O VOO DO CORVO .......
O Voo do Corvo pretende informar e contextualizar .
Assim acompanhará diáriamente diversos temas e acontecimentos, de forma variada e abrangente nas áreas da Opinião e Noticiário. Nacional e Internacional.
O critério Editorial é pluralista e multifacetado embora existam dois “partis/ pris”:
A Defesa do Património e do Ambiente.
António Sérgio Rosa de Carvalho.
O Metropolitano de Lisboa revela que uma das razões para a
recorrente interrupção no normal funcionamento das escadas rolantes da estação
Baixo-Chiado é o vandalismo. Reconhecendo as dificuldades em manter aqueles
equipamentos em operação na totalidade do tempo, no que se vem assumindo já
como um problema crónico, sobretudo naquela estação, a administração da empresa
pública de transportes diz, porém, em resposta escrita a O Corvo, que está a
fazer tudo para o conseguir.
E se assegura estar a
desenvolver esforços para que a perturbação seja erradicada, “com a maior
brevidade” através da reparação dos mecanismos avariados, anuncia também que
tem um plano de substituição integral dos mesmos. O concurso para os dois
primeiros lanços de escadas já foi lançado. Resta aos utentes esperar que tais
esforços se processem com rapidez. Só este mês, e até ao momento, explica a
administração da transportadora, foram registadas quatro avarias, com os
inevitáveis transtornos para os milhares de utentes diários.
O problema é antigo,
marcando há anos o quotidiano de todos os que usam uma das mais centrais e
movimentadas estações da capital. Mas tem-se tornado especialmente persistente
ao longo desta década. Logo no final do ano de 2010, verificou-se que a dúzia
de escadas rolantes que servem aquela gare subterrânea, oito a ligar ao Chiado
e quatro à Baixa, tinham somado 144 avarias. A situação, como é natural,
revela-se especialmente mais incómoda na ligação ao Chiado, dada a distância e
a inclinação a percorrer.
Naquele mesmo ano, e
no decurso da paralisação em simultâneo de oito das 12 escadas rolantes, até o
então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, considerou
“inacreditável” o número de vezes que as infra-estruturas tinham de parar
devido ao problemas mecânicos. Em dezembro de 2015, depois de questionado por O
Corvo, o Metro explicava que as suspensões no funcionamento da escadas se
deviam a “motivos técnicos, relacionados com a sua utilização regular
intensiva”. E acrescentava que, “em alguns casos, atendendo à idade do
equipamento, pode ser necessário proceder-se ao fabrico de peças para sua
reposição”.
Agora, e perante a persistência dos problemas, o
Metropolitano de Lisboa reitera o argumento da vetustez. E acrescenta-lhe
outro. “As escadas mecânicas da estação Baixa Chiado têm perto de 20 anos de
serviço contínuo e registam a maior taxa de utilização de todas as escadas
mecânicas do Metro, servindo toda a população que utiliza esta estação como
forma de ligar o Chiado à Baixa, e não apenas os clientes do Metro de Lisboa”,
explica. “Desde o início do mês outubro, registaram-se quatro avarias nas doze
escadas existentes nessa estação, sendo que estes equipamentos são,
frequentemente, alvo de diversos actos de vandalismo, com consequentes paragens
forçadas, o que implica que, por vezes, as escadas se encontrem momentaneamente
paradas mas não por situação de avaria”, esclarece.
Estimando que a
“situação seja reposta com a maior brevidade, tendo em consideração o
cumprimento dos prazos legais exigidos para este tipo de procedimentos, bem
como os prazos necessários para o fabrico e instalação do referido
equipamento”, o Metropolitano de Lisboa anuncia ter “em curso um plano para a
substituição das escadas mecânicas da estação Baixa Chiado, que será realizado
por fases”. A primeira, que prevê a substituição das escadas 7 e 8, as
primeiras ao nível do átrio, no acesso ao Chiado, “já se encontra em curso,
tendo já sido lançado um procedimento para o efeito”, diz a empresa pública,
lamentando ainda o incómodo causado e reafirmando “o esforço no sentido de
obviar e reduzir os tempos de paragem destas e das demais escadas mecânicas e
elevadores existentes na restante rede”.
A Associação do Património e População de Alfama (APPA), em
conjunto com os moradores do bairro, vai interpor uma providência cautelar para
impedir a continuação das obras no Palácio de Santa Helena. O edifício do
século XVII, antiga residência dos Condes de São Martinho, está a ser
transformado em 20 apartamentos de luxo, tendo o actor Michael Fassbender já
comprado um deles por dois milhões de euros. Muitos moradores estão revoltados
não só por assistirem ao que acreditam ser a descaracterização do bairro
histórico, mas também por perderem a vista sobre Alfama inteira e o Rio Tejo. A
responsável pela empreitada, a imobiliária Stone Capital, acredita que, com
esta intervenção, o Palácio recuperará a sua nobreza e Alfama ficará mais
valorizada.
Texto: Sofia Cristino
Depois de várias
tentativas de dialogar com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), a Associação do
Património e População de Alfama (APPA), em conjunto com os moradores de
Alfama, vai interpor uma providência cautelar para impedir a continuação das
obras no Palácio de Santa Helena. O imóvel do século XVII está a ser alvo de
uma intervenção que prevê a construção de 20 apartamentos de luxo, da
responsabilidade da imobiliária Stone Capital, que tem, neste momento, 25
projectos em mão na cidade de Lisboa.
Júlio Soares, morador
do rés-do-chão de um prédio contíguo ao portão do Palácio de Santa Helena, em
declarações a O Corvo, admite que a providência cautelar é “a única forma de,
neste momento, parar o processo”. “Hoje (18 de Outubro), estive a falar com o responsável
da empreitada e ele disse que queria deitar abaixo o muro que divide as duas
propriedades e este muro está na planta do meu prédio. Não o pode fazer. Teria
de solicitar uma reunião de condomínio pelo menos para nos informar. Foi a gota
de água”, explica, indignado.
Arthur Moreno, o dono
da Stone Capital, garante a O Corvo que a informação dada pelo morador não é
totalmente verídica. “O muro tem um troço que é 100% da propriedade da Stone
Capital, seguido de um troço que é 50% nosso e os restantes 50% do prédio
vizinho. Isto está explícito no licenciamento aprovado na CML”, assegura. “Além
disso, a ideia é construir um muro totalmente novo em betão armado, o que só
vai trazer vantagens para os moradores. O troço do muro pertencente ao vizinho
mantém-se na sua propriedade e não lhe será cobrado nenhum custo por esta
intervenção”, garante, ainda.
A decisão do
desmantelamento do muro advém do facto de este já se encontrar com “graves
problemas de estabilidade”, segundo Arthur Moreno. “Para não colocar em causa
as condições de segurança do muro, vimos necessidade de proceder à sua
demolição”, explica. Contudo, segundo o auto de vistoria realizado pela Unidade
de Intervenção Territorial da CML, a que O Corvo teve acesso, o prédio de Júlio
Soares, de facto, não reúne todas as condições de segurança, estando em risco
de ruir. Mas o muro em questão não se encontra com problemas de estabilidade.
