terça-feira, 31 de julho de 2012

Aquilo que faz falta ao "Zé". A Opinião de António Sérgio Rosa de Carvalho. 21/12/2009 in Público.



Aquilo que faz falta ao "Zé"
Por António Sérgio Rosa de Carvalho


A Internet e o seu potencial e velocidade de manifestação tornaram-se no pesadelo dos políticos.

Com efeito, aquilo a que se assistiu no séc. XX, com o aparecimento da World Wide Web, representa em autonomização e individualização da capacidade de manifestação de ideias, algo só comparável à "revolução de Gutenberg", cuja invenção da impressão mecânica libertou a palavra escrita do domínio absoluto da Igreja, e levou à revolução protestante.

Portanto, tal como então, o "génio está fora da garrafa", mas agora à velocidade do clique, e não há maneira de o controlar.

Perante a crise acentuada de credibilidade que os políticos vivem, os portugueses emanciparam-se, passaram à segunda plataforma do processo de manifestação e participação democrática, e transformaram-se na sociedade civil, munidos de uma arma e espaço impossível de controlar. A Internet.

Hoje em dia, independente-mente dos seus antecedentes ideológicos e das convicções políticas presentes, os cidadãos encontram-se no "fórum" de manifestação cívica, unidos apenas pelos temas de intervenção.

Ora, o fenómeno "Zé" constitui uma evidência de tal forma explícita da conspurcação deste processo, que se torna quase num mistério. Ele, por si só, não merece a nossa atenção, mas apenas porque é um eleito que se revela prisioneiro do mecanismo "politiqueiro" e, portanto, capaz de causar destruição.

Vindo da democracia participativa, paladino de causas, representante da sociedade civil e da cidadania, o "Zé" teve uma evolução e demonstrou uma capacidade de adaptação ao jogo maquiavélico da "politiqueira", com "tiques" que ultrapassaram a velocidade dos "cliques" internéticos.

Assim, neste último caso do Jardim do Príncipe Real, foi revelado um tal autismo, um tal cultivo do vago e impreciso, um tal desprezo pelos eleitores, atingindo o seu ponto culminante na trapalhada de esclarecimentos ilustrada pelo artigo do PÚBLICO da autoria do José António Cerejo, incluindo "manobras" e "teses" paralelas de assessor e improvisação de licenciamentos, que poderemos considerar que foi já atingido o estado "adulto" da "politiqueira".

Ora isto, na área dos espaços verdes torna-se particularmente grave, especialmente quando se trata de um todo, como no caso do Príncipe Real, indivisível, entre ideal paisagístico, conceito urbano e arquitectura.

Apesar de tardio no séc. XIX, o Príncipe Real representa o único exemplo em Lisboa do square à inglesa, com a respectiva english landscape no seu conceito de jardim.

Portanto, o que estamos à assistir, é à repetição da mesma atitude aplicada no edificado da Lisboa romântica, com a mesma destruição do património, agora vivo, em nome de um conceito vago de "requalificação".

Mas esta atitude também transporta em si, implícita e explicitamente, o "tique" do "quero, posso e mando", tratando os eleitores como atrasados mentais ou velhos do Restelo.

Perante isto, surge a World Wide Web como o espaço livre de acção e manifestação, através dos seus blogues, redes sociais e correio electrónico.

Assim, neste caso específico, no mesmo dia em que a quantidade de árvores a cortar, a sacrificar, passava "de seis e uma de grande porte" a 47, podia-se seguir na Net, a velocidade a que a sociedade civil, digeria o choque, reagia e se organizava...

Perante o argumento da presumível doença ou fraqueza estrutural das árvores, as explicações devem ser dadas antes do acontecimento e não durante a operação-relâmpago.

Perante o argumento das espécies invasoras, ter-se-á que ter em conta que estamos a lidar com entidades vivas... não se trata de objectos decorativos descartáveis. Uma árvore substituta levará quarenta anos a atingir o seu estado adulto.

Portanto, o "Zé", que se pretendia perfilar, agora, como paladino verde, não poderia também, no plano do simbólico ter escolhido pior momento para esta acção... o período em que o planeta tenta decidir sobre o seu sombrio destino ambiental em Copenhaga. Chegou portanto a altura de nos perguntarmos, não se "o Zé faz falta" mas o que faz falta ao "Zé"!

Historiador de Arquitectura

Trapalhadas "monumentais" na Sé de Lisboa. A Opinião de António Sérgio Rosa de Carvalho. 1/11/2009 in Público.




