terça-feira, 24 de outubro de 2017

Vítimas da idade e do vandalismo, escadas rolantes da Baixa-Chiado serão substituídas


Vítimas da idade e do vandalismo, escadas rolantes da Baixa-Chiado serão substituídas
POR O CORVO • 24 OUTUBRO, 2017 •

O Metropolitano de Lisboa revela que uma das razões para a recorrente interrupção no normal funcionamento das escadas rolantes da estação Baixo-Chiado é o vandalismo. Reconhecendo as dificuldades em manter aqueles equipamentos em operação na totalidade do tempo, no que se vem assumindo já como um problema crónico, sobretudo naquela estação, a administração da empresa pública de transportes diz, porém, em resposta escrita a O Corvo, que está a fazer tudo para o conseguir.

 E se assegura estar a desenvolver esforços para que a perturbação seja erradicada, “com a maior brevidade” através da reparação dos mecanismos avariados, anuncia também que tem um plano de substituição integral dos mesmos. O concurso para os dois primeiros lanços de escadas já foi lançado. Resta aos utentes esperar que tais esforços se processem com rapidez. Só este mês, e até ao momento, explica a administração da transportadora, foram registadas quatro avarias, com os inevitáveis transtornos para os milhares de utentes diários.

 O problema é antigo, marcando há anos o quotidiano de todos os que usam uma das mais centrais e movimentadas estações da capital. Mas tem-se tornado especialmente persistente ao longo desta década. Logo no final do ano de 2010, verificou-se que a dúzia de escadas rolantes que servem aquela gare subterrânea, oito a ligar ao Chiado e quatro à Baixa, tinham somado 144 avarias. A situação, como é natural, revela-se especialmente mais incómoda na ligação ao Chiado, dada a distância e a inclinação a percorrer.

 Naquele mesmo ano, e no decurso da paralisação em simultâneo de oito das 12 escadas rolantes, até o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, considerou “inacreditável” o número de vezes que as infra-estruturas tinham de parar devido ao problemas mecânicos. Em dezembro de 2015, depois de questionado por O Corvo, o Metro explicava que as suspensões no funcionamento da escadas se deviam a “motivos técnicos, relacionados com a sua utilização regular intensiva”. E acrescentava que, “em alguns casos, atendendo à idade do equipamento, pode ser necessário proceder-se ao fabrico de peças para sua reposição”.

Agora, e perante a persistência dos problemas, o Metropolitano de Lisboa reitera o argumento da vetustez. E acrescenta-lhe outro. “As escadas mecânicas da estação Baixa Chiado têm perto de 20 anos de serviço contínuo e registam a maior taxa de utilização de todas as escadas mecânicas do Metro, servindo toda a população que utiliza esta estação como forma de ligar o Chiado à Baixa, e não apenas os clientes do Metro de Lisboa”, explica. “Desde o início do mês outubro, registaram-se quatro avarias nas doze escadas existentes nessa estação, sendo que estes equipamentos são, frequentemente, alvo de diversos actos de vandalismo, com consequentes paragens forçadas, o que implica que, por vezes, as escadas se encontrem momentaneamente paradas mas não por situação de avaria”, esclarece.

 Estimando que a “situação seja reposta com a maior brevidade, tendo em consideração o cumprimento dos prazos legais exigidos para este tipo de procedimentos, bem como os prazos necessários para o fabrico e instalação do referido equipamento”, o Metropolitano de Lisboa anuncia ter “em curso um plano para a substituição das escadas mecânicas da estação Baixa Chiado, que será realizado por fases”. A primeira, que prevê a substituição das escadas 7 e 8, as primeiras ao nível do átrio, no acesso ao Chiado, “já se encontra em curso, tendo já sido lançado um procedimento para o efeito”, diz a empresa pública, lamentando ainda o incómodo causado e reafirmando “o esforço no sentido de obviar e reduzir os tempos de paragem destas e das demais escadas mecânicas e elevadores existentes na restante rede”.

 Texto: Samuel Alemão


domingo, 22 de outubro de 2017

Associação interpõe providência cautelar para travar obras em palácio de Alfama




Associação interpõe providência cautelar para travar obras em palácio de Alfama
POR O CORVO • 23 OUTUBRO, 2017 •

A Associação do Património e População de Alfama (APPA), em conjunto com os moradores do bairro, vai interpor uma providência cautelar para impedir a continuação das obras no Palácio de Santa Helena. O edifício do século XVII, antiga residência dos Condes de São Martinho, está a ser transformado em 20 apartamentos de luxo, tendo o actor Michael Fassbender já comprado um deles por dois milhões de euros. Muitos moradores estão revoltados não só por assistirem ao que acreditam ser a descaracterização do bairro histórico, mas também por perderem a vista sobre Alfama inteira e o Rio Tejo. A responsável pela empreitada, a imobiliária Stone Capital, acredita que, com esta intervenção, o Palácio recuperará a sua nobreza e Alfama ficará mais valorizada.

 Texto: Sofia Cristino

 Depois de várias tentativas de dialogar com a Câmara Municipal de Lisboa (CML), a Associação do Património e População de Alfama (APPA), em conjunto com os moradores de Alfama, vai interpor uma providência cautelar para impedir a continuação das obras no Palácio de Santa Helena. O imóvel do século XVII está a ser alvo de uma intervenção que prevê a construção de 20 apartamentos de luxo, da responsabilidade da imobiliária Stone Capital, que tem, neste momento, 25 projectos em mão na cidade de Lisboa.

 Júlio Soares, morador do rés-do-chão de um prédio contíguo ao portão do Palácio de Santa Helena, em declarações a O Corvo, admite que a providência cautelar é “a única forma de, neste momento, parar o processo”. “Hoje (18 de Outubro), estive a falar com o responsável da empreitada e ele disse que queria deitar abaixo o muro que divide as duas propriedades e este muro está na planta do meu prédio. Não o pode fazer. Teria de solicitar uma reunião de condomínio pelo menos para nos informar. Foi a gota de água”, explica, indignado.

 Arthur Moreno, o dono da Stone Capital, garante a O Corvo que a informação dada pelo morador não é totalmente verídica. “O muro tem um troço que é 100% da propriedade da Stone Capital, seguido de um troço que é 50% nosso e os restantes 50% do prédio vizinho. Isto está explícito no licenciamento aprovado na CML”, assegura. “Além disso, a ideia é construir um muro totalmente novo em betão armado, o que só vai trazer vantagens para os moradores. O troço do muro pertencente ao vizinho mantém-se na sua propriedade e não lhe será cobrado nenhum custo por esta intervenção”, garante, ainda.

