segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Um Porto com mais sol nas casas e menos construção nos logradouros: as propostas da Campo Aberto para o novo PDM

 



PLANO DIRECTOR MUNICIPAL

Um Porto com mais sol nas casas e menos construção nos logradouros: as propostas da Campo Aberto para o novo PDM

 

Associação ambientalista entregou propostas para a revisão do Plano Director Municipal do Porto, cuja discussão pública termina esta segunda-feira.

 

Abel Coentrão

Abel Coentrão 6 de Dezembro de 2020, 20:03

https://www.publico.pt/2020/12/06/local/noticia/porto-sol-casas-menos-construcao-logradouros-propostas-campo-aberto-novo-pdm-1941969

 

Uma cidade mais planeada, menos dependente da vontade de quem constrói, com mais malha urbana, onde ela ainda não exista, e com menos prédios soltos, descosidos da envolvente. Estas são algumas das ideias-chave das propostas que a associação ambientalista Campo Aberto gostaria de ver vertidas para a nova versão do Plano Director do Porto. Num extenso documento, a associação defende mais respeito pela regra dos 45 graus e uma espécie de direito ao sol, como forma de melhorar a eficiência energética das casas, pede mais protecção para os logradouros e mais jardins de proximidade.

 

A Campo Aberto que em 2021 comemora duas décadas de existência promoveu, acolhendo textos no seu site e em debates online sobre urbanismo, mobilidade e ambiente, uma ampla discussão sobre o PDM que definirá o Porto da próxima década, em paralelo com as reuniões realizadas pela própria autarquia. O período de discussão pública do documento acaba esta segunda-feira e a associação entregou uma longa proposta de alterações, na qual não se limita a comentar as normas que lhe levantam mais questões, mas propõe, mesmo, uma redacção alternativa para vários artigos, e até a introdução de alguns não previstos no regulamento do plano.

 

 

Regresso aos 45 graus?

Numa síntese às posições desenvolvidas por esta associação que tem tido uma intervenção constante sobre o urbanismo do Porto, percebe-se que a Campo aberto pretende que o PDM seja mais normativo em relação a alguns aspectos do desenvolvimento urbano que, no actual plano, caem na esfera da subjectividade de quem promove a edificação e de quem a aprova. É o caso da regra dos 45 graus, previsto no Regulamento Geral da Edificação e Urbanização, mas nem sempre aplicada.

 

Deve a distância de um edifício a outro, com ele confrontante, ser no mínimo a que se calcula medindo a altura desse prédio? O ex-vereador do Urbanismo Correia Fernandes, académico e arquitecto, defendeu num debate que a associação promoveu, que nalguns casos, dependendo de outras características e qualidades do projecto arquitectónico, tal pode não acontecer.

 

Discussão pública termina esta segunda-feira

O período de discussão pública do novo Plano Director Municipal termina esta segunda-feira. Ainda é possível entregar sugestões, usando, por exemplo, o site específico criado pelo município, e no qual, está disponível toda a (longa) documentação que suporta o processo. Esta revisão do PDM do Porto demorou mais de cinco anos, e responde já aos requisitos da legislação mais recente ao incluir, entre outros documentos, uma previsão do investimento necessário para a concretização das intervenções mapeadas: no Porto, esse valor ascende a 883 milhões de euros, numa década. O PDM revisto terá de ser publicado até 24 de Março do próximo ano.

 

 

Já a Campo Aberto admite alguma excepcionalidade, mas quer limitá-la a mínimos que garantam que a regra é prevalecente, até porque num outro ponto do seu parecer, pedem que o PDM consagre a eficiência energética passiva dos edifícios como algo a promover. O que depende, também, do acesso que este tenha a horas de luz solar directa.

 

Noutro ponto do seu parecer, a associação propõe também uma diminuição do índice de edificação máximo permitido e chega a desafiar a autarquia a introduzir uma norma que limite o impacto dos compromissos urbanísticos que o novo PDM vai herdar - e que são mais de sete mil, segundo o documento fornecido pela câmara para discussão pública. Neste sentido, numa tentativa de equilibrar direitos privados com o interesse público pressuposto na visão estabelecida pelo plano, defendem que esses direitos não possam ultrapassar mais do que 25% do índice máximo.

 

Menos blocos isolados, mais malha urbana

Mais do que uma análise projecto a projecto – que na perspectiva da associação tem retirado coerência à cidade – na sua proposta a Campo Aberto pede que “nas áreas de urbanismo não consolidado da cidade do Porto” se “crie estrutura e regularidade, pondo cobro a toda a construção avulsa”. “Observamos que nas últimas décadas a cidade se tem vindo a fazer mais ao sabor dos empreendimentos que vão surgindo do que em virtude de uma sua visão clara e preexistente por parte do poder municipal”, lamentam.

 

Nesse sentido, sugerem que se se limite, fortemente, a criação “das chamadas ‘áreas de blocos isolados de implantação livre’, impondo que todas as novas operações de edificação em parcelas ou lotes com uma área superior a 2500 metros quadrados sejam alvo de um plano urbanístico prévio e se insiram numa malha urbana, como princípio geral”. Algo que, consideram, para além do mais impede a guetização desses espaços.

 

Apelo a maior participação dos cidadãos

A Associação Campo Aberto considera que o novo PDM deveria reforçar o poder de participação dos cidadãos. Lembram que o regulamento do PDM em vigor previa que fossem submetidas a discussão pública as operações de loteamento ou outras obras que correspondessem a uma área de intervenção superior a dois hectares, a uma área de construção superior a 12 000 metros quadrados ou a um número de fogos superior a cem” e verificam, com surpresa, que o novo Regulamento “é omisso nesta matéria tão relevante”. Para além de defenderem que sejam retomados estes mecanismos de informação, propõem, ainda que eles sejam reforçados, a uma escala menor, e no âmbito das freguesias, nas quais poderia passar a ser norma a exposição de maquetes de projectos com, por exemplo, mais de dois mil metros quadrados de área de construção, sugerem.

