quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Moradores da Graça querem proibir circulação de tuk-tuks no Miradouro da Senhora do Monte/ VIDEO: Miradouro do Monte em 13 Out 2018




Moradores da Graça querem proibir circulação de tuk-tuks no 
Miradouro da Senhora do Monte







Moradores da Graça querem proibir circulação de 
tuk-tuks no Miradouro da Senhora do Monte

Sofia Cristino
Texto
25 Outubro, 2018

No Miradouro da Calçada do Monte, na Graça, um dos sítios mais procurados por quem visita Lisboa, chegam a estacionar mais de trinta tuk-tuks, às vezes não em segunda, mas em terceira fila. O congestionamento atingiu proporções incomportáveis e, várias vezes, as ambulâncias não conseguem circular, ficando paradas vários minutos. Os moradores queixam-se de os condutores descerem a Calçada do Monte a alta velocidade, tendo até já provocado acidentes. “É utilizada como uma espécie de parque de diversões, os próprios condutores chamam a esta descida ‘uma descida com emoção’”, diz um morador. Inconformados com as práticas inseguras, lançaram uma petição a exigir a proibição da circulação destes veículos naquela zona.  Os próprios condutores concordam que este sector de actividade já está “muito lotado”. “Às vezes, há 60 tuk-tuks aqui, ao mesmo tempo. Há dias que parece a procissão a Fátima”, diz um.

Começaram a aparecer timidamente, mas, hoje, já são às centenas a circular pelos bairros típicos da cidade. No Miradouro da Senhora do Monte, na Graça, chegam a estar dezenas de tuk-tuks parados, numa zona de estacionamento com menos de dez lugares. “Às vezes, há sessenta tuk-tuks aqui ao mesmo tempo. Há dias que parece a procissão a Fátima e, quando se juntam segways com bicicletas, é um caos. Para o ano, está previsto recebermos 4 milhões de turistas e vão ser precisos mais”, diz Carlos Camisão, 47 anos, ao volante de um dos veículos de animação turística que compõe a paisagem de uma das colinas mais altas de Lisboa. Os condutores destes veículos,“num dia muito bom”, trazem ali turistas três vezes num dia.

No final de 2011, quando começaram a circular em Lisboa, estes veículos eram criticados pelo ruído, mas agora as queixas estão relacionadas com o congestionamento do trânsito e as descidas a alta velocidade, que já culminaram em pelo menos dois acidentes. Inconformados com a situação, que parece aumentar de dia para dia, os moradores da Graça lançaram uma petição a exigir a proibição da circulação destes veículos, e de outros afectos à actividade de animação turística, na Calçada do Monte –  que já conta com 229 assinaturas. Segundo Miguel Martins, autor da subscrição e morador na Calçada do Monte há mais de 40 anos, a condução insegura é um dos problemas que mais preocupa os habitantes.

“A Calçada do Monte é utilizada como uma espécie de parque de diversões, os próprios condutores chamam a esta descida ‘uma descida com emoção’, e já os ouvi perguntarem aos clientes se querem descer com adrenalina. E vão todos a gritar por ali a baixo. Além do problema de segurança, eu já ia sendo atropelado uma vez”, conta. No mesmo dia em que a petição foi lançada, a 13 de Outubro, um tuk-tuk capotou na Rua Damasceno Monteiro, provocando cinco feridos ligeiros, quatro de nacionalidade norte-americana e um português.

 Quem testemunhou o acidente diz que o veículo turístico desceu a Calçada do Monte a alta velocidade, não conseguindo fazer a curva que existe no final da calçada. Já em 2017, duas turistas alemãs tinham ficado feridas na sequência de outro acidente. “Era um sítio tranquilo, onde se conseguia ver e desfrutar das vistas. Agora, parece uma estação de camionetas a entrarem e a saírem. É tudo menos um sítio para desfrutar de Lisboa, como já foi”, diz Miguel Martins.