 A decisão do desmantelamento do muro advém do facto de este já se encontrar com “graves problemas de estabilidade”, segundo Arthur Moreno. “Para não colocar em causa as condições de segurança do muro, vimos necessidade de proceder à sua demolição”, explica. Contudo, segundo o auto de vistoria realizado pela Unidade de Intervenção Territorial da CML, a que O Corvo teve acesso, o prédio de Júlio Soares, de facto, não reúne todas as condições de segurança, estando em risco de ruir. Mas o muro em questão não se encontra com problemas de estabilidade.

 Conforme a planta do prédio, há duas casas de banho adjacentes ao muro, assim como terraços e coberturas. “Deitar propriedade privada abaixo não é legal, além de pôr em causa a segurança dos moradores”, acusa Júlio Soares. Confrontado com os riscos implícitos à destruição do muro, Arthur Moreno diz a O Corvo que não tem conhecimento de que existem casas de banho, nem se recorda do auto de vistoria realizado pela CML. “Não faço ideia, tenho muitos projectos neste momento. Acho que o muro precisa de ser requalificado porque está velho”, diz – contradizendo-se, quando já tinha afirmado a O Corvo que o muro não reunia todas as condições de segurança.

 O empreendimento de luxo, desenhado pelo arquitecto Samuel Torres de Carvalho, foi aprovado pela Câmara de Lisboa, em Dezembro do ano passado, e a empreitada avançou no mês passado, numa altura em que, desde junho de 2016, já se sabia que o prédio de Júlio Soares estaria em risco de ruir. “Não há o mesmo peso e medida para toda a gente. Depois de repararmos que havia um problema nas escadas, estão tortas, veio cá a Unidade de Intervenção Territorial e confirmou que existe falta de segurança da infra-estrutura, tendo realizado um auto de vistoria. Fomos à CML e disseram-nos que tínhamos de começar a fazer obras mas que os licenciamentos estão atrasados. O vereador do Urbanismo sabe que o prédio está em risco de cair e permitiu que as obras do palácio ao lado continuassem”, denuncia o morador.

 Neste momento, os moradores do prédio aguardam por resposta da autarquia para avançarem com as obras necessárias previstas no auto de vistoria. “É revoltante ver as obras ao lado serem aprovadas em oito meses e nós, com o nosso prédio em risco de cair, termos de esperar”, critica.

 Segundo Júlio Soares e a presidente da APPA, Lurdes Pinheiro, não tem havido vontade por parte da autarquia em parar a empreitada. A presidente da APPA, Lurdes Pinheiro, diz mesmo que se informou atempadamente com o Departamento Jurídico da CML sobre qual o melhor procedimento a ter nestes casos, e que lhe foi garantido que tinha de ir a uma reunião de câmara. Uma informação confirmada pelos vereadores do PCP, João Ferreira e Carlos Moura, que, no passado dia 21 de Setembro, entregaram um requerimento ao presidente da CML, Fernando Medina, a questionar o porquê de ter sido aprovada esta operação urbanística sem o assunto ter sido levado a reunião de executivo. Mas, até agora, não obtiveram resposta.

 “O vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, pensa que é o dono da cidade. No caso da construção do Museu Judaico, no Largo de São Miguel, também marcamos uma reunião de câmara que foi cancelada na véspera. Isto foi tudo feito no silêncio e a decisão da construção dos apartamentos de luxo, para todos os efeitos, foi aprovada ilegalmente”, acusa o morador. “Foi uma surpresa para nós porque nem colocaram um placar de licenciamento na fachada do edifício e é obrigatório. Junto às traseiras do prédio, também vão fazer dois pisos subterrâneos. A vistoria foi feita a 8 de junho e arrancaram em setembro, nem deviam ter começado”, reforça.



Júlio Soares foi na quarta-feira passada (18 de Outubro) à Câmara de Lisboa perguntar em que fase se encontra o processo. “Disseram-me que o requerimento entregue pelos vereadores do PCP deu entrada na direcção municipal, no Campo Grande, a 9 de Outubro e que estão à espera da resposta para ser encaminhado”, informa.

 Os moradores queixam-se, essencialmente, da descaraterização que o bairro típico lisboeta tem vindo a sofrer nos últimos anos mas, também, da vista sobre a iminente perda da vista sobre o Rio Tejo, que tiveram durante toda a vida. “As pessoas que lá vivem deixam de ter o sol a entrar pela casa, porque os novos prédios vão tapar tudo”, comenta Lurdes Pinheiro, presidente da APPA. “Esta obra é uma aberração e vai ter um impacto urbanístico enorme. As fachadas do século XIX vão ser substituídas por fachadas do século XXI. O palácio de Santa Helena emparelha com um prédio anterior ao terramoto de 1755. Alfama deveria ser o bairro de Lisboa mais preservado, por ser o mais antigo da cidade, mas está a ser o mais prejudicado”, acrescenta Júlio Soares.

 Arthur Moreno, proprietário da Stone Capital, tem outro ponto de vista. “Nós somos apaixonados pela cidade de Lisboa. Queremos valorizar o património, não queremos destruí-lo. Por exemplo, os azulejos do Palácio de Santa Helena vão ser restaurados manualmente e vamos manter a capela, dentro dos padrões urbanísticos. O projecto foi acompanhado por um historiador e um arqueólogo, porque sempre nos preocupamos com a preservação e restauração dos espaços. O Palácio vai recuperar a sua nobreza”, garante. “Começámos a apostar em Lisboa em 2010, numa altura em que Portugal estava em crise e sempre achamos que a cidade tinha um grande potencial. Acho que estamos a fazer um bom trabalho”, conclui.

 O Corvo contactou, ao início da tarde de quinta-feira (19 de Outubro), a Câmara Municipal de Lisboa, pedindo esclarecimentos sobre este assunto, mas, até ao momento, não obteve resposta.


 Situado dentro da muralha Fernandina, numa posição elevada sobre o rio Tejo e o vale de São Miguel, o Palácio de Santa Helena foi durante quatro séculos a residência familiar dos Condes de São Martinho, detentores de altos cargos na corte portuguesa. Depois de deixar de ter funções habitacionais, albergou, ainda, a Escola Superior de Educação Almeida Garrett durante cerca de 20 anos.