Conforme a planta do
prédio, há duas casas de banho adjacentes ao muro, assim como terraços e
coberturas. “Deitar propriedade privada abaixo não é legal, além de pôr em
causa a segurança dos moradores”, acusa Júlio Soares. Confrontado com os riscos
implícitos à destruição do muro, Arthur Moreno diz a O Corvo que não tem
conhecimento de que existem casas de banho, nem se recorda do auto de vistoria
realizado pela CML. “Não faço ideia, tenho muitos projectos neste momento. Acho
que o muro precisa de ser requalificado porque está velho”, diz –
contradizendo-se, quando já tinha afirmado a O Corvo que o muro não reunia
todas as condições de segurança.
O empreendimento de
luxo, desenhado pelo arquitecto Samuel Torres de Carvalho, foi aprovado pela
Câmara de Lisboa, em Dezembro do ano passado, e a empreitada avançou no mês
passado, numa altura em que, desde junho de 2016, já se sabia que o prédio de
Júlio Soares estaria em risco de ruir. “Não há o mesmo peso e medida para toda
a gente. Depois de repararmos que havia um problema nas escadas, estão tortas,
veio cá a Unidade de Intervenção Territorial e confirmou que existe falta de
segurança da infra-estrutura, tendo realizado um auto de vistoria. Fomos à CML
e disseram-nos que tínhamos de começar a fazer obras mas que os licenciamentos
estão atrasados. O vereador do Urbanismo sabe que o prédio está em risco de
cair e permitiu que as obras do palácio ao lado continuassem”, denuncia o
morador.
Neste momento, os
moradores do prédio aguardam por resposta da autarquia para avançarem com as
obras necessárias previstas no auto de vistoria. “É revoltante ver as obras ao
lado serem aprovadas em oito meses e nós, com o nosso prédio em risco de cair,
termos de esperar”, critica.
Segundo Júlio Soares
e a presidente da APPA, Lurdes Pinheiro, não tem havido vontade por parte da
autarquia em parar a empreitada. A presidente da APPA, Lurdes Pinheiro, diz
mesmo que se informou atempadamente com o Departamento Jurídico da CML sobre
qual o melhor procedimento a ter nestes casos, e que lhe foi garantido que
tinha de ir a uma reunião de câmara. Uma informação confirmada pelos vereadores
do PCP, João Ferreira e Carlos Moura, que, no passado dia 21 de Setembro, entregaram
um requerimento ao presidente da CML, Fernando Medina, a questionar o porquê de
ter sido aprovada esta operação urbanística sem o assunto ter sido levado a
reunião de executivo. Mas, até agora, não obtiveram resposta.
“O vereador do
Urbanismo, Manuel Salgado, pensa que é o dono da cidade. No caso da construção
do Museu Judaico, no Largo de São Miguel, também marcamos uma reunião de câmara
que foi cancelada na véspera. Isto foi tudo feito no silêncio e a decisão da
construção dos apartamentos de luxo, para todos os efeitos, foi aprovada
ilegalmente”, acusa o morador. “Foi uma surpresa para nós porque nem colocaram
um placar de licenciamento na fachada do edifício e é obrigatório. Junto às traseiras
do prédio, também vão fazer dois pisos subterrâneos. A vistoria foi feita a 8
de junho e arrancaram em setembro, nem deviam ter começado”, reforça.
Júlio Soares foi na quarta-feira passada (18 de Outubro) à
Câmara de Lisboa perguntar em que fase se encontra o processo. “Disseram-me que
o requerimento entregue pelos vereadores do PCP deu entrada na direcção
municipal, no Campo Grande, a 9 de Outubro e que estão à espera da resposta
para ser encaminhado”, informa.
Os moradores
queixam-se, essencialmente, da descaraterização que o bairro típico lisboeta
tem vindo a sofrer nos últimos anos mas, também, da vista sobre a iminente
perda da vista sobre o Rio Tejo, que tiveram durante toda a vida. “As pessoas
que lá vivem deixam de ter o sol a entrar pela casa, porque os novos prédios
vão tapar tudo”, comenta Lurdes Pinheiro, presidente da APPA. “Esta obra é uma
aberração e vai ter um impacto urbanístico enorme. As fachadas do século XIX
vão ser substituídas por fachadas do século XXI. O palácio de Santa Helena
emparelha com um prédio anterior ao terramoto de 1755. Alfama deveria ser o
bairro de Lisboa mais preservado, por ser o mais antigo da cidade, mas está a
ser o mais prejudicado”, acrescenta Júlio Soares.
Arthur Moreno,
proprietário da Stone Capital, tem outro ponto de vista. “Nós somos apaixonados
pela cidade de Lisboa. Queremos valorizar o património, não queremos
destruí-lo. Por exemplo, os azulejos do Palácio de Santa Helena vão ser
restaurados manualmente e vamos manter a capela, dentro dos padrões
urbanísticos. O projecto foi acompanhado por um historiador e um arqueólogo,
porque sempre nos preocupamos com a preservação e restauração dos espaços. O
Palácio vai recuperar a sua nobreza”, garante. “Começámos a apostar em Lisboa
em 2010, numa altura em que Portugal estava em crise e sempre achamos que a
cidade tinha um grande potencial. Acho que estamos a fazer um bom trabalho”,
conclui.
O Corvo contactou, ao
início da tarde de quinta-feira (19 de Outubro), a Câmara Municipal de Lisboa,
pedindo esclarecimentos sobre este assunto, mas, até ao momento, não obteve
resposta.
Situado dentro da
muralha Fernandina, numa posição elevada sobre o rio Tejo e o vale de São
Miguel, o Palácio de Santa Helena foi durante quatro séculos a residência
familiar dos Condes de São Martinho, detentores de altos cargos na corte
portuguesa. Depois de deixar de ter funções habitacionais, albergou, ainda, a
Escola Superior de Educação Almeida Garrett durante cerca de 20 anos.
A guerra do BCP, a venda da Cimpor e,
agora, as suspeitas de favorecimento pela Câmara de Lisboa, têm obrigado a
terceira geração dos Teixeira Duarte a sair da sombra. A contragosto
CLARA TEIXEIRA
Jornalista
Quase a fazer cem anos, a Teixeira Duarte mantém-se nas mãos
da família, tão discreta quanto numerosa, que criou a empresa em 1921. Fundada
por Ricardo Teixeira Duarte, antigo bastonário da Ordem dos Engenheiros, foi
sob a orientação do filho Pedro (na foto em cima), hoje com 98 anos, que foi
crescendo até se tornar na segunda maior construtora nacional a seguir à
Mota-Engil. A terceira geração, liderada por Pedro Maria, atual presidente do
conselho de administração, partilha com o patriarca o horror à exposição
pública, à vida mundana e às fotografias para a posteridade. Fora dos negócios,
a família é conhecida pela ligação estreita à Opus Dei, tendo participado na
fundação do Colégio Planalto, mas se não fosse a guerra do BCP e a luta pelo
controlo da Cimpor, o apelido Teixeira Duarte nunca teria saltado para as
páginas dos jornais. Nos últimos dias, a família e a empresa viram-se
envolvidas em nova polémica, relacionada com suspeitas de favorecimento num
contrato, após a venda de um apartamento ao presidente da Câmara de Lisboa.
