforçar a sensibilização das populações para os riscos,
a necessidade de cumprir as regras e, paralelamente, apertar a fiscalização por
parte das autoridades. Tem de existir pouca tolerância com as violações das
regras da DGS. E é fundamental não passar mensagens contraditórias. Declarações
com a da diretora Geral da Saúde a dizer que quanto maior for o número de
visitantes para a Liga dos Campeões, melhor será para o nosso País só
confundem. Não podemos para sempre viver fechados e confinados com medo, mas
não podemos disparar para a loucura. Se é que não queremos voltar outra vez
todos para casa. Já estivemos mais longe.

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