Teixeira Duarte: Uma família discreta e numerosa



A guerra do BCP, a venda da Cimpor e, agora, as suspeitas de favorecimento pela Câmara de Lisboa, têm obrigado a terceira geração dos Teixeira Duarte a sair da sombra. A contragosto
CLARA TEIXEIRA
Jornalista

Quase a fazer cem anos, a Teixeira Duarte mantém-se nas mãos da família, tão discreta quanto numerosa, que criou a empresa em 1921. Fundada por Ricardo Teixeira Duarte, antigo bastonário da Ordem dos Engenheiros, foi sob a orientação do filho Pedro (na foto em cima), hoje com 98 anos, que foi crescendo até se tornar na segunda maior construtora nacional a seguir à Mota-Engil. A terceira geração, liderada por Pedro Maria, atual presidente do conselho de administração, partilha com o patriarca o horror à exposição pública, à vida mundana e às fotografias para a posteridade. Fora dos negócios, a família é conhecida pela ligação estreita à Opus Dei, tendo participado na fundação do Colégio Planalto, mas se não fosse a guerra do BCP e a luta pelo controlo da Cimpor, o apelido Teixeira Duarte nunca teria saltado para as páginas dos jornais. Nos últimos dias, a família e a empresa viram-se envolvidas em nova polémica, relacionada com suspeitas de favorecimento num contrato, após a venda de um apartamento ao presidente da Câmara de Lisboa.
Foi em 2007, há precisamente uma década, que o grupo Teixeira Duarte e o seu enigmático presidente saíram da sombra para se envolverem no assalto ao BCP, liderado pelo empresário Joe Berardo. Surpreendentemente, apoiando o “inimigo” sem olhar a velhas alianças, uma vez que o grupo era um dos três maiores acionistas do banco de Jorge Jardim Gonçalves, com mais de 7% do capital.
Para além dos negócios, os destinos das famílias Jardim Gonçalves e Teixeira Duarte estão unidos pelos sagrados (para eles, católicos praticantes e ortodoxos) laços do matrimónio. O relacionamento começou antes, quando Rodrigo, o mais novo dos cinco filhos de Jardim Gonçalves, teve Antónia, um elemento do clã Teixeira Duarte, como professora de música. As famílias começaram a frequentar-se, descobrindo afinidades, até que João Afonso, um dos mais novos dos dez filhos de Pedro Teixeira Duarte, começa a namorar com Sofia, a segunda filha do fundador do BCP. Do casamento, nascem 14 filhos, sete raparigas e sete rapazes, todos eles com Maria no nome. Quase ao mesmo tempo, a construtora revela-se como um dos acionistas mais fiéis do núcleo duro do BCP, ocupando um lugar no Conselho Geral e de Supervisão do banco, presidido por Jardim Gonçalves.
Preocupado com a dependência do BCP, que lhe financiava a tesouraria mas também a dispendiosa aquisição da Cimpor, Pedro Maria Teixeira Duarte – o sucessor natural do pai após a morte precoce do primogénito Ricardo, professor, investigador e criador da plataforma de ensaios sísmicos do LNEC –, terá tentado encontrar uma terceira via para o imbróglio do banco. Sem sucesso. Retirou o apoio a Jardim, defendeu a sua saída do BCP e, no final, mesmo tendo apoiado a tomada do poder por Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, durante a governação de José Sócrates, foi obrigado a abrir mão da Cimpor para a brasileira Camargo Corrêa, em 2012, tendo perdido uma fortuna com a desvalorização da participação no BCP. Além disso, o grupo foi um dos mais afetados com a travagem brusca da construção e obras públicas durante os anos da troika. Uma crise da qual a construtora ainda não recuperou, admitindo continuar a despedir trabalhadores, apesar da internacionalização bem sucedida dos seus negócios (construção, hotelaria, distribuição alimentar e automóveis) em países como Angola, Moçambique ou Venezuela.
FAMÍLIAS DESAVINDAS
Na sua biografia, escrita por Luís Osório (O Poder do Silêncio, D. Quixote), Jardim Gonçalves elogia as qualidades de Pedro Maria, mas não lhe perdoa os defeitos, acusando-o de se ter “portado mal”. “Ganhou relevo no BCP e perdeu o bom senso”, diz. Inevitavelmente, as famílias desentenderam-se. Sofia e João Afonso, que ficou isolado na defesa do sogro, mudaram-se em 2011 para Madrid, numa espécie de exílio. Nas raras ocasiões em que tem encontrado Pedro Maria, o fundador do BCP confessa que se limita a dirigir-lhe um aceno. “O problema é dele para mim, eu não tenho qualquer problema com ele”, diria em entrevista ao jornal Sol.
Só em 2009, já com 90 anos (e mais de 60 passados no grupo familiar), é que Pedro Teixeira Duarte viria a ceder, em definitivo, a cadeira do poder ao filho Pedro Maria, 63 anos, licenciado em gestão de empresas e um exímio corredor de maratonas. Ele e alguns dos oito filhos – do casamento com Madalena, irmã de Isabel Jonet e presidente da Ajuda de Mãe – colecionam participações em algumas das provas mais conhecidas do mundo, como as maratonas de Londres ou de Nova Iorque, mas também a de Lisboa.
Conservador, circunspecto e enigmático, homem de hábitos frugais, não falha, tal como o pai e – arriscamos – boa parte da numerosa família, a missa de domingo. Fora do seletivo mundo dos negócios, poucos lhe terão ouvido a voz, não dá entrevistas e não se deixa fotografar (os instantâneos à saída das mediáticas assembleias-gerais do BCP são a exceção). Os concorrentes elogiam a solidez técnica da construtora e a gestão competente de Pedro Maria, apesar da reestruturação em curso que prevê continuar a despedir para dar a volta aos prejuízos de 9 milhões de euros no primeiro semestre de 2017. A família tem estado a vender ações para reduzir a dívida, que supera os mil milhões de euros, e a empresa admite alienar o Lagoas Park, um parque empresarial no município de Oeiras onde tem a sua sede.
O APARTAMENTO DA HERDEIRA
Dez anos passados sobre a guerra do BCP, a Teixeira Duarte está de regresso aos títulos dos jornais. Em véspera de eleições autárquicas, a adjudicação, sem concurso, das obras de 5,2 milhões de euros de estabilização do miradouro de São Pedro de Alcântara, no centro de Lisboa, à construtora da família após uma das herdeiras – Isabel Maria Teixeira Duarte, que os jornais apresentam como neta do fundador e prima do atual presidente – ter vendido um apartamento de luxo nas Avenidas Novas a Fernando Medina, com alegado prejuízo, conduziu à abertura de um inquérito do Ministério Público por eventuais suspeitas de favorecimento. No mesmo edifício, restaurado pela construtora, residem três ex-ministros: Jaime Silva (sogro de Medina e ex-ministro do PS), Celeste Cardona (ex-ministra do CDS) e Ricardo Bayão Horta (ex-ministro do CDS e ex-chairman da Cimpor durante o domínio da Teixeira Duarte), o que não escapou à análise dos media. Talvez numa alusão a Jardim Gonçalves, quando afirma, na sua biografia, que o problema das grandes construtoras é que têm sempre “muitos interesses dependentes do Estado”
Os contratos da Teixeira Duarte
Depois de Fernando Medina ter comprado um apartamento a uma herdeira do grupo Teixeira Duarte, a Câmara entregou à construtora, por ajuste direto, alegando urgência nos trabalhos, a estabilização do miradouro de São Pedro de Alcântara, no centro histórico da capital, apesar do voto contra do CDS. A obra, orçada em 5,2 milhões de euros, foi considerada de “urgência imperiosa”, apesar dos pareceres do LNEC não apontarem nesse sentido. Antes, a Teixeira Duarte tinha sido escolhida, também por ajuste direto, para a reparação dos viadutos metálicos de Alcântara, no valor de 350 mil euros.
O portal Base, onde são registados os contratos públicos do Estado e autarquias, indica três outros contratos entre a Câmara de Lisboa e a Teixeira Duarte. Dois são do tempo de António Costa e só um é assinado por Fernando Medina: uma aquisição de serviços para introdução de dados em relatórios geológicos, por ajuste direto, no valor de 69 mil euros.
Nos últimos cinco anos, a Teixeira Duarte ganhou obras, por ajuste direto, nos municípios da Maia, Ovar, Santa Maria da Feira, Salvaterra de Magos, Serpa, Odemira, Vila do Bispo, Sintra e Oeiras, com a empreitada mais valiosa a ultrapassar um milhão de euros neste último concelho, onde a empresa tem a sua sede.

