sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Um botão de pânico para o Governo

 



OPINIÃO

Um botão de pânico para o Governo

 

Cinco anos depois, a vaca voadora de António Costa começa a despenhar-se na sua cabeça, mas a culpa, claro, não é dele, nem dos seus ministros. A culpa é do diabólico Passos Coelho, o responsável por todos os males da pátria desde que Afonso Henriques bateu na mãe.

 

JOÃO MIGUEL TAVARES

10 de Dezembro de 2020, 0:00

https://www.publico.pt/2020/12/10/opiniao/opiniao/botao-panico-governo-1942324?fbclid=IwAR36c6qTnafKLk8R1t31gpxwYganUMVu6gD0JB52KzlddHfUWmExWEFuv8U

 

O que têm em comum um botão de pânico instalado no aeroporto de Lisboa, um estudo internacional que avalia o desempenho dos alunos portugueses na Matemática e um plano de reestruturação da TAP que se quer aprovado em Bruxelas e no Parlamento? É simples. Em todos esses casos, o Governo está a fazer aquilo que ainda há dias António Costa criticava a Catarina Martins – está a pôr-se ao fresco, recusando, de forma mais ou menos despudorada, assumir as responsabilidades políticas pelos erros cometidos.

 

Cada um dos casos que cito é grave por si só, mas todos juntos geram um padrão de comportamento que tem sido constante neste Governo. Um padrão profundamente lesivo para o país, e que é tão intelectualmente desonesto quanto as atoardas do senhor Ventura – só que, para uns, reclama-se o degredo político, enquanto para outros se continua a oferecer infinita tolerância e compreensão.

 

Caso 1. Já muito se disse sobre o assassinato bárbaro de um cidadão ucraniano no aeroporto de Lisboa, sobre a violência e a impunidade que o permitiu, sobre a cultura da omertà nas forças de segurança, e sobre a demora na assunção das responsabilidades por parte da directora do SEF, que só se demitiu nove meses depois. Felizmente, o Governo, após aturada reflexão sobre o tema, instalou 18 botões de pânico nos 18 quartos individuais para cidadãos estrangeiros do aeroporto de Lisboa. Pergunta: que utilidade teria o botão para o homem assassinado? Resposta: Nenhuma. Segundo o DN, os botões de pânico só servem “em caso de alguma indisposição”, que é o sentimento com que nós ficamos após ler aquele artigo.

 

Caso 2. Saíram os resultados do estudo internacional TIMSS, que avalia o desempenho dos estudantes do 4.º e 8.º anos a Matemática e Ciências. Houve 4300 alunos portugueses do 4.º ano a fazer as provas. A pontuação média baixou nas duas disciplinas quando comparada com os resultados de 2015, e, no caso da Matemática, o resultado é especialmente mau, com Portugal a cair oito lugares no ranking internacional. Os alunos do 4.º ano que agora foram avaliados entraram para a escola em Setembro de 2015. O primeiro Governo de António Costa acabou com os exames de 4.º e 6.º anos, relaxou nas aprendizagens e desvalorizou metas curriculares. A que se deve atribuir este péssimo resultado? Segundo o secretário de Estado da Educação João Costa, às políticas de Nuno Crato.

 

Quando é para dar boas notícias, o Governo dispensa companhias e despreza a oposição. Quando é para assumir asneiras catastróficas, é vê-lo a correr em busca do colinho parlamentar e da compreensão do povo

 

Caso 3. A primeira coisa que o Governo fez após tomar posse em 2015 foi reverter o processo de privatização da TAP. Inventou uma jiga-joga incompreensível para o Estado ficar com a maioria do capital, a batata quente explodiu-lhe nas mãos com a pandemia e agora tem no seu portefólio um Novo Banco com asas. Temendo o que aí vem, o Governo lembrou-se desta jogada: propor o escrutínio do seu próprio poder executivo (!), de forma a que o Parlamento se comprometa com a reestruturação da companhia – se não, a TAP fecha.

 

Quando é para dar boas notícias, o Governo dispensa companhias e despreza a oposição. Quando é para assumir asneiras catastróficas, é vê-lo a correr em busca do colinho parlamentar e da compreensão do povo. Cinco anos depois, a vaca voadora de António Costa começa a despenhar-se na sua cabeça, mas a culpa, claro, não é dele, nem dos seus ministros. A culpa é do diabólico Passos Coelho, que saiu de São Bento em 2015 após míseros quatro anos a gerir a bancarrota socialista, mas que ainda assim é o responsável por todos os males da pátria desde que Afonso Henriques bateu na mãe.

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