Foi em 2007, há precisamente uma década, que o grupo
Teixeira Duarte e o seu enigmático presidente saíram da sombra para se
envolverem no assalto ao BCP, liderado pelo empresário Joe Berardo.
Surpreendentemente, apoiando o “inimigo” sem olhar a velhas alianças, uma vez
que o grupo era um dos três maiores acionistas do banco de Jorge Jardim
Gonçalves, com mais de 7% do capital.
Para além dos negócios, os destinos das famílias Jardim
Gonçalves e Teixeira Duarte estão unidos pelos sagrados (para eles, católicos
praticantes e ortodoxos) laços do matrimónio. O relacionamento começou antes,
quando Rodrigo, o mais novo dos cinco filhos de Jardim Gonçalves, teve Antónia,
um elemento do clã Teixeira Duarte, como professora de música. As famílias
começaram a frequentar-se, descobrindo afinidades, até que João Afonso, um dos
mais novos dos dez filhos de Pedro Teixeira Duarte, começa a namorar com Sofia,
a segunda filha do fundador do BCP. Do casamento, nascem 14 filhos, sete
raparigas e sete rapazes, todos eles com Maria no nome. Quase ao mesmo tempo, a
construtora revela-se como um dos acionistas mais fiéis do núcleo duro do BCP,
ocupando um lugar no Conselho Geral e de Supervisão do banco, presidido por
Jardim Gonçalves.
Preocupado com a dependência do BCP, que lhe financiava a
tesouraria mas também a dispendiosa aquisição da Cimpor, Pedro Maria Teixeira
Duarte – o sucessor natural do pai após a morte precoce do primogénito Ricardo,
professor, investigador e criador da plataforma de ensaios sísmicos do LNEC –,
terá tentado encontrar uma terceira via para o imbróglio do banco. Sem sucesso.
Retirou o apoio a Jardim, defendeu a sua saída do BCP e, no final, mesmo tendo
apoiado a tomada do poder por Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, durante a governação
de José Sócrates, foi obrigado a abrir mão da Cimpor para a brasileira Camargo
Corrêa, em 2012, tendo perdido uma fortuna com a desvalorização da participação
no BCP. Além disso, o grupo foi um dos mais afetados com a travagem brusca da
construção e obras públicas durante os anos da troika. Uma crise da qual a
construtora ainda não recuperou, admitindo continuar a despedir trabalhadores,
apesar da internacionalização bem sucedida dos seus negócios (construção,
hotelaria, distribuição alimentar e automóveis) em países como Angola,
Moçambique ou Venezuela.
FAMÍLIAS DESAVINDAS
Na sua biografia, escrita por Luís Osório (O Poder do
Silêncio, D. Quixote), Jardim Gonçalves elogia as qualidades de Pedro Maria,
mas não lhe perdoa os defeitos, acusando-o de se ter “portado mal”. “Ganhou
relevo no BCP e perdeu o bom senso”, diz. Inevitavelmente, as famílias
desentenderam-se. Sofia e João Afonso, que ficou isolado na defesa do sogro,
mudaram-se em 2011 para Madrid, numa espécie de exílio. Nas raras ocasiões em que
tem encontrado Pedro Maria, o fundador do BCP confessa que se limita a
dirigir-lhe um aceno. “O problema é dele para mim, eu não tenho qualquer
problema com ele”, diria em entrevista ao jornal Sol.
Só em 2009, já com 90 anos (e mais de 60 passados no grupo
familiar), é que Pedro Teixeira Duarte viria a ceder, em definitivo, a cadeira
do poder ao filho Pedro Maria, 63 anos, licenciado em gestão de empresas e um
exímio corredor de maratonas. Ele e alguns dos oito filhos – do casamento com
Madalena, irmã de Isabel Jonet e presidente da Ajuda de Mãe – colecionam
participações em algumas das provas mais conhecidas do mundo, como as maratonas
de Londres ou de Nova Iorque, mas também a de Lisboa.
Conservador, circunspecto e enigmático, homem de hábitos
frugais, não falha, tal como o pai e – arriscamos – boa parte da numerosa
família, a missa de domingo. Fora do seletivo mundo dos negócios, poucos lhe
terão ouvido a voz, não dá entrevistas e não se deixa fotografar (os
instantâneos à saída das mediáticas assembleias-gerais do BCP são a exceção).
Os concorrentes elogiam a solidez técnica da construtora e a gestão competente
de Pedro Maria, apesar da reestruturação em curso que prevê continuar a
despedir para dar a volta aos prejuízos de 9 milhões de euros no primeiro
semestre de 2017. A família tem estado a vender ações para reduzir a dívida,
que supera os mil milhões de euros, e a empresa admite alienar o Lagoas Park,
um parque empresarial no município de Oeiras onde tem a sua sede.
O APARTAMENTO DA HERDEIRA
Dez anos passados sobre a guerra do BCP, a Teixeira Duarte
está de regresso aos títulos dos jornais. Em véspera de eleições autárquicas, a
adjudicação, sem concurso, das obras de 5,2 milhões de euros de estabilização
do miradouro de São Pedro de Alcântara, no centro de Lisboa, à construtora da
família após uma das herdeiras – Isabel Maria Teixeira Duarte, que os jornais
apresentam como neta do fundador e prima do atual presidente – ter vendido um
apartamento de luxo nas Avenidas Novas a Fernando Medina, com alegado prejuízo,
conduziu à abertura de um inquérito do Ministério Público por eventuais
suspeitas de favorecimento. No mesmo edifício, restaurado pela construtora,
residem três ex-ministros: Jaime Silva (sogro de Medina e ex-ministro do PS),
Celeste Cardona (ex-ministra do CDS) e Ricardo Bayão Horta (ex-ministro do CDS
e ex-chairman da Cimpor durante o domínio da Teixeira Duarte), o que não
escapou à análise dos media. Talvez numa alusão a Jardim Gonçalves, quando
afirma, na sua biografia, que o problema das grandes construtoras é que têm
sempre “muitos interesses dependentes do Estado”
Os contratos da Teixeira Duarte
Depois de Fernando Medina ter comprado um apartamento a uma
herdeira do grupo Teixeira Duarte, a Câmara entregou à construtora, por ajuste
direto, alegando urgência nos trabalhos, a estabilização do miradouro de São
Pedro de Alcântara, no centro histórico da capital, apesar do voto contra do
CDS. A obra, orçada em 5,2 milhões de euros, foi considerada de “urgência
imperiosa”, apesar dos pareceres do LNEC não apontarem nesse sentido. Antes, a
Teixeira Duarte tinha sido escolhida, também por ajuste direto, para a
reparação dos viadutos metálicos de Alcântara, no valor de 350 mil euros.
