quinta-feira, 4 de março de 2021

Eu, burguês do teletrabalho, me confesso

 



OPINIÃO

Eu, burguês do teletrabalho, me confesso

 

Susana Peralta foi atacada, da esquerda à direita, por uma sugestão que era, em primeiro lugar, um gesto de generosidade e de preocupação social, mas que uma sociedade eternamente desconfiada não acompanha.

 

João Miguel Tavares

4 de Março de 2021, 3:44

https://www.publico.pt/2021/03/04/opiniao/opiniao/burgues-teletrabalho-confesso-1952988

 

Quando olhamos para a relação dos portugueses com Portugal, temos o pior de dois mundos. Somos um país com imensa gente dependente do Estado e somos um país com imensa gente desconfiada do Estado. Boa parte das pessoas, acumula. Ou seja, é ao mesmo tempo muito dependente – porque recebe do Estado o salário ou a reforma, ou porque é ele que assegura a sua saúde –, e também muito desconfiada – porque desconsidera a classe política, porque desvaloriza os deveres de cidadania, ou porque a sua solidariedade se limita ao círculo social mais próximo.

 

A frase de Susana Peralta que teve o condão de pôr meio país a falar da “burguesia do teletrabalho” teve também o grande mérito de mostrar como esse sentimento de desconfiança é comum à esquerda e à direita, ainda que depois seja justificado de formas distintas. A esquerda desconfia do Estado e não se imagina burguesa porque tem uma visão colectivista da sociedade – os privilegiados que paguem a crise; as grandes empresas que se cheguem à frente; o Estado que não gaste tanto em apoios à banca. A direita desconfia do Estado porque tem uma visão individualista da sociedade – não podem ser sempre os mesmos a pagar a crise; o governo que distribua melhor o dinheiro dos impostos; o Estado que corte nas suas gorduras. Aquilo que está sempre ausente, tanto num caso como no outro, é a noção de um bem comum; a convicção de que cada um de nós tem um papel activo, e idealmente solidário, na construção da sociedade em que vivemos.

 

Nova Iorque é a capital do capitalismo, mas ao passearmos por Central Park encontramos pequenas placas douradas nos bancos de madeira, com nomes de pessoas e declarações de amor ao parque ou à cidade. Em 1986, foi criado o programa Adopt-a-Bench, através do qual, pela pesada quantia de dez mil dólares, é possível colocar uma placa personalizada num dos nove mil bancos. O dinheiro é canalizado para a conservação do Central Park.

 

Não é fruto do acaso a inexistência de jardins com placas nos bancos de madeira em Portugal, muito menos por oito mil euros a inscrição. Não há placas nos bancos, pela mesma razão de que não há burgueses do teletrabalho – regra geral, temos uma noção de solidariedade abstracta bastante periclitante e um sentimento de autoprotecção muito apurado. Quando se fala em crise, o nosso primeiro reflexo não é pensar nos desgraçados que acabam de perder tudo com a pandemia, ou que estão impedidos de trabalhar por decisão legislativa – é explicar quão profundo é também o nosso sofrimento pessoal, e quão injusta é essa ideia de sermos privilegiados só porque não ficámos sem parte do salário em 2020.

 

Não tenho competência técnica para discutir as dificuldades de implementação de um imposto extraordinário sobre a “burguesia do teletrabalho”. Seria com certeza difícil, e admito até que pudesse ser impraticável. Mas a reacção epidérmica originada por aquela expressão não se deveu a questões técnicas. Susana Peralta foi atacada, da esquerda à direita, por uma sugestão que era, em primeiro lugar, um gesto de generosidade e de preocupação social, mas que uma sociedade eternamente desconfiada não acompanha. Resta-me declarar, em solidariedade para com ela, que também eu sou um burguês do teletrabalho; que também eu acho que quem está impedido de trabalhar deveria estar a receber mais apoios do Estado; e que também a mim me parece que esta falta de solidariedade é uma falha colectiva, sintoma da nossa pobreza e do nosso défice de cidadania.

Sem comentários: