EDITORIAL
O aeroporto e o mito de Sísifo
O interminável folhetim do aeroporto regressa à estaca
zero, ou quase. Milhares de páginas de estudos, centenas de horas de
discussões, milhões de euros investidos em pareceres servirão apenas para
memória futura. Por vezes, o país gosta de se mostrar inútil com volúpia e sem
arrependimento.
Manuel Carvalho
2 de Março de
2021, 21:01
https://www.publico.pt/2021/03/02/economia/editorial/aeroporto-mito-sisifo-1952798
No dia 4 de Março
de 2020, o primeiro-ministro declarou com ar solene que “a localização da
construção do novo aeroporto está decidida desde 2015 (…) Mal ou bem, o debate
sobre a localização ficou concluído”. Esta terça-feira ficámos a saber que,
afinal, nem a construção está decidida, nem o debate concluído. O anúncio de
uma avaliação ambiental estratégica para responder ao veto dos autarcas da
Moita e do Seixal volta a colocar a história do novo aeroporto de Lisboa no
preâmbulo. O interminável folhetim regressa à estaca zero, ou quase. Milhares
de páginas de estudos, centenas de horas de discussões, milhões de euros
investidos em pareceres servirão apenas para memória futura. Por vezes, o país
gosta de se mostrar inútil com volúpia e sem arrependimento.
O Novo Aeroporto
de Lisboa discute-se há 52 anos. O Governo de António Guterres escolheu a Ota.
Depois veio Alcochete. Mais tarde Portela+1, que depois de um vago anúncio do
Governo de Passos Coelho e da determinação de António Costa se cristalizou sem
a possibilidade de “um plano B” ao do Montijo. Quando se soube que tudo iria
ser reconsiderado, seja o Montijo grande e Humberto Delgado pequeno, seja o
contrário, seja outra vez Alcochete, só se pode ficar com a sensação de que
alguém perdeu o juízo no vaivém. A pandemia, é certo, mudou o mundo. O parecer
dos autarcas, é óbvio, sustenta-se numa legislação absurda. Mas é impossível
não notar no processo uma clamorosa falha no modo de decisão do Estado.
Se o poder de
veto dos autarcas era estúpido, alguém deveria ter revogado a lei que o
institui antes. Se hoje, sete anos depois da aposta no Montijo, faz sentido
considerar Alcochete, essa possibilidade deveria ter sido considerada à
partida. Se um aeroporto no campo de tiro pode ser modular, se está fora de uma
zona de sensibilidade sísmica, se não configura um atentado ambiental como o
Montijo, se merece mais apoio dos representantes da população local, porque
teve o país de gastar anos a fio energia, dinheiro e tempo em vão?
Hoje não há a
pressão do esgotamento da Portela, dir-se-á. Repete-se o que se dizia no tempo
da Ota ou de Alcochete. Com o processo de regresso ao ponto de partida (mesmo
que haja estudos aproveitáveis), o novo aeroporto de Lisboa repete o destino de
Sísifo. Quando a pedra está perto do cimo do monte, Sísifo tem de regressar ao
ponto de partida para a carregar de novo. Se o mito serve para ilustrar o
absurdo da condição humana, não deixa de ilustrar o absurdo das opções
políticas em torno do velho novo aeroporto de Lisboa.
tp.ocilbup@ohlavrac.leunam


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