Despesas da presidência portuguesa em bebidas, fatos e
centro de imprensa “fantasma” em destaque na imprensa europeia
João Barros
04 Março 2021,
12:55
O contexto
pandémico não parece afetar as expectativas portuguesas de eventos presenciais
durante os seis meses da sua presidência do Conselho, que serviram de
justificação a algumas despesas invulgares. Ainda assim, e ignorando a
pandemia, alguns deputados europeus e diplomatas dizem não compreender os
gastos, bem como várias associações cívicas.
Apesar da
pandemia impedir a realização de grandes cimeiras e eventos, a presidência
portuguesa da União Europeia não deixou de incorrer em gastos assinaláveis para
a compra de equipamento e outros bens cuja utilização parece improvável, como
denota o Politico.
A publicação
destaca os 260.591 euros utilizados para equipar um centro de imprensa, ainda
que o acompanhamento das conferências seja agora feito de forma online e
não-presencial, os 35.785 euros canalizados para a compra de bebidas e os
39.780 euros para a compra de 360 camisas e 180 fatos.
Contactada pelo
Politico, Alexandra Carreira, a porta-voz da presidência portuguesa, justificou
a compra dos fatos com os motoristas designados para conduzir quaisquer
delegações que se possam deslocar ao país.
“Não podemos
simplesmente descartar a possibilidade de serem realizados encontros presenciais
no futuro próximo”, explicou. Ainda assim, como denota a peça da publicação
norte-americana, este tipo de despesas seriam já pouco comuns num contexto
não-pandémico, sendo estes motoristas funcionários públicos e, portanto,
devendo dispor já de antemão dos fatos necessários ao desempenho das suas
funções.
Adicionalmente, o
centro de imprensa é fundamentado pela necessidade de criar condições aos
jornalistas destacados para a cobertura dos eventos da presidência. No entanto,
vários jornalistas afirmaram anonimamente à publicação que o local é “uma
cidade fantasma” onde não se encontra mais do que meia dúzia de profissionais.
Por outro lado, o
concurso público para mobilar este centro foi vencido por uma empresa que não
garantia uma obra do género desde 2011 e até esse ponto se focava na
organização de pequenos concertos em festas municipais, como se constata no
portal Base. Estas despesas têm já levantado preocupações em Bruxelas, com
alguns eurodeputados e diplomatas a salientarem a invulgaridade dos gastos do
Governo português, e junto de inúmeras organizações cívicas, como a
Transparência e Integridade.
“Isto é típico em
Portugal, o nosso sistema de contratos públicos é muito problemático”, defende
Susana Coroado, a presidente da associação, em declarações ao Politico. “Não há
justificação de despesas, não há mecanismos desenhados para evitar possível
conflitos de interesse e os contratos são frequentemente atribuídos a empresas
‘amigas’ do Governo”, refere.
“No ano passado,
ficamos muito ofendidos quando alguns países do norte da Europa se mostraram
relutantes em dar-nos dinheiro pelo medo de que os fundos fossem mal
aproveitados, mas quando [a presidência] faz coisas destas, é normal que haja
ceticismo”, conclui Susana Coroado.

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