Movimento de cidadãos critica "centro
comercial" previsto para quarteirão da Suíça em Lisboa
Movimento "Lisboa Precisa" defende um processo
de reabilitação, com habitação, serviços e comércio, que "garanta a
preservação da estrutura pombalina interior"
DN/Lusa
04 Dezembro 2020
— 17:54
O movimento de
cidadãos "Lisboa Precisa" criticou esta sexta-feira a criação de um
novo espaço comercial no quarteirão da antiga pastelaria Suíça, defendendo um
processo de reabilitação, com habitação, serviços e comércio, que "garanta
a preservação da estrutura pombalina interior".
"'Lisboa
Precisa' opor-se-á, pelas formas que tem ao seu alcance, à concretização deste projeto
para o quarteirão da Suíça e reclama um processo de reabilitação que contemple
habitação, serviços e comércio, e garanta a preservação da estrutura pombalina
interior daquele conjunto de imóveis", lê-se num comunicado do movimento.
O projeto de recuperação
do quarteirão da antiga pastelaria Suíça, no Rossio, que prevê a criação de um
novo espaço comercial, com reabilitação das fachadas das lojas históricas, foi
aprovado a 12 de novembro pela Câmara de Lisboa com os votos favoráveis do PS,
do PSD e do CDS-PP, a abstenção do BE e o voto contra do PCP.
Segundo a
proposta, está prevista "a instalação de quatro unidades comerciais e de
uma unidade de serviços", que ocupará a totalidade do piso em sótão,
correspondente à mansarda.
O quarteirão é
desde 2018 propriedade da empresa JCKL Portugal - Investimentos Imobiliários.
Na nota divulgada
esta sexta-feira, o movimento "Lisboa Precisa" considera que a
aprovação de "um centro comercial" para o quarteirão da Suíça "é
mais um exemplo a ilustrar quais os verdadeiros interesses que orientam as
reais políticas que a Câmara Municipal de Lisboa continua a prosseguir em
termos de urbanismo".
"Depois da
aprovação de um hotel em abril de 2009, com a justificação de que traria mais
vida à Baixa e animaria o seu comércio, passou-se agora, quando o turismo 'já
não está a dar', para mais um espaço comercial de lojas e marcas
internacionais, como é costume, em mais uma machadada ao comércio tradicional e
de proximidade, e sem qualquer espaço para oferta de habitação, adensando o
processo de despovoamento do centro histórico", é acrescentado.
O movimento
lamenta ainda que todo o projeto esteja "ao arrepio do que está no Plano
de Pormenor de Salvaguarda da Baixa Pombalina", no qual é defendido que os
pisos superiores devem ser ocupados preferencialmente por habitação e serviços,
deixando para comércio os pisos térreos.
"Sob a capa
de um aparente respeito pelo património está dissimulada uma intervenção
arquitetónica profundamente transformadora, que nega a preservação, não só da
tipologia fundiária, como das próprias tipologias habitacionais, ou seja, nega
o testemunho cultural da cidade", acusa o movimento.
C O M U N I C A D O
de LISBOA
PRECISA
contra um
centro comercial no quarteirão da Suíça
“QUARTEIRÃO DA
SUÍÇA”:
COMO O QUE SE FAZ
CONTRARIA
O QUE SE ESCREVE
E DIZ.
Lisboa continua a
perder população – menos 300 mil habitantes em 30 anos – enquanto a sua câmara
municipal continua a aprovar planos e cartas estratégicas afirmando que a
prioridade é trazer mais pessoas para a cidade, sobretudo jovens.
Depois de anos a
circunscrever a política de habitação aos bairros periféricos, onde alojou a
população de menores recursos, ao mesmo tempo que vendia o seu património
imobiliário no centro para habitação de luxo e hotéis, parecia que, com a
pandemia e o quase desaparecimento do turismo., e dos negócios imobiliários que
este alimentava, a CML tinha finalmente entendido o desastre que as suas
políticas tinham provocado. Pura ilusão.
A aprovação de um
centro comercial (mais um!) para o designado “quarteirão da Suíça” na Baixa de Lisboa,
é mais um exemplo a ilustrar quais os verdadeiros interesses que orientam as
reais políticas que a CML continua a prosseguir em termos de urbanismo. Depois
da aprovação de um hotel em abril de 2009, com a justificação de que traria
mais vida à Baixa e animaria o seu comércio, passou-se agora, quando o turismo
“já não está a dar”, para mais um espaço comercial de lojas e marcas
internacionais, como é costume, em mais uma machadada ao comércio tradicional e
de proximidade, e sem qualquer espaço para oferta de habitação, adensando o
processo de despovoamento do centro histórico.
Tudo isto ao
arrepio do que está no Plano de Pormenor de Salvaguarda da Baixa Pombalina que,
apesar de múltiplas ambiguidades, não deixa de considerar que os pisos
superiores devem ser ocupados preferencialmente por habitação e serviços,
deixando para comércio os pisos térreos.
Sob a capa de um
aparente respeito pelo património está dissimulada uma intervenção
arquitetónica profundamente transformadora, que nega a preservação, não só da
tipologia fundiária, como das próprias tipologias habitacionais, ou seja, nega
o testemunho cultural da cidade.
Para um local
muitíssimo característico do centro de Lisboa, o quarteirão da Suíça, peça
singular e particular porque faz fachada
contínua com cerca de 78 metros sobre as Praças do Rossio e da Figueira, e tem
um profundidade significativa de 20
metros, é indispensável uma análise com “olhos” que amem a urbanidade e não se atenham à simplória rentabilidade.
Consequentemente,
o miolo do quarteirão deveria ser potencializado, refrescado, recuperando poços
de luz, “salvando a gaiola pombalina”, incentivando as ventilações transversais
e as transparências. Portanto recusa do critério ultra simplista de arrasar o “âmago” para
poder fazer plantas em profundidade, com pavimentos contínuos para centro
comercial, obrigando a tecnologias consumistas de energia para dar origem a
ambientes artificiais e vulgares.
Todos têm o
direito de mudar de opinião, o que já não é admissível (e disso estamos fartos)
são as permanentes incoerências entre o que se escreve nos programas
eleitorais, se estabelece nos acordos para formar maioria no executivo, se
aprova nos planos urbanísticos, se proclama nas cartas estratégicas (repovoar a
cidade, mais pessoas para a cidade, habitação a custos acessíveis, etc. e tal)
e se propagandeia nos meios de comunicação, e o que é a prática efetiva sempre
que interesses imobiliários e financeiros estão em causa.
Lisboa Precisa
opor-se-á, pelas formas que tem ao seu alcance, à concretização deste projeto
para o quarteirão da Suíça e reclama um processo de reabilitação que contemple
habitação, serviços e comércio, e garanta a preservação da estrutura pombalina
interior daquele conjunto de imóveis.
“Vemos, ouvimos e
lemos. Não podemos ignorar”. É altura de quem defende uma cidade mais viva,
mais habitada e recupere a esperança de construir uma cidade inclusiva,
diversificada, equilibrada social e economicamente, ambientalmente sustentável.
P’LISBOA PRECISA
02 Dezembro de
2002
ANTONIO ELOI
CARLOS MARQUES
FERNANDO NUNES DA
SILVA
FERNANDO SANTOS E
SILVA
JORGE FARELO
PINTO
LUIS CASTRO
MÁRIO TOMÉ
PEDRO SANTOS
COSTA
VITOR COIAS


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