quarta-feira, 15 de julho de 2020

ENTREVISTA Riccardo Marchi: “Não me espantaria se o CDS desaparecesse do mapa” / Marchi e a normalização da extrema-direita


OPINIÃO
Marchi e a normalização da extrema-direita

O tribalismo desculpatório que aconchega o Chega revela simplesmente a razão do seu sucesso: estes analistas condescendentes ou estão fascinados ou ficam calados com uma extrema-direita que, à força de imitar Abascal e Bolsonaro, consegue presença suficiente para condicionar o futuro da direita.

Cecília Honório
16 de Julho de 2020, 0:15

Ventura vende, desta feita pela mão do reputado investigador Riccardo Marchi, com a obra A Nova direita anti-sistema. O caso do Chega. Este texto é sobre a sua forma e alguns dos seus conteúdos, porque nem sempre a escrita enxuta e a informação abundante clareiam o compromisso deste livro.

Tomemos as coisas pelo que elas dizem ser: este livro não se assume como trabalho académico, mas como “ensaio”. Assim sendo, recorro ao artigo do Ciberdúvidas e aproveito Montaigne: “eu sou a matéria do meu livro.” Este livro é sobre o que Marchi sabe e queria saber; tem o tempo certo, antes da reconfirmação de Ventura como chefe do partido e no arranque da campanha para as presidenciais; é sobre a surpresa do investigador, que esperava um “empresário” para a captação da “demanda populista” nacional, ao invés de um filho dos subúrbios e do PSD. Este livro é sobre a dúvida que o investigador queria ver satisfeita, tal como Ventura: o partido ultrapassará o “one man show” e poderá ser o 3.º ou 4.º mais votado, já em 2023?

Fica, talvez, mais fácil encontrar Ventura através de Marchi. Muito mais humanizado do que imagens televisivas histriónicas, ele é filho da formação católica e dos subúrbios, em nome dos quais pode falar por saber bem o que é a insegurança; é combativo, persistente, tem uma intuição política ímpar e uma enorme capacidade de gerir tensões internas; é exímio comunicador e é pragmático, escreve Marchi. O Chega “é o projeto do André”, que, hostilizado pela comunicação social, está mais preocupado com a gestão da imagem e da comunicação do que com a cartilha ideológica, porque sabe que não é como líder de um partido de “extrema-direita” que alcança o que quer: reconfigurar a direita clássica e comer espaço ao PSD.

Deixando o líder, por ora, importa a classificação do partido e o empolamento da sua “novidade”. Marchi insere o Chega nos partidos populistas de direita radical, descolando-o da extrema-direita, pela distinção entre mudança por dentro e mudança por meios violentos. Esta é, aliás, uma distinção cara à Ciência Política. Esta é, também, a vocação confirmada pelos fundadores/as do partido, no quadro do forte pendor testemunhal da obra. Momento para questionar a operacionalidade histórica e política desta divisão, uma vez que nem a direita clássica é, nas democracias liberais ocidentais, reconfigurável com a suástica ao peito, e o historiador Enzo Traverso explicou bem, na sua leitura do pós-fascismo, esta necessidade de normalização, com o exemplo de Marine Le Pen, nem o adjetivo é isento, quando é auto-classificativo. Leiam o programa do Chega e as palavras de Diogo Pacheco de Amorim: se o radical é o que vai à raiz dos problemas para os resolver, o extremista é o que liquida o mundo real para salvar o seu (p. 9). Pergunte-se, então, à Ciência Política se a adjetivação “radical” não é o que interessa aos Venturas deste tempo, por lhes conceder a credibilidade que anseiam, favorecendo o “mainstream”.

