IMAGENS DE OVOODOCORVO
EDITORIAL
O Governo e o lento regresso à realidade
Se o problema na região de Lisboa for reconhecido e
sublinhado, será mais fácil aplicar medidas para o conter e, questão crucial,
levará todos os cidadãos a perceber o que está em causa e a agir em
conformidade
MANUEL CARVALHO
21 de Junho de
2020, 7:00
O anúncio de que
a Dinamarca se juntou a nove outros países europeus para restringir a entrada
de portugueses teve o mérito de fazer com que as autoridades mostrassem ao
menos um leve ensejo de reconhecer o problema das novas infecções de covid-19,
em especial na região de Lisboa. A polícia travou uma festa com centenas de
jovens em Carcavelos; o Ministério Público fez saber que vai abrir um inquérito
à festa de Lagos; Marta Temido, a ministra da Saúde, admitiu que o Governo está
com dificuldades em travar a disseminação do vírus; o Presidente apelou aos
jovens para que assumam comportamentos responsáveis; o Governo avança com uma
reunião com especialistas e autarcas esta segunda-feira para discutir soluções
para uma região que apresenta há um mês mais de 250 novos casos por dia.
No meio deste
esforço que tende a reconhecer a realidade de um problema, só António Costa destoou,
ao dizer que não está “muito preocupado” com os custos para o país que o
encerramento de fronteiras a cidadãos portugueses vai necessariamente ter.
Devia estar. Por muito que tenha razão quando refere a resposta do SNS e a taxa
da letalidade, e ainda que seja certo que quantos mais testes um país faz, mais
infectados detecta, a realidade é o que é. Portugal deixou ou arrisca-se a
deixar de ser visto lá fora como um caso de sucesso e isso vai ter custos em
áreas cruciais para o país como o sector do turismo. No momento de decidir, um
holandês ou um alemão vai olhar para o mapa das infecções e não estará
preocupado em saber se os seus dados resultam ou não resultam do número de
testes efectuados.
Como aqui já
escrevemos, o Governo deve regressar ao seu bom hábito das primeiras semanas da
pandemia e dizer ao país sem reservas o que se está a passar. Não está em causa
o regresso ao confinamento. Nem a propagação de um novo estado de alarme.
Basta-lhe reconhecer que há um problema em Lisboa que o Governo e as autoridades
não conseguem controlar. Basta-lhe deixar de agir como se esse problema fosse
natural, inevitável ou normal. Se o problema for reconhecido e sublinhado, será
mais fácil aplicar medidas para o conter e, questão crucial, levará todos os
cidadãos a perceber o que está em causa e a agir em conformidade. Espera-se
assim que na reunião de segunda-feira haja medidas mais convincentes no campo
sanitário, na vigilância ou no reforço dos transportes. E espera-se ainda mais
que todos os responsáveis digam ao país que temos a braços um problema que
requer o contributo de todos.
Será a Final Eight o momento TSU deste Governo?
Desculpem, mas é preciso não ter a menor noção do
ridículo. Festas para anunciar jogos; festas para reabrir fronteiras; e, entre
hinos, o maior afundamento do PIB da democracia. Pergunto: está tudo lelé da
cuca?
JOÃO MIGUEL
TAVARES
20 de Junho de
2020, 0:41
Por uma vez, as
intuições políticas de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa falharam em
simultâneo, e de forma catastrófica. A encenação de quarta-feira em Belém, com
um longo directo às oito da noite para festejar a organização de sete jogos de
futebol em Agosto, demonstrou um alheamento absolutamente chocante das elites
dirigentes em relação àquilo que é o estado de espírito do país no ano da
pandemia.
A imagem de
Marcelo, de Costa, de Ferro Rodrigues – as três mais altas figuras do Estado –,
de Medina e do presidente da Federação Portuguesa de Futebol perfeitamente
alinhados (mais três ministros e um secretário de Estado nos corredores
laterais), numa operação de propaganda que é um insulto para a maioria dos
portugueses, pode muito bem vir a representar para António Costa aquilo que a
subida da TSU para os trabalhadores representou para Passos Coelho em 2012 – um
momento de desconexão violenta entre governantes e governados, do qual ficam
feridas que nunca chegam a sarar.
Com esta
agravante, à qual procurarei dedicar o meu próximo artigo: como Marcelo
continua a insistir no papel de atrelado de Costa nas mais variadas matérias,
das mais festivas às mais gravosas (como a ida de Centeno para o Banco de
Portugal), não há contrapoder que se safe no meio deste desvario, e o
descrédito atravessa todo o regime. E quando digo todo o regime é mesmo todo o
regime: ver Graça Freitas, directora-geral da Saúde, a festejar a vinda para
Portugal da Final Eight da Champions (“quanto maior for o número de visitantes
para o nosso país, melhor”), como se o seu papel fosse não o controlo da
pandemia da covid-19, mas a promoção do turismo de Portugal, demonstra bem a
falta de independência dos funcionários do Estado, e a consciência de que não é
possível ocupar uma direcção-geral sem, de alguma forma, aceitar ser um
apparatchik do Governo em funções.
Os portugueses
podem ser um bocado moles e dados à distracção, mas há limites para o
descaramento. É totalmente inconcebível António Costa anunciar a vinda da Liga
do Campeões como “um prémio merecido para os profissionais de saúde”; e a
contradição entre aquilo que proibimos cá dentro mas que nos preparamos para
permitir a quem vem de fora – a entrada em estádios de futebol – põe as
entranhas a ferver a qualquer português que anda há meses banhado em gel.
Porque, das duas, uma: ou as fronteiras são fechadas aos adeptos e o dinheiro
não entra; ou elas são abertas e a discricionariedade do Estado volta a
manifestar-se em todo o seu esplendor, após o 25 de Abril e o 1 de Maio.
Agora imaginem
por um momento que os adeptos vêm; que eles são incontroláveis, como é próprio
dos adeptos de futebol; que ocorre um pico de covid em Lisboa no início de
Setembro; e que por causa desse pico as escolas continuam fechadas mais uns
tempos. O que é que fazemos? Alguém pensou nisso? É que, de repente, a
propaganda parece ser a única preocupação de um Governo que iniciou o mandato
há oito meses. Andamos todos a celebrar não se percebe o quê, e em breve
teremos mais, conforme noticia a Lusa: “As fronteiras entre Portugal e Espanha
vão reabrir no próximo dia 1 de Julho com honras de Estado, com a presença de
Marcelo Rebelo de Sousa e do Rei Felipe VI.” Desculpem, mas é preciso não ter a
menor noção do ridículo. Festas para anunciar jogos; festas para reabrir
fronteiras; e, entre hinos, o maior afundamento do PIB da democracia. Pergunto:
está tudo lelé da cuca?


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