Quatro décimos de grau
Devemos ficar surpreendidos com a denúncia desesperada de
uma geração jovem a quem o presente é negado e o futuro aniquilado de forma
definitiva e irreversível?
19 de Dezembro de 2022, 0:30
https://www.publico.pt/2022/12/19/opiniao/opiniao/quatro-decimos-grau-2031629
No presente, a
temperatura do planeta Terra encontra-se a quatro décimos do limite
oficialmente reconhecido como possível ponto de não retorno (1) nas alterações climáticas.
As consequências
e os efeitos nos últimos anos deste patamar de 1,1 graus onde nos encontramos
são tão evidentes no nosso quotidiano que as irresponsáveis atitudes
negacionistas transitaram para a dimensão das patologias do foro psiquiátrico
definidas pelo delírio.
E, no entanto,
apesar de todos os consensos alcançados nas cimeiras de Paris e Glasgow, os
países produtores de petróleo conseguiram neutralizar, apoiados por um exército
de mais de 600 lobistas dos combustíveis fósseis (2) na COP-27, qualquer tipo de progresso,
relativizando a fasquia para o patamar dos dois graus.
Com a próxima
cimeira a tomar lugar nos Emirados Árabes Unidos, as perspectivas são tão
negras como a cor do petróleo e tudo indica que a velocidade na “auto-estrada
do Inferno” (3) só irá aumentar.
As cheias de
Lisboa,(4) ponto extremo climático, inserem-se
nos padrões previstos pelos cientistas no nosso futuro e, no seu contraste
oscilante entre períodos de seca acentuada e pluviosidades diluvianas
repentinas, representam novos padrões de imprevisibilidade.
Claro que os
planos de drenagem (5) são imperativos e urgentes,
mas a dimensão da ameaça transcende a ideia de um episódio esporádico possível
de ser gerido de forma “normal”.
Devemos, então,
ficar surpreendidos com a denúncia desesperada de uma geração jovem (6) a quem o presente é negado e o futuro aniquilado de
forma definitiva e irreversível?
Dediquei
anteriormente uma série de artigos a estas urgentíssimas questões.
Num deles,
intitulado “Greta”,(7) baseando-me num artigo (8) da Spiegel, escrevi: “Greta é comparada ao famoso
Neo do Matrix, o qual é exposto à escolha entre tomar a pílula azul, que o irá
levar ao esquecimento ‘normalizado’ de uma verdade escondida, e a pílula
vermelha, que o irá levar ao conhecimento sem filtros da mesma verdade. Greta
optou pela pílula vermelha.”
Esta consciência
nua e autêntica do desafio definitivo e extremo de escolha de sobrevivência e
de uma urgência que não permite relativizações é o “cris de coeur” que motiva
toda uma geração jovem.
Não se trata,
portanto, de uma posição ideológica, ou que possa ser colocada num binómio de
esquerda ou de direita.
Quando se atinge este ponto de lucidez e de autêntica
consciência ecológica, atinge-se um ponto de não retorno, onde é impossível
continuarmos a alienarmo-nos da verdade e a enganar os outros
E, agora, vou
surpreender-vos, com o exemplo de uma personagem que, no seu longo percurso de
coerência ilustrada nas suas iniciativas concretas ao longo dos anos,
encontra-se no presente também amordaçada e inibida por outros sentidos de
dever determinados pela sua posição actual.
Embora ele esteja
no pináculo simbólico do sistema, na sua posição de rei, ele é simultaneamente,
e paradoxalmente, nas questões ambientais, um símbolo vivo de anti-sistema.(9)
Refiro-me a
Carlos III,(10) rei do Reino Unido. Ele ilustra
o posicionamento que transcende as definições políticas e, tal como Greta,
optou de forma inegável pela pílula vermelha.
Quando se atinge
este ponto de lucidez e de autêntica consciência ecológica, atinge-se um ponto
de não retorno, onde é impossível continuarmos a alienarmo-nos da verdade e a
enganar os outros.
Historiador de Arquitectura
2- https://www.publico.pt/2022/11/17/azul/noticia/tanto-greenwashing-onu-acaba-dar-passo-2027964
3- https://www.publico.pt/2022/11/07/azul/noticia/cimeira-clima-autoestrada-inferno-guterres-2026751
6- https://www.publico.pt/2022/11/21/azul/noticia/ocupacoes-esperanca-jovens-movimento-2028184
7- https://www.publico.pt/2019/10/10/opiniao/opiniao/greta-1889489
9- https://www.youtube.com/watch?v=aSkUhB4EymI


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