(Artigo publicado na VISÃO 1281, de 21 de setembro de 2017)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Quem lá foi ainda lá está





Quem lá foi ainda lá está

16.07.2017

Foram os primeiros a entrar na EN236-1 depois da tragédia em Pedrógão Grande. Inspetores da Judiciária, peritos da Medicina Legal, militares da GNR. Ainda não falaram com ninguém, porque não devem falar. Estavam a trabalhar, representam instituições, há uma investigação em curso. Mas precisam tanto de falar. Este é o seu relato, um exorcismo de tristeza sem nomes. Nem deles nem das vítimas. Por respeito
Raquel Moleiro

Passou quase um mês e os sonhos permanecem. E os flashes vindos do nada, por coisa nenhuma. Uma estrada feita de fogo e só eles no meio. Um crânio pequenino a olhá-los fixamente com os olhos que já não tem. Em cada família anónima a cara das famílias que morreram. Nos ouvidos ainda os gritos, de um agudo que rebenta escalas, gritos não, berros que arrepelam a pele, “Ai, acuda-me! Tirai-os de lá”, e eles sem se puderem mexer, tal como naquele dia, sem poder fazer nada para os salvar. Gente habituada à morte, com anos ou mesmo décadas ao serviço da Polícia Judiciária, do Instituto Nacional de Medicina Legal e da Guarda Nacional Republicana, deixou-se tocar por ela, apanhada em falso pela dimensão desmesurada da tragédia de Pedrógão, as histórias demasiado humanas a transformarem os cadáveres em muito mais do que um objeto de trabalho. Um pé no alcatrão derretido da Estrada Nacional 236-1 e a barreira profissional caiu, ausentou-se, deixando-os sem proteção para o que viram a seguir. Foi respirar fundo, os pulmões presos às costas, o dever a travar brilhos nos olhos e “bora lá, segue”. Mas não seguiram. Ainda lá estão, na ‘estrada da morte’. O nome é feio, sensacionalista, cruel para quem ali mora, mas nenhum outro se lhe cola tão bem. Desaparecerá com o tempo, assim como as coroas de flores colocadas nos rails e os remendos do alcatrão.
Sábado, 17 de junho. “112 informa: coluna de fumo, será em mato. Acionado CBV Pedrógão Grande e feita triangulação com CB’s Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e CMA Ferreira do Zêzere. Informado CODIS Leiria.”
Eram 14h43 e a Proteção Civil arrancava com o relatório da ocorrência do incêndio de Pedrógão Grande, com ponto zero em Escalos Fundeiros. Começou miúdo, banal, por um raio de trovoada seca que a PJ garante ter existido mas que o IPMA não viu. A descarga atmosférica bate nos cabos de média tensão, descarnando-os, faz um ricochete de 15 mil volts e lança-se na copa de um carvalho e daí para o mato circundante. Num ai de dez minutos já pedia mais meios e em duas horas corria com grande intensidade e multiplicava-se em frentes, três, depois quatro, agigantando-se com a falta de comunicações e as rajadas de vento, que se fazem de fogo em dia de 40 graus, alimentando-se de pinheiros e eucaliptos e matos (43.201 hectares) e casas (491) e vidas (64).
Em cinco horas chegou à zona da EN236-1, que liga Castanheira de Pera a Figueiró dos Vinhos. Faltava pouco para as oito da noite. Era dia e não era. Era um breu de fumo denso, horrível, puxado a rajadas brilhantes de fagulhas que mantinham os helicópteros em terra. O IC8 estava cortado há menos de uma hora. De cinco em cinco minutos a Proteção Civil registava mais uma povoação cercada pelas chamas. Vila Facaia, Casalinho, Troviscais, Mosteiro, Graça, Vermelho, Pobrais.
Choviam os pedidos aflitos dos comandos no terreno, sem comunicação com o posto de comando e sem veículos para acudir. Era preciso evacuar e não havia ninguém para ir lá. Mesmo que houvesse, não se conseguia falar com quem manda para os tirar de lá. E os pedidos aflitos dos populares a chegar via 112, entre o foge e o não foge. “Habitações cercadas com idosos acamados”, “vítimas queimadas”, “família em perigo”, “casas a arder”, “despiste”, “filho desaparecido”... Uns fecharam-se em casa. Os que decidiram partir desembocaram quase todos na Nacional. Sítio errado, hora errada. Ao mesmo tempo chegou lá o diabo de fogo, o ciclone de chamas, o fim do mundo, a incineradora, o downburst. Em 300 metros de estrada, ao quilómetro 7, morreram 47 pessoas, 30 dentro dos carros, 17 fora.
Numa ponta e noutra da via só gritos, lancinantes, guturais, de um sofrimento atroz. No meio o silêncio. Gritava a meia dúzia que de lá saiu viva, a pé, de cabelos em chamas, a pele queimada e a mente em ferida com as mortes grotescas a que assistiu. Gritava o pai que deixara lá duas filhas e mulher. Gritavam os vizinhos que sabiam bem quem partiu de carro das aldeias de pouca gente onde todos se conhecem.
E gritavam para dentro os militares da GNR, impotentes perante o monstro, imprevisível, inesperado, repentino. Atónitos com a violência e a rapidez. “Como? Mas como é que? Num minuto estava ali longe e depois...” Um fogo que não foi só de um lado ao outro da estrada, pelo alto dos eucaliptos e pinheiros, mas circulou também rasteiro, matreiro, à traição, em ambas as margens, na direção dos carros. E também no ar, remoinhos desaustinados, bolas de fogo como balões a quem soltaram o pipo. Não havia como travar aquilo.
Alguns militares, de tanto engolir lágrimas, afogaram-se em angústia. Dez estão sob vigilância do gabinete de psicologia da GNR, que montou campanha em Pedrógão. Dois foram encaminhados para o centro clínico.
Nos extremos da morte desenrolaram fitas brancas e amarelas, ataram-nas na largura da estrada e vedaram o troço, que continuaria a arder por longas horas antes que alguém lá entrasse e confirmasse (desmentisse, na verdade) a primeira contagem de vítimas mortais: 16, só ali. Mais 3 em Figueiró. No local permaneceram sempre patrulhas da GNR. Por segurança, sim. Mas também por respeito. Quem tanto sofreu não pode ficar sozinho.
http://images-cdn.impresa.pt/expresso/2017-07-11-Incendios-Pedrogao/original/mw-320
A tragédia chega às redações por volta das 23h de sábado. A PJ decide que é hora de avançar. Não é preciso esperar pelo óbvio. Entre inspetores dos homicídios e dos fogos, de Coimbra, Lisboa, Leiria e Aveiro, aciona-se uma dúzia de elementos. Alguns avançam para Escalos Fundeiros, terriola de 80 almas, para descobrir o ponto zero do incêndio. Outros para a EN236-1. Seguiram por estradas acabadas de arder, sempre a abrir, no centro das duas faixas, como se fossem no encalce do fogo sem nunca o querer apanhar, num slalom entre ramos incandescentes, com bombeiros e GNR a bater o trajeto.
As labaredas, aquém da distância de segurança, foram o único sinal de vida no caminho. Nem um carro, nem uma pessoa, nem um animal. Só um fumo horrível. As placas das terras queimadas. Uma solidão angustiante. Parecia uma cenário pós-Tchernobyl. Ou uma foto a preto e branco em que só pintaram os carrinhos de cor. E cada vez mais escuro, denso, forte, quilómetro a quilómetro, em direção ao fim do mundo.
Rezou-se baixinho para afastar o medo ou uma avaria, um pneu furado. Uma paragem e era o fim. Talvez não fosse, mas parecia. Dali a umas horas passariam também por lá as equipas do Instituto Nacional de Medicina Legal, uma de Coimbra e duas do Porto. A recolha dos corpos devia começar quanto antes.
Eram três da manhã quando a Judiciária entrou pela primeira vez na EN236-1. Passavam sete horas desde a hora da morte e ainda não se respirava. As máscaras, das mais fortes, mal travavam o fumo. Os pés das árvores ardiam, o alcatrão derretido colava-se aos sapatos.
Foi uma passagem rápida, para um lado e para o outro, mas ficará para sempre na memória de quem a fez. Estava escuro como breu. De lanterna em punho, espreitaram para cada carro e iniciaram uma contabilidade macabra. Depressa ultrapassaram as estimativas. Contaram 26, por alto.