Trapalhadas "monumentais" na Sé de Lisboa
Por António Sérgio Rosa de Carvalho.


"We have no right whatever to touch them. They are not ours !
John Ruskin."
Esta frase de Ruskin, famosa para todos aqueles que se ocupam dos conceitos do restauro em monumentos históricos, parece ser, no presente, completamente desconhecida para os responsáveis eclesiásticos da Sé da Lisboa.

Antes de tudo, não parece demais relembrar que quando falamos da Sé de Lisboa estamos a falar de um monumento construído em 1150, três anos depois da reconquista de Lisboa por D. Afonso Henriques.

A Sé foi ao longo dos séculos modificada com acrescentos de diversas épocas e reinos, sofreu danos provocados por diversos terramotos e foi restaurada sobre a influência de diversos conceitos. Uns hoje em dia mais aceitáveis que outros. Mas, provavelmente, nunca terá sido alvo de um tipo de intervenção com a ligeireza, irresponsabilidade e consequente gravidade como a que decorreu há pouco tempo.

O que aconteceu? Só conhecemos os graves efeitos... desconhecemos, apesar de terem sido pedidas explicações ao patriarcado, quem são realmente os responsáveis e o que tencionam fazer com as graves consequências dos seus actos, que afectaram gravemente a integridade física deste monumento tão importante para a História de Lisboa e para a época da fundação de Portugal. O que podemos concluir das hesitantes e trágicas "declarações" do cónego Lourenço e do padre Edgar Clara à comunicação social é de que, impacientes com a demora de um necessário restauro de um gradeamento no portão norte, resolveram "deitar mãos à obra" por iniciativa própria, pondo um "jeitoso" pedreiro, sem qualquer acompanhamento técnico especializado por parte do Igespar, a "atacar" os blocos seculares através de um disco mecânico de diamante (!). Assim, a modos como quem muda um portão numa "vivenda", numa periferia manhosa.

O testemunho das fotografias tiradas ainda quando a obra decorria não mente. O desenrascado artífice atacava a base das colunetas, arrancando blocos seculares que eram nitidamente visíveis no chão, e depois passava a cobrir os vazios com placas de pedra com a espessura de centímetro e meio, e bordadura. "Axim", a modos de umas obras de casa de banho (!).

A mente humana é misteriosa. Quando a realidade é insuportável, procuramos uma fuga no surreal. Assim, vi-me de repente, perante a gravidade e o absurdo surrealista da situação, a imaginar os distintos eclesiásticos numa situação parecida com a famosa cena do filme Bean onde este conhecido comediante vandaliza o insubstituível quadro Whistler"s mother de forma irreversível, e tenta esconder as terríveis consequências.

Mas não temos razões para rir. O próprio Igespar também ainda não deu explicações do que é que tenciona fazer em relação à situação. E onde estão as pedras originais vandalizadas? De que época e a que intervenção correspondem? Teremos que concluir que a extinção da Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais foi precipitada? Que o Igespar é um paquiderme inoperante? Será que Portugal está doente?

Historiador de Arquitectura

"Experimentações" no Jardim de Santos. A Opinião de António Sérgio Rosa de Carvalho. 11/10/2009 in Público.





"Experimentações" no Jardim de Santos
Por António Sérgio Rosa de Carvalho


Atordoados com a avalancha defait-divers, extenuados pelas campanhas eleitorais, algum rigor nos é necessário para manter o discernimento no que respeita o essencial. Aquilo que é realmente importante. O que é realmente importante é que no período entre 6 e 18 de Dezembro vai tomar lugar a Kopenhagen Climate Conference onde o destino do planeta vai ser decidido. Os olhos estão postos nela com esperança numa nova atitude dos EUA, através de Obama, e numa lenta consciencialização que toma lugar na China e irá ter forçosamente influência na atitude na Índia. O discurso inaugural e de afirmação de Durão Barroso, após a sua reeleição, dedicou-se quase exclusivamente à importância determinante e à prioridade urgente deste tema. Estamos numa encruzilhada civilizacional onde uma nova revolução industrial terá que tomar lugar, que nos garanta uma reconciliação com a natureza e o planeta, deixando definitivamente para trás toda a herança do positivismo, e leve a uma reforma do capitalismo, que não poderá continuar a basear a sua dinâmica numa ideia de crescimento ilimitado e insustentável.

