sábado, 20 de junho de 2020

O Governo e o lento regresso à realidade / Será a Final Eight o momento TSU deste Governo? Desculpem, mas é preciso não ter a menor noção do ridículo. Festas para anunciar jogos; festas para reabrir fronteiras; e, entre hinos, o maior afundamento do PIB da democracia. Pergunto: está tudo lelé da cuca?



 IMAGENS DE OVOODOCORVO


EDITORIAL
O Governo e o lento regresso à realidade

Se o problema na região de Lisboa for reconhecido e sublinhado, será mais fácil aplicar medidas para o conter e, questão crucial, levará todos os cidadãos a perceber o que está em causa e a agir em conformidade

MANUEL CARVALHO
21 de Junho de 2020, 7:00

O anúncio de que a Dinamarca se juntou a nove outros países europeus para restringir a entrada de portugueses teve o mérito de fazer com que as autoridades mostrassem ao menos um leve ensejo de reconhecer o problema das novas infecções de covid-19, em especial na região de Lisboa. A polícia travou uma festa com centenas de jovens em Carcavelos; o Ministério Público fez saber que vai abrir um inquérito à festa de Lagos; Marta Temido, a ministra da Saúde, admitiu que o Governo está com dificuldades em travar a disseminação do vírus; o Presidente apelou aos jovens para que assumam comportamentos responsáveis; o Governo avança com uma reunião com especialistas e autarcas esta segunda-feira para discutir soluções para uma região que apresenta há um mês mais de 250 novos casos por dia.

No meio deste esforço que tende a reconhecer a realidade de um problema, só António Costa destoou, ao dizer que não está “muito preocupado” com os custos para o país que o encerramento de fronteiras a cidadãos portugueses vai necessariamente ter. Devia estar. Por muito que tenha razão quando refere a resposta do SNS e a taxa da letalidade, e ainda que seja certo que quantos mais testes um país faz, mais infectados detecta, a realidade é o que é. Portugal deixou ou arrisca-se a deixar de ser visto lá fora como um caso de sucesso e isso vai ter custos em áreas cruciais para o país como o sector do turismo. No momento de decidir, um holandês ou um alemão vai olhar para o mapa das infecções e não estará preocupado em saber se os seus dados resultam ou não resultam do número de testes efectuados.

Como aqui já escrevemos, o Governo deve regressar ao seu bom hábito das primeiras semanas da pandemia e dizer ao país sem reservas o que se está a passar. Não está em causa o regresso ao confinamento. Nem a propagação de um novo estado de alarme. Basta-lhe reconhecer que há um problema em Lisboa que o Governo e as autoridades não conseguem controlar. Basta-lhe deixar de agir como se esse problema fosse natural, inevitável ou normal. Se o problema for reconhecido e sublinhado, será mais fácil aplicar medidas para o conter e, questão crucial, levará todos os cidadãos a perceber o que está em causa e a agir em conformidade. Espera-se assim que na reunião de segunda-feira haja medidas mais convincentes no campo sanitário, na vigilância ou no reforço dos transportes. E espera-se ainda mais que todos os responsáveis digam ao país que temos a braços um problema que requer o contributo de todos.

Será a Final Eight o momento TSU deste Governo?

Desculpem, mas é preciso não ter a menor noção do ridículo. Festas para anunciar jogos; festas para reabrir fronteiras; e, entre hinos, o maior afundamento do PIB da democracia. Pergunto: está tudo lelé da cuca?

JOÃO MIGUEL TAVARES
20 de Junho de 2020, 0:41

Por uma vez, as intuições políticas de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa falharam em simultâneo, e de forma catastrófica. A encenação de quarta-feira em Belém, com um longo directo às oito da noite para festejar a organização de sete jogos de futebol em Agosto, demonstrou um alheamento absolutamente chocante das elites dirigentes em relação àquilo que é o estado de espírito do país no ano da pandemia.

A imagem de Marcelo, de Costa, de Ferro Rodrigues – as três mais altas figuras do Estado –, de Medina e do presidente da Federação Portuguesa de Futebol perfeitamente alinhados (mais três ministros e um secretário de Estado nos corredores laterais), numa operação de propaganda que é um insulto para a maioria dos portugueses, pode muito bem vir a representar para António Costa aquilo que a subida da TSU para os trabalhadores representou para Passos Coelho em 2012 – um momento de desconexão violenta entre governantes e governados, do qual ficam feridas que nunca chegam a sarar.

Com esta agravante, à qual procurarei dedicar o meu próximo artigo: como Marcelo continua a insistir no papel de atrelado de Costa nas mais variadas matérias, das mais festivas às mais gravosas (como a ida de Centeno para o Banco de Portugal), não há contrapoder que se safe no meio deste desvario, e o descrédito atravessa todo o regime. E quando digo todo o regime é mesmo todo o regime: ver Graça Freitas, directora-geral da Saúde, a festejar a vinda para Portugal da Final Eight da Champions (“quanto maior for o número de visitantes para o nosso país, melhor”), como se o seu papel fosse não o controlo da pandemia da covid-19, mas a promoção do turismo de Portugal, demonstra bem a falta de independência dos funcionários do Estado, e a consciência de que não é possível ocupar uma direcção-geral sem, de alguma forma, aceitar ser um apparatchik do Governo em funções.

Os portugueses podem ser um bocado moles e dados à distracção, mas há limites para o descaramento. É totalmente inconcebível António Costa anunciar a vinda da Liga do Campeões como “um prémio merecido para os profissionais de saúde”; e a contradição entre aquilo que proibimos cá dentro mas que nos preparamos para permitir a quem vem de fora – a entrada em estádios de futebol – põe as entranhas a ferver a qualquer português que anda há meses banhado em gel. Porque, das duas, uma: ou as fronteiras são fechadas aos adeptos e o dinheiro não entra; ou elas são abertas e a discricionariedade do Estado volta a manifestar-se em todo o seu esplendor, após o 25 de Abril e o 1 de Maio.

Agora imaginem por um momento que os adeptos vêm; que eles são incontroláveis, como é próprio dos adeptos de futebol; que ocorre um pico de covid em Lisboa no início de Setembro; e que por causa desse pico as escolas continuam fechadas mais uns tempos. O que é que fazemos? Alguém pensou nisso? É que, de repente, a propaganda parece ser a única preocupação de um Governo que iniciou o mandato há oito meses. Andamos todos a celebrar não se percebe o quê, e em breve teremos mais, conforme noticia a Lusa: “As fronteiras entre Portugal e Espanha vão reabrir no próximo dia 1 de Julho com honras de Estado, com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa e do Rei Felipe VI.” Desculpem, mas é preciso não ter a menor noção do ridículo. Festas para anunciar jogos; festas para reabrir fronteiras; e, entre hinos, o maior afundamento do PIB da democracia. Pergunto: está tudo lelé da cuca?

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