Ainda havia corpos a arder. Uma criança ao colo do pai, que um inspetor extinguiu, parecia olhar para eles através da janela de vidro derretido. O vidro funde a 1100 graus. Não havia qualquer hipótese de sobrevivência, nem dentro nem fora dos carros.
Mesmo na penumbra, cada vítima contou-lhes uma história pela posição em que morreu, como uma Pompeia apanhada pelo vulcão em que o fogo fez a vez da cinza. O casal abraçado, resignado. As crianças protegidas debaixo do tabliê. O homem escondido sob o carro numa derradeira tentativa de sobrevivência. As fugas pela estrada travadas pelo calor. Um corpo que alguém tentou apagar com um extintor, deixando-lhe o perfil desenhado a branco no asfalto.
Numa investigação criminal, num homicídio, os mortos servem um fim. Ajudam a chegar a quem os matou. A atenção foca-se na obtenção de pistas, o corpo não é mais um corpo que teve uma vida mas um campo de análise, mesmo nos mais bárbaros crimes. Mas ali não havia culpados para procurar, ali um cadáver era uma pessoa real que era preciso identificar, atentar nos detalhes pessoais, olhar fixamente quando se quer é virar a cara.
http://images-cdn.impresa.pt/expresso/2017-07-11-incenfio-fogo-pedrogao/original/mw-320
E, de tanto olhar, as imagens ficaram gravadas e ativam-se sem aviso todos os dias. Uma criança da idade daquela criança. Uma família igual àquela família. Dias terríveis, noites piores, em que a mente viaja repetidamente até à estrada, àquela estrada, com aquelas pessoas que só se queriam salvar, pôr os filhos a salvo, em que se sente o que se pensa que sentiram, em que se deixa que entrem na nossa vida e sejam nossos também, próximos, e que soframos por eles. E isso mói. Traumatiza.
Perto das seis da manhã chegou a primeira equipa de Medicina Legal. Antes não valia a pena. A estrada não tinha iluminação e não foram providenciados holofotes para o local do crime. Fala-se de crime porque o inquérito tutelado pelo DIAP de Leiria não afasta a possibilidade de ter havido homicídio por negligência. Será longa a investigação, alimentada por centenas de testemunhos de outros tantos intervenientes, desde o primeiro a ver o fogo a quem o tentou apagar, quem mandou nas operações, quem não mandou mas devia ter mandado, quem ligou para o 112 a pedir a ajuda que nunca chegou, quem fugiu, quem perdeu tudo, quem se salvou. E mais os peritos e as peritagens, os relatórios, as imagens de drones, os vídeos de populares, as análises, as autópsias. Para cada uma das vítimas uma ramificação de ligações que é preciso seguir. Não peçam pressa, que não vai dar.
No lusco-fusco, que o fumo fazia mais fusco que lusco, começava o levantamento oficial das vítimas, com todos os elementos vestidos de macacão branco, à CSI. Na mala que deve estar sempre preparada para emergências como esta havia etiquetas, luvas, máscaras e bodybags. Não chegaram. Tiveram de recorrer aos dos bombeiros. As estatísticas da tragédia ultrapassaram até a logística recomendada para um desastre de massas.
À medida que ia clareando, o palco da tragédia tornava-se ainda mais dantesco, apanhando desprevenido mesmo quem faz da análise da morte profissão. Quem faz autópsias todos os dias aguenta tudo, não é? Não. Não há como aguentar aquilo. Não eram os corpos, era o cenário todo. Falava. Mortos que falavam. 300 metros com 30 corpos espalhados, como um presépio de horror feito de soldadinhos de chumbo, cada um no seu sítio, na sua posição. Como um filme que se põe em pausa. A ideia de movimento estava lá, a ideia de vida.
A sala de autópsias é um lugar assético, protegido, onde as emoções não entram, não magoam. Não se conhece a pessoa. Entra, sai e acabou. Ali, no alcatrão, recebeu-se tudo num turbilhão, sem barreiras, que piorou nos dias seguintes, com a mente a fazer o match perfeito entre o que viu e as histórias e fotografias que a comunicação social foi mostrando. Aquela era aquela família. E a outra. E aquele casal. Tão novos. Estavam felizes nas fotografias das redes sociais. Uns tinham vindo da praia, muitos só estavam a passar o fim de semana, nem eram dali.
Nos primeiros três carros não havia ninguém, os ocupantes conseguiram fugir. Depois aparece um corpo, e depois outro, e depois um monte de carros, todos com gente lá dentro. E outro monte mais à frente. Percebe-se o pânico, a confusão, a desorientação. Não se via um palmo com o fumo. Há um primeiro que se despista, bate nos rails e fica atravessado. Já dali não sai. A seguir vem outro que trava a fundo. E atrás mais um que bate nesse, e depois outro e outro. Há um pinheiro que cai. Tenta-se fazer marcha atrás, inverter a marcha, mas já não é possível. Os pneus rebentam, desfazem-se, as jantes cravam-se no alcatrão quente.
Para o lado do IC8 havia fogo, para o lado de Castanheira os acidentes que a maioria só viu quando entrou por ali adentro. Vários choques em cadeia que fizeram de barreira à fuga e de onde foi impossível sair.
Há pessoas dentro dos carros, fora dos carros. Uns tentaram fugir para cima, outros para baixo. Uns mudaram de carro, outros quiseram mudar e não conseguiram e ali ficaram. Muitas portas fechadas, a maioria. Há sinais de atropelamentos. Foi o salve-se quem puder.
Passadas dez horas desde a hora da morte os carros ainda estavam quentes e havia brasas nas margens. Mantinha-se o fumo e um calor atroz. Entre as seis da manhã e a uma da tarde levantaram-se 39 corpos, só ali num pedacinho de estrada. A técnica de abrir as portas foi aprimorada pela repetição. Basta puxar um pouco para cima, ouve-se um clique e já está. A ida aos restantes, mais dispersos, estendeu-se até ao fim do dia.
As vítimas foram tiradas uma a uma pela equipa conjunta da Medicina Legal e da PJ. Não é normal que seja assim. Os peritos não fazem essa parte braçal, final. Habitualmente, são as funerárias ou os elementos da Proteção Civil. Mas ali sim, sem perguntarem sequer se havia quem o fizesse. Houve cuidados extremos nesse momento. Houve carinho.
http://images-cdn.impresa.pt/expresso/2017-07-11-Incendios-pedrogao-Leiria/original/mw-320
A cada carro foi atribuída uma letra, a cada corpo um número. Além das fotografias do local intocado, o anotador registou tudo o que permitisse a rápida identificação das vítimas (concluída em cinco dias): matrículas, marcas, número de ocupantes, referências geográficas, local da estrada, distâncias entre carros e o pouco que o fogo não apagou. O ouro permaneceu nas vítimas que o traziam, ainda que fundido em alguns casos (funde a mais de mil graus). Também no chão, aqui e ali, o metal precioso foi encontrado em montinhos de anéis, fios, pulseiras. Quem fugiu das casas trouxe consigo o que quis salvar.
Um a um foram colocados em sacos ao longo da estrada, recolhidos posteriormente para o camião frigorífico da Autoridade Nacional de Proteção Civil, um gigante branco (no cenário negro), com gavetas suficientes para responder a cenários de catástrofe. Mas que se avariou duas vezes. Uma no caminho, fácil de remendar, e outra descoberta já depois de todos os corpos estarem acondicionados. Não fazia frio. De recurso foi alugado um outro camião, de transporte de alimentos, mas sem gavetas, que obrigaria a mais uma transladação, já às primeiras horas da madrugada de segunda-feira, na zona industrial de Figueiró, por recato, antes de partir para o INML em Coimbra.
As equipas da ‘estrada da morte’ já tinham sido entretanto rendidas. Mas antes da partida passaram pelo quartel dos bombeiros de Castanheira de Pera. A vila estava cercada pelo fogo. Só se entrava por um caminho, o que já tinha ardido. Havia uma mesa corrida, posta, em reabastecimento contínuo. Alimentava-se quem aparecia a troco de nada. Havia canja, jardineira, entrecosto, melão fresquinho e muito desalento, que pesava. Tantas histórias naquela mesa. Pessoas a chorar mortos num desabafo baixinho, pessoas a procurar pessoas, bombeiros exaustos, famílias sem expressão, polícias, médicos legistas, num entra e sai mudo.