Sobre a “novidade”, Marchi aceita a autoimagem expressa no programa do Chega – um “partido verdadeiramente novo”. Inúmeras expressões o atestam, a começar pelo início – o caso de “André Ventura com o seu Chega é inovador e único” (p. 19). Ora, nem o Chega é assim tão diferente das outras formações europeias, nem é “verdadeiramente novo”. Se o fosse, as obras de Jaime Nogueira Pinto não eram fundamentais na formação de Ventura, como Marchi não se cansa de sublinhar, nem Diogo Pacheco de Amorim era o homem do programa, vice do partido e membro do grupo parlamentar, demonstrando o peso da “Nova Direita” dos anos 80. Reconheça-se, ainda, que é o facto de estas formações estarem demasiado presas às suas especificidades nacionais que dificulta o sonho de Bannon sobre a internacional de extrema-direita. O mofo doutrinário também se pode encontrar nos escassos nomes de autores do século XX referidos no programa, como Von Mises e Hayek, dois patriarcas do neoliberalismo, sobre os quais Marchi escolhe esquecer o convívio com as ditaduras e a simpatia para com Pinochet ou Salazar.

Junte-se a constante abordagem da “hostilidade” da comunicação social ou os perfis falsos reduzidos a boato e percebe-se melhor o compromisso deste ensaio com a normalização do Chega de Ventura
A “novidade” está no poder comunicacional do homem. Mas não se espere qualquer análise sobre a instrumentalização ou sobre a “ventriloquia”, cara ao populismo – dizer uma coisa e o seu contrário, dizer uma coisa e fazer o seu contrário. Nem uma palavra sobre o valor instrumental das provocações, da convocatória da raiva, que põe o coração na boca, promove a identificação e a fusão ao alcance de um “like”, e permite as palavras do militante do Chega sobre Ventura: “Quando o oiço, oiço-me a mim” (p. 109).

A “novidade” está, também, presa à identidade “antissistema” do partido e à construção do mesmo. O Chega é um partido antissistema porque quer construir a IV República e mudar a Constituição, e populista porque quer combater a elite corrupta, afirma o autor. No espetro dos alvos a abater, o autor bem podia colocar a esquerda (com a sua “cultura de morte” e o seu “marxismo cultural”), mas escolhe não o fazer. Também não se pergunta o que é ser “antissistema” e viver dele. André Ventura entrou no PSD aos 14 anos, teve 20 anos de partido, é professor universitário, consultor de uma empresa, deputado, secundado por um núcleo duro, em boa parte feito de gente que veio do PSD e CDS, sem esquecer que o estudo da sua rede de amigos, padrinhos e relações daria um excelente livro sobre “o sistema”. Junte-se a constante abordagem da “hostilidade” da comunicação social ou os perfis falsos reduzidos a boato e percebe-se melhor o compromisso deste ensaio com a normalização do Chega de Ventura. Talvez por isso os seus defensores abdicaram de sustentar as conclusões da obra e limitaram-se a chorar um putativo desejo censório de quem não consegue reconhecer-se nesta operação justificativa. No caso, o tribalismo desculpatório que aconchega o Chega revela simplesmente a razão do seu sucesso: estes analistas condescendentes ou estão fascinados ou ficam calados com uma extrema-direita que, à força de imitar Abascal e Bolsonaro, consegue presença suficiente para condicionar o futuro da direita



ENTREVISTA
Riccardo Marchi: “Não me espantaria se o CDS desaparecesse do mapa”

No seu novo livro, o investigador, especialista nas direitas radicais, vê o nascimento do Chega como algo indissociável de um processo de reestruturação da direita em Portugal.

Liliana Borges (Texto), Ricardo Cabral Fernandes (Texto) e Daniel Rocha (Fotografia) 26 de Junho de 2020, 6:05

Defende que o Chega não é um partido racista nem xenófobo, apesar de admitir que tenha militantes que o sejam e que haja muitas pessoas na extrema-direita a olharem com interesse para o partido. Riccardo Marchi, investigador no Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, especializou-se em radicalismos de direita e suas organizações na Europa Contemporânea e o seu livro A Nova Direita Anti-Sistema― O caso do Chega chegou esta quinta-feira às bancas.

Escreve que existia procura para um partido populista em Portugal, mas que faltava oferta. O Chega veio ocupar a totalidade desse espaço?
Não sabemos. Já tínhamos detectado esta larga procura populista, anti-sistema e de protesto, mas não tínhamos conseguido caracterizar até agora a oferta. Sabíamos que havia insatisfação com o sistema político, mas não conseguimos caracterizá-la até agora. O Chega permite-nos corporizar esta base eleitoral. A partir daí podemos saber quem o acha ou não interessante. O partido veio oferecer um produto que até agora não existia e que o PNR não tinha conseguido corporizar.

