OPINIÃO
As direitas
O PSD tem de tudo, mas tem sido historicamente um travão
ao crescimento da extrema-direita. Esse papel parece agora esgotar-se.
António Barreto
6 de Março de
2021, 0:15
https://www.publico.pt/2021/03/06/opiniao/opiniao/direitas-1953306
Tal como com as
esquerdas, também há várias direitas. A democrática e a não democrática. No
essencial, o que as separa é a democracia. Para uma, mesmo valores para si
importantes como a propriedade, a religião e a nação devem articular-se com a
democracia e esta deve respeitar a liberdade. Para a outra, democracia e a
liberdade individual são princípios residuais ou dispensáveis.
Interessante e
perturbador é o facto de certas diferenças entre tendências de direita
reproduzirem diferenças entre esquerdas e direitas. A direita trata da pobreza
com a caridade, mas mais humanidade e cuidado. A esquerda trata da pobreza com
as leis e a igualdade, mas sem humanidade. A esquerda diz que a cultura e as
ideias são suas. Nem sempre é verdade, mas há aí qualquer coisa. São bens mais
acessíveis. A direita é mais de interesses. São bens mais seguros.
Não é a
autoridade que distingue a esquerda da direita. Mas sim as duas esquerdas, uma
da outra, e as duas direitas, uma da outra. A firme autoridade do Estado, com
essa designação ou a de Partido, é apanágio dos radicais, da direita ou da
esquerda. Ao patrocinado da propriedade e do sangue, próprio da direita, a
esquerda opõe o nepotismo de partido. A esquerda defende a igualdade, a direita
a eficiência.
Entre os grandes
valores e princípios da direita, contam-se a nação, a ordem, a família, a
desigualdade natural e a hierarquia social. Como se sabe, tudo isto separa direita
de esquerda. Além disso, há valores que podem ou não ser respeitados pelas
direitas: a religião, Deus e o trabalho.
Estas crenças
fazem com que as direitas sejam complacentes com a pobreza, o nepotismo, o
nacionalismo e a xenofobia. Nenhum destes atributos é absolutamente exclusivo
das direitas, mas são aqui mais frequentes. E podem ter semelhanças com as
esquerdas radicais, igualmente praticantes do nepotismo, do nacionalismo e de
formas de xenofobia.
A liberdade
individual e o Estado são outros factores que separam as direitas. Para uns, o
liberalismo económico, político e cultural é de rigor. Para outros, a
autoridade do Estado vem à cabeça.
Nas últimas
décadas da monarquia constitucional, durante a República e ao longo da ditadura
do Estado Novo, nunca a direita preferiu o liberalismo, nunca a direita deixou
de venerar o Estado e o seu papel na economia e na administração. Depois do 25
de Abril, todos os motivos eram bons para reforçar o papel do Estado, cujo peso
se justificava para lutar contra o comunismo. Mas, quando se tratou de
reprivatizar as empresas, uma espécie de vento liberal parecia soprar na
política.
Em Portugal, a
direita liberal está extraordinariamente ausente. Sempre esteve. As razões são
muitas, desde o papel do Estado, passando pelo analfabetismo e pelo
catolicismo, até à pobreza e à desigualdade. Se procurarmos, durante os últimos
séculos, rastos de liberalismo, encontraremos pouca coisa. E mesmo os
“liberais” do século XIX, os das “guerras liberais”, como ficaram conhecidas as
guerras civis, não brilhavam pelo seu culto das ideias liberais.
Assim é que a
direita salazarista se gabou de ser anti-liberal e anti-democrática, com
simpatias pelos Alemães e sem qualquer apego pelos Aliados. Podia não ser nazi
ou fascista de gema, mas desprezava as democracias anglo-saxónicas. O
nacionalismo da direita impedia-a de acarinhar a ideia de ver alemães,
italianos e espanhóis em Portugal. Mas eram estes, seguramente, os preferidos
no grande conflito mundial.
Não é verdade que as direitas sejam claramente xenófobas
e racistas, e que as esquerdas sejam solidárias e inclusivas. Há xenofobia e
racismo nos dois lados
Em Portugal, onde
tudo parece diferente, uma parte importante da direita diz-se social-democrata.
O que é pelo menos estranho. E a democracia cristã garante que não é bem isso,
mas sim social cristã. E a extrema-direita tem vergonha de dizer que é
salazarista. O mais curioso é o facto de o PSD se dizer social-democrata. O
essencial da direita anda por ali. Mas há por lá uns tantos social-democratas e
uns poucos liberais. São genuínos, mas não fazem com que o partido o seja.
Aquele partido tem de tudo, mas tem sido historicamente um travão ao
crescimento da extrema-direita, mas esse papel, tão benfazejo, parece agora
esgotar-se. O PSD está hoje mais disponível a conviver ou coexistir com a
extrema-direita do que a barrar-lhe o caminho.
Também a religião
tem papel importante na direita em geral e na portuguesa em particular. Até há
pouco tempo, quando a Igreja era, sem hesitação, maioritária ou essencialmente
de direita, o panorama estava claro. Jacobinos e republicanos à esquerda,
católicos e monárquicos à direita. Mas a Igreja mudou. É hoje fácil encontrar,
no seu seio, grupos, pensamentos e valores de esquerda. Em todo o caso,
inspirações que a aproximam do mundo do trabalho e dos sindicatos, assim como
do universo dos costumes mais permissivos, solidários e igualitários.
Estrangeiros,
imigrantes e minorias sempre foram questão importante. Não é verdade que as
direitas sejam claramente xenófobas e racistas, e que as esquerdas sejam
solidárias e inclusivas, para utilizar termos tão em moda. Há xenofobia e
racismo nos dois lados. Como há em cada lado políticas favoráveis e
desfavoráveis à imigração. Mas também é verdade que é nas direitas que se
encontram mais sensibilidades patrióticas, mais crentes na portugalidade, mais
defensores da civilização cristã, mais oposição às políticas de abertura aos
imigrantes e aos refugiados. Como é também nas direitas que é mais vincada a
atitude favorável a uma integração “forte” dos imigrantes e estrangeiros, isto
é, devem vir poucos e os que vêm devem adoptar valores e costumes portugueses.
O “multiculturalismo” existe em todo o lado, mas é mais próprio das esquerdas e
menos apreciado nas direitas.
O futuro da democracia depende tanto da esquerda como da
direita. Se ambas souberem ser democráticas. E conseguirem derrotar os seus
inimigos
Há ainda a
questão do mérito. Uma das mais estranhas. Na verdade, tempo houve em que o
mérito se opunha à família, ao sangue e à herança. Era o mérito de cada um que
podia criar condições de igualdade de oportunidades. O mérito era um valor da
democracia e até da esquerda. Curiosamente, o valor do mérito tem vindo a diminuir
para a esquerda. E não se sabe se a crescer para a direita. Para as empresas,
talvez. Para a política e a sociedade, menos.
A direita prefere
o mercado, a concorrência e a iniciativa privada, mas recorre ao Estado sempre
que precisa. O problema é que precisa muitas vezes. A direita é hoje menos
rígida diante de certos valores, como sejam a permissividade sexual, a
liberdade de género, a igualdade de sexos, o aborto, o divórcio ou a união de
facto. Uma coisa é certa: o futuro da democracia depende tanto da esquerda como
da direita. Se ambas souberem ser democráticas. E conseguirem derrotar os seus
inimigos.


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