O portal Base, onde são registados os contratos públicos do
Estado e autarquias, indica três outros contratos entre a Câmara de Lisboa e a
Teixeira Duarte. Dois são do tempo de António Costa e só um é assinado por
Fernando Medina: uma aquisição de serviços para introdução de dados em
relatórios geológicos, por ajuste direto, no valor de 69 mil euros.
Nos últimos cinco anos, a Teixeira Duarte ganhou obras, por
ajuste direto, nos municípios da Maia, Ovar, Santa Maria da Feira, Salvaterra
de Magos, Serpa, Odemira, Vila do Bispo, Sintra e Oeiras, com a empreitada mais
valiosa a ultrapassar um milhão de euros neste último concelho, onde a empresa
tem a sua sede.
(Artigo publicado na VISÃO 1281, de 21 de setembro de 2017)
Foram os primeiros a entrar na EN236-1 depois da tragédia em Pedrógão
Grande. Inspetores da Judiciária, peritos da Medicina Legal, militares da GNR.
Ainda não falaram com ninguém, porque não devem falar. Estavam a trabalhar,
representam instituições, há uma investigação em curso. Mas precisam tanto de
falar. Este é o seu relato, um exorcismo de tristeza sem nomes. Nem deles nem
das vítimas. Por respeito
Passou
quase um mês e os sonhos permanecem. E os flashes vindos do nada, por coisa
nenhuma. Uma estrada feita de fogo e só eles no meio. Um crânio pequenino a
olhá-los fixamente com os olhos que já não tem. Em cada família anónima a cara
das famílias que morreram. Nos ouvidos ainda os gritos, de um agudo que rebenta
escalas, gritos não, berros que arrepelam a pele, “Ai, acuda-me! Tirai-os de
lá”, e eles sem se puderem mexer, tal como naquele dia, sem poder fazer nada
para os salvar. Gente habituada à morte, com anos ou mesmo décadas ao serviço
da Polícia Judiciária, do Instituto Nacional de Medicina Legal e da Guarda
Nacional Republicana, deixou-se tocar por ela, apanhada em falso pela dimensão
desmesurada da tragédia de Pedrógão, as histórias demasiado humanas a
transformarem os cadáveres em muito mais do que um objeto de trabalho. Um pé no
alcatrão derretido da Estrada Nacional 236-1 e a barreira profissional caiu,
ausentou-se, deixando-os sem proteção para o que viram a seguir. Foi respirar
fundo, os pulmões presos às costas, o dever a travar brilhos nos olhos e “bora
lá, segue”. Mas não seguiram. Ainda lá estão, na ‘estrada da morte’. O nome é
feio, sensacionalista, cruel para quem ali mora, mas nenhum outro se lhe cola
tão bem. Desaparecerá com o tempo, assim como as coroas de flores colocadas nos
rails e os remendos do alcatrão.
Sábado, 17
de junho. “112 informa: coluna de fumo, será em mato. Acionado CBV Pedrógão
Grande e feita triangulação com CB’s Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e
CMA Ferreira do Zêzere. Informado CODIS Leiria.”
Eram 14h43
e a Proteção Civil arrancava com o relatório da ocorrência do incêndio de
Pedrógão Grande, com ponto zero em Escalos Fundeiros. Começou miúdo, banal, por
um raio de trovoada seca que a PJ garante ter existido mas que o IPMA não viu.
A descarga atmosférica bate nos cabos de média tensão, descarnando-os, faz um
ricochete de 15 mil volts e lança-se na copa de um carvalho e daí para o mato
circundante. Num ai de dez minutos já pedia mais meios e em duas horas corria
com grande intensidade e multiplicava-se em frentes, três, depois quatro,
agigantando-se com a falta de comunicações e as rajadas de vento, que se fazem
de fogo em dia de 40 graus, alimentando-se de pinheiros e eucaliptos e matos
(43.201 hectares) e casas (491) e vidas (64).
Em cinco
horas chegou à zona da EN236-1, que liga Castanheira de Pera a Figueiró dos
Vinhos. Faltava pouco para as oito da noite. Era dia e não era. Era um breu de
fumo denso, horrível, puxado a rajadas brilhantes de fagulhas que mantinham os
helicópteros em terra. O IC8 estava cortado há menos de uma hora. De cinco em
cinco minutos a Proteção Civil registava mais uma povoação cercada pelas
chamas. Vila Facaia, Casalinho, Troviscais, Mosteiro, Graça, Vermelho, Pobrais.
Choviam os
pedidos aflitos dos comandos no terreno, sem comunicação com o posto de comando
e sem veículos para acudir. Era preciso evacuar e não havia ninguém para ir lá.
Mesmo que houvesse, não se conseguia falar com quem manda para os tirar de lá.
E os pedidos aflitos dos populares a chegar via 112, entre o foge e o não foge.
“Habitações cercadas com idosos acamados”, “vítimas queimadas”, “família em
perigo”, “casas a arder”, “despiste”, “filho desaparecido”... Uns fecharam-se
em casa. Os que decidiram partir desembocaram quase todos na Nacional. Sítio errado,
hora errada. Ao mesmo tempo chegou lá o diabo de fogo, o ciclone de chamas, o
fim do mundo, a incineradora, o downburst. Em 300 metros de estrada, ao
quilómetro 7, morreram 47 pessoas, 30 dentro dos carros, 17 fora.
Numa ponta
e noutra da via só gritos, lancinantes, guturais, de um sofrimento atroz. No
meio o silêncio. Gritava a meia dúzia que de lá saiu viva, a pé, de cabelos em
chamas, a pele queimada e a mente em ferida com as mortes grotescas a que
assistiu. Gritava o pai que deixara lá duas filhas e mulher. Gritavam os
vizinhos que sabiam bem quem partiu de carro das aldeias de pouca gente onde
todos se conhecem.
E gritavam
para dentro os militares da GNR, impotentes perante o monstro, imprevisível,
inesperado, repentino. Atónitos com a violência e a rapidez. “Como? Mas como é
que? Num minuto estava ali longe e depois...” Um fogo que não foi só de um lado
ao outro da estrada, pelo alto dos eucaliptos e pinheiros, mas circulou também
rasteiro, matreiro, à traição, em ambas as margens, na direção dos carros. E
também no ar, remoinhos desaustinados, bolas de fogo como balões a quem
soltaram o pipo. Não havia como travar aquilo.
