OPINIÃO
O PS jamais deixará o PSD afastar-se do Chega
Por muito que os políticos e os comentadores insistam em
apontar o dedo ao Chega, eu insisto – desculpem lá – em olhar para o PS.
O PS não está interessado em proteger a democracia
portuguesa. Está, como sempre esteve, interessado em manter o seu poder.
Enquanto a direita não meter isso na cabeça, não passará de um pobre figurante
no teatrinho do Chega e do PS. Aconteceu a 25 de Abril de 2023. Voltará a
acontecer.
João Miguel
Tavares
27 de Abril de
2023, 0:11
https://www.publico.pt/2023/04/27/opiniao/opiniao/ps-jamais-deixara-psd-afastarse-chega-2047531
Marcelo chamou à
presença de Lula da Silva no 25 de Abril “uma coincidência feliz”. Só que não
foi coincidência, nem foi feliz. Não foi coincidência porque Lula discursou no
25 de Abril por sugestão do próprio Marcelo – nesse sentido, o que aconteceu no
Parlamento é resultado directo da sua imprudência política e da sua
insensibilidade em relação ao tema da corrupção. Não foi feliz porque aquele
triste espectáculo foi o enésimo confronto entre os alegados fascistas e os
alegados resistentes ao fascismo, um teatrinho lamentável que está a ser
alimentado por ambas as partes.
Com esta
estratégia, o Chega puxa para si toda a exposição mediática e risca a oposição
do mapa – só se fala do Chega, dos gestos do Chega, do radicalismo do Chega,
ou, no caso dos fãs, da coragem do Chega. O PS aproveita para dramatizar os
perigos da extrema-direita e alertar contra as “excitações populistas”
(palavras de Santos Silva), festejando qualquer palhaçada que desvie as
atenções da desgraça que tem sido a sua governação.
A partir daí, é
tudo uma questão de palato. Os que estão mais habituados a frequentar os salões
respeitáveis da cidade ficam doidos com as aleivosias do Chega e estão
convencidos de que o Armagedão está próximo, porque não há combate à corrupção
que justifique a falta de maneiras. Aqueles que acreditam que o PS é o grande
responsável pela degradação da democracia pasmam diante da lata com que a velha
tralha socrática enche agora a boca com a dignidade das instituições, e acabam
a gastar o stock de sais de fruto quando ouvem Augusto Santos Silva gritar para
a bancada da extrema-direita: “Chega de degradar as instituições! Chega de
porem vergonha no nome de Portugal!”
Isto vindo do
braço direito de um primeiro-ministro que tentou obsessivamente controlar a
banca, as grandes empresas, os reguladores, a justiça e a comunicação social
tem, digamos, uma certa graça. O presidente da Assembleia da República exige
“urbanidade, cortesia e educação”, que são certamente excelentes valores. Mas
esta ideia de que se pode fazer todo o tipo de nojeira nos bastidores e ainda
assim manter a reputação de político respeitável pela simples razão de que se
manteve a urbanidade, a cortesia e a educação é uma daquelas coisas que nunca
me entraram na cabeça, por mais que tenham tentado explicar-me (e tentaram).
Portanto, por
muito que os políticos e os comentadores insistam em apontar o dedo ao Chega,
eu insisto – desculpem lá – em olhar para o PS. Nunca do lado do Chega virá alguma
coisa de jeito, e é verdade que a sua linguagem, postura e ideias degradam a
democracia. Mas o PS, porque tem muito mais poder, está neste momento a
degradá-la muito mais. Luís Montenegro é insensato ao morder o isco das
exigências da esquerda sobre a necessidade de se afastar do Chega. Por mais
declarações de repúdio que faça, o PS nunca deixará o PSD libertar-se de
Ventura. Aos olhos socialistas, as declarações de Montenegro serão sempre
“equívocas” (António Costa) ou “dúbias” (Eurico Brilhante Dias), pela simples
razão de que, quanto mais desesperado estiver o PS, mais se agarrará ao
espectro do Chega como a sua última bóia de salvação.
O PS não está
interessado em proteger a democracia portuguesa. Está, como sempre esteve,
interessado em manter o seu poder. Enquanto a direita não meter isso na cabeça,
não passará de um pobre figurante no teatrinho do Chega e do PS. Aconteceu a 25
de Abril de 2023. Voltará a acontecer.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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