Provavelmente sim, especialmente por o PCP e o BE terem feito esta aproximação ao PS, não só na “geringonça”, mas também nesta legislatura. Depende muito do marketing político. Creio que vamos assistir a uma remodelação, quer à esquerda quer à direita. Há sempre espaço para novas forças políticas. À direita, por exemplo, a Iniciativa Liberal, apesar de não ser populista, é uma expressão de um descontentamento à direita, da procura de novos actores políticos. O mesmo pode acontecer à esquerda. Aconteceu com o Livre, um partido populista que surge mesmo para ir ao encontro do PS, mas novos actores de certeza que podem surgir também à esquerda.

Diz que o Chega atrai eleitorado até aqui afastado. Falar de temas que não eram discutidos sem enquadramento prejudica a democracia?
Na minha opinião não, porque o ADN da democracia é o de combinar posições opostas, por mais radicais que sejam. A democracia não é só um sistema para as ideias mainstream.

Mas isso não pode branquear o racismo, por exemplo?
Há pessoas que legitimamente consideram as posições de André Ventura racistas. Os dirigentes do Chega e o próprio não consideram. Defendem a assimilação total, quase a perda de identidade das minorias étnicas dentro do corpo nacional, porque determinadas identidades dessas minorias étnicas são consideradas contrárias ao Estado de Direito. Nessa perspectiva, para os dirigentes e presidente do Chega, a posição do partido não é racista. Temos institutos que servem para monitorar o nível de racismo aceitável ou não de um determinado discurso. O Tribunal Constitucional (TC) serve para isso.

Sabemos que as condenações por racismo em Portugal são bastante baixas. Até líderes partidários como Jerónimo de Sousa e Rui Rio dizem não haver racismo estrutural em Portugal.
Se me diz que as instituições não estão a funcionar, então existe um problema com as instituições. Não é um problema de André Ventura. Para mim, o Chega não é um partido xenófobo ou racista. O que não quer dizer que não possam existir militantes e dirigentes, como noutros partidos, xenófobos ou racistas. Devemos diferenciar. Um partido racista é um partido que, por exemplo, impede a entrada nas fileiras de negros, ciganos, estrangeiros.

O PNR tem pelo menos um militante negro nas suas fileiras.
Se diz que o PNR é racista, está a abrir a porta ao facto de o TC em Portugal tolerar um partido racista. O problema não é do PNR, o problema é da democracia portuguesa. Deste ponto de vista, é uma democracia racista, porque tem instituições de topo que permitem a existência de partidos racistas.

Diz que Ventura continua a ser um social-democrata. Ele tem ideologia? Há quem fale em oportunismo.
A ideia de continuar a ser um social-democrata não são palavras minhas, são de um dos fundadores do partido que saiu por considerar que o partido não era radical anti-sistema. Pela investigação que fiz, percebi que Ventura tinha uma cultura política de direita, mas no partido errado. Em Portugal não existia um partido de direita até agora. Não existia um partido como Fratelli d’Italia ou o Vox em Espanha. As pessoas que têm essa cultura política em Portugal estavam diluídas, ou dentro do PSD ou do CDS, que nunca se assumiu claramente como partido de direita. Quando diz que é de direita, é um centro-direita. Mas não creio Ventura que seja um oportunista. Creio que acredita mesmo naquilo que diz.

Outrora Ventura alertou para o risco do populismo penal.
O que reparei é que, de Loures até hoje, há uma radicalização do seu discurso. Esta radicalização explica-se por ele ter entrado no olho do furacão. Quando se torna um político nacional e começa a ser bombardeado pela esquerda e pela comunicação social, isso tem efeitos no seu discurso. Ele nunca recua, apesar de alguns conselheiros lhe dizerem para baixar o tom. Mesmo em episódios que não lhe correram tão bem, como o episódio do Marega e do Quaresma.