Um sítio antes calmo convertido "numa central de camionagem"
Os condutores de tuk-tuks ouvidos no local por O Corvo garantem conduzir com segurança, mas reconhecem que Lisboa não tem capacidade para responder ao aumento “sem regras” do número de veículos de animação turística e pedem legislação. “Infelizmente, consigo perceber o lançamento da petição, há pessoas a morar aqui há anos que sentem grandes diferenças na sua qualidade de vida. Os acidentes não são recorrentes, tem a ver com a condução de cada um, mas as estradas, sem condições e esburacadas, também não ajudam ao nosso trabalho”, diz Luís Pereira, 30 anos, há três anos neste ramo de actividade, depois de ter trabalhado vários anos em publicidade e marketing. Catarina Ferreira, 27 anos, desde Abril a conduzir um tuk-tuk, também compreende as queixas dos moradores.
“Percebo o motivo da petição, este negócio está muito lotado. Muitas vezes, temos de estacionar em segunda fila e esperar que um colega saia para estacionarmos, tentamos não empatar o trânsito, mas nem sempre é possível”, diz. Junto ao miradouro, há meia dúzia de lugares exclusivos para transportes turísticos, mas chegam a estar lá estacionados mais de vinte. “Bem apertadinhos e com diálogo, cabemos todos”, diz Carlos Camisão. Nem todos, porém, são tão benevolentes como Carlos e criticam a falta de regras e de um regulamento camarário.

 A Câmara Municipal de Lisboa (CML) está, desde dezembro de 2017, a trabalhar num documento para regular o sector, mas, até ao momento, ainda não há novidades sobre tais propostas. “A Câmara de Lisboa só fez uma coisa boa – criar mais lugares de estacionamento para veículos turísticos -, mas não acompanhou o crescimento e não tem feito nada para regular o sector. Há 115 lugares para 500 tuk-tuks. Hoje, somos sete vezes mais tuk-tuks do que quando começamos, e a estimativa é que aumentem, é preciso tomar-se medidas”, pede Luís Pereira.

Outra das queixas comuns dos “drivers”, como se auto-intitulam, é a falta de fiscalização deste ramo de actividade turística e de formação de alguns profissionais, tornando a concorrência pouco leal. “Às 21h00, supostamente temos de parar e, à meia-noite, ainda se vêem tuk-tuks, não é justo nem correcto” conta Luís Pereira. Em Setembro de 2015, o presidente da CML, Fernando Medina, anunciava que a circulação dos minicarros turísticos apenas poderia ser feita entre as 9h00 e as 21h00. “Queria anunciar que parte importante das decisões desse regulamento serão antecipadas por despacho e ainda este mês entrarão em vigor”, afirmava Medina, na altura, perante a Assembleia Municipal de Lisboa. O regulamento ainda não entrou, contudo, em vigor e estes horários não são cumpridos, nem fiscalizados.

 Uma medida que também deveria ter entrado em vigor, a partir de 1 de Janeiro do ano passado, é a obrigação de todos os tuk-tuks passarem a ser eléctricos, mas ainda se vêem vários veículos movidos a gasolina. Carlos Camisão não tem problemas em afirmá-lo. “A gasolina, conseguimos chegar a mais sítios, os eléctricos ficam logo sem carga. Faço muitas viagens turísticas de oito horas, com um veículo eléctrico não conseguia”, conta Carlos Camisão. O colega, Jorge Matos, 26 anos, tem uma visão diferente. “Os veículos a gasolina e, principalmente, a gasóleo, fazem muito barulho. Isto não é uma montanha russa e tenho cuidado em não fazer muito ruído”, diz o “driver”, que trabalha apenas em part-time. Cristina Rodrigues, 50 anos, é da mesma opinião. “Era incapaz de andar ainda com um tuk tuk a gasolina, tornam a cidade muito barulhenta. Trabalho com uma guia turística e acho que sou a única a fazê-lo, porque acho que fazemos um trabalho melhor assim, uma conduz e a outra conta a história da cidade”, explica.

 Enquanto que alguns condutores pedem mais controlo sobre a actividade, Cristina não vê essa necessidade. A designer conduz tuk-tuks em regime part-time e vê com bons olhos o crescimento do sector. “Devia haver uma petição para arranjarem as ruas de Lisboa, não concordo com o condicionamento dos sítios onde podemos andar. Não vir à Graça é retirar quase Lisboa toda aos turistas. O eléctrico 28 não vem cá acima, ao miradouro, e acabamos por transportar pessoas de mobilidade reduzida, que de outra forma não conseguiriam vir. Não precisamos de mais legislação”, considera.

