terça-feira, 16 de junho de 2020

Um problema chamado Mário Centeno / Não há crime, disse ele



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EDITORIAL
Um problema chamado Mário Centeno

Na vida pública, o que parece, por vezes, é, e Mário Centeno jamais deixará de parecer o que, de facto, foi: um ministro que trocou o Governo pelo BdP. Tem tudo para correr mal.

MANUEL CARVALHO
16 de Junho de 2020, 5:30

Mário Centeno tem todas as competências técnicas e credibilidade para ser o próximo governador do Banco de Portugal (BdP). Pelo seu passado recente nas Finanças, é merecedor do lugar que ambiciona. Mas, mesmo que haja concordância nestas duas premissas, Mário Centeno não deveria ser nomeado pelo Governo para esse cargo.

Porque o trânsito de um papel no Governo onde geriu as finanças públicas, onde tomou decisões com impacte no sistema financeiro e onde deixou um dos seus delfins não garante a indispensável distância e independência que se exige a um regulador; porque vai contribuir para a sensação recorrente de que o Governo e o PS têm uma persistente tentação em controlar todas as instâncias de poder; e porque a sua mais do que provável indicação para o cargo deixa no ar a sensação de que em causa está um prémio pessoal, a expensas da coisa pública, que não cabe em nenhuma das categorias da ética republicana.

Mário Centeno pode, na aparência, ser uma solução para o BdP, mas, na realidade, é um problema. Para ele, que, ao deixar o Governo num dos momentos mais críticos da vida do país, se vai embrulhar na legítima, embora provavelmente injusta, suspeita de que trocou a responsabilidade de gerir a crise por um bom emprego.

Para o Governo, que se vai contaminar na igualmente legítima suspeita de que gosta de ser uma agência de empregos. Para o ministro João Leão, que terá mais dificuldade em deixar de ser visto como uma criatura do eventual futuro governador. E, ponto crítico, para a supervisão, que volta a ser vista como uma teia de suspeições feita de vínculos políticos ao Governo e de boas relações pessoais.

Passos Coelho chamou para o cargo Carlos Costa, um homem com um passado profissional longo e credível e um distanciamento da política notório e nem isso bastou para que muitas das suas decisões caíssem no crivo das acusações do favor político. Centeno não terá a mesma margem. Até porque terá certamente de agir sobre decisões ou contextos que têm a sua chancela de ministro.

E depois de o Parlamento ter aprovado na generalidade um período de nojo para o trânsito da política para a supervisão, uma manobra duvidosa mas com impacte na opinião pública, Centeno será sempre avaliado à luz do seu passado político e não na perspectiva das suas competências para a supervisão. Na vida pública, o que parece, por vezes, é, e Mário Centeno jamais deixará de parecer o que, de facto, foi: um ministro que trocou o Governo pelo BdP. Tem tudo para correr mal.

OPINIÃO
Não há crime, disse ele

A nomeação de Mário Centeno para governador do Banco de Portugal é um espelho do nosso atraso institucional. Há crime? Não há. É politicamente criminoso? Sem dúvida que é.

JOÃO MIGUEL TAVARES
16 de Junho de 2020, 0:10

Para defender a ida de Mário Centeno para o Banco de Portugal, e para o proteger daquilo que diz ser uma lei ad hominem aprovada no Parlamento, António Costa perguntou ontem aos jornalistas: “Mário Centeno cometeu algum crime?” Vale a pena pararmos um bocadinho para reflectir sobre esta frase, porque não é todos os dias que alguém diz tanto com tão pouco. A pergunta tem apenas cinco palavras, mas ela é um resumo perfeito de cinco séculos de atraso português.

O maior dos défices deste país não é económico, nem financeiro, nem cultural, nem social – é institucional. As instituições portuguesas são más, estão politizadas, são subservientes e medrosas, estão intelectualmente depauperadas e a razão da sua falta de independência está à vista de todos – o poder político abocanha, sem qualquer espécie de pudor, tudo o que pode abocanhar. Abaixo de crime – é essa a triste consequência das palavras do primeiro-ministro – vale tudo, e assim sendo, aquilo a que se costuma chamar “conflito de interesses” não tem qualquer razão para existir. O conflito de interesses não é punido pelo Código Penal, logo, só mesmo um malévolo desejo de “perseguição” (António Costa repetiu várias vezes o verbo “perseguir”) pode justificar tanta crítica à súbita transformação de um ministro das Finanças em governador do Banco de Portugal.

Há apenas um detalhe mal resolvido. Se o conflito de interesses não existe, e se abaixo de crime vale tudo, então por que raio é que o Código de Conduta dos Membros do Conselho de Administração do Banco de Portugal dedica 15 pontos – quinze longos pontos – a prevenir um conflito inexistente? Ali está definido o seu significado, o que talvez aproveite a António Costa, e ali está explicada a necessidade de “evitar situações de que possam resultar conflitos de interesses ou que sejam susceptíveis de colocar em causa a imagem e reputação do Banco”.

Segundo o código de conduta, o impacto das decisões do Banco de Portugal “na evolução dos mercados e na estabilidade do sistema financeiro” exige aos membros do conselho – e, por extensão, ao governador – que estejam “sempre em posição de poderem actuar com plena independência, isenção e imparcialidade”. E, para isso – ponto 5.4 –, eles “devem considerar-se impedidos de participar na discussão e votação de deliberações que envolvam matérias nas quais possa estar em causa um conflito de interesses”.

Agora pensem comigo: entre as “milhões de decisões” que Mário Centeno garantiu ter tomado ao longo dos últimos cinco anos, quantas disseram respeito à banca? Resolução do Banif, dinheiro para o Novo Banco, capitalização da Caixa Geral de Depósitos, as relações com a Parvalorem, os 600 milhões que no ano passado foi preciso injectar no antigo BPN, já para não falar nas críticas directas e indirectas ao próprio Banco de Portugal. Mário Centeno pôs a sua assinatura, ou a sua boca, em cada uma daquelas decisões. Como é que vai ser quando ele for governador? Vai declarar-se impedido de debater e de votar as questões mais sensíveis do sistema financeiro português, sobre as quais andou a decidir desde 2015?

“Qual foi o crime?”, perguntou António Costa. “Foi ter sido membro do Governo? Foi ter sido cinco anos ministro das Finanças?” A resposta é: sim, senhor primeiro-ministro, foi por ter sido tudo isso. A nomeação de Mário Centeno para governador do Banco de Portugal é um espelho do nosso atraso institucional. Há crime? Não há. É politicamente criminoso? Sem dúvida que é.

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