OPINIÃO
Eu, burguês do teletrabalho, me confesso
Susana Peralta foi atacada, da esquerda à direita, por
uma sugestão que era, em primeiro lugar, um gesto de generosidade e de
preocupação social, mas que uma sociedade eternamente desconfiada não
acompanha.
João Miguel
Tavares
4 de Março de 2021,
3:44
https://www.publico.pt/2021/03/04/opiniao/opiniao/burgues-teletrabalho-confesso-1952988
Quando olhamos
para a relação dos portugueses com Portugal, temos o pior de dois mundos. Somos
um país com imensa gente dependente do Estado e somos um país com imensa gente
desconfiada do Estado. Boa parte das pessoas, acumula. Ou seja, é ao mesmo
tempo muito dependente – porque recebe do Estado o salário ou a reforma, ou
porque é ele que assegura a sua saúde –, e também muito desconfiada – porque
desconsidera a classe política, porque desvaloriza os deveres de cidadania, ou
porque a sua solidariedade se limita ao círculo social mais próximo.
A frase de Susana
Peralta que teve o condão de pôr meio país a falar da “burguesia do
teletrabalho” teve também o grande mérito de mostrar como esse sentimento de
desconfiança é comum à esquerda e à direita, ainda que depois seja justificado
de formas distintas. A esquerda desconfia do Estado e não se imagina burguesa
porque tem uma visão colectivista da sociedade – os privilegiados que paguem a
crise; as grandes empresas que se cheguem à frente; o Estado que não gaste
tanto em apoios à banca. A direita desconfia do Estado porque tem uma visão
individualista da sociedade – não podem ser sempre os mesmos a pagar a crise; o
governo que distribua melhor o dinheiro dos impostos; o Estado que corte nas
suas gorduras. Aquilo que está sempre ausente, tanto num caso como no outro, é
a noção de um bem comum; a convicção de que cada um de nós tem um papel activo,
e idealmente solidário, na construção da sociedade em que vivemos.
Nova Iorque é a
capital do capitalismo, mas ao passearmos por Central Park encontramos pequenas
placas douradas nos bancos de madeira, com nomes de pessoas e declarações de
amor ao parque ou à cidade. Em 1986, foi criado o programa Adopt-a-Bench,
através do qual, pela pesada quantia de dez mil dólares, é possível colocar uma
placa personalizada num dos nove mil bancos. O dinheiro é canalizado para a
conservação do Central Park.
Não é fruto do
acaso a inexistência de jardins com placas nos bancos de madeira em Portugal,
muito menos por oito mil euros a inscrição. Não há placas nos bancos, pela
mesma razão de que não há burgueses do teletrabalho – regra geral, temos uma
noção de solidariedade abstracta bastante periclitante e um sentimento de
autoprotecção muito apurado. Quando se fala em crise, o nosso primeiro reflexo
não é pensar nos desgraçados que acabam de perder tudo com a pandemia, ou que
estão impedidos de trabalhar por decisão legislativa – é explicar quão profundo
é também o nosso sofrimento pessoal, e quão injusta é essa ideia de sermos
privilegiados só porque não ficámos sem parte do salário em 2020.
Não tenho
competência técnica para discutir as dificuldades de implementação de um
imposto extraordinário sobre a “burguesia do teletrabalho”. Seria com certeza
difícil, e admito até que pudesse ser impraticável. Mas a reacção epidérmica
originada por aquela expressão não se deveu a questões técnicas. Susana Peralta
foi atacada, da esquerda à direita, por uma sugestão que era, em primeiro
lugar, um gesto de generosidade e de preocupação social, mas que uma sociedade eternamente
desconfiada não acompanha. Resta-me declarar, em solidariedade para com ela,
que também eu sou um burguês do teletrabalho; que também eu acho que quem está
impedido de trabalhar deveria estar a receber mais apoios do Estado; e que
também a mim me parece que esta falta de solidariedade é uma falha colectiva,
sintoma da nossa pobreza e do nosso défice de cidadania.


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