terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Movimento de cidadãos critica "centro comercial" previsto para quarteirão da Suíça em Lisboa

 


Movimento de cidadãos critica "centro comercial" previsto para quarteirão da Suíça em Lisboa

 

Movimento "Lisboa Precisa" defende um processo de reabilitação, com habitação, serviços e comércio, que "garanta a preservação da estrutura pombalina interior"

 


DN/Lusa

04 Dezembro 2020 — 17:54

https://www.dn.pt/lisboa/movimento-de-cidadaos-critica-centro-comercial-previsto-para-quarteirao-da-suica-em-lisboa-13107917.html?fbclid=IwAR1DzU3P5FdJq7zWFGONyaHDIZd4-t9lHFzluCxp7M5dzSZKP_N4MzMorYI

 

O movimento de cidadãos "Lisboa Precisa" criticou esta sexta-feira a criação de um novo espaço comercial no quarteirão da antiga pastelaria Suíça, defendendo um processo de reabilitação, com habitação, serviços e comércio, que "garanta a preservação da estrutura pombalina interior".

 

"'Lisboa Precisa' opor-se-á, pelas formas que tem ao seu alcance, à concretização deste projeto para o quarteirão da Suíça e reclama um processo de reabilitação que contemple habitação, serviços e comércio, e garanta a preservação da estrutura pombalina interior daquele conjunto de imóveis", lê-se num comunicado do movimento.

 

O projeto de recuperação do quarteirão da antiga pastelaria Suíça, no Rossio, que prevê a criação de um novo espaço comercial, com reabilitação das fachadas das lojas históricas, foi aprovado a 12 de novembro pela Câmara de Lisboa com os votos favoráveis do PS, do PSD e do CDS-PP, a abstenção do BE e o voto contra do PCP.

 

Segundo a proposta, está prevista "a instalação de quatro unidades comerciais e de uma unidade de serviços", que ocupará a totalidade do piso em sótão, correspondente à mansarda.

 

O quarteirão é desde 2018 propriedade da empresa JCKL Portugal - Investimentos Imobiliários.

 

Na nota divulgada esta sexta-feira, o movimento "Lisboa Precisa" considera que a aprovação de "um centro comercial" para o quarteirão da Suíça "é mais um exemplo a ilustrar quais os verdadeiros interesses que orientam as reais políticas que a Câmara Municipal de Lisboa continua a prosseguir em termos de urbanismo".

 

 

"Depois da aprovação de um hotel em abril de 2009, com a justificação de que traria mais vida à Baixa e animaria o seu comércio, passou-se agora, quando o turismo 'já não está a dar', para mais um espaço comercial de lojas e marcas internacionais, como é costume, em mais uma machadada ao comércio tradicional e de proximidade, e sem qualquer espaço para oferta de habitação, adensando o processo de despovoamento do centro histórico", é acrescentado.

 

O movimento lamenta ainda que todo o projeto esteja "ao arrepio do que está no Plano de Pormenor de Salvaguarda da Baixa Pombalina", no qual é defendido que os pisos superiores devem ser ocupados preferencialmente por habitação e serviços, deixando para comércio os pisos térreos.

 

"Sob a capa de um aparente respeito pelo património está dissimulada uma intervenção arquitetónica profundamente transformadora, que nega a preservação, não só da tipologia fundiária, como das próprias tipologias habitacionais, ou seja, nega o testemunho cultural da cidade", acusa o movimento.

 

C O M U N I C A D O

                                de LISBOA PRECISA

         contra um centro comercial no quarteirão da Suíça

“QUARTEIRÃO DA SUÍÇA”:

COMO O QUE SE FAZ CONTRARIA

O QUE SE ESCREVE E DIZ.

Lisboa continua a perder população – menos 300 mil habitantes em 30 anos – enquanto a sua câmara municipal continua a aprovar planos e cartas estratégicas afirmando que a prioridade é trazer mais pessoas para a cidade, sobretudo jovens.

