METEOROLOGIA
Portugal pode ter terceira onda de calor em Abril e
quebrar recordes
Sul do país pode atingir temperaturas de 35 graus Celsius
em semana especialmente quente para Abril, de acordo com o IPMA. “Vamos na
terceira onda de calor, se esta se confirmar”, diz meteorologista.
Nicolau Ferreira
24 de Abril de
2023, 19:58
Temperaturas vão aumentar na maioria do território
A última semana
de Abril começou quente e vai continuar a aquecer. Um anticiclone situado entre
o arquipélago da Madeira e o continente vai influenciar a meteorologia em
grande parte da Península Ibérica, podendo provocar novos recordes de
temperatura máxima e produzir a terceira onda de calor vivida durante este mês
em Portugal continental.
“A tendência é
para a temperatura ir subindo gradualmente, em particular a temperatura máxima,
com os valores mais elevados estimados para quinta-feira”, explicou Bruno Café,
meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) que falou ao
PÚBLICO. “A subida de temperaturas é generalizada”, acrescentou.
As regiões do
Norte e do Centro deverão atingir valores entre os 27 e os 32 graus Celsius. A
região Sul poderá atingir valores entre os 30 e os 35 graus. Apenas o litoral
Norte deverá sentir uma subida de temperatura menos acentuada, com máximas a
rondarem os 24 e 25 graus.
“Temos um
anticiclone localizado junto a Portugal continental, com o transporte de uma
massa de ar mais quente particularmente na região mais a sul”, explica o
meteorologista. “A região [do litoral] Norte tem uma componente mais marítima,
daí as temperaturas não atingirem valores tão altos.” A partir de sexta e
sábado, as temperaturas poderão descer um pouco.
Mas no Sul poderá
haver quebras do recorde de temperaturas. Beja é um exemplo. A média da
temperatura máxima para aquela cidade alentejana é de 20,5 graus no mês de
Abril, tendo em conta o intervalo de 30 anos entre 1981 e 2010. Estas médias
“escondem os valores extremos”, recorda Bruno Café, explicando que há já alguns
anos que as últimas semanas de Abril se parecem com as do mês de Maio.
Será que o
corrente mês de Abril irá tornar-se o mais quente desde que há registo? “Ainda
não temos nada oficial em relação a esta situação. No final do mês é feito um
boletim de Abril”, responde Bruno Café. O mês de Abril mais quente de sempre
foi em 1945, quando a temperatura média foi de 17,19 graus, seguido de 2011,
com uma temperatura média de 17,10 graus.
Primavera em Beja com 36 graus
Neste momento, o
recorde da temperatura máxima em Beja para Abril foi de 33,2 graus, em 1945. No
entanto, a previsão para quinta-feira é de que a temperatura atinja os 36
graus. Évora é outra cidade que pode viver um novo recorde na quinta-feira. A
média da temperatura máxima para Abril é de 18,5 graus. Em 2008, a cidade
atingiu o recorde de 32,4 graus para aquele mês. E agora poderá atingir os 34
graus.
“Vamos na
terceira onda de calor, se esta se confirmar”, sugere ainda o meteorologista,
recordando que entre 2 e 11 de Abril se viveu a primeira onda de calor, que
atingiu metade das estações meteorológicas da rede do IPMA para o território
continental, e entre os dias 15 e 20 viveu-se a segunda. Uma onda de calor
ocorre quando durante seis dias seguidos as temperaturas máximas estão, pelo
menos, cinco graus acima da média da temperatura máxima para aquele mês.
Uma notícia no
jornal espanhol El País dava conta da mesma situação de calor no país vizinho,
onde na quinta-feira regiões como “a província de Córdova e boa parte de
Sevilha poderiam atingir os 36 e os 38 graus” respectivamente.
De novo, a seca e o El Niño de volta
No boletim
intercalar sobre seca que o IPMA publicou a 21 de Abril, lia-se que a
temperatura máxima do ar estava “quase sempre acima do valor médio mensal”.
Quanto ao estado de hidratação dos solos, a situação tinha piorado nos
primeiros 15 dias do mês, com uma “diminuição significativa da percentagem de
água no solo em todo o território”.
Aquela evolução
fez estender a seca meteorológica até ao Centro e interior Norte do país. Ao
todo, 78,2% de Portugal continental já estava em seca a 15 de Abril, com “um
aumento da intensidade da seca meteorológica na região Sul, predominando as
classes de seca severa [18,6% de Portugal continental] e extrema [10,1% do
continente]”, salienta o boletim.
“Estamos a entrar
de novo num período difícil”, disse Maria do Céu Antunes, ministra da
Agricultura e da Alimentação, numa reunião da Comissão Permanente de Prevenção,
Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca, sexta-feira última. A
situação a meio de Abril “já se faz antever muito difícil”, diz a ministra,
citada pela agência Lusa.
O Alentejo e o
Algarve foram as regiões faladas durante a reunião. A ministra, juntamente com
Duarte Cordeiro, ministro do Ambiente e da Acção Climática, anunciou medidas
contra a seca. Algumas delas ligadas à actividade agrícola, como a interdição
de novas instalações de culturas permanentes em Mira. “Não vamos permitir regar
nomeadamente as áreas que também não tiveram rega em 2022”, acrescentou ainda a
ministra.
Em termos de
seca, Portugal acompanha a tendência de parte do continente. Ao todo, 28% do
território analisado pelo Observatório Europeu da Seca (EDO) – que, além da
Europa, compreende a região asiática da Turquia, o Cáucaso e o Norte do Magrebe
– estava num estado de seca nos primeiros dez dias de Abril. As zonas mais
afectadas distribuíam-se pelos quatro cantos da região, mais especificamente na
Península Escandinava, no Norte da Polónia, no extremo do Leste da Europa, na
Turquia e no Cáucaso, no Norte de Itália e Sul de França, em boa parte de
Espanha, e ainda no Norte de Marrocos, da Argélia e da Tunísia.
A nível mundial,
depois de três anos em que o fenómeno La Niña esteve activo no oceano Pacífico,
diminuindo a temperatura à superfície das águas, teme-se que o fenómeno
inverso, o El Niño, se estabeleça nos próximos meses, o que poderá levar a um
aumento da temperatura média mundial já em 2023.

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