Alguns militares, de tanto engolir lágrimas, afogaram-se em
angústia. Dez estão sob vigilância do gabinete de psicologia da GNR, que montou
campanha em Pedrógão. Dois foram encaminhados para o centro clínico.
Nos extremos da morte desenrolaram fitas brancas e amarelas, ataram-nas na
largura da estrada e vedaram o troço, que continuaria a arder por longas horas
antes que alguém lá entrasse e confirmasse (desmentisse, na verdade) a primeira
contagem de vítimas mortais: 16, só ali. Mais 3 em Figueiró. No local
permaneceram sempre patrulhas da GNR. Por segurança, sim. Mas também por
respeito. Quem tanto sofreu não pode ficar sozinho.
A tragédia
chega às redações por volta das 23h de sábado. A PJ decide que é hora de
avançar. Não é preciso esperar pelo óbvio. Entre inspetores dos homicídios e
dos fogos, de Coimbra, Lisboa, Leiria e Aveiro, aciona-se uma dúzia de
elementos. Alguns avançam para Escalos Fundeiros, terriola de 80 almas, para
descobrir o ponto zero do incêndio. Outros para a EN236-1. Seguiram por
estradas acabadas de arder, sempre a abrir, no centro das duas faixas, como se
fossem no encalce do fogo sem nunca o querer apanhar, num slalom entre ramos
incandescentes, com bombeiros e GNR a bater o trajeto.
As
labaredas, aquém da distância de segurança, foram o único sinal de vida no
caminho. Nem um carro, nem uma pessoa, nem um animal. Só um fumo horrível. As
placas das terras queimadas. Uma solidão angustiante. Parecia uma cenário
pós-Tchernobyl. Ou uma foto a preto e branco em que só pintaram os carrinhos de
cor. E cada vez mais escuro, denso, forte, quilómetro a quilómetro, em direção
ao fim do mundo.
Rezou-se
baixinho para afastar o medo ou uma avaria, um pneu furado. Uma paragem e era o
fim. Talvez não fosse, mas parecia. Dali a umas horas passariam também por lá
as equipas do Instituto Nacional de Medicina Legal, uma de Coimbra e duas do
Porto. A recolha dos corpos devia começar quanto antes.
Eram três
da manhã quando a Judiciária entrou pela primeira vez na EN236-1. Passavam sete
horas desde a hora da morte e ainda não se respirava. As máscaras, das mais
fortes, mal travavam o fumo. Os pés das árvores ardiam, o alcatrão derretido
colava-se aos sapatos.
Foi uma
passagem rápida, para um lado e para o outro, mas ficará para sempre na memória
de quem a fez. Estava escuro como breu. De lanterna em punho, espreitaram para
cada carro e iniciaram uma contabilidade macabra. Depressa ultrapassaram as
estimativas. Contaram 26, por alto.
Ainda havia
corpos a arder. Uma criança ao colo do pai, que um inspetor extinguiu, parecia
olhar para eles através da janela de vidro derretido. O vidro funde a 1100
graus. Não havia qualquer hipótese de sobrevivência, nem dentro nem fora dos
carros.
Mesmo na
penumbra, cada vítima contou-lhes uma história pela posição em que morreu, como
uma Pompeia apanhada pelo vulcão em que o fogo fez a vez da cinza. O casal
abraçado, resignado. As crianças protegidas debaixo do tabliê. O homem
escondido sob o carro numa derradeira tentativa de sobrevivência. As fugas pela
estrada travadas pelo calor. Um corpo que alguém tentou apagar com um extintor,
deixando-lhe o perfil desenhado a branco no asfalto.
Numa
investigação criminal, num homicídio, os mortos servem um fim. Ajudam a chegar
a quem os matou. A atenção foca-se na obtenção de pistas, o corpo não é mais um
corpo que teve uma vida mas um campo de análise, mesmo nos mais bárbaros
crimes. Mas ali não havia culpados para procurar, ali um cadáver era uma pessoa
real que era preciso identificar, atentar nos detalhes pessoais, olhar
fixamente quando se quer é virar a cara.
E, de tanto
olhar, as imagens ficaram gravadas e ativam-se sem aviso todos os dias. Uma
criança da idade daquela criança. Uma família igual àquela família. Dias
terríveis, noites piores, em que a mente viaja repetidamente até à estrada,
àquela estrada, com aquelas pessoas que só se queriam salvar, pôr os filhos a
salvo, em que se sente o que se pensa que sentiram, em que se deixa que entrem
na nossa vida e sejam nossos também, próximos, e que soframos por eles. E isso
mói. Traumatiza.
Perto das
seis da manhã chegou a primeira equipa de Medicina Legal. Antes não valia a
pena. A estrada não tinha iluminação e não foram providenciados holofotes para
o local do crime. Fala-se de crime porque o inquérito tutelado pelo DIAP de
Leiria não afasta a possibilidade de ter havido homicídio por negligência. Será
longa a investigação, alimentada por centenas de testemunhos de outros tantos
intervenientes, desde o primeiro a ver o fogo a quem o tentou apagar, quem
mandou nas operações, quem não mandou mas devia ter mandado, quem ligou para o
112 a pedir a ajuda que nunca chegou, quem fugiu, quem perdeu tudo, quem se salvou.
E mais os peritos e as peritagens, os relatórios, as imagens de drones, os
vídeos de populares, as análises, as autópsias. Para cada uma das vítimas uma
ramificação de ligações que é preciso seguir. Não peçam pressa, que não vai
dar.
No
lusco-fusco, que o fumo fazia mais fusco que lusco, começava o levantamento
oficial das vítimas, com todos os elementos vestidos de macacão branco, à CSI.
Na mala que deve estar sempre preparada para emergências como esta havia
etiquetas, luvas, máscaras e bodybags. Não chegaram. Tiveram de recorrer aos
dos bombeiros. As estatísticas da tragédia ultrapassaram até a logística
recomendada para um desastre de massas.
À medida
que ia clareando, o palco da tragédia tornava-se ainda mais dantesco, apanhando
desprevenido mesmo quem faz da análise da morte profissão. Quem faz autópsias
todos os dias aguenta tudo, não é? Não. Não há como aguentar aquilo. Não eram
os corpos, era o cenário todo. Falava. Mortos que falavam. 300 metros com 30
corpos espalhados, como um presépio de horror feito de soldadinhos de chumbo,
cada um no seu sítio, na sua posição. Como um filme que se põe em pausa. A
ideia de movimento estava lá, a ideia de vida.
A sala de
autópsias é um lugar assético, protegido, onde as emoções não entram, não
magoam. Não se conhece a pessoa. Entra, sai e acabou. Ali, no alcatrão,
recebeu-se tudo num turbilhão, sem barreiras, que piorou nos dias seguintes,
com a mente a fazer o match perfeito entre o que viu e as histórias e
fotografias que a comunicação social foi mostrando. Aquela era aquela família.
E a outra. E aquele casal. Tão novos. Estavam felizes nas fotografias das redes
sociais. Uns tinham vindo da praia, muitos só estavam a passar o fim de semana,
nem eram dali.
Nos
primeiros três carros não havia ninguém, os ocupantes conseguiram fugir. Depois
aparece um corpo, e depois outro, e depois um monte de carros, todos com gente
lá dentro. E outro monte mais à frente. Percebe-se o pânico, a confusão, a
desorientação. Não se via um palmo com o fumo. Há um primeiro que se despista,
bate nos rails e fica atravessado. Já dali não sai. A seguir vem outro que
trava a fundo. E atrás mais um que bate nesse, e depois outro e outro. Há um
pinheiro que cai. Tenta-se fazer marcha atrás, inverter a marcha, mas já não é
possível. Os pneus rebentam, desfazem-se, as jantes cravam-se no alcatrão
quente.
Para o lado
do IC8 havia fogo, para o lado de Castanheira os acidentes que a maioria só viu
quando entrou por ali adentro. Vários choques em cadeia que fizeram de barreira
à fuga e de onde foi impossível sair.
Há pessoas
dentro dos carros, fora dos carros. Uns tentaram fugir para cima, outros para
baixo. Uns mudaram de carro, outros quiseram mudar e não conseguiram e ali
ficaram. Muitas portas fechadas, a maioria. Há sinais de atropelamentos. Foi o
salve-se quem puder.
Passadas
dez horas desde a hora da morte os carros ainda estavam quentes e havia brasas
nas margens. Mantinha-se o fumo e um calor atroz. Entre as seis da manhã e a
uma da tarde levantaram-se 39 corpos, só ali num pedacinho de estrada. A
técnica de abrir as portas foi aprimorada pela repetição. Basta puxar um pouco
para cima, ouve-se um clique e já está. A ida aos restantes, mais dispersos,
estendeu-se até ao fim do dia.
As vítimas
foram tiradas uma a uma pela equipa conjunta da Medicina Legal e da PJ. Não é
normal que seja assim. Os peritos não fazem essa parte braçal, final.
Habitualmente, são as funerárias ou os elementos da Proteção Civil. Mas ali
sim, sem perguntarem sequer se havia quem o fizesse. Houve cuidados extremos nesse
momento. Houve carinho.
A cada
carro foi atribuída uma letra, a cada corpo um número. Além das fotografias do
local intocado, o anotador registou tudo o que permitisse a rápida
identificação das vítimas (concluída em cinco dias): matrículas, marcas, número
de ocupantes, referências geográficas, local da estrada, distâncias entre
carros e o pouco que o fogo não apagou. O ouro permaneceu nas vítimas que o
traziam, ainda que fundido em alguns casos (funde a mais de mil graus). Também
no chão, aqui e ali, o metal precioso foi encontrado em montinhos de anéis,
fios, pulseiras. Quem fugiu das casas trouxe consigo o que quis salvar.
Um a um
foram colocados em sacos ao longo da estrada, recolhidos posteriormente para o
camião frigorífico da Autoridade Nacional de Proteção Civil, um gigante branco
(no cenário negro), com gavetas suficientes para responder a cenários de
catástrofe. Mas que se avariou duas vezes. Uma no caminho, fácil de remendar, e
outra descoberta já depois de todos os corpos estarem acondicionados. Não fazia
frio. De recurso foi alugado um outro camião, de transporte de alimentos, mas
sem gavetas, que obrigaria a mais uma transladação, já às primeiras horas da
madrugada de segunda-feira, na zona industrial de Figueiró, por recato, antes
de partir para o INML em Coimbra.
As equipas
da ‘estrada da morte’ já tinham sido entretanto rendidas. Mas antes da partida
passaram pelo quartel dos bombeiros de Castanheira de Pera. A vila estava
cercada pelo fogo. Só se entrava por um caminho, o que já tinha ardido. Havia
uma mesa corrida, posta, em reabastecimento contínuo. Alimentava-se quem
aparecia a troco de nada. Havia canja, jardineira, entrecosto, melão fresquinho
e muito desalento, que pesava. Tantas histórias naquela mesa. Pessoas a chorar
mortos num desabafo baixinho, pessoas a procurar pessoas, bombeiros exaustos,
famílias sem expressão, polícias, médicos legistas, num entra e sai mudo.
Era um cenário de guerra. À mesma mesa sentavam-se os
deslocados, os feridos, os combatentes, cada um com a sua vivência de horror,
passando uns aos outros a comida numa partilha de irmãos. Toca a sirene. Um
bombeiro que tinha acabado de se sentar levanta-se. Beija a filha e a mulher,
abraça-as quando lhes vê as lágrimas. E parte.
“Bora lá, segue.” Há que seguir em frente.
Sim ... Chineses dizem que vão respeitar todas as
características dos Interiores, conscientes do seu valor Patrimonial e
Histórico, incluindo o anúncio luminoso da fachada, mas não deixa de ser um
"sinal dos tempos" o facto de que todo o Investimento e dinamismo
empreendedor nos centros determinantes e estratégicos, seja exclusivamente
Internacional ... Portugal no Imobiliário, nos negócios , à VENDA ...
OVOODOCORVO
Cervejaria Solmar está na mão de
chineses e reabre daqui "a dois ou três meses"
Empresária chinesa vai explorar o
icónico restaurante da Baixa lisboeta e promete mantê-lo tal como até aqui. Não
só em relação à arquitectura, mas também à comida.
A emblemática cervejaria Solmar, famosa não só pelos
mariscos como pela exuberante decoração interior, está em obras e deve reabrir
daqui “a dois ou três meses”. O restaurante da Rua das Portas de Santo Antão,
na Baixa de Lisboa, será explorado por empresários chineses, que garantem
querer manter a identidade portuguesa do espaço.
A Solmar vai continuar a ser uma marisqueira e cervejaria,
disse ao PÚBLICO um cidadão chinês que se encontrava no local esta quarta-feira
à tarde e que se apresentou como Jin, sobrinho da nova gerente. As obras
começaram “há duas semanas” e devem estar concluídas dentro de “dois ou três
meses”. Um operário português que por ali estava afirmou que os trabalhos visam
“preservar o aspecto antigo” da cervejaria.
A mesma garantia deu Jin Yun Hua, que disse ao PÚBLICO ser a
nova dona da Solmar. A também presidente da Associação Geral das Mulheres
Chinesas em Portugal afirmou que o objectivo é “só pintar e limpar” e que não
estão previstas mais alterações. “A casa é histórica, não podemos fazer nada”,
acrescentou.
Apesar de ter perdido alguma relevância nos últimos anos, a
Solmar continua a ser um ícone da restauração lisboeta. Sobretudo por causa da
sua arquitectura modernista, do enorme painel de azulejos criado por Pedro
Jorge Pinto e do mobiliário desenhado especificamente para o espaço por José
Espinho e produzido pelos Móveis Olaio. Na quarta-feira, as cadeiras e mesas
estavam arredadas e empilhadas, enquanto os trabalhadores se movimentavam.
