IMAGENS DE OVOODOCORVO
EDITORIAL
O PCP e a “estigmatização” da Festa do Avante!
Os que, à esquerda, à direita ou ao centro acham um erro
colossal organizar uma festa aberta à presença de 33 mil pessoas não podem ser
vistos como mentores de uma “campanha que visa condicionar a actividade do PCP,
o exercício de liberdades”.
MANUEL CARVALHO
14 de Agosto de
2020, 22:28
https://www.publico.pt/2020/08/14/politica/editorial/pcp-estigmatizacao-festa-avante-1928148
A esperteza do
PCP para transformar um evento com duas horas de comício e dias inteiros de
música num acontecimento político com uma faceta lúdica (quando sabemos que é o
contrário) causa espanto ou irritação. Mas ainda mais espantoso e irritante é a
soberba com que o partido acusa de tentativa de “estigmatização” todos os que
suspeitam desta habilidade para contornar as regras prudenciais de saúde
pública. Os que, à esquerda, à direita ou ao centro acham um erro colossal
organizar uma festa aberta à presença de 33 mil pessoas não podem ser vistos
como mentores de uma “campanha que visa condicionar a actividade do PCP, o
exercício de liberdades” ou a “defesa dos interesses dos trabalhadores e do
povo”. Não pode haver zelo com a covid-19 para uns e condescendência para
outros.
Que o PCP
deprecie o seu capital de credibilidade e se coloque no papel de videirinho que
sabe dar a volta às restrições que proibiram concertos, jogos de futebol ou
festas populares pelo país fora é uma coisa; que queira agora colocar os que
criticam essa opção numa frente unida para limitar os seus direitos políticos é
uma coisa diferente. No primeiro caso, o PCP terá de responder aos seus
militantes e simpatizantes, correndo o risco de, como hoje bem faz notar João
Miguel Tavares, dar prendas aos seus adversários; no segundo, o PCP tem de
aceitar a crítica no plano da situação extraordinária e perigosa que estamos a
viver e abdicar do queixume e do papel de vítima tão falso quanto ridículo.
De resto, vale a
pena fazer notar o empenho com que o PCP tenta dar resposta aos que protestam
contra um cenário de concentração de milhares de pessoas na festa. A redução
para um terço da lotação do espaço, o limite de novos palcos ou a lista
minuciosa de medidas de segurança que o partido se tem esforçado por comunicar
não são uma resposta à “estigmatização” política, mas aos receios do contágio
pelo coronavírus. Mesmo sabendo que a eficiência da organização, a disciplina e
devoção dos militantes ou a capacidade de fazer cumprir regras do PCP serão
capazes de mitigar os perigos, todos sabemos que o partido teria mil
alternativas de fazer o seu trabalho político sem o risco da festa que propõe.
Com a DGS, o
Governo e as autoridades de mãos atadas pela suposta natureza política da
festa, o PCP vai levar mesmo a sua teimosia avante. Não venha agora dizer que
os protestos contra essa óbvia ameaça à saúde pública são uma campanha da
reacção, do capitalismo ou dos inimigos do povo. Se querem ser
irresponsáveis, assumam-no.
OPINIÃO
Festa do Avante! é uma prenda do PCP para o Chega
O português comum olha para aquilo com o ar de que os
comunistas se acham mais do que os outros. E assim, para o PCP ganhar mais umas
massas, o Chega vai ganhar mais alguns votos.
JOÃO MIGUEL
TAVARES
15 de Agosto de
2020, 0:00
https://www.publico.pt/2020/08/15/politica/opiniao/festa-avante-prenda-pcp-chega-1928116
Há quem pense que
a ascensão do Chega, por ser um partido de direita, vai sobretudo penalizar os
resultados eleitorais do CDS e do PSD. Sem dúvida que algum eleitorado mais
conservador do CDS poderá sentir-se atraído por Ventura. Mas quando olhamos
para o mapa eleitoral do Chega nas últimas legislativas, aquilo que sobressai
não é isso. O partido que parece estar a ser mais directamente ameaçado pela
ascensão do Chega não é o CDS, nem o PSD – é o PCP. Basta ver que foi no Sul, e
não no Norte, que o Chega obteve, de longe, a maior percentagem de votos.
As diferenças,
vistas à escala de um pequeno partido, são impressionantes. No Porto, o Chega
obteve 0,6% dos votos. Em Lisboa, 2%. Em Braga obteve 0,68%. Em Portalegre
obteve três vezes mais: 2,73%. Em Bragança, Vila Real ou Viana do Castelo, o
Chega ficou-se pela casa dos 0,7 ou 0,8%. Em Beja, Évora, Santarém ou Faro,
superou sempre a barreira dos 2%. Ora, como é que se explica que um partido que
é apelidado de fascista, salazarista e conservador, que nunca perde uma
oportunidade para exibir o seu catolicismo ou de levantar o bracinho direito de
forma ambígua, acaba a cativar não o eleitorado da Braga dos arcebispos, mas o
eleitorado do Alentejo dos latifúndios?
Não é preciso
ser-se doutorado em Ciência Política para perceber porquê: aquilo que mais
importa no Chega não é a dicotomia esquerda/direita, mas a dicotomia
sistema/anti-sistema. É isso que define o partido e é isso que mobiliza o seu
eleitorado. O programa económico hiperliberal que o Chega apresentou nas
últimas eleições já está a forrar o caixote da Acácia, a coelhinha de André
Ventura. Agora, o Chega é outra coisa, até porque não precisa de ser coisa
alguma – o seu negócio eleitoral é apenas opor-se ao que existe. E, nesse
sentido, quanto mais aquilo que existe cheirar a privilégio e encaixar na
lógica do “nós contra eles”, mais o Chega factura.
É por isso que a
Festa do Avante! é uma excelente prenda do Partido Comunista para André
Ventura. A história dos 100 mil espectadores, mesmo que reduzida a um terço,
surge como uma benesse inaceitável que os partidos políticos concedem a si
próprios, e é terreno aberto para infindáveis conversas sobre o apodrecimento
do sistema e a quebra do contrato entre os partidos e o povo – que o Chega, claro,
se propõe agora restaurar. Uma conversa que é muito apelativa pela simples
razão de quem tem muito de verdadeira. Curiosamente, durante 40 anos de
democracia, esse discurso era um quase exclusivo do PCP. Aos poucos, deixou de
ser.
Até 2015, o
partido que para as pessoas mais pobres e desprotegidas representava o
anti-sistema em Portugal era, apesar de tudo, o PCP. O partido da cassete era o
partido que nunca quebrava, nem torcia. Deixou de ser assim com a “queda do
muro” alcançada por António Costa, e também pela erosão natural do tempo. Em
bom rigor, até podemos dizer que esta Festa do Avante! é uma iniciativa
anti-sistema; uma rebeldia contra a ditadura do medo na era covid. Infelizmente
para o PCP, só mesmo os seus militantes e alguma direita (ler, por exemplo, o
texto de Henrique Raposo no Expresso: “Avante!: dez razões para a festa
avançar”) é que conseguem ver a coisa dessa forma. O português comum olha para
aquilo com o ar de que os comunistas se acham mais do que os outros e reclamam
privilégios que estão vedados ao comum dos mortais. E assim, para o PCP ganhar
mais umas massas, o Chega vai ganhar mais alguns votos. É um mau
negócio.



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