EDITORIAL
CORONAVÍRUS
A TAP na hora do salve-se quem puder
Agora que estão aí milhares de despedimentos e mais mil
milhões para pagar a curto prazo, a ilusão ideológica do Estado milagroso e
esclarecido morreu e o Governo quer enterrá-la com uma ajudinha da Assembleia
MANUEL CARVALHO
7 de Dezembro de
2020, 22:05
https://www.publico.pt/2020/12/07/politica/editorial/tap-hora-salvese-puder-1942107
Não passou um ano
e os sindicatos da TAP só agora começaram a mostrar as garras, mas o Governo
que se diz de esquerda já percebeu que jamais sairá incólume de uma
reestruturação como a que se anuncia para a transportadora. Ao admitir (para
já, não desmentiu) levar esse plano de reestruturação ao Parlamento, o Governo
expôs de forma crua essa sua angústia, o seu desespero e a sua impotência. A
TAP, já o sabíamos, é um problema complexo, grave e gigante. O optimismo
ligeiro com que o ministro Pedro Nuno Santos o encarou não poderia sobreviver à
realidade para sempre. Agora que estão aí milhares de despedimentos e mais mil
milhões para pagar a curto prazo, a ilusão ideológica do Estado milagroso e
esclarecido morreu e o Governo quer enterrá-la com uma ajudinha da Assembleia.
O Governo não se
pode queixar. Podia ter assumido que a TAP era um anel dispensável. Podia ter
tentado negociar com os privados em vez de os livrar do incómodo de gerir a
crise. Podia até ter defendido a solução que escolheu envolvendo a seu tempo a
Assembleia. O Governo não fez nada disto: escolheu, e o país duvidoso lá acabou
por ser contagiado pela confiança do ministro. Se a TAP justificou a bravata
contra os privados, pois corram-se os brasileiros com um cheque de 55 milhões.
Se a TAP é uma empresa estratégica, financie-se. Se a empresa tem rotas ou
aviões a mais, reestruture-se.
Depois de tantos
avales, não se percebe o que pretende agora o Governo, ao levar a
reestruturação à Assembleia. Ou, melhor, percebe-se. Quer repartir os custos
dos conflitos sociais que se prenunciam, seguramente. Pretende diluir as suas
responsabilidades. Pretende, afinal, que as oposições subscrevam os custos das
suas opções políticas. Ou, por outras palavras, pretende o impossível. Nem o
PCP lhe amparará os despedimentos nem o PSD uma nova injecção de capital. O que
resta ao Governo, se esta ideia peregrina for avante, é sair do Parlamento com
alguém a quem assacar culpas. É pouco, pobre e pouco honesto.
Ou há algo que
nos escapa ou a TAP no Parlamento é uma história com pouca inocência e muita
perfídia. O Governo não precisa de discussão ou aprovação parlamentar agora,
tal como não precisou quando decidiu salvar a companhia. Tudo o que vá para lá
de uma discussão ordinária (essa, sim, indispensável) na Assembleia, tudo o que
possa parecer uma tentativa de envolver o Parlamento é um erro que só vai
fragilizar o Governo e depreciar o Pedro Nuno Santos. Depois de ter gerido o
processo como geriu e de ter decidido como decidiu, resta-lhe assumir as
consequências sem mendigar favores nem procurar bodes expiatórios.


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