"A direita tradicional portuguesa está em muitos maus lençóis", considera Riccardo Marchi

O Chega foi criado por Ventura e o seu círculo mais próximo e teve alguma dificuldade em criar uma identidade e coesão, entre uma linha mais liberal e outra mais nacionalista. Em Abril, o presidente anunciou a demissão e disse que os “ratos têm de abandonar o navio”.
Ventura não vem da extrema-direita tradicional, habituada aos pequenos grupos de franja, ortodoxos, onde são três pessoas e existem quatro correntes. Vem do PSD: de um grande partido de massas. A sua ideia é construir a grande casa das direitas, com diferentes correntes, que roube eleitorado ao PSD, ao CDS e que vá buscar eleitorado à abstenção, mas que também à esquerda insatisfeita.

As lutas entre alas tornaram-se tão fortes que surgiram notícias na Sábado sobre a ala nacionalista. Esta venceu o embate?
Desvalorizo a ideia de que existem duas alas: a moderada e a nacionalista. O Chega é muito flexível nas suas ideias. São dois pilares, mas dois pilares que nos próximos anos se irão modificar bastante consoante o evoluir da base do partido. E Ventura não é ortodoxo nisso. Tem o seu projecto de catch-all party.

A ala nacionalista parece ter vencido o confronto. A infiltração de extrema-direita é uma realidade, como a Sábado noticiou? Ventura tolera-a?
Todas as pessoas que saem do PNR por um determinado período começam a marinar na área dos zangados com o PNR. São vários os que compõem a galáxia da extrema-direita. É muito provável que Luís Filipe Graça [presidente da mesa de convenção do Chega] tenha circulado.

Mário Machado publicou um vídeo no qual sugeriu aos seus seguidores que entrassem no Chega e garantiu que nunca revelaria que estiveram no NOS. Disse também que iria dissolver a organização, porque não faria sentido disputar o mesmo espaço que o Chega.
Não há dúvida que dentro da área da extrema-direita nacional há muitas pessoas que começaram a olhar com interesse para o Chega. É muito fácil a extrema-direita infiltrar o partido. Eles [a direcção do Chega] estão conscientes disso e começaram a preocupar-se. O conselho de jurisdição faz uma triagem a todas as pessoas que se inscrevem, mas duvido que essa triagem possa ter grande eficácia. Estamos a falar de um partido que passou de 700 para 10 mil pessoas e não tem estrutura para filtrar todos os militantes. Ventura sabe deste perigo de infiltração, mas também sabe que o partido cresceu e que esses 10 mil não vêm da extrema-direita tradicional. Vêm do CDS, do PSD, da abstenção. É isso que lhe interessa.

Mas não envia um sinal diferente do que quer ao criar uma triagem ao mesmo tempo que mantém a confiança em Luís Filipe Graça?
André Ventura disse claramente que não tolerava pessoas de extrema-direita que estivessem envolvidas em casos de violência política ou de acções violentas. Um militante do PNR para ele não é problema nenhum. A questão da acção violenta não é o perfil do Luís Filipe Graça, nem do Nelson Dias da Silva [secretário da mesa da convenção que também era o porta-voz da Associação Portugueses Primeiro, de cariz identitário].


No seu livro diz que as redes sociais são estratégicas para o Chega e vemos que os perfis do partido estão repletos de comentários que podem ser considerados de ódio, discriminação e incentivo à violência.
Ele sabe que a radicalidade do seu discurso pode ser atractiva para racistas e xenófobos, mas acredita que o seu papel de líder de partido é evitar que isso aconteça.

Mas o seu discurso cria o problema.
Ele sabe disso. E sabe que por não ter existido nenhum partido de direita que confronte o sistema até agora, quando surge um, aparecem as franjas lunáticas que se sentem atraídas. Tanto que foram tomadas algumas medidas, ainda pouco eficazes. Duvido que tenham um grande efeito.

