quinta-feira, 27 de abril de 2023

O PS jamais deixará o PSD afastar-se do Chega

 



OPINIÃO

O PS jamais deixará o PSD afastar-se do Chega

 

Por muito que os políticos e os comentadores insistam em apontar o dedo ao Chega, eu insisto – desculpem lá – em olhar para o PS.

 

O PS não está interessado em proteger a democracia portuguesa. Está, como sempre esteve, interessado em manter o seu poder. Enquanto a direita não meter isso na cabeça, não passará de um pobre figurante no teatrinho do Chega e do PS. Aconteceu a 25 de Abril de 2023. Voltará a acontecer.

 

João Miguel Tavares

27 de Abril de 2023, 0:11

https://www.publico.pt/2023/04/27/opiniao/opiniao/ps-jamais-deixara-psd-afastarse-chega-2047531

 

Marcelo chamou à presença de Lula da Silva no 25 de Abril “uma coincidência feliz”. Só que não foi coincidência, nem foi feliz. Não foi coincidência porque Lula discursou no 25 de Abril por sugestão do próprio Marcelo – nesse sentido, o que aconteceu no Parlamento é resultado directo da sua imprudência política e da sua insensibilidade em relação ao tema da corrupção. Não foi feliz porque aquele triste espectáculo foi o enésimo confronto entre os alegados fascistas e os alegados resistentes ao fascismo, um teatrinho lamentável que está a ser alimentado por ambas as partes.

 

Com esta estratégia, o Chega puxa para si toda a exposição mediática e risca a oposição do mapa – só se fala do Chega, dos gestos do Chega, do radicalismo do Chega, ou, no caso dos fãs, da coragem do Chega. O PS aproveita para dramatizar os perigos da extrema-direita e alertar contra as “excitações populistas” (palavras de Santos Silva), festejando qualquer palhaçada que desvie as atenções da desgraça que tem sido a sua governação.

 

A partir daí, é tudo uma questão de palato. Os que estão mais habituados a frequentar os salões respeitáveis da cidade ficam doidos com as aleivosias do Chega e estão convencidos de que o Armagedão está próximo, porque não há combate à corrupção que justifique a falta de maneiras. Aqueles que acreditam que o PS é o grande responsável pela degradação da democracia pasmam diante da lata com que a velha tralha socrática enche agora a boca com a dignidade das instituições, e acabam a gastar o stock de sais de fruto quando ouvem Augusto Santos Silva gritar para a bancada da extrema-direita: “Chega de degradar as instituições! Chega de porem vergonha no nome de Portugal!”

 

Isto vindo do braço direito de um primeiro-ministro que tentou obsessivamente controlar a banca, as grandes empresas, os reguladores, a justiça e a comunicação social tem, digamos, uma certa graça. O presidente da Assembleia da República exige “urbanidade, cortesia e educação”, que são certamente excelentes valores. Mas esta ideia de que se pode fazer todo o tipo de nojeira nos bastidores e ainda assim manter a reputação de político respeitável pela simples razão de que se manteve a urbanidade, a cortesia e a educação é uma daquelas coisas que nunca me entraram na cabeça, por mais que tenham tentado explicar-me (e tentaram).

 

Portanto, por muito que os políticos e os comentadores insistam em apontar o dedo ao Chega, eu insisto – desculpem lá – em olhar para o PS. Nunca do lado do Chega virá alguma coisa de jeito, e é verdade que a sua linguagem, postura e ideias degradam a democracia. Mas o PS, porque tem muito mais poder, está neste momento a degradá-la muito mais. Luís Montenegro é insensato ao morder o isco das exigências da esquerda sobre a necessidade de se afastar do Chega. Por mais declarações de repúdio que faça, o PS nunca deixará o PSD libertar-se de Ventura. Aos olhos socialistas, as declarações de Montenegro serão sempre “equívocas” (António Costa) ou “dúbias” (Eurico Brilhante Dias), pela simples razão de que, quanto mais desesperado estiver o PS, mais se agarrará ao espectro do Chega como a sua última bóia de salvação.

 

O PS não está interessado em proteger a democracia portuguesa. Está, como sempre esteve, interessado em manter o seu poder. Enquanto a direita não meter isso na cabeça, não passará de um pobre figurante no teatrinho do Chega e do PS. Aconteceu a 25 de Abril de 2023. Voltará a acontecer.

 

O autor é colunista do PÚBLICO

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