O carácter único da arquitectura e da decoração da
cervejaria levou a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) a abrir um
procedimento de classificação patrimonial em Fevereiro do ano passado, depois
de isso ter sido proposto por cidadãos em 2012. O procedimento ainda não
terminou, mas a Solmar está já abrangida por um conjunto de regras. Entre
outras coisas, a venda ou arrendamento do espaço têm de ser comunicados
previamente às entidades, além de ser obrigatório estas darem autorização à
realização de obras.
O PÚBLICO não conseguiu contactar António Pedro Paramés,
herdeiro dos irmãos galegos que fundaram o restaurante nos anos 1950 e que até
há pouco era sócio e gerente da Solmar. Também não foi possível perceber se os
trabalhos em curso no interior foram autorizados e se estão a ser acompanhados
pela tutela.
Tanto a empresária chinesa como o seu sobrinho garantem que
sim, que “há licença” e que as obras em nada vão alterar a marisqueira. Até o
grande reclame luminoso no exterior, uma das imagens de marca da Rua das Portas
de Santo Antão, vai ser recuperado, afiançou Jin, o sobrinho.
A Solmar, cujos mariscos trazidos de propósito do mar do
Guincho fizeram a fama da casa, fica no rés-do-chão de um palácio ocupado há
mais de cem anos pelo Ateneu Comercial de Lisboa. Esta entidade, que teve uma
profícua actividade cultural, recreativa e desportiva, está desde 2012
envolvida num complexo processo de insolvência. O espaço da cervejaria, no
entanto, não pertence ao ateneu.
Ninguém pode assistir sem dor e sem revolta ao colapso do
sistema nacional de protecção civil. Quando as pessoas desamparadas, um pouco
por todo o Norte e Centro do país, tentavam apagar as chamas com baldes e
enxadas e acabavam a chorar os seus mortos, não se pode dizer-lhes que sejam
resilientes. Nem falar em férias sacrificadas. Nem voltar a remeter para
relatórios. Não se pode. O Estado falhou e o Governo não foi capaz de perceber
a dimensão da tragédia. Como disse o Presidente da República, é preciso
“humildade cívica e ruptura com o que não provou ou não convenceu”.
Sabemos que há causas estruturais que não se vencem de um
dia para o outro e que os problemas mudam de natureza quando mudam de escala. É
o que está a acontecer em Portugal com os fogos florestais. Mas a verdade é que
não estivemos à altura. Depois de Pedrógão, uma tragédia imensa que nos apanhou
de surpresa, tínhamos o dever da vigilância, da previsão e da prontidão para
mobilizar os meios que impedissem um novo desastre. Não fomos capazes.
Sou deputada, faço parte das bancadas que apoiam este
Governo, pelo qual me bati e bato. Irei votar contra a moção de censura do CDS.
Mas por isso mesmo não posso deixar de dizer ao Governo e ao primeiro-ministro:
é preciso merecer o poder que se tem. É preciso coragem para reconhecer os erros
e mudar o que tem de ser mudado. Devemos isso aos que morreram pela nossa
inépcia.
Não quero voltar a ouvir notícias sobre os locais de difícil
acesso onde os bombeiros não chegam. Não somos capazes de abrir os aceiros que
são necessários? Não temos forças militares e autarquias para promover as
tarefas de defesa de um território que fomos deixando ao deus-dará? Não
conseguimos organizar nas nossas aldeias pontos de refúgio seguros? Isto não
podia ter sido feito em quatro meses? Andámos tão empolgados em campanhas
eleitorais que nos esquecemos do nosso dever primeiro, cuidar dos nossos
concidadãos mais frágeis e esquecidos?
Sabia-se do clima e da meteorologia, das elevadas
temperaturas, do furacão Ophelia e da seca generalizada. E que no Outono as
pessoas começam a fazer as suas queimadas. Ninguém se preocupou em alertar o
país rural para o perigo dessa prática este ano? O Governo esteve à espera de
relatórios independentes, sabemos bem, mas que medidas imediatas tomou? Por que
é que o Ministério da Administração Interna não conseguiu sequer programar
devidamente a disponibilidade de meios aéreos e no terreno? Desculpem, mas isto
tem um nome: incompetência.
Sei que este é um momento muito difícil para quem tem a
responsabilidade de governar. Mas mais difícil é para quem perdeu vidas, bens,
animais, culturas, casas, floresta. Não chegam os pêsames e as promessas de
solidariedade. Cada um deve avaliar se está à altura do que lhe é pedido. A
ministra da Administração Interna percebeu finalmente que tinha de sair pelo
seu pé. Teve até ao fim a confiança do primeiro-ministro, faltou-lhe a dos
governados. O seu pedido público de demissão, depois de o Presidente o ter
praticamente exigido, pode abrir espaço ao governo para rapidamente iniciar um
novo ciclo, tomar as decisões que se impõem e fazer a reforma do sistema
nacional de protecção civil, garantindo o papel do Estado na defesa do
território e das populações, sem os quais Portugal não pode subsistir.
Arquitecta; presidente da Assembleia Municipal de Lisboa
“Os centros de Lisboa e Porto estão a ficar cheios, mas não
é de portugueses, é de estrangeiros. E isso tem muito que ver com o facto de as
casas reabilitadas não serem para os bolsos dos portugueses. Não podemos
afastar os portugueses dos centros das cidades, porque os estrangeiros não vêm
cá só pela pedra, mas também pelas pessoas, pelas comunidades que as formam, que
lhes dão o carácter genuíno”
Destaque de OVOODOCORVO
Zona ribeirinha oriental de Lisboa é
cada vez mais procurada para compra de casa
Beato, Marvila, Xabregas ou Santa Apolónia são nomes que
fazem sorrir quase todas as empresas do sector presentes no Salão Imobiliário
de Lisboa 2017. Será por ali que, nos próximos anos, muitos dos seus comerciais
dispensarão atenções. A pressão da procura de casa para viver na capital, muito
influenciada pelo investimento estrangeiro, faz com que se comece a olhar com
insistência para bairros até agora negligenciados. E onde ainda há muito por
fazer em termos de reabilitação urbanística. Mas as imobiliárias também notam
que, fruto dos preços proibitivos para a classe média, há cada vez mais gente a
ir para os subúrbios. “As periferias voltam a ganhar dimensão no nosso
negócio”, diz um dos agentes ouvidos por O Corvo. Morar em Lisboa é, cada vez
mais, coisa de endinheirados.
Texto: Samuel Alemão
“Não tenho dúvidas de
que, nos próximos cinco a seis anos, vamos assistir a uma explosão de negócios
na zona que vai do centro de Lisboa até à Expo, sobretudo nas áreas do Beato e
de Marvila. Há por ali um enorme potencial, que muitos já perceberam”.