Era um cenário de guerra. À mesma mesa sentavam-se os deslocados, os feridos, os combatentes, cada um com a sua vivência de horror, passando uns aos outros a comida numa partilha de irmãos. Toca a sirene. Um bombeiro que tinha acabado de se sentar levanta-se. Beija a filha e a mulher, abraça-as quando lhes vê as lágrimas. E parte.
“Bora lá, segue.” Há que seguir em frente.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Cervejaria Solmar está na mão de chineses e reabre daqui "a dois ou três meses"


Sim ... Chineses dizem que vão respeitar todas as características dos Interiores, conscientes do seu valor Patrimonial e Histórico, incluindo o anúncio luminoso da fachada, mas não deixa de ser um "sinal dos tempos" o facto de que todo o Investimento e dinamismo empreendedor nos centros determinantes e estratégicos, seja exclusivamente Internacional ... Portugal no Imobiliário, nos negócios , à VENDA ...
OVOODOCORVO

Cervejaria Solmar está na mão de chineses e reabre daqui "a dois ou três meses"
Empresária chinesa vai explorar o icónico restaurante da Baixa lisboeta e promete mantê-lo tal como até aqui. Não só em relação à arquitectura, mas também à comida.

João Pedro Pincha
JOÃO PEDRO PINCHA 18 de Outubro de 2017, 22:19

A emblemática cervejaria Solmar, famosa não só pelos mariscos como pela exuberante decoração interior, está em obras e deve reabrir daqui “a dois ou três meses”. O restaurante da Rua das Portas de Santo Antão, na Baixa de Lisboa, será explorado por empresários chineses, que garantem querer manter a identidade portuguesa do espaço.
A Solmar vai continuar a ser uma marisqueira e cervejaria, disse ao PÚBLICO um cidadão chinês que se encontrava no local esta quarta-feira à tarde e que se apresentou como Jin, sobrinho da nova gerente. As obras começaram “há duas semanas” e devem estar concluídas dentro de “dois ou três meses”. Um operário português que por ali estava afirmou que os trabalhos visam “preservar o aspecto antigo” da cervejaria.
A mesma garantia deu Jin Yun Hua, que disse ao PÚBLICO ser a nova dona da Solmar. A também presidente da Associação Geral das Mulheres Chinesas em Portugal afirmou que o objectivo é “só pintar e limpar” e que não estão previstas mais alterações. “A casa é histórica, não podemos fazer nada”, acrescentou.
Apesar de ter perdido alguma relevância nos últimos anos, a Solmar continua a ser um ícone da restauração lisboeta. Sobretudo por causa da sua arquitectura modernista, do enorme painel de azulejos criado por Pedro Jorge Pinto e do mobiliário desenhado especificamente para o espaço por José Espinho e produzido pelos Móveis Olaio. Na quarta-feira, as cadeiras e mesas estavam arredadas e empilhadas, enquanto os trabalhadores se movimentavam.
O carácter único da arquitectura e da decoração da cervejaria levou a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) a abrir um procedimento de classificação patrimonial em Fevereiro do ano passado, depois de isso ter sido proposto por cidadãos em 2012. O procedimento ainda não terminou, mas a Solmar está já abrangida por um conjunto de regras. Entre outras coisas, a venda ou arrendamento do espaço têm de ser comunicados previamente às entidades, além de ser obrigatório estas darem autorização à realização de obras.
O PÚBLICO não conseguiu contactar António Pedro Paramés, herdeiro dos irmãos galegos que fundaram o restaurante nos anos 1950 e que até há pouco era sócio e gerente da Solmar. Também não foi possível perceber se os trabalhos em curso no interior foram autorizados e se estão a ser acompanhados pela tutela.
Tanto a empresária chinesa como o seu sobrinho garantem que sim, que “há licença” e que as obras em nada vão alterar a marisqueira. Até o grande reclame luminoso no exterior, uma das imagens de marca da Rua das Portas de Santo Antão, vai ser recuperado, afiançou Jin, o sobrinho.