 Os moradores, porém, dizem que o número de tuk-tuks a circularem no bairro da Graça são da ordem “das largas centenas” e que a situação está a tornar-se “insuportável”. “Todos os dias, ouvimos buzinadelas de pessoas que querem tentar passar e não conseguem porque os tuk-tuks estão em manobras para saírem. Para alguém que passa ali, é só uma buzinadela, mas para quem vive é um dia inteiro de ruído.  Não é possível ter uma janela aberta, há gritos constantes das pessoas a descerem, é perturbador. Podemos chamar a polícia municipal, mas eles sabem disso e, quando chamamos, já foram embora”, diz Miguel Martins, morador na Calçada do Monte.

 Os autores da petição para a proibição da circulação de veículos tuk-tuk e outros afectos à actividade de animação turística na Calçada do Monte sugerem que os condutores passem a parar nos dois parques de estacionamento da Empresa de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL) localizados na Rua Dasmaceno Monteiro. “Lá há lugares vazios e sugerimos que sejam criados mais para pararem em condições. O problema já está grave e vai crescer, porque o turismo está a aumentar. Parece-me razoável andarem uns metros a pé, até para o comércio local da freguesia”, explica Miguel Martins.

 Os moradores dizem já terem assistido, mais do que uma vez, a ambulâncias e viaturas dos bombeiros, com sirene ligada, parados na calçada devido ao congestionamento do trânsito, ou a demorarem muito tempo a fazerem uma distância que se percorre em segundos. Os habitantes da Graça estão, também, preocupados com a condução perigosa, o ruído excessivo e o estacionamento abusivo destes transportes. “Não temos nada contra os turistas, temos contra o comportamento desordeiro que prejudica a nossa qualidade de vida, isto não é a Disneyland nem um parque de diversões, moram aqui pessoas”, conclui Miguel Martins.

 Contactada por O Corvo, a presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, Natalina Moura (PS), diz estar preocupada com o elevado número de tuk-tuks a circularem na Graça e receber muitas queixas dos moradores. “A Calçada do Monte traz-nos bastantes engulhos porque nem sempre a velocidade é a adequada à inclinação da rua. As pessoas já não se queixam do ruído, mas da falta de segurança”, diz a autarca, que já assistiu a mais do que um acidente. Quanto à causa do acidente ocorrido no passado dia 13 de Outubro, Natalina diz não ter sido “o excesso de velocidade”, mas o “sobrepeso” do tuk-tuk, ao transportar pessoas e malas.

Natalina Moura não tem conhecimento de quantos tuk-tuks circulam, actualmente, na freguesia de São Vicente, nem quando a legislação camarária entra em vigor. “Em São Vicente, ainda não há nenhum planeamento feito pela Câmara de Lisboa para a limitação de tuk-tuks e é urgente que apareça rapidamente, para não termos mais nenhum dissabor. Já pedi ao vereador da Mobilidade, Miguel Gaspar, para avançarem e criarem mais zonas pedonais, mas até agora não está nada feito”, diz.

A autarca alerta ainda para o congestionamento noutras partes da freguesia. “Além da Calçada do Monte, às terças e sábados, a entrada dos tuk-tuks no Campo de Santa Clara, em direcção ao Panteão, é um complicómetro. Já sugeri que este troço deixasse de funcionar pelo menos aos dias da feira da ladra”, informa. Natalina Moura não concorda, porém, com a alternativa de estacionamento sugerida pelos peticionários. “Se as queixas sobre a escassez do estacionamento já são muitas, embora tenhamos aumentado significativamente os lugares, com os tuk-tuks estacionados nos parques de estacionamento aumentariam. A solução passa mesma pela limitação da circulação”, conclui.

 O Corvo também contactou a Câmara de Lisboa para perceber se o regulamento para os tuk-tuks já está concluído e para quando se prevê a entrada em vigor do mesmo, mas até ao momento da publicação deste artigo não obteve resposta.

A ALEP manda em Medina e determina a política da Habitação em Portugal. / Hugo Pires, o substituto de Helena Roseta, detém empresas que se dedicam ao alojamento turístico




A ALEP manda em Medina e determina a política da Habitação em Portugal.
Esta segunda entrevista que ilustra o poder do ‘Lobby’ do Alojamento Local é concedida ao DN, no dia em que ficámos a saber que Hugo Pires, o substituto de Helena Roseta,  detém empresas que se dedicam ao alojamento turístico
(…) “O novo ministro da Economia é casado com a presidente executiva da Associação da Hotelaria Portuguesa, que faz lobbi pelo setor. Tem receio de algum favorecimento aos hotéis?
( Eduardo Miranda ) Começo pela questão do ministro. Não vejo isso como um problema, mal de nós se tivéssemos um ministro a favorecer a mulher.”

OVOODOCORVO

Alojamento local. “As propostas da esquerda encaixaram perfeitamente nos interesses da hotelaria” /premium

23 Outubro 2018293
Nuno Vinha

Sabendo ou não, o BE, o PCP e até o PS alinharam pela cartilha do lobby hoteleiro. A lei ficou pior e entrega poder discricionário às câmaras, diz o Presidente da Associação de Alojamento Local.

 “Politizada”, “superficial”,“feita à pressa”, ineficaz em alguns aspetos, enviesada desde o início. Eduardo Miranda, o presidente da Associação de Alojamento Local de Portugal (ALEP) não poupa nas palavras para descrever a nova lei do alojamento local, que entrou em vigor no domingo. É certo que aponta elementos positivos — sobretudo o facto de ter deixado de fora alguns dos aspetos mais radicais que constavam nas propostas iniciais do Bloco de Esquerda, do PCP, do PS, mas também do CDS — mas isso não afasta o receio de que se está a perder uma oportunidade de ouro. Isto porque o país que tiver uma boa lei do alojamento local e souber gerir bem o processo “terá uma vantagem estratégica única“, diz.

Em entrevista ao Observador, o responsável da ALEP — um dos rostos de defesa do alojamento local no país — rejeita que esta atividade seja “a galinha dos ovos de ouro”, e deixa um aviso: quem anda a vender essa ideia está a fazer mais pelo alojamento local do que pensa. “Quanto mais atacam o alojamento local, mais atraem gente. É irracional”. E tem uma posição curiosa sobre o facto de o ministro da Economia (com a tutela do Turismo) ser casado com a presidente executiva de uma associação de lobby da hotelaria: não há qualquer problema. Até pode ser um obstáculo ao setor hoteleiro, por causa de todo o escrutínio que aí vem. De qualquer forma, diz, é irrelevante: o trabalho de casa do setor hoteleiro já foi feito e a nova lei, em alguma medida, já serve os seus interesses.

Como está o mercado do alojamento local, ainda sem sentirmos os efeitos da nova lei?
O alojamento local a nível nacional, fora deste contexto de Lisboa, está a crescer de forma gradual, de forma sustentada, mostrando que é uma opção de diversidade fundamental para o turismo. Diz-se que “é uma moda e quando passar volta tudo aos hotéis”, mas não é isso. É mesmo uma tendência e uma tendência mundial muito importante, de outras formas de alojamento que encaixam com determinado tipo de viagem. Não está a substituir ninguém. Em certas viagens faz mais sentido ficar numa casa, num hostel, num apartamento, dependendo do grupo. Isto está a revelar-se uma tendência importantíssima e uma oportunidade única para os países que souberem gerir esse novo processo, integrá-lo nas leis, na sociedade, na fiscalidade.

O argumento chave é que o turismo hoje quer mais versatilidade na oferta à sua disposição?
Diversidade. O que eles aprenderam é que as pessoas hoje — ao contrário da visão errada de que hoje é tudo low-cost e que o alojamento local está associado ao low-cost — há de tudo. Não, pelo contrário: há de tudo. Como é mais barato e fácil viajar — e isso não é culpa do alojamento local — há mais gente a viajar. Acima de tudo, as pessoas que já viajavam, viajam mais vezes. E por razões distintas: com os amigos, com a mulher, os filhos, levam os avós — que antes não levavam para lado nenhum. Viajar era uma coisa muito elitista e agora está a tornar-se numa coisa mais comum. No momento em que há diversas motivações para viajar, também há diversos tipo de acomodação que se encaixam com aquele perfil de viagem. Se vou reunir a família que vive em vários países, eu quero é que a família fique junta. E aí faz todo o sentido estar numa casa única, num apartamento onde vamos reproduzir aquilo que era a vida em família. Se vou com a mulher numa viagem romântica se calhar quero ter serviços num hotel 5 estrelas. Se vou com um grupo grande de amigos, vou para um resort. Com crianças pequenas vou para um apartamento.

Com um hotel o que varia é mais ou menos luxo, continua a ser o mesmo tipo de oferta…
É sempre baseado numa unidade quarto. Num espaço partilhado com todos os outros. Tem o seu papel, foi fundamental para a expansão do turismo. Vai continuar a ter o seu papel. Não é substituto: eu utilizo hotéis como utilizo alojamento local. Essa lógica de que um é contrário do outro ou que são públicos que não co-existem… às vezes há a ideia de que o alojamento local está a tirar as pessoas das cavernas, de África ou do outback da Austrália, para trazê-las pela primeira vez aqui. Isso é ridículo. Alguns dos alojamentos mais caros do país são de alojamento local. O triângulo dourado no Algarve — aquelas casas de 10 a 15 mil euros por semana — são alojamento local. Em Lisboa há casas de luxo a receber quem quer estar em conforto, em ambiente familiar, em alojamento local.

"Às vezes há a ideia de que o alojamento local está a tirar as pessoas das cavernas, de África ou do outback da Austrália, para trazê-las pela primeira vez aqui. Isso é ridículo. Alguns dos alojamentos mais caros do país são de alojamento local"
A ideia que a ALEP quer combater é a de que o alojamento local não é só low cost.
E que não é uma moda passageira. Apesar de haver sempre um efeito manada, em que se diz “isto deve estar a dar”. Mas assim, quanto mais atacam o alojamento local, mais atraem gente para o alojamento local. O que é irracional. Acima de tudo: o AL é algo para ficar. Tem um peso importante: em Lisboa está a bater quase nos 40% das dormidas. Não da oferta. Eu não me importo muito com o indicador oferta, porque posso ter um alojamento local e nunca receber ninguém. É a diferença de um hotel para um alojamento local, onde posso fazer isto só uma ou duas vezes por semana, num período por ano e acabou. O que me interessa é qual é a opção dos viajantes: pela taxa turística sabemos que o alojamento local está já a chegar aos 40%, se não tiver ultrapassado…

Isto principalmente em Lisboa?
No Porto a mesmíssima coisa. E a nível nacional já podemos situar em perto de um terço das dormidas em alojamento local. Isso já é estruturante, já é um pilar do turismo. E o país que souber gerir bem isto terá uma vantagem estratégica única, porque lá fora estão ainda a tentar ver como reagir. E a reagir, aliás, muito emocionalmente, como está a acontecer aqui, recentemente, em Lisboa: a querer logo proibir, suspender, sem ver como se pode aproveitar o potencial do alojamento local e minimizando qualquer efeito negativo.


Eduardo Miranda diz que o alojamento local já representa um terço de todas as dormidas turísticas em Portugal.

Lei feita à pressa, superficial e politizada
Os passos que foram dados — as novas regras entraram em vigor no domingo — têm pouco suporte em estudos. Quando a ALEP foi ouvida sobre as novas regras, explicaram-vos o racional por detrás de algumas destas regras?
Acho que no decorrer de todo o processo perdeu-se parte do que era o objetivo: encontrar uma coisa equilibrada e técnica. Porque o processo ganhou uma mediatização e uma instrumentalização política muito grandes. Inicialmente era um processo em que a tutela, o Governo, disse “ok, quero fazer ajustes” inclusive na própria questão da sustentabilidade dos grandes centros e dos bairros históricos. Isso estava nessa conversa. Inicialmente. Porque depois isso foi tudo atropelado, pelas eleições autárquicas e pela proposta parlamentar, que gerou uma reação em cadeia. Tudo isso criou uma perceção pública errada e tornou-se numa discussão eleitoral num momento muito quente. Radicalizou-se o discurso, o que depois dificultou a conversa.

Mas foram ouvidos sobre o assunto?
Fomos ouvidos? Sim, a comissão ouviu não sei quantas dezenas de pessoas. Mas nesse processo típico de audição ouvem-se muitas opiniões, a favor e contra, mas como está tudo radicalizado, as pessoas chegam lá com ideias contrárias. Agora, se formos ver em todas as audições as  propostas concretas para resolver os problemas, são muito poucas. Nós fomos dos poucos que apresentámos propostas concretas.

E os decisores incluíram as vossas propostas na nova lei?
Não. No final, foi tudo decidido em duas semanas. Ouviram, ouviram e ouviram, mas aquilo que é importante — transformar as propostas radicais em ideias equilibradas — foi decidido em duas semanas, à pressa, por causa das férias judiciais, para estar fechado a 18 de julho. E por questões de compromissos políticos do segundo semestre, para poder anunciar determinadas medidas. E o que houve? Precipitação. Havia medidas que nós até entendíamos.

Dê-nos um exemplo.
A questão do centro histórico e das zonas em que há uma concentração maior: nós entendemos medidas que permitissem gerir e equilibrar estas zonas. Zonas em que o alojamento local foi fundamental para a reabilitação. Algumas eram zonas mortas, abandonadas, nas quais se não fosse o alojamento local não haveria atratividade e ninguém estaria a falar nelas agora para outros usos, mesmo de habitação. Mas entendemos que, a partir de certo momento, também não queremos uma monofuncionalidade, não queremos que seja só turismo. E não é um problema só do alojamento local, mas sim também da hotelaria. Todos nós temos de entender que a certo momento é preciso abrir espaço para que entre habitação e as políticas de habitação. A questão era: como iria ser feito.

"No final, foi tudo decidido em duas semanas. Ouviram, ouviram e ouviram, mas aquilo que é importante — transformar as propostas radicais em ideias equilibradas — foi decidido em duas semanas, à pressa, por causa das férias judiciais, para estar fechado a 18 de julho."
E como é que foi feito?
De uma forma muito politizada, muito superficial, até sem conhecimento técnico básico, básico sobre as reações dos agentes económicos quando são pressionados para um ambiente de incerteza. É o que está a acontecer em Lisboa. Os agentes económicos agem irracionalmente, como é o caso dessa corrida aos registos [no portal do alojamento] que está a acontecer só em Lisboa, é um efeito típico desse erro.

Era previsível o que aconteceu?
Nós alertamos de forma muito clara para a forma como estavam a ser transmitidas algumas dessas medidas — sem nunca pôr em causa a necessidade de criar um equilíbrio em certas zonas. A forma como o alojamento local, por um lado, estava a ser atacado e, por outro, vendido como ‘a galinha dos ovos de ouro’, obviamente, iria criar um resultado contra-producente, um efeito contrário. Uma das medidas que mais criticámos foi a possibilidade de suspensão preventiva — sem grandes explicações, sem grande fundamento — até que o regulamento seja colocado em prática. Até entendemos a questão: vamos evitar uma especulação. Mas essas medidas mais extremas, sem grande fundamentação, ainda para mais se forem mal geridas em termos de comunicação, causam um efeito contrário. Causam uma corrida ao registo. Foi o que aconteceu em Lisboa.

Câmara comunica através de fugas de informação
Nas últimas semanas, o número de registos no portal do alojamento local só para Lisboa aumentou em 1.300. No país inteiro vamos em cerca de 77 mil registos.
Era fácil de perceber [que isso ia acontecer], para quem perceba de economia. Primeiro, saímos na imprensa a vender uma galinha dos ovos de ouro e a dizer que o alojamento local está a comer habitação que nunca existiu nos centros históricos. A habitação aí só caía, mas por alguma razão agora o culpado é o alojamento local. E é uma galinha dos ovos de ouro, o que cria falsas expectativas e atraindo gente de forma quase enganosa. Temos de fazer contas à propaganda e dizer às pessoas: “atenção que isso não dá tanto”. Depois começa-se a exigir a suspensão imediata cega. E depois vem na própria lei essa possibilidade de suspensão cega. Resta saber como a Câmara vai fazer essa suspensão. Lisboa, que foi a primeira, acabou por não conseguir lidar bem com esse processo. Porquê? Porque não passou uma ideia clara. Sempre dissemos que tudo isto teria de ser feito com regras claras e transparentes. É preferível esperar, fazer um bom regulamento e então anunciar em vez de ir fazendo ameaças de suspensão e deixar os rumores tomarem conta do mercado. Foi o que aconteceu.

Rumores?
As próprias zonas: começa-se com anúncios de um bairro específico, e as pessoas até entendem. E o tema gera só algumas questões pontuais, mas depois logo a seguir amplia-se: já não é só Castelo, Alfama e Mouraria, já entra Bairro Alto e Madragoa. Depois quando é anunciado — por fuga de informação, nunca oficialmente — afinal Bairro Alto não é só Bairro Alto, é tudo. É Chiado, é Bica. Alfama não é só Alfama. Isso cria uma desconfiança. E depois surgem os presidentes da Junta de Freguesia a dizer que também querem uma suspensão nesta zona e naquela.