Perante isto, o Jardim de Santos surge como um oásis, que, embora esquecido, ainda lá está nas suas características românticas, onde todas as suas magníficas árvores estão legalmente protegidas. Ora, perante o marasmo e a crise profunda do comércio tradicional, a zona de Santos surge como algo positivo, através da concentração de um comércio de qualidade na área do design.Surge como uma área de vocação estabelecida, tal como S. Bento se consolidou como zona de antiquários. Além disso, esta zona desenvolveu uma dinâmica nocturna que se irá consolidar no futuro devido à sua proximidade do rio. Mas Santos também é um bairro residencial, que tem direito a repouso, a serenidade, a contemplação e ao silêncio. A sobrecarga erosiva e "ácida" que a vida nocturna arrasta em poluição sonora e desequilíbrio de comportamentos sociais está bem patente na vandalização a que o Jardim de Santos está exposto permanentemente.

Vem agora a Experimenta Design, através de uma campanha denominada It"s about timeque lhe incute um carácter afirmativo de uma "outra urgência", defender um projecto para o jardim que perversamente pretende ser vanguardista. Implicitamente usa uma retórica de inovação e ruptura que lhe garante, por isso mesmo, uma autoridade cultural que só a superioridade daavant-gardepode garantir. Pretende assim mutilar as árvores com "tatuagens", abrir "chagas" na pele das árvores protegidas. Fazer "instalações" sonoras alterando completamente o equilíbrio do habitat, no que respeita os seus ciclos de luz e de silêncio. Além de colocar sistemas de iluminação que irão ter o mesmo efeito, pretende instalar uma casa metálica numa árvore, perversão corrosiva da "cabana". Claro que os bancos românticos irão ser substituídos por outros em cimento e um bar irá ser instalado no jardim, garantindo assim uma espécie de espaçolounge, uma espécie de área de expansão e colonização oficializada do jardim pelos estabelecimentos nocturnos,all night long. O que se passa aqui é uma perversa inversão de valores, que perante a importância das verdadeiras ansiedades descritas no início deste texto são profundamente reaccionárias, datadas e prisioneiras de um falso vanguardismo. Tomou-se a resolução, talvez por pudor de expor esta figura ao jardimplay-station, de recolocar a estátua de Ramalho Ortigão noutro local.

Devo avisar que a Experimenta pode esperar pior do que uma simples retaliação da tão ilustre figura literária. Sentado de forma contemplativa e atento, entre as brisas, aos murmúrios vegetais, eu sei que as árvores planeiam uma revolta em massa, tipo revolta das árvores contra Saruman e o seu diabólico projecto contra a natureza, noSenhor dos Anéis. Portanto não só a "cabana" vai ser sacudida e o bar esmagado, mas os bancos de cimento vão servir de armas de arremesso a estas árvores em revolta. Já se distingue claramente nos murmúrios vegetais uma ameaça latente que pulsa dizendo: "Vão "experimentar" para outro lado", ou em linguagem de designer:It is about time"... to buzz off!!

Historiador de Arquitectura

Marquises, caixotes de ar condicionado e outras excrescências .A Opinião de António Sérgio Rosa de Carvalho . 6/09/2009 in Público.





Marquises, caixotes de ar condicionado e outras excrescências 
Por António Sérgio Rosa de Carvalho


O tema das marquises e da forma como estas excrescências têm invadido, como verrugas, a pele dos nossos edifícios, tem sido motivo de desespero para todos aqueles preocupados com o património de Lisboa.

Com efeito, a varanda, espaço-plataforma que devia garantir o nosso contacto natural com os elementos; que devia ser terraço, jardim suspenso, espaço de lazer e transição térmica natural num clima com as nossas caracteristicas, foi transformada através da marquise, irracionalmente, em estufa asfixiante e excrescência desfiguradora.

O desespero vem do sentimento que este fenómeno, tão terceiro-mundista, parece constituir uma fatalidade irreversivel e incontrolável, tal como os carros em cima dos passeios ou os "cachos" de caixotes de ar condicionado que invadiram tudo quanto é fachada.

Tomámos conhecimento através do PÚBLICO, que alguém tomou a iniciativa louvável de desencadear uma campanha sensibilizadora, tendo como objectivo, se não acabar, pelo menos inverter progressivamente esta calamidade. Este texto tem como objectivo contribuir através de uma proposta concreta, "de facto" para o sucesso progressivo desta campanha. A única forma efectiva de desenvolver um exemplo estimulante e pedagógico, capaz de mudar mentalidades e estabelecer disciplina, é conseguir uma situação de conjunto, onde num conjunto arquitectónico significativo, a situação seja invertida e o desastre e o atentado sejam corrigidos.