Depois de anos a circunscrever a política de habitação aos bairros periféricos, onde alojou a população de menores recursos, ao mesmo tempo que vendia o seu património imobiliário no centro para habitação de luxo e hotéis, parecia que, com a pandemia e o quase desaparecimento do turismo., e dos negócios imobiliários que este alimentava, a CML tinha finalmente entendido o desastre que as suas políticas tinham provocado. Pura ilusão.

A aprovação de um centro comercial (mais um!) para o designado “quarteirão da Suíça” na Baixa de Lisboa, é mais um exemplo a ilustrar quais os verdadeiros interesses que orientam as reais políticas que a CML continua a prosseguir em termos de urbanismo. Depois da aprovação de um hotel em abril de 2009, com a justificação de que traria mais vida à Baixa e animaria o seu comércio, passou-se agora, quando o turismo “já não está a dar”, para mais um espaço comercial de lojas e marcas internacionais, como é costume, em mais uma machadada ao comércio tradicional e de proximidade, e sem qualquer espaço para oferta de habitação, adensando o processo de despovoamento do centro histórico.

Tudo isto ao arrepio do que está no Plano de Pormenor de Salvaguarda da Baixa Pombalina que, apesar de múltiplas ambiguidades, não deixa de considerar que os pisos superiores devem ser ocupados preferencialmente por habitação e serviços, deixando para comércio os pisos térreos.

Sob a capa de um aparente respeito pelo património está dissimulada uma intervenção arquitetónica profundamente transformadora, que nega a preservação, não só da tipologia fundiária, como das próprias tipologias habitacionais, ou seja, nega o testemunho cultural da cidade.

Para um local muitíssimo característico do centro de Lisboa, o quarteirão da Suíça, peça singular e  particular porque faz fachada contínua com cerca de 78 metros sobre as Praças do Rossio e da Figueira, e tem um  profundidade significativa de 20 metros, é indispensável uma análise com “olhos” que amem a urbanidade e não se  atenham à simplória rentabilidade. 

Consequentemente, o miolo do quarteirão deveria ser potencializado, refrescado, recuperando poços de luz, “salvando a gaiola pombalina”, incentivando as ventilações transversais e as transparências. Portanto recusa do critério  ultra simplista de arrasar o “âmago” para poder fazer plantas em profundidade, com pavimentos contínuos para centro comercial, obrigando a tecnologias consumistas de energia para dar origem a ambientes artificiais e vulgares.

Todos têm o direito de mudar de opinião, o que já não é admissível (e disso estamos fartos) são as permanentes incoerências entre o que se escreve nos programas eleitorais, se estabelece nos acordos para formar maioria no executivo, se aprova nos planos urbanísticos, se proclama nas cartas estratégicas (repovoar a cidade, mais pessoas para a cidade, habitação a custos acessíveis, etc. e tal) e se propagandeia nos meios de comunicação, e o que é a prática efetiva sempre que interesses imobiliários e financeiros estão em causa.

Lisboa Precisa opor-se-á, pelas formas que tem ao seu alcance, à concretização deste projeto para o quarteirão da Suíça e reclama um processo de reabilitação que contemple habitação, serviços e comércio, e garanta a preservação da estrutura pombalina interior daquele conjunto de imóveis.

“Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”. É altura de quem defende uma cidade mais viva, mais habitada e recupere a esperança de construir uma cidade inclusiva, diversificada, equilibrada social e economicamente, ambientalmente sustentável.

P’LISBOA PRECISA

02 Dezembro de 2002

 ANTONIO ELOI

CARLOS MARQUES

FERNANDO NUNES DA SILVA

FERNANDO SANTOS E SILVA

JORGE FARELO PINTO

LUIS CASTRO

MÁRIO TOMÉ

PEDRO SANTOS COSTA

VITOR COIAS

Sem comentários: