EDITORIAL
A caça não pode ser um massacre
O abate de 540 animais por 16 caçadores espanhóis revela
a existência de um negócio bárbaro, ao arrepio de qualquer preocupação
cinegética prevista na lei, que não pode ser confundido com desporto ou com
turismo, como se fizesse sentido designar por turista alguém que abate mais de
30 animais num só dia.
Amílcar Correia
22 de Dezembro de
2020, 19:31
https://www.publico.pt/2020/12/22/sociedade/editorial/caca-nao-massacre-1943976
O que aconteceu,
na semana passada, na Herdade de Torre Bela, na Azambuja, não foi uma montaria,
mas simplesmente uma matança indiscriminada de animais. Não há qualquer
semelhança entre caça e um massacre. O abate de 540 animais por 16 caçadores
espanhóis revela a existência de um negócio bárbaro, ao arrepio de qualquer
preocupação cinegética prevista na lei, que não pode ser confundido com
desporto ou com turismo, como se fizesse sentido designar por turista alguém
que abate mais de 30 animais num só dia.
Chamar a isto
“caça turística” é um eufemismo de crime ambiental ou de dano contra a
natureza. As imagens são tão chocantes que as mesmas indignam da mesma forma
associações de caçadores e associações ambientalistas. E os primeiros têm de
ser os mais empenhados na separação entre quem caça com ética e com regras e
aqueles que ignoram uma e outra.
Embora esta seja
tida como a maior quinta murada da Europa, os animais foram impedidos de fugir
ou de se refugiarem (na vegetação que tem sido cortada), e foram abatidos
depois de encurralados. Qual é, afinal, o prazer desta “caça” senão a crueldade
mais boçal? Recuamos às savanas africanas do século XIX, mas com muros, quando
caçadores como Frederik Selous organizavam caçadas para que os clientes
abastados exibissem os seus troféus, como se estes fossem prova irrefutável de
valentia.
Depois disto, as
trancas estão à porta. O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas
iniciou um processo de averiguações à concessionária, vai revogar esta licença
de caça e apresentar uma óbvia queixa ao Ministério Público. A legalidade do
que aconteceu está sob suspeita, assim como a eventual relação entre a matança
e o projecto de instalação de uma estação fotovoltaica, ligação que o PAN
sugeriu.
O ministro do
Ambiente, por sua vez, falou numa inspecção às 1500 zonas de caça turística
deste género que existem em Portugal e anunciou a intenção de rever a lei. Como
diz Matos Fernandes, a caça serve para gerir recursos cinegéticos e não para
“matanças generalizadas”. As montarias não podem ser clandestinas. Pelo
contrário, como defende o ministro, devem ser comunicadas antecipadamente para
que sejam fiscalizadas. A posteriori, todos têm razão, todos se indignam. Torre
Bela ganhou outra expressão.

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