A Solmar, cujos mariscos trazidos de propósito do mar do Guincho fizeram a fama da casa, fica no rés-do-chão de um palácio ocupado há mais de cem anos pelo Ateneu Comercial de Lisboa. Esta entidade, que teve uma profícua actividade cultural, recreativa e desportiva, está desde 2012 envolvida num complexo processo de insolvência. O espaço da cervejaria, no entanto, não pertence ao ateneu.

É preciso merecer o poder que se tem


 ET TU Roseta !?
A Helena começa nítidamente a "Fazer Contas à Vida"...
OVOODOCORVO


É preciso merecer o poder que se tem
A demissão da ministra, depois de o Presidente o ter praticamente exigido, pode abrir espaço ao Governo para rapidamente iniciar um novo ciclo.

Helena Roseta
19 de Outubro de 2017, 6:50

Ninguém pode assistir sem dor e sem revolta ao colapso do sistema nacional de protecção civil. Quando as pessoas desamparadas, um pouco por todo o Norte e Centro do país, tentavam apagar as chamas com baldes e enxadas e acabavam a chorar os seus mortos, não se pode dizer-lhes que sejam resilientes. Nem falar em férias sacrificadas. Nem voltar a remeter para relatórios. Não se pode. O Estado falhou e o Governo não foi capaz de perceber a dimensão da tragédia. Como disse o Presidente da República, é preciso “humildade cívica e ruptura com o que não provou ou não convenceu”.

Sabemos que há causas estruturais que não se vencem de um dia para o outro e que os problemas mudam de natureza quando mudam de escala. É o que está a acontecer em Portugal com os fogos florestais. Mas a verdade é que não estivemos à altura. Depois de Pedrógão, uma tragédia imensa que nos apanhou de surpresa, tínhamos o dever da vigilância, da previsão e da prontidão para mobilizar os meios que impedissem um novo desastre. Não fomos capazes.

Sou deputada, faço parte das bancadas que apoiam este Governo, pelo qual me bati e bato. Irei votar contra a moção de censura do CDS. Mas por isso mesmo não posso deixar de dizer ao Governo e ao primeiro-ministro: é preciso merecer o poder que se tem. É preciso coragem para reconhecer os erros e mudar o que tem de ser mudado. Devemos isso aos que morreram pela nossa inépcia.

Não quero voltar a ouvir notícias sobre os locais de difícil acesso onde os bombeiros não chegam. Não somos capazes de abrir os aceiros que são necessários? Não temos forças militares e autarquias para promover as tarefas de defesa de um território que fomos deixando ao deus-dará? Não conseguimos organizar nas nossas aldeias pontos de refúgio seguros? Isto não podia ter sido feito em quatro meses? Andámos tão empolgados em campanhas eleitorais que nos esquecemos do nosso dever primeiro, cuidar dos nossos concidadãos mais frágeis e esquecidos?

Sabia-se do clima e da meteorologia, das elevadas temperaturas, do furacão Ophelia e da seca generalizada. E que no Outono as pessoas começam a fazer as suas queimadas. Ninguém se preocupou em alertar o país rural para o perigo dessa prática este ano? O Governo esteve à espera de relatórios independentes, sabemos bem, mas que medidas imediatas tomou? Por que é que o Ministério da Administração Interna não conseguiu sequer programar devidamente a disponibilidade de meios aéreos e no terreno? Desculpem, mas isto tem um nome: incompetência.

Sei que este é um momento muito difícil para quem tem a responsabilidade de governar. Mas mais difícil é para quem perdeu vidas, bens, animais, culturas, casas, floresta. Não chegam os pêsames e as promessas de solidariedade. Cada um deve avaliar se está à altura do que lhe é pedido. A ministra da Administração Interna percebeu finalmente que tinha de sair pelo seu pé. Teve até ao fim a confiança do primeiro-ministro, faltou-lhe a dos governados. O seu pedido público de demissão, depois de o Presidente o ter praticamente exigido, pode abrir espaço ao governo para rapidamente iniciar um novo ciclo, tomar as decisões que se impõem e fazer a reforma do sistema nacional de protecção civil, garantindo o papel do Estado na defesa do território e das populações, sem os quais Portugal não pode subsistir.


Arquitecta; presidente da Assembleia Municipal de Lisboa

Zona ribeirinha oriental de Lisboa é cada vez mais procurada para compra de casa


“Os centros de Lisboa e Porto estão a ficar cheios, mas não é de portugueses, é de estrangeiros. E isso tem muito que ver com o facto de as casas reabilitadas não serem para os bolsos dos portugueses. Não podemos afastar os portugueses dos centros das cidades, porque os estrangeiros não vêm cá só pela pedra, mas também pelas pessoas, pelas comunidades que as formam, que lhes dão o carácter genuíno”
Destaque de OVOODOCORVO

Zona ribeirinha oriental de Lisboa é cada vez mais procurada para compra de casa
POR O CORVO • 19 OUTUBRO, 2017 •

Beato, Marvila, Xabregas ou Santa Apolónia são nomes que fazem sorrir quase todas as empresas do sector presentes no Salão Imobiliário de Lisboa 2017. Será por ali que, nos próximos anos, muitos dos seus comerciais dispensarão atenções. A pressão da procura de casa para viver na capital, muito influenciada pelo investimento estrangeiro, faz com que se comece a olhar com insistência para bairros até agora negligenciados. E onde ainda há muito por fazer em termos de reabilitação urbanística. Mas as imobiliárias também notam que, fruto dos preços proibitivos para a classe média, há cada vez mais gente a ir para os subúrbios. “As periferias voltam a ganhar dimensão no nosso negócio”, diz um dos agentes ouvidos por O Corvo. Morar em Lisboa é, cada vez mais, coisa de endinheirados.

