OPINIÃO UNIÃO
EUROPEIA
Nada mudou e mudou tudo
A “fractura” Norte-Sul não desapareceu. Mas tem uma
oportunidade de atenuar-se, criada pela própria crise pandémica.
TERESA DE SOUSA
6 de Dezembro de
2020, 0:40
https://www.publico.pt/2020/12/06/mundo/opiniao/nada-mudou-mudou-1941913
1. Não é uma
simples figura de estilo dizer-se que Portugal conseguiu fazer sempre boas
presidências da União Europeia. Já leva três no currículo. Vai agora iniciar a
quarta. Há razões que explicam os êxitos anteriores. A diplomacia portuguesa
pode não ser grande em número, mas é experiente e, de um modo geral, tem
elevada qualidade. Ao longo das décadas da nossa integração, nunca houve
estados de alma dignos de nota sobre a opção europeia e transatlântica da nossa
inserção internacional, perdido o império e ganha a democracia. Somos um país
aberto ao mundo, habituado a olhar para fora e a relacionar-se com os outros.
Não temos problemas específicos de relacionamento com os nossos parceiros
europeus, herdados da história ou da geografia. As relações ibéricas foram
resolvidas precisamente graças à simultaneidade da transição democrática e da
integração europeia nos dois países. Finalmente, perdurou sempre um sólido
consenso interno sobre a Europa, assente nos dois grandes partidos de governo.
Além disso, citando Eduardo Lourenço, a generalidade dos portugueses continua a
sentir-se bem na sua nova qualidade de “verdadeiros europeus, dessa Europa
sonhada que estava além dos Pirenéus”
2. As duas
últimas presidências – de 2000 e 2007 – marcaram de forma indelével a história
da Europa dos últimos vinte anos. Na primeira, sob a liderança de António
Guterres, foi aprovada a Estratégia de Lisboa – a resposta europeia à era da
internet e da globalização. Foi uma revolução na forma como a Europa olhava
para a sua economia no contexto internacional. Em 2007, numa perfeita
articulação com a presidência alemã e com o apoio do presidente da Comissão,
Durão Barroso, o governo de José Sócrates conclui as negociações do Tratado da
União Europeia, um passo enorme no processo de integração. Mais uma vez,
Portugal revelava-se um exímio negociador dos compromissos fundamentais para
colocar a Europa a par do seu tempo. Nada disto mudou. Depois dos anos pesados
da troika, Portugal recuperou a sua credibilidade europeia e tem à frente do
Governo um político prestigiado e escutado em Bruxelas e nas capitais que mais
contam. Regressa à presidência rotativa quando a Europa está mergulhada na sua
pior crise de sempre, provocada por uma pandemia devastadora, que a põe mais
uma vez à prova.
3. O Tratado de
Lisboa retirou protagonismo às presidências rotativas, ao criar os cargos de
presidente do Conselho Europeu e de Alto representante para a política externa
e de segurança. A própria agenda europeia é de tal modo vasta que a margem de
manobra de um país para deixar a sua marca é hoje mais reduzida. Mesmo assim,
ela existe, desde que consiga encaixar-se bem nessa agenda e tirar partido das
circunstâncias. Há, no entanto, uma diferença abissal. O mundo mudou para lá de
qualquer reconhecimento e essa mudança reflecte-se na realidade europeia, nos
seus problemas internos, nos seus principais desafios.
De modelo de
integração regional exemplar para o resto do mundo, a Europa avança hoje a
contracorrente, quando a ordem internacional caminha para a desagregação e para
o caos. De exemplo mais avançado do multilateralismo, a Europa defende-se hoje
contra o regresso de uma ordem internacional em que a regra dá lugar à força.
De poderoso pólo de atracção estabilizador e democratizador da sua vizinhança,
a Europa está hoje rodeada de instabilidade e de conflitos por todos os lados,
e os seus princípios democráticos (a sua maior força) vêem-se postos em causa
no seu próprio seio. De terra de acolhimento de deserdados e de refugiados,
fecha-se sobre si própria, ferida pelos movimentos identitários, populistas e
nacionalistas que vêem nos outros uma ameaça à sua identidade cristã e étnica,
como ao seu estatuto social e aos seus empregos. A Leste, a Rússia passou a ser
de novo uma ameaça à sua segurança. Com a chegada de Xi Jinping ao topo do
regime comunista, a China passou do tranquilizador “peaceful rising” para uma
indisfarçada e cada vez mais agressiva ambição de hegemonia mundial. A União
assiste pela primeira vez na sua história à primeira deserção. A saída do Reino
Unido não aumenta a sua coesão interna, como alguns teimam em dizer. Acelera as
suas divisões e aumenta os seus desequilíbrios. Finalmente, se Donald Trump
teve um mérito foi colocá-la diante de um espelho que lhe revelou as próprias
fraquezas para enfrentar esse mundo que lhe é adverso.