O discurso do Chega, normalizando discursos e comportamentos, incentiva elementos na margem da extrema-direita a cometerem actos violentos contra ciganos, afro-descendentes, LGBT e militantes de esquerda?
Alguns especialistas dizem que o aumento de partidos de direita radical facilita o aumento de grupos violentos e marginais. Outros dizem exactamente o contrário e acreditam que o surgimento de um partido de direita radical vai secar essas franjas, por ser uma alternativa institucional. O espaço temporal ainda é muito curto, mas vimos que o aparecimento do Chega criou mossa na direita tradicional. Não acho que corresponda a um aumento de violência. No entanto, neste momento, temos uma crise da extrema-direita tradicional coincidente com a chegada do Chega.

O Chega nasceu num momento de crise da direita, com a saída do Paulo Portas do CDS-PP e de Passos Coelho do PSD. A crise tem continuado. O Chega está a capitalizá-la?
De certeza. Estou convencido que vamos assistir nos próximos tempos a uma reestruturação da direita portuguesa. Possivelmente com a chegada de novos actores políticos.

"André Ventura sabe que a radicalidade do seu discurso pode ser atractiva para racistas e xenófobos" DANIEL ROCHA
Mais moderados ou mais radicais?
Os dois, podendo tornar-se mais hegemónicos na ala da direita. Não me espantaria nada se amanhã o CDS desaparecesse do mapa político. É bastante normal que, quando se dá uma reestruturação do mapa político, os partidos tradicionais diminuam ou desapareçam.

Como deveria reagir a direita?
Modernizando-se. Mas se copiar o discurso do Chega corre o risco clássico de perder, com a preferência para o original e não para a cópia. A direita tradicional portuguesa está em muitos maus lençóis. Quer em termos de quadros dirigentes, quer em termos de base. Não me parece que haja dinâmicas inovadoras particularmente interessantes. A Aliança fracassou. [Pedro] Santana Lopes, creio que por uma questão geracional, tentou uma passagem inovadora e populista, mas vinha com uma carreira política de 30 anos. É muito difícil reinventar-se.


Santana Lopes tinha uma longa carreira política, mas a de Francisco Rodrigues dos Santos, presidente do CDS, é recente. E tem aderido a narrativas iguais à do Chega.
O eleitorado em principio prefere sempre o original. Mas não é só isso. Se compararmos Francisco Rodrigues dos Santos com André Ventura em termos de imagem e capacidade de debate duro, Ventura dá dez a um. É muito mais flexível e aberto a moldar o seu discurso dentro das balizas da sua cultura política, claro.

Há uma radicalização da direita mais tradicional desde que o Chega entrou no Parlamento nestas legislativas?
Que a direita portuguesa esteja preocupada pelo efeito do Chega no eleitorado, isso é evidente. Há uma preocupação em relação ao que o Chega poderá fazer, mas eu vejo até o contrário. Acho que há uma tentativa constante de se desmarcarem, de dizerem: “Atenção, aqui temos um maluco. Nós não somos assim”.

O CDS não fechou a porta a uma possível coligação.
Aí pessoalmente acho que o discurso é um bocado mais complicado. Porque, neste momento, todos eles sabem que possivelmente um partido com 6 ou 7% de votos não pode ser posto fora da porta. Portanto, devem ser realistas. Essa capacidade de jogar entre aquilo que pode ser o Chega e aquilo que é realmente demonstra também a habilidade política de um líder. E creio que vários líderes demonstraram pouca habilidade deste ponto de vista.

O Chega também está a pôr em causa, em termos de coesão interna, a liderança do CDS?
Francisco Rodrigues dos Santos pode ver o seu futuro encurtado, se continuar a não demonstrar resultados apreciáveis. As presidenciais e as autárquicas serão episódios muito importantes. Já vimos que o discurso muito menos radical de Assunção Cristas e Adolfo Mesquita Nunes não funcionou. Se o discurso de Francisco Rodrigues dos Santos, um discurso mais à direita, também não funcionar, isso irá piorar a crise do CDS. Mas isso depende menos da posição do partido em relação ao Chega e mais do pacote geral.

Essa estratégia, esse discurso mais populista do Chega e de André Ventura, não se inspira também na de Santiago Abascal, líder do Vox, em Donald Trump, em Bolsonaro? Vê semelhanças no discurso?
Ele não quis fazer uma cópia daquilo que se passava lá fora. Moldaram a imagem e a estrutura do partido ao caso português. Agora estão também a criar relações internacionais e estão a achar interessante, no caso da Península Ibérica, ir falar com o Vox ou, em Itália, com a Liga. Estão a criar estes pontos, mas nunca num sentido de copiar. Em Portugal, principalmente nos novos partidos, não há muito este hábito de copiar uma coisa de fora e importá-la.

Não nos temas, mas na estratégia. Por exemplo, o recurso ao Twitter quando há uma polémica para a comentar, para a capitalizar, para ganhar mediatismo. Acaba por ser semelhante?
A utilização das redes sociais é clara. Foi uma das coisas que permitiram o crescimento do partido. Mas, mais uma vez, isso não é típico da extrema-direita. Hoje em dia, os partidos e os líderes políticos vivem todos das redes sociais, vivem na resposta imediata no Twitter. André Ventura disse: “A minha sorte é ter nascido na época das redes sociais, entrado na política na época das redes sociais”. Ele utiliza-as como qualquer outro político da sua geração. A vantagem dele é que há muita gente a meter-se com ele. É impressionante a quantidade de cantores e actores que o fazem. Para ele, é uma bandeja, é uma prenda que lhe dão todos os dias: quando uma figura pública o ataca, abre-lhe a possibilidade de ripostar imediatamente. E isso dá-lhe visibilidade.

Falava nas relações internacionais do Chega, mas não explora isso no livro, porque diz que está no início. O partido não as tem? Está isolado a nível internacional?
Está numa fase embrionária, mas os partidos de direita já começam a olhar com interesse para o Chega, porque as sondagens o põem como terceira força política, para fortalecimento dos dois grupos de direita radical nas eleições europeias: os Conservadores Reformistas e Identidade e Democracia. Não tenho dúvidas que terão mais interesse no Chega, o que facilitará a criação de redes internacionais. O Chega já se está a mexer em várias direcções, com o Vox, com a Liga com os republicanos nos EUA. Acho que ainda está a estudar onde tem mais facilidade de se inserir.

Acha que em Portugal os partidos devem criar um cordão sanitário contra o Chega?
Em alguns países, a ideia de cordão sanitário funciona há anos. É o caso de França com a Frente Nacional. Noutros países, como Áustria e Itália, não houve cordão sanitário. Não podemos dizer que a democracia francesa é melhor do que a austríaca ou italiana. Depende muito das estratégias locais de cada país. Em países onde a extrema-direita radical está dentro do Parlamento com deputados fortes, o cordão sanitário não funciona.

Se, em 2023, for possível fazer um Governo de direita entre PSD, CDS, IL e Chega, não imagino os partidos a recusarem ser Governo por causa dos votos do Chega. Esta relação funciona sempre de duas formas: em muitos casos, quando um partido de direita radical entra no arco de governação, são muito mais os efeitos sobre ele, que tende a moderar o seu discurso. Pode influenciar numa linha geral o Governo, mas só em pontos característicos, como na lei da imigração, nacionalidade. Não diria de todo que o princípio absoluto é o cordão sanitário.

Confessa que até às legislativas não prestou grande atenção ao Chega, por entender que não teria sucesso. O que mudou?
André Ventura ser eleito. A sua eleição representa o fim do “excepcionalismo” que Portugal representava e transmite-se também para fora de Portugal. Não me tinha chamado a atenção, porque a estratégia discursiva de André Ventura não era muito diferente de outros actores políticos que já existiam na direita. Houve sempre actores que culturalmente não pertenciam à extrema-direita, podiam pertencer à direita e ao centro e usavam esse discurso de protesto. Enquadrava André Ventura nesta tipologia. Com a sua eleição isso muda tudo, porque é caracterizado como direita dura e escolhe uma estratégia de não-negação. Não diz que é de centro, ou que não lhe interessa direita-esquerda e diz também ‘somos a direita anti-sistema’. E isso muda muito em relação aos outros partidos.

