OPINIÃO
Um botão de pânico para o Governo
Cinco anos depois, a vaca voadora de António Costa começa
a despenhar-se na sua cabeça, mas a culpa, claro, não é dele, nem dos seus
ministros. A culpa é do diabólico Passos Coelho, o responsável por todos os
males da pátria desde que Afonso Henriques bateu na mãe.
JOÃO MIGUEL
TAVARES
10 de Dezembro de
2020, 0:00
O que têm em
comum um botão de pânico instalado no aeroporto de Lisboa, um estudo
internacional que avalia o desempenho dos alunos portugueses na Matemática e um
plano de reestruturação da TAP que se quer aprovado em Bruxelas e no
Parlamento? É simples. Em todos esses casos, o Governo está a fazer aquilo que
ainda há dias António Costa criticava a Catarina Martins – está a pôr-se ao
fresco, recusando, de forma mais ou menos despudorada, assumir as
responsabilidades políticas pelos erros cometidos.
Cada um dos casos
que cito é grave por si só, mas todos juntos geram um padrão de comportamento
que tem sido constante neste Governo. Um padrão profundamente lesivo para o
país, e que é tão intelectualmente desonesto quanto as atoardas do senhor
Ventura – só que, para uns, reclama-se o degredo político, enquanto para outros
se continua a oferecer infinita tolerância e compreensão.
Caso 1. Já muito
se disse sobre o assassinato bárbaro de um cidadão ucraniano no aeroporto de
Lisboa, sobre a violência e a impunidade que o permitiu, sobre a cultura da
omertà nas forças de segurança, e sobre a demora na assunção das
responsabilidades por parte da directora do SEF, que só se demitiu nove meses
depois. Felizmente, o Governo, após aturada reflexão sobre o tema, instalou 18
botões de pânico nos 18 quartos individuais para cidadãos estrangeiros do
aeroporto de Lisboa. Pergunta: que utilidade teria o botão para o homem
assassinado? Resposta: Nenhuma. Segundo o DN, os botões de pânico só servem “em
caso de alguma indisposição”, que é o sentimento com que nós ficamos após ler
aquele artigo.
Caso 2. Saíram os
resultados do estudo internacional TIMSS, que avalia o desempenho dos
estudantes do 4.º e 8.º anos a Matemática e Ciências. Houve 4300 alunos
portugueses do 4.º ano a fazer as provas. A pontuação média baixou nas duas
disciplinas quando comparada com os resultados de 2015, e, no caso da
Matemática, o resultado é especialmente mau, com Portugal a cair oito lugares
no ranking internacional. Os alunos do 4.º ano que agora foram avaliados
entraram para a escola em Setembro de 2015. O primeiro Governo de António Costa
acabou com os exames de 4.º e 6.º anos, relaxou nas aprendizagens e
desvalorizou metas curriculares. A que se deve atribuir este péssimo resultado?
Segundo o secretário de Estado da Educação João Costa, às políticas de Nuno
Crato.
Quando é para dar
boas notícias, o Governo dispensa companhias e despreza a oposição. Quando é
para assumir asneiras catastróficas, é vê-lo a correr em busca do colinho
parlamentar e da compreensão do povo
Caso 3. A
primeira coisa que o Governo fez após tomar posse em 2015 foi reverter o
processo de privatização da TAP. Inventou uma jiga-joga incompreensível para o
Estado ficar com a maioria do capital, a batata quente explodiu-lhe nas mãos
com a pandemia e agora tem no seu portefólio um Novo Banco com asas. Temendo o
que aí vem, o Governo lembrou-se desta jogada: propor o escrutínio do seu
próprio poder executivo (!), de forma a que o Parlamento se comprometa com a
reestruturação da companhia – se não, a TAP fecha.
Quando é para dar
boas notícias, o Governo dispensa companhias e despreza a oposição. Quando é
para assumir asneiras catastróficas, é vê-lo a correr em busca do colinho
parlamentar e da compreensão do povo. Cinco anos depois, a vaca voadora de
António Costa começa a despenhar-se na sua cabeça, mas a culpa, claro, não é
dele, nem dos seus ministros. A culpa é do diabólico Passos Coelho, que saiu de
São Bento em 2015 após míseros quatro anos a gerir a bancarrota socialista, mas
que ainda assim é o responsável por todos os males da pátria desde que Afonso
Henriques bateu na mãe.


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