 Texto: Samuel Alemão

 “Não tenho dúvidas de que, nos próximos cinco a seis anos, vamos assistir a uma explosão de negócios na zona que vai do centro de Lisboa até à Expo, sobretudo nas áreas do Beato e de Marvila. Há por ali um enorme potencial, que muitos já perceberam”. Guilherme Grossman, da imobiliária Consultan, é peremptório ao descrever a O Corvo aquela que antevê como a mais importante dinâmica do mercado das casas na capital. O que até não será surpresa, tendo em conta que a empresa é a promotora do grande empreendimento “Prata”, em construção na zona de Braço de Prata. É, então, uma boa altura para investir ali? “Se calhar, até já é um pouco tarde. Quem se antecipou fez, certamente, um bom negócio”, considera o empresário, para quem a capital portuguesa vai ter cada vez mais procura dos compradores de propriedade. Uma sentimento reinante no Salão Imobiliário de Lisboa (SIL) 2017, a decorrer entre esta quarta-feira (18 de outubro) e domingo (22), na Feira Internacional de Lisboa.
O optimismo e a confiança na robustez do mercado imobiliário nacionais são perceptíveis no certame, onde ninguém tem dúvidas em apontar a maior cidade do país como o mais valioso quinhão do sector. O grande impulso dos últimos anos nas compras e vendas de imóveis em Lisboa é para continuar, ouve-se por ali, não se antecipando um abrandamento dos preços da habitação nos próximos anos. Muito pelo contrário. “Estamos a falar de um crescimento estrutural e não apenas conjuntural. Isto veio para ficar, porque se deve a uma série de factores, que vão desde a retoma económica até à internacionalização do sector. Lisboa e Porto passaram a ser vistas como bons investimentos a nível internacional, como valores seguros”, explica João Pedro Pereira, membro do conselho executivo da ERA, para quem a cidade está repleta de oportunidades de investimento. Questionado sobre as áreas que estarão em alta, prefere não especificar, mas dá pistas. “Todas as zonas do centro que ainda estão algo desqualificadas. Muitas delas estão debaixo do nosso nariz”.

Uma opinião partilhada por outros agentes do sector. É o caso de Francisco Vasconcelos, director de expansão da Century 21, que acredita haver “zonas de Lisboa que ainda não estão descobertas”, como toda a área ribeirinha oriental. Marvila, Beato, Santa Apolónia e Xabregas são nomes que andam na cabeça de toda a gente. Mas outras áreas se lhes acrescentam, como Graça ou Mouraria, sugere Vasconcelos, que aponta uma “procura de habitação infinitamente superior à oferta” como a razão para o desviar de atenções para locais que até há pouco não eram tidos em conta pela classe média. Os endinheirados, sobretudo estrangeiros, estão a contribuir decisivamente para essa dinâmica. “A oferta em Lisboa, regra geral, está desfasada do poder aquisitivo do português médio. Durante algum tempo, assistiu-se a um movimento de regresso a Lisboa. Mas agora, com a subida dos preços, as periferias voltam a ganhar dimensão na procura dessas pessoas”, diz o responsável da Century 21, para quem não existe risco de “bolha imobiliária”, embora reconheça que a concessão de crédito pelos bancos está a voltar a animar o mercado. E se há outra vez muita gente a sair de Lisboa e a pedir dinheiro emprestado para comprar casa nos subúrbios, também não falta quem o faça para adquirir imóveis na capital. Nem que seja como forma de realizar um investimento tido como seguro, salienta João Pedro Pereira, da ERA.

 Um fenómeno assinalado também por Nuno Martinez, broker da Remax Platina, que opera sobretudo no Parque das Nações. “Se não ocorrer nada de anormal, algum factor externo, este cenário de grande dinâmica de venda e compra de habitação manter-se-á. Até porque há mais pessoas a recorrer ao crédito à habitação”, diz o comercial, que não tem dúvidas sobre a manutenção da subida dos preços das casas na cidade. E, por isso, vê como inevitável a expansão da procura à zona ribeirinha oriental. Até porque facilmente ali se vislumbram grandes potencialidades. “Toda aquela zona de Marvila, Beato, Santa Apolónia e Matinha, até ao Parque das Nações, vai crescer muito. Aliás, isso já se está a notar no Beato, como muitos empreendedores jovens a tomarem conta de estruturas que estavam abandonadas”, afirma, antevendo a ocorrência de processos de regeneração urbana similares ao verificado no LX Factory, em Alcântara, e na zona do Intendente e da Avenida Almirante Reis. “Há sempre uma primeira vaga de pessoas, mais ligadas às artes, que vão ocupar esses territórios”.

Sinal de que essa é mesmo uma tendência, um dos painéis programados para a tarde de ontem, na zona de palestras do SIL 2017, dava o mote. “Lisbon Golden Areas: Depois do Centro Histórico, Requalificação da Frente Ribeirinha: Da Matinha a Belém” era o tema anunciado pela imobiliária Castelhana – Lisbon Real Estate. Sem surpresas, há, porém, quem não se importe de suportar o preço de viver nas zonas mais consolidadas e caras da cidade. É o caso dos clientes do grupo luso-francês Libertas, que no seu portfólio tem prédios no Chiado ou em Benfica, junto ao Estádio da Luz. E os que tem na Mouraria, alguns em fase de acabamento, “estão todos vendidos”, salienta Adrien Blachere. A empresa que representa opera sobretudo no mercado francês, de onde vêm pessoas com poder de compra elevado quando comparado ao nacional, mas ainda assim “sem capacidade para suportarem os valores duas a três vezes mais elevados das casas em Paris”. Lisboa acaba assim por ser um excelente negócio. Ou ainda mais o Seixal, onde a empresa comercializa um empreendimento.


 Mais cauteloso em relação a este fenómeno, Francisco Bacelar, presidente da Associação dos Mediadores de Imobiliário de Portugal, sugere a O Corvo que se poderão estar a cometer excessos nas vendas de imóveis a estrangeiros. “Os centros de Lisboa e Porto estão a ficar cheios, mas não é de portugueses, é de estrangeiros. E isso tem muito que ver com o facto de as casas reabilitadas não serem para os bolsos dos portugueses. Não podemos afastar os portugueses dos centros das cidades, porque os estrangeiros não vêm cá só pela pedra, mas também pelas pessoas, pelas comunidades que as formam, que lhes dão o carácter genuíno”, critica, depois de colocar água na fervura em relação ao bom momento do sector. Ao contrário de outros, considera que o crescimento é “conjuntural, embora seja para durar mais uns anos”. “Não estamos a viver a euforia das décadas de 80 e 90, mas começo a ver com algum temor ao ver bancos a emprestarem a 100%, embora reconheça os efeitos positivos que tal possa ter na economia”. Mas esta é, afinal, uma voz dissonante num salão onde prevalece o optimismo com a perspectiva de bons negócios.