Quais foram as principais lições que André Ventura retirou? O PNR teve 27 mil votos no máximo, o Chega teve 66 mil.
O resultado do Chega não é espalhafatoso. Estamos a falar de 1,3% dos votos. Não é a primeira vez que um partido obtém este resultado. André Ventura nasce como político nacional em Loures, em 2017. Dá-se conta de que o discurso de ruptura e confrontação com o politicamente correcto tem margem de manobra e funciona em Portugal. Depois, dá-se conta de que dentro do PSD não iria ter futuro politico. Então decide sair do PSD e apostar no facto de ser possível criar alguma coisa totalmente nova, porque quer essa proposta fora do que é a extrema-direita tradicional portuguesa.

Refere que muitos do ciclo próximo do Chega dizem que o partido é no fundo “o projecto do André” e, ainda que permita uma vasta discussão no seu círculo, no final são as decisões dele que vingam.
Até este momento, o Chega é um partido personalista. Porque ainda funciona muito através do instinto político de Ventura. Até agora tudo lhe correu bem. As sondagens estão a aumentar, está nas primeiras páginas dos jornais.

Ventura é um radical do Chega?
Neste momento é o estratega mais eficaz do partido. Se desde a eleição de Outubro até hoje o Chega tivesse caído ou ficado parado no 1%... Mas ser personalista é uma fraqueza também.

Qual é a verdadeira ameaça do Chega para a esquerda? O PCP poderá ter perdido votos para o Chega no Alentejo.
Há uma sobreposição geográfica, mas não podemos dizer que tenha existido uma transferência de votos. É fácil que Ventura vá buscar votos à esquerda, porque também está determinado a entrar na agenda de esquerda. Há uma crise na esquerda e isso gera insatisfação nas bases eleitorais. Ventura não quer fechar-se no espectro da direita.

Fala das periferias, deste eleitorado do interior e dos subúrbios das grandes cidades, também devido ao abandono da esquerda de determinados temas em detrimento de outros. Acha que o Chega pode ser defensor destas camadas populares, quando vimos que o Chega tem dirigentes ligados ao imobiliário? Como é que vê este conflito de interesses? Se é que vê um…
É melhor não falarmos de conflito de interesses no sector imobiliário, porque aí a direita e a esquerda têm problemas transversais. O Chega é o clássico partido liberal de direita que quer apostar muito na classe média, na classe média-baixa, quer libertar a população portuguesa do peso do Estado, da fiscalidade. Neste momento tem um problema: o programa foi bombardeado por o terem feito muito à pressa, não reflectiram muito. Acabaram por passar a mensagem que queriam eliminar o SNS e a Escola Pública, que devia ser tudo privatizado.

Está bastante explícito.
Sim. Está explicito mais ou menos. Porque a ideia é a seguinte: deve ser garantida a universalidade e a gratuidade do SNS e da Educação pelo Estado, através dos impostos. Mas quem presta o serviço não deve ser o Estado, deve ser o privado.

Isso são os cheques-ensino, que praticamente é uma privatização.
Não é praticamente, é uma privatização.

Caracteriza o i e o SOL como meios de comunicação social “simpáticos” para com o Chega; enquanto o PÚBLICO e o Polígrafo/SIC são “adversos” e diz que o Diário de Notícias “assumiu a primeira linha de ataque ao partido”. Porque é que dá a entender que a comunicação social se dividiu nestas posições?
Isso vem do testemunho dos dirigentes do Chega, é o panorama que eles me transmitiram das relações com os media, que no fundo bate certo quando uma pessoa vê ou lê os artigos sobre o Chega nos diferentes media. A ideia de que o André Ventura é uma criação do grupo Cofina por ter sido comentador na CMTV e na Sábado, órgãos que caíram em cima de André Ventura que perdeu o lugar na CMTV, tem muito que se lhe diga. O jornal i e o SOL são claramente favoráveis, É difícil encontrar neles artigos a atacar André Ventura ou a tratar o Chega como xenófobo e racista. O Observador uma vez lixa, outra vez bate. Porquê? Porque tem medo de ser identificado como porta-voz da direita-radical em Portugal. O Diário de Notícias não tem relações com o Chega, não procura o Chega, não quer saber o que é que faz ou o que diz. Mas está na primeira linha, com os artigos da Fernanda Câncio, contra o André Ventura.

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