Na história do urbanismo português, a Baixa pombalina e o bairro de Alvalade constituem dois exemplos paradigmáticos.

No entanto, além da diferença fundamental de discursos determinada pelas diferentes épocas, eles só são comparáveis não só na escala gigantesca dos projectos urbanisticos, mas também pelo facto de que foram executados na íntegra. Fora disso, enquanto um, o da Baixa, nasce da urgência de reconstrução do centro depois do cataclismo, e é portanto sistemático tanto na linguagem arquitectónica unificada e única, como nos métodos de produção, o outro apresenta características diferentes.

O bairro de Alvalade é planeado por Faria da Costa, e conhece o início da sua execução coerente, na década do apogeu do Estado Novo, ou seja os anos 40. Ele é desenvolvido, em diversas fases e células, numa dialéctica simbiótica de diversas inspirações e modelos internacionais, e da "receita-síntese" tradicionalismo-modernismo.

Dentro dele, o bairro das Estacas (1949) surge como uma peça única para a época, de pura influência CIAM - Carta de Atenas (1933) e de linguagem corbusiana, com todos os seus elementos de morfologia e detalhes arquitectónicos (pilotis, brise-soleils, etc). O estado de conservação e de alienação deste notável conjunto é lastimável.

Ainda por cima, quando sabemos que o Icomos dispõe de um departamento dedicado aos monumentos do modernismo, o Docomomo, com trabalho internacional de restauro, ou mesmo de reconstruções integrais, de grande prestígio (Openlucht School Amsterdam, Zonnenstraal Sanatorium Hilversum, Café de Unie Roterdam, Pavilhão de Barcelona, etc., etc.,)

Não teríamos aqui uma oportunidade de classificação de conjunto urbano, de restauro integral e de limpeza de todas as excrescências como marquises, caixotes de ar condicionado e cabos pendurados? Esta mensagem é dirigida à CML, ao Ministério da Cultura e acima de tudo ao Igespar, lembrando esta última instituição de que a forma de como "arrumou" o caso da Classificação do Bairro Social do Arco Cego, é simplesmente inaceitável!

Historiador de Arquitectura

Uma questão de promiscuidades. A Opinião de António sérgio rosa de Carvalho. 19/07/2009 in Público.





Uma questão de promiscuidades
Por António Sérgio Rosa de Carvalho


"A cidadania não vai a votos. A cidadania exerce-se"! Num texto anterior publicado no PÚBLICO, afirmava isto, motivado pela necessidade de defender "um cordão sanitário" entre a jovem e frágil democracia participativa e a erodida e desprestigiada democracia representativa.

Algo mais, já então, me motivava. A consciência intuitiva de que Helena Roseta pertencia àquele grupo de políticos profissionais que, conscientes do cansaço, erosão e de um progressivo distanciamento dos votantes, encontrava nos "cidadãos" participativos uma fórmula "refrescante" e uma oportunidade de "reformatar" o discurso. A máscara caiu. A razão diz-nos que não é supreendente, mas o sentimento exalta uma indignação, perante um sentimento de manipulação, ou mesmo, e é preciso dizê-lo, de traição.

A enorme bofetada que Helena Roseta dá em todos aqueles que seguiram o seu discurso de independência implica também uma enorme machadada na jovem e frágil democracia participativa, e, consequentemente, directa e indirectamente, na credibilidade da já tão doente democracia representativa.

Ela, de forma brutal, projecta todos aqueles que acreditaram numa plataforma de participação transversal aos ciclos políticos, num espaço ecléctico e pluralista de manifestação de individuos-cidadãos, unidos apenas pela urgência dos temas, novamente, na polarização dos blocos políticos e dos aparelhos ideológicos.

Ela mata, assim, uma dialéctica estimulante e melhoradora da própria democracia ao, de forma facciosa e oportunista, querer monopolizar a cidadania para um campo da "esquerda", como se tal fosse possivel...

Esta atitude é comparável à afirmação de que o humanismo do séc. XXI, a consciência ambiental, a ecologia e a consciência urgente da necessidade imperativa da salvaguarda ecológica do planeta são exclusivos da "esquerda".