Guilherme Grossman, da imobiliária Consultan, é peremptório ao descrever a O
Corvo aquela que antevê como a mais importante dinâmica do mercado das casas na
capital. O que até não será surpresa, tendo em conta que a empresa é a
promotora do grande empreendimento “Prata”, em construção na zona de Braço de
Prata. É, então, uma boa altura para investir ali? “Se calhar, até já é um
pouco tarde. Quem se antecipou fez, certamente, um bom negócio”, considera o
empresário, para quem a capital portuguesa vai ter cada vez mais procura dos
compradores de propriedade. Uma sentimento reinante no Salão Imobiliário de
Lisboa (SIL) 2017, a decorrer entre esta quarta-feira (18 de outubro) e domingo
(22), na Feira Internacional de Lisboa.
O optimismo e a confiança na robustez do mercado imobiliário
nacionais são perceptíveis no certame, onde ninguém tem dúvidas em apontar a
maior cidade do país como o mais valioso quinhão do sector. O grande impulso
dos últimos anos nas compras e vendas de imóveis em Lisboa é para continuar,
ouve-se por ali, não se antecipando um abrandamento dos preços da habitação nos
próximos anos. Muito pelo contrário. “Estamos a falar de um crescimento
estrutural e não apenas conjuntural. Isto veio para ficar, porque se deve a uma
série de factores, que vão desde a retoma económica até à internacionalização
do sector. Lisboa e Porto passaram a ser vistas como bons investimentos a nível
internacional, como valores seguros”, explica João Pedro Pereira, membro do
conselho executivo da ERA, para quem a cidade está repleta de oportunidades de
investimento. Questionado sobre as áreas que estarão em alta, prefere não
especificar, mas dá pistas. “Todas as zonas do centro que ainda estão algo
desqualificadas. Muitas delas estão debaixo do nosso nariz”.
Uma opinião partilhada por outros agentes do sector. É o
caso de Francisco Vasconcelos, director de expansão da Century 21, que acredita
haver “zonas de Lisboa que ainda não estão descobertas”, como toda a área
ribeirinha oriental. Marvila, Beato, Santa Apolónia e Xabregas são nomes que
andam na cabeça de toda a gente. Mas outras áreas se lhes acrescentam, como
Graça ou Mouraria, sugere Vasconcelos, que aponta uma “procura de habitação
infinitamente superior à oferta” como a razão para o desviar de atenções para
locais que até há pouco não eram tidos em conta pela classe média. Os
endinheirados, sobretudo estrangeiros, estão a contribuir decisivamente para
essa dinâmica. “A oferta em Lisboa, regra geral, está desfasada do poder
aquisitivo do português médio. Durante algum tempo, assistiu-se a um movimento
de regresso a Lisboa. Mas agora, com a subida dos preços, as periferias voltam
a ganhar dimensão na procura dessas pessoas”, diz o responsável da Century 21,
para quem não existe risco de “bolha imobiliária”, embora reconheça que a
concessão de crédito pelos bancos está a voltar a animar o mercado. E se há
outra vez muita gente a sair de Lisboa e a pedir dinheiro emprestado para
comprar casa nos subúrbios, também não falta quem o faça para adquirir imóveis na
capital. Nem que seja como forma de realizar um investimento tido como seguro,
salienta João Pedro Pereira, da ERA.
Um fenómeno
assinalado também por Nuno Martinez, broker da Remax Platina, que opera
sobretudo no Parque das Nações. “Se não ocorrer nada de anormal, algum factor
externo, este cenário de grande dinâmica de venda e compra de habitação
manter-se-á. Até porque há mais pessoas a recorrer ao crédito à habitação”, diz
o comercial, que não tem dúvidas sobre a manutenção da subida dos preços das casas
na cidade. E, por isso, vê como inevitável a expansão da procura à zona
ribeirinha oriental. Até porque facilmente ali se vislumbram grandes
potencialidades. “Toda aquela zona de Marvila, Beato, Santa Apolónia e Matinha,
até ao Parque das Nações, vai crescer muito. Aliás, isso já se está a notar no
Beato, como muitos empreendedores jovens a tomarem conta de estruturas que
estavam abandonadas”, afirma, antevendo a ocorrência de processos de
regeneração urbana similares ao verificado no LX Factory, em Alcântara, e na
zona do Intendente e da Avenida Almirante Reis. “Há sempre uma primeira vaga de
pessoas, mais ligadas às artes, que vão ocupar esses territórios”.
Sinal de que essa é mesmo uma tendência, um dos painéis
programados para a tarde de ontem, na zona de palestras do SIL 2017, dava o
mote. “Lisbon Golden Areas: Depois do Centro Histórico, Requalificação da
Frente Ribeirinha: Da Matinha a Belém” era o tema anunciado pela imobiliária
Castelhana – Lisbon Real Estate. Sem surpresas, há, porém, quem não se importe
de suportar o preço de viver nas zonas mais consolidadas e caras da cidade. É o
caso dos clientes do grupo luso-francês Libertas, que no seu portfólio tem
prédios no Chiado ou em Benfica, junto ao Estádio da Luz. E os que tem na Mouraria,
alguns em fase de acabamento, “estão todos vendidos”, salienta Adrien Blachere.
A empresa que representa opera sobretudo no mercado francês, de onde vêm
pessoas com poder de compra elevado quando comparado ao nacional, mas ainda
assim “sem capacidade para suportarem os valores duas a três vezes mais
elevados das casas em Paris”. Lisboa acaba assim por ser um excelente negócio.
Ou ainda mais o Seixal, onde a empresa comercializa um empreendimento.
Mais cauteloso em
relação a este fenómeno, Francisco Bacelar, presidente da Associação dos
Mediadores de Imobiliário de Portugal, sugere a O Corvo que se poderão estar a
cometer excessos nas vendas de imóveis a estrangeiros. “Os centros de Lisboa e
Porto estão a ficar cheios, mas não é de portugueses, é de estrangeiros. E isso
tem muito que ver com o facto de as casas reabilitadas não serem para os bolsos
dos portugueses. Não podemos afastar os portugueses dos centros das cidades,
porque os estrangeiros não vêm cá só pela pedra, mas também pelas pessoas, pelas
comunidades que as formam, que lhes dão o carácter genuíno”, critica, depois de
colocar água na fervura em relação ao bom momento do sector. Ao contrário de
outros, considera que o crescimento é “conjuntural, embora seja para durar mais
uns anos”. “Não estamos a viver a euforia das décadas de 80 e 90, mas começo a
ver com algum temor ao ver bancos a emprestarem a 100%, embora reconheça os
efeitos positivos que tal possa ter na economia”. Mas esta é, afinal, uma voz
dissonante num salão onde prevalece o optimismo com a perspectiva de bons
negócios.