EDITORIAL
O que Marcelo e Santos Silva deviam ter dito
Se não responsabilizarmos o Governo pela degradação da
política, pela erosão das instituições e pelo consequente fulgor do populismo,
estaremos a fugir à realidade.
Manuel Carvalho
25 de Abril de
2023, 19:52
https://www.publico.pt/2023/04/25/politica/editorial/marcelo-santos-silva-2047415
É muito provável
que o deputado Rui Tavares tenha razão quando diz que a nossa democracia vive o
maior “risco à sua existência desde o período pós-revolucionário”. As duas mais
altas figuras do Estado, o presidente da Assembleia da República e o Presidente
da República não o subscrevem com todas as letras, mas o que disseram na sessão
solene do 25 de Abril não fica longe desse alarme perante a aceleração da
degenerescência democrática.
Não é só a
má-criação e falta de sentido de Estado da direita populista que o sugere:
quando Augusto Santos Silva invoca o “tempo da democracia” e Marcelo recorda o
“tempo da esperança”, o que pretendem é fornecer antídotos para travar uma onda
tóxica. Os dois discursos (desta vez Augusto Santos Silva superou Marcelo em
brilhantismo) expressam o mal-estar crescente entre a maioria socialista e o
Governo, por um lado, e o Presidente por outro. Mas seria um desperdício lê-los
apenas à luz da pequena política.
Separadamente,
ambos têm razão. O país político está demasiado ansioso e “ofegante”, o que,
como disse o presidente da AR, decorre do contágio populista. Com um ano de
exercício do poder e com uma maioria estável no Parlamento, é absurdo dar corda
ao populismo e admitir um cenário de dissolução — o Presidente não o defende ou
quer, mas alimenta por excesso este cenário. Por muito que a frustração se
multiplique, notou Marcelo, a democracia mitiga-a com a “esperança na mudança”.
Importa saber esperar pelos tempos e as esperanças da democracia e evitar uma
queda no precipício do sectarismo, onde fica o pântano populista.
Mas se tudo isto
é verdade, convém não cair na tentação de atribuir todas as culpas pela crise
(económica, mas também ética), ao extremismo populista. O Chega tem as costas
muito largas, mas não é responsável por tudo o que de mau se passa. É aqui que
o tempo da democracia e o tempo da esperança se cruzam com a responsabilidade
de quem governa.
O que faltou
dizer a Marcelo e a Santos Silva é que as ameaças ao tempo, às regras
institucionais, à necessidade de uma “respiração pausada” ou ao pluralismo vêm
em grande parte do Governo. O caso TAP, a impunidade dos poderosos e o estilo
pasmaceiro e complacente de António Costa não justificam a histeria do Chega,
que se estendeu a uma parte do PSD e à nova liderança da IL ou à imprensa — a
histeria do Bloco é outra coisa. Mas se não responsabilizarmos o Governo pela
degradação da política, pela erosão das instituições e pelo consequente fulgor
do populismo, estaremos a fugir à realidade.

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