É por isto que eu afirmo claramente aqui que já sei em quem não vou votar... E, ao contrário do prof. Carmona,

digo-o: não vou votar no triunvirato Costa-Zé-Roseta.

Em quem vou votar, como muitos, não sei...

Portanto, apelos aos restantes para me convencerem, dizendo desde já que:

- não quero mais trapalhadas urbanísticas com histórias de permutas, trocas, baldrocas;

- não quero, pelo menos no primeiro mandato, mais obras públicas com orçamentos "em derrapagem";

- não quero mais encomendas a arquitectos do star system, a cobrarem fortunas por "maquetas" feitas de caixas de sapatos;

- não quero mais destruição do património arquitectónico, através da especulação imobiliária ou da "criatividade" corporativa dos arquitectos, não só nas avenidas românticas, mas em toda a Lisboa. Isto implica Largo do Rato, Terreiro do Paço, etc, etc.

Quero:

- reabilitação, reabilitação, reabilitação... urbana, com responsabilidade técnica e grande rigor na perspectiva da salvaguarda do património;

- a Baixa classificada como Património Mundial e a respectiva carta de valores e regras que isso implica;

- repovoamento do centro histórico;

- estratégia e planeamento na área do urbanismo comercial;

- gestão equilibrada na estratégia do trânsito e do estacionamento, incluindo uma Autoridade Metropolitana de Lisboa e um Regulamento de Cargas e Descargas;

- gestão dos espaços verdes;

- ao menos, a existência de uma política cultural e museológica para a cidade de Lisboa.

Bem, não tenho mais espaço... Acima de tudo, viva Lisboa! Lisboa merece mais.

Historiador de Arquitectura

Cidadãos saúdam alterações ao projecto do Terreiro do Paço e reclamam uso dos edifícios. 28/06/2009 in Público.




Cidadãos saúdam alterações ao projecto do Terreiro do Paço e reclamam uso dos edifícios
Por Inês Boaventura

A apresentação ontem promovida pela Frente Tejo reuniu mais de cem pessoas. António Costa admite que a versão alterada "está melhor" do que a inicial


Vários dos intervenientes na apresentação pública do projecto para o Terreiro do Paço promovida ontem pela sociedade Frente Tejo apelaram à obtenção de uma solução de compromisso, por ser impossível chegar a um desenho que a todos agrade, e ao arranque de um outro debate: o do uso futuro dos edifícios da praça, dos quais os cidadãos estão actualmente "espoliados".

A palavra foi usada pelo historiador Rui Tavares, que afirmou ser "a altura certa" para se iniciar este debate, que confessou ser aquele que lhe "mete mais medo". Para promover a "recuperação cidadã desta praça", este interveniente sugeriu a instalação do Museu da Língua Portuguesa, projectado para Belém.

Também um morador na zona do Terreiro do Paço pediu que esta seja "entregue aos cidadãos", através da atribuição de um novo uso ao "enxame de ministérios" ou pelo menos aos seus pisos térreos. Já um "candidato a utente da praça" frisou que se os edifícios não forem abertos ao público o projecto de requalificação que tanta celeuma tem suscitado "não vale a pena", acrescentando que aquilo que mais quer para o futuro do espaço "é não ter quinquilharia e ir ter com o rio, que é nosso".

Mas na apresentação pública pela qual passaram mais de cem pessoas houve também quem se detivesse ainda no desenho do arquitecto Bruno Soares para o Terreiro do Paço, fosse para se congratular com as alterações introduzidas desde o estudo prévio ou para manifestar o seu desagrado. Um dos mais ferozes críticos foi o historiador de arquitectura António Sérgio Rosa de Carvalho, que acusou o projecto de ter "muitos gatafunhos": "É pegar numa peça perfeita e embrulhá-la em papel da McDonald's", disse, quase exaltado.

Na apresentação prévia, Bruno Soares voltou a justificar a manutenção dos losangos no chão da placa central, que tantas críticas tem gerado, acrescentando um novo argumento à intenção de "mostrar que a praça é de facto grande". Agora, o arquitecto explica também que a introdução de uma gravilha aglomerada para manter "a memória do terreiro" obriga a um "sistema construtivo de sustentação" desse material, que é conseguido através da "malha das diagonais". Tanto Rosa de Carvalho como Rui Tavares refutaram a importância da "memória do terreiro".