Até agora, a
crise pandémica funcionou no essencial como um factor de unidade. A Europa
conseguiu reagir com determinação às suas brutais consequências económicas e
sociais, tomando medidas que, há menos de um ano, eram consideradas
impensáveis. Do BCE à Comissão, passando pelo Conselho Europeu e pelo
Parlamento Europeu, prevaleceu a coragem política e o sentido de destino comum.
Alguma coisa de positivo ficará desta crise inédita.
4. É este o
contexto da presidência portuguesa. Em pano de fundo, uma pandemia que vai
agora atravessar o gigantesco desafio das vacinas. Se correr mal, será uma
sombra indelével sobre os próximos seis meses. Terá de lidar com a total
imprevisibilidade do mundo, as crises inesperadas que podem explodir nas suas
fronteiras, as manobras políticas das potências autoritárias que apostam tudo
em dividi-la e que usarão toda a espécie de recursos para dificultar o
relançamento da relação transatlânticas que a eleição de Joe Biden anuncia.
A “fractura”
Norte-Sul não desapareceu. Mas, paradoxalmente, tem uma oportunidade de
atenuar-se, criada pela própria crise pandémica. O Plano de Recuperação terá de
traduzir-se em programas nacionais que vão passar pelo crivo de Bruxelas e dos
pares. É a grande oportunidade para países como o nosso darem um salto
sustentado no sentido da convergência.
Tornou-se mais
evidente – e muito mais preocupante – a fractura entre o Ocidente e o Leste,
porque põe em causa os fundamentos da própria integração europeia: os valores
democráticos e liberais inegociáveis em que assenta. À falta de outro tema
“picante”, o debate português sobre a Europa seguiu, como é costumo, o caminho
da facilidade e da demagogia. O Governo pactua com os sinistros Orbán e
Morawiecki. O primeiro-ministro português foi a Budapeste dar palmadas nas
costas do seu homólogo húngaro. Os mesmos que consideram legítima e necessária
uma aliança do PSD com o Chega cá dentro (para uns, porque o Chega diz, em
parte, aquilo que a direita devia dizer e não tem coragem; para outros porque
não há outra maneira de regressar ao poder), comportam-se na Europa como
virgens ofendidas. Apenas duas ou três coisas que vale a pena lembrar. Orbán
tem assento no Conselho Europeu com todos os direitos inerentes a cada
Estado-membro. É preciso negociar com ele. Costa foi a Budapeste fazer isso
mesmo, a pedido da chanceler alemã. Os mesmos que batem no peito em defesa da
democracia liberal, alimentaram a fera ao longo da última década. A fera, bem
alimentada, sentiu-se com força para virar a mesa. O Partido Popular Europeu,
que reúne o centro-direita, incluindo os partidos portugueses da família,
sentiu-se bem a conviver com o Fidesz até hoje. Exactamente pelo mesmo
pragmatismo dos que dizem que o Chega é horrível, mas incontornável para chegar
ao poder.
E falta ainda
lembrar a suprema hipocrisia. O Artigo 7.º do Tratado de Lisboa foi escrito
para enfrentar eventuais desvios de um ou mais Estados-membros aos princípios
fundadores da integração – permitindo a suspensão dos seus direitos. A decisão
pode ser tomada no Conselho por maioria qualificada. Sublinho: por maioria
qualificada. Só que isso incomoda muita gente, cria dores de cabeça, abre
precedentes que ninguém quer assumir. Como se o populismo, o nacionalismo, a xenofobia
fossem uma doença passageira.
Só há uma forma
de o combater: dizer a verdade, incluindo o que se pode ou não pode fazer. E,
nestes tempos em que a desinformação se transformou numa poderosa arma de
poder, combatê-la sem descanso.


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