Os britânicos nunca caminharão sozinhos
Esta é a hora de dizer aos britânicos aturdidos pela
pandemia e cada vez mais isolados do mundo que jamais caminharão sozinhos.
Manuel Carvalho
21 de Dezembro de
2020, 20:20
https://www.publico.pt/2020/12/21/mundo/editorial/britanicos-caminharao-sozinhos-1943837
A canção You'll
never walk alone (nunca caminharás sozinho, numa tradução livre) apareceu num
filme britânico em 1945, ganhou fama numa versão pop de 1963 e tornou-se hino
de vários clubes de futebol das ilhas e do mundo, com destaque para o
Liverpool. Nestes dias sombrios, é bom que a União Europeia a dedique ao Reino
Unido.
Imaginemos o
estado de espírito do país, mesmo que temperemos a imaginação com a bravura ou
a arrogância que distinguem os britânicos: a nova estirpe do novo coronavírus
isolou a capital, elevou o número de contágios para níveis recorde e agravou a
ansiedade dos cidadãos; vários países decidiram isolar as ilhas, proibindo ligações
aéreas ou exigindo controlos sanitários severos; a França impôs uma suspensão
do trânsito entre as duas orlas do canal por 48 horas, provocando filas
intermináveis de camiões; sem acordo para o pós-“Brexit” à vista, o Reino Unido
está a dias de cortar laços comerciais com o seu principal parceiro, passando
de um mercado livre para controlos nas fronteiras que ameaçam as cadeias de
abastecimento e os fundamentos da economia.
Mesmo descontando
o proverbial cinismo com que os franceses olham para o outro lado da Mancha, é
impossível não concordar com o comissário europeu do mercado interno, Thierry
Breton, quando afirma que a nova mutação do vírus é “uma tragédia” que poderia
ser mitigada com o apoio europeu se a irresponsável loucura do “Brexit” não tivesse
acontecido.
A frase foi
associada ao plano europeu de 750 mil milhões de euros, mas é impossível não
encontrar aqui outra leitura, essa bem menos consensual: fora da União, os
britânicos deixaram de fazer parte de uma comunidade, passaram a ser estrangeiros
e começaram a ser tratados como tal. Se o vírus mutante tivesse aparecido, por
exemplo, na Bélgica, haveria um cordão sanitário como o que a UE montou em
torno do Reino Unido?
Os britânicos
sofrem os danos da irresponsabilidade dos seus líderes e da arrogância que os
levou a escolher o “orgulhosamente sós” em detrimento da partilha de um destino
comum e de um espaço de solidariedade possível na Europa. A recusa de Boris
Johnson em prolongar mais uns dias o processo negocial para o pós-“Brexit” é apenas
mais uma exibição dessa vaidade vã dos britânicos contra o resto da Europa.
Mas é nestes
momentos críticos que se desenha o futuro. E o futuro da relação entre a União
e o Reino Unido não pode contemplar espírito punitivo nem insensibilidade ao
drama dos britânicos. Pelo contrário, esta é a hora de dizer aos britânicos
aturdidos pela pandemia e cada vez mais isolados do mundo que jamais caminharão
sozinhos.
tp.ocilbup@ohlavrac.leunam


Sem comentários:
Enviar um comentário