OPINIÃO
Os portugueses e a PIDE: algumas respostas
O papel do historiador, tal como o entendo, não consiste
em praticar proselitismo ideológico. Consiste, pelo contrário, em manter a
maior imparcialidade possível para chegar à compreensão desapaixonada de
processos históricos.
Duncan Simpson
2 de Março de
2021, 12:28
https://www.publico.pt/2021/03/02/opiniao/opiniao/portugueses-pide-respostas-1952657
O meu artigo
sobre as relações entre os portugueses e a PIDE, publicado no PÚBLICO no dia 14
de Fevereiro, suscitou a reacção dos académicos Luís Farinha (L.F.), Luísa
Tiago de Oliveira (L.T.O.), Irene Pimentel (I.P.), e Luís Reis Torgal (L.R.T.).
Pondo de parte o tom descabidamente insultuoso de I.P., é sempre positivo, pelo
menos em teoria, que assuntos históricos sensíveis possam ser debatidos
publicamente. Porém, debater não é sinónimo de rebater com argumentos baseados
na deturpação ou puro desconhecimento do meu trabalho. Em defesa da seriedade
da minha investigação, julgo necessário alguns esclarecimentos. Para bem do
leitor, limitar-me-ei ao essencial.
1. Começo por
responder à acusação caluniosa de I.P., segundo a qual me teria “apropriado
[sic]” do seu trabalho. Na História da PIDE de I.P., principal contribuição
daquela autora sobre o assunto, o tema da delação espontânea ocupa apenas
quatro páginas num total de 575, o que é manifestamente insuficiente para se
considerar o assunto “arrumado”. Acresce que, nestas quatro páginas, a pesquisa
arquivística levada a cabo por IP é exígua, limitando-se a autora a reproduzir
conclusões de artigos jornalísticos publicados durante o PREC. Aproveito também
para assinalar que nenhum dos quatro artigos académicos sobre a PIDE que
publiquei até agora, cada um deles sujeito ao rigoroso escrutínio da avaliação
anónima pelos pares, recebeu qualquer comentário que considerasse o tema já
esgotado, como afirma I.P. — muito pelo contrário. Há uma razão que o explica:
o tema nunca foi, até hoje, tratado com profundidade.
2. No meu último
artigo, escrevi que qualquer historiador disposto a “aplicar novas metodologias
e explorar novos objectos de estudo susceptíveis de ir contra a representação
ortodoxa da PIDE” devia “assumir o risco de expor-se a acusações de
‘negacionismo’ e ‘branqueamento’ em relação ao passado ditatorial”. Já durante
o Historikerstreit português de 2012, Rui Ramos, por ter ousado contextualizar
a repressão exercida pela PIDE numa perspectiva internacional, tinha sido
repetidamente acusado de negacionismo por historiadores como Manuel Loff e
Fernando Rosas. Não surpreende, portanto, que L.T.O. me acuse de ter uma “visão
cor-de-rosa do Estado Novo” e L.F., num texto que depois republicou no site do
Bloco de Esquerda, também vê na minha análise um enviesamento “pela via do
negacionismo”. Ora, o papel do historiador, tal como o entendo, não consiste em
praticar proselitismo ideológico. Consiste, pelo contrário, em manter a maior
imparcialidade possível para chegar à compreensão desapaixonada de processos
históricos, no sentido do verstehen weberiano.
Perante tais
acusações, quero também deixar claro que sempre afirmei a necessidade de manter
viva a memória das vítimas da PIDE, que considero fundamental para a formação cívica
dos cidadãos num Portugal democrático. O que não aceito é que em nome da
preservação desta memória se tente condicionar quais os aspectos da história da
PIDE que podem ou não ser investigados.
3. Contrariamente
à afirmação de L.R.T., segundo o qual é “obviamente fácil” encontrar “muitas
cartas de delação” nos arquivos da PIDE, a localização destas cartas é um
processo extremamente demorado. Nos arquivos da PIDE não existem pastas
especiais para as cartas de denúncia. Estas encontram-se dispersas entre os
milhares de processos abertos pela PIDE, e não deixam um rasto tão abundante
quanto os dos opositores políticos, o que dificulta sobremaneira a sua
identificação. O facto de estas cartas não terem sido previamente consultadas
por outros investigadores (c. 95% delas, no meu caso) implica a submissão
prévia a expurgo por arquivistas da Torre do Tombo, que raramente
disponibilizam a consulta dos documentos num prazo inferior a três semanas.
Escusado será também dizer que, contrariamente ao que afirma I.P., só uma
ínfima parte da documentação por mim consultada nos arquivos da PIDE se
confunde com a sua.
4. Na sua carta
aberta, L.R.T. realça também a dificuldade dos investigadores da Universidade
de Coimbra em ver o seu trabalho divulgado nacionalmente. Há talvez uma parte
de verdade nesta observação, embora o problema nada tenha a ver comigo. Quanto
à alegada falta de reconhecimento dos investigadores conimbricenses, só posso
afirmar que, pela minha parte, integro sistematicamente os trabalhos que
considero relevantes para o meu objecto de estudo. A título de exemplo, no meu
último artigo sobre a PIDE cito diversas obras de Renato Nunes e Paulo Marques
da Silva, incluindo o interessante trabalho deste último sobre o informador
“Inácio” que L.R.T. me acusa de ignorar.
5. Por último,
quero também deixar claro que, em todos os meus trabalhos sobre a PIDE, incorporei
sempre as obras fundamentais para o estudo da polícia política. Nelas incluo as
obras de I.P. que aprofundaram o conhecimento sobre a perseguição exercida pela
PIDE contra a oposição. É tarefa essencial do historiador estar ao corrente do
trabalho produzido pelos seus pares. Porém, também o é assimilá-lo
criticamente, apontando as suas fragilidades. Sem isso não há avanço do
conhecimento. Ora, na minha opinião, os trabalhos de I.P. não cumprem
minimamente estes requisitos. Quando I.P. se queixa de eu não ter integrado as
suas reflexões acerca da ideia de “povo-vítima” no seu último livro sobre a
PIDE, publicado em 2019, esquece-se de que eu próprio publiquei mais de um ano
antes um artigo sobre o assunto, artigo esse a que não faz referência no seu livro.
E não é só o meu trabalho que é completamente ignorado por I.P.. É também o
caso da inovadora investigação de Beatriz Valverde Contreras e Alexander Keese
sobre a actuação da PIDE nos Açores, investigação essa extremamente fértil em
implicações para o estudo da PIDE em Portugal continental. Tal postura só pode
ser assumida por quem julga ter o domínio exclusivo sobre um dado objecto de
estudo. Ora, ninguém é senhor de um tema de investigação, seja este a história
da PIDE ou outro qualquer.


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