 

 

No documento que por estes dias será também publicado no site da associação, esta propõe que seja dada mais atenção às questões do dimensionamento urbano, procurando uma “adequada relação entre a edificabilidade urbana, as áreas verdes e a estrutura ecológica da cidade, e a rede viária da cidade”, a a sustentabilidade urbanística. Neste caso, procurando que uma dada “carga urbana – designadamente em termos de volume edificatório, de densidade ou concentração humanas ou de tráfego rodoviário – é compatível com o saudável funcionamento de um sistema urbano a médio e longo-prazo.”

 

Logradouros e mais espaços verdes

Entre as dezenas de sugestões, destaca-se a importância dada aos espaços verdes de uso comum, no espaço público, e os espaços verdes, ou pelo menos não impermeabilizados, existentes nas parcelas privadas, e no interior dos quarteirões, nalgumas zonas da cidade. “Congratulamo-nos com o facto de o Regulamento do PDM proposto estipular (...) o princípio geral de que os logradouros existentes na Área Histórica deverão ser livres de edificação e ocupados com coberto vegetal permeável”, assinalam. Ao mesmo tempo sugerem que em novas construções, em zonas não consolidadas, a área de impermeabilização não possa “ser superior a 50 % da área da parcela” e propõem, inclusivamente, um sistema de incentivos para levar os proprietários a eliminar construções existentes nas respectivas parcelas.

 

Na área do ambiente – no qual outro grupo de trabalho da Campo Aberto preparou um conjunto de propostas – pede-se que não desapareça do PDM o artigo que, no plano em vigor, determina que exista “área verde privada a salvaguardar”. “Esta diminuição drástica da capacidade da Câmara do Porto monitorizar o que é feito a uma importante parte da área verde do município, e de impedir assim a sua destruição, não é compatível com o propósito de colocar a Estrutura Ecológica Municipal no centro do planeamento urbano”, alertam.

 

Esta organização defende “a expansão da definição de área verde lúdico-produtiva de modo a integrar explicitamente o conceito de horta (urbana) colectiva” e, em termos de espaço público, veria com bons olhos que o Porto conseguisse criar uma rede de parques e jardins de proximidade, acessíveis a qualquer cidadão a uma distância de cerca de 800 metros da sua residência”.

 

Detalhar o património a defender

Num dos debates organizados pela Campo Aberto, o Património foi um dos temas em destaque, o que não espanta numa cidade como o Porto, que tem o seu centro histórico classificado como Património da Humanidade, pela Unesco. A cidade conta ainda com dezenas de edifícios classificados noutras freguesias e tem, como todos, um inventário do património no PDM. Um documento que, na opinião do arquitecto Pedro Tenreiro, sinaliza mas não defende claramente esse edificado, que não ganha, nele, qualquer estatuto de protecção.

 

“Reconhecemos que nem todos os edifícios com interesse patrimonial poderão ser salvaguardados incólumes e que a Baixa do Porto esteve praticamente ao abandono durante muito tempo. Em certos casos será porventura preferível um projecto razoável do que não haver obra. Mas estamos convencidos de que este dilema, tão propalado, não pode justificar que se baixe a guarda e se licenciem projectos que efectivamente destroem o património e promovem o mero fachadismo”, escreve a Campo Aberto no seu parecer, notando que “este processo de “disneylandização”, como já foi apelidado, é profundamente danoso para uma cidade que é apreciada pela sua autenticidade”.

 

Na perspectiva desta associação uma cidade com esta riqueza patrimonial pediria um “grau de detalhe muito maior, sobretudo nas frentes urbanas com interesse patrimonial, onde se poderia dar início a um programa destinado a ‘cerzir’ essas áreas de modo a melhorar substancialmente o ambiente urbano. Esses ‘planos de frente ou conjunto urbanos’ poderiam versar sobre morfologia urbana, alinhamentos, cérceas, linguagem arquitectónica, logradouros, espaços verdes, e passeios e seu ajardinamento, entre outros”.

 

Apesar de tudo o que aconteceu, com a pandemia de covid-19, em 2020, a Campo Aberto acredita “que o turismo e a dinâmica imobiliária no centro vão regressar”. E, a ser assim, “o Porto tem de estar preparado para fazer melhor e impor muito mais qualidade nessa nova vaga”, insistem, argumentando que, num ambiente de baixas taxas de juro, e dada a rentabilidade do negócio imobiliário nas zonas patrimonialmente mais relevantes, o município “tem margem de manobra para ser exigente com promotores imobiliários sem colocar em causa a revitalização acelerada do centro da cidade”.

 

A associação Campo Aberto elogia a proposta de incentivos à construção de habitação acessível inscrita no novo PDM, e, para além de propor algumas alterações à mesma, defende que esta lógica de premiar um urbanismo socialmente sustentável poderia ser transposta para a área ambiental. Assim, sugerem que o plano preveja, desde logo, que venha a ser  estabelecida uma normativa que permita qualificar e beneficiar as operações urbanísticas nesta perspectiva, tendo em conta factores como: a protecção do solo e aumento de áreas permeáveis, conservação da vegetação e biodiversidade, reversão da ocupação de logradouros com anexos e outras construções, tratamento de áreas ajardinadas públicas nas proximidades, promoção da economia circular e adopção de soluções baseadas na natureza, como coberturas verdes, e o recurso a energias renováveis, por exemplo.

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