"Isto é uma praça do século XVIII, não é um terreiro do século XVI", afirmou Rui Tavares, criticando as linhas das cartas de marear projectadas para os passeios junto às arcadas e os losangos da placa central, para a qual defendeu que a haver alguma marcação ela deveria ser radial, numa referência ao período iluminista e ao Rei Sol. Já o presidente da Câmara de Lisboa admitiu que o projecto revisto "está melhor do que estava antes", garantindo que enquanto autarca só invocará o argumento da estética para travar o avanço de um projecto se ele for "horrível".

Ourivesaria patrimonial em Guimarães.A Opinião de António Sérgio Rosa de Carvalho. 7/06/2009 in Público.




Ourivesaria patrimonial em Guimarães
Por António Sérgio Rosa de Carvalho


O anúncio de um acontecimento de relevo para o prestígio e a imagem do país tomou lugar praticamente desapercebido. Refiro-me à comprovação de que Guimarães irá ser a Capital Europeia da Cultura em 2012.

Guimarães é uma das únicas cidades portuguesas que apresentam um centro histórico completamente restaurado (em lugar de "recuperado") e completamente habitado. E aqui refiro-me a um conceito de reabilitação urbana rigoroso baseado no restauro e não num conceito vago de "recuperação" que permite todas as aventuras interpretativas, "criativas" e "modernas".

Assim, a reconstituição da imagem histórica foi conseguida, desenvolvendo um restauro de tipologias, portas, janelas, coberturas, interiores, com grande atenção para a autenticidade dos materiais, dos detalhes e pormenores, num exercício de ourivesaria patrimonial em cada edifício, transformando todo o conjunto numa grande jóia, agora reconhecida na sua qualidade.

Claro que, com uma estratégia de repovoamento integrada, aqui temos a receita para a auto-estima das populações, a identidade local, o prestígio do reconhecimento internacional. Para o conseguir foi necessário um planeamento. O desenvolvimento de uma carta de princípios e regras a seguir para todo o centro, capaz de garantir coerência na diversidade e unidade na variedade. Tudo aquilo que Lisboa não tem.

Além da destruição sistemática da Lisboa romântica a que se tem vindo a assistir, determinada pelos eleitos e com a indiferente conivência do Igespar, depois do anúncio pela sr.ª prof.ª Raquel Henriques da Silva, em conferência, que o projecto da candidatura a Património Mundial estava morto e enterrado, a Baixa, além de abandonada e apodrecida, encontra-se à deriva. Isso é bem visível, aliás, nas intervenções na Baixa, onde cada um faz o que quer.

No entanto, e curiosamente, a Câmara de Lisboa tem ao longo dos anos acumulado uma experiência patrimonial em conhecimento estético e técnico, através do trabalho das suas Unidades de Projecto nos bairros históricos, inegável.

Com efeito, as intervenções das Unidades de Projecto no edificado histórico, no meio do caos e da confusão de valores, determinada pela ausência de arquitectos especializados exclusivamente no restauro, que tem caracterizado as intervenções no geral, sobressaem pela positiva, pois são aquelas em todos os aspectos que mais se tem aproximado duma atitude de restauro.

Mas, infelizmente, esta sabedoria não tem sido aproveitada de forma contínua, coerente e independente, pois as chefias que controlam as mesmas unidades variam com os ciclos políticos.

Tomando assim lugar o conhecido e desesperante fenómeno da "reinvenção" do país em cada ciclo político, com as conhecidas consequências desmotivadoras e efeitos perversos de esbanjamento irresponsável de recursos financeiros e humanos.

Voltando ao Igespar, poder-se-á perguntar: depois da integração da DGMN no inoperante Ippar, criando o pesado paquiderme a que se chama Igespar, qual o resultado na eficácia? Para mais sabendo que a inoperância e a grave falta de efectividade é agravada, em cada ciclo político, pela "reinvenção da pólvora" num processo afirmativo, apenas com objectivos políticos, num método de tabula rasa.

Quanto tempo poderá aguentar o país ainda este estado de coisas?

Enquanto isso, por cada viagem que fazemos à Europa, ao nos serem revelados centros históricos magníficos na sua qualidade de conservação e restauro, cidades ocupadas e vividas, em plena habitação, com pulsantes dinâmicas culturais e actividades económicas, trazemos incrédulos como troféus imagens que exibimos aos amigos, como se vivêssemos noutro continente, noutro planeta, noutra galáxia.

Historiador de Arquitectura