A que se deve essa forma de comunicar da Câmara? É para influenciar o mercado sem, sequer, chegar a aplicar qualquer regra?
Essa ameaça resulta é numa corrida irracional e emotiva (aos registos), que não interessa a ninguém. Até nós perdemos o controlo. Veja estes mais de 1.000 registos feitos desde o dia 11 de outubro quando foi mal anunciado, quando houve uma fuga de informação: é impossível achar que alguém rescindiu um contrato em cinco ou seis dias. Isso não aconteceu. Há uma mistura de vários fatores: alguns ilegais nessas zonas aproveitaram a última oportunidade; muitos outros que tinham em vista ou estavam em final de obra, anteciparam o registo. E depois houve toda uma outra escalada irracional de gente a registar-se: muitos residentes. Pessoas que vivem na casa que agora registaram, portanto que em nada afetam a habitação. E nunca faria sentido ter um regulamento a proibir o registo destes residentes.

Ainda assim, foram a correr registar-se.
A forma como a informação foi passada — em que ninguém sabe muito bem quais são as zonas, já que estas vão mudando, em que ninguém sabe quais são as regras, se vai ser proibido ou não. Então, à cautela — como não custa nada — e sem sequer estarem a pensar de imediato em alojamento local, ‘vamos lá registar’. Isto aumenta a pressão e cria um círculo vicioso. Pior: criou-se outra vez uma campanha que já tínhamos ultrapassado, que colocava o alojamento local como o culpado de tudo. Isso é péssimo para o turismo. Vai virar-se contra o turismo e a hotelaria.

"Criou-se outra vez uma campanha que já tínhamos ultrapassado, que colocava o alojamento local como o culpado de tudo"
Por falar em alojamento local, turismo e hotelaria, o que representa o alojamento local para o turismo em Portugal? Qual é, hoje, o seu impacto?
Um terço de tudo o que é o contributo dos turistas que vêm para cá. Não há cálculos precisos devido à forma como a estatística é feita hoje pelo INE. O INE e a Eurostat, em geral, nunca pensaram que o alojamento local ia tornar-se em algo relevante. Por isso só contabilizam os alojamentos locais com dez camas ou mais. O que quer dizer que 90% do alojamento local não está incluído nas estatísticas. Os dados oficiais do alojamento local podem ser multiplicados 4 ou 5 vezes, facilmente, em dormidas. O INE fala em 14% das dormidas e nós sabemos que vai quase aos 40% e, em algumas zonas, até ultrapassa isso. Há uma importância do AL que ainda não está estatisticamente reconhecida. Depois sabemos que em Lisboa e arredores são 10 mil empregos diretos e indiretos, quase mil milhões de impacto na economia. Estamos a falar de mais de 30 mil famílias que dependem disso. Não é brincadeira.

Mais razões para garantir que o processo é bem gerido.
É absolutamente fundamental que Lisboa retome as rédeas da comunicação, expondo explicitamente quais são as regras e já antecipar um pouco o que será o regulamento. Porque está a passar uma mensagem errada, a de que a suspensão do AL é uma solução. Quando por lei a suspensão é temporária e só até ao momento do regulamento. O regulamento dá hipótese de integrar o AL de forma equilibrada em todas as questões da cidade.

Quem é que deveria estar a liderar o tema do regulamento na CML, no entender da ALEP?
Isto foi passado  para o Urbanismo [vereador Manuel Salgado] e essa é uma das questões: isto deveria estar ao mais alto nível na Câmara. O presidente da Câmara, Fernando Medina, sempre mostrou equilíbrio e bom-senso, porque é preciso ver isto como um todo: os interesses da cidade. Ninguém está a pôr em causa a importância da habitação, nem o crescimento. Mas é preciso ver o todo e não tratar isto como uma questão meramente técnica. É preciso integrar isto na estratégia da cidade. É preciso critérios e objetivos claros, senão é a confusão no mercado. Tenho de explicar por que razão estou a fazer isto, quem vai fazer. Não posso dar margem à especulação. Se não fizer este regulamento bem feito vou criar este efeito de pânico generalizado.

"Isto foi passado  para o Urbanismo [vereador Manuel Salgado] e essa é uma das questões: isto deveria estar ao mais alto nível na Câmara. O presidente da Câmara, Fernando Medina, sempre mostrou equilíbrio e bom-senso, porque é preciso ver isto como um todo: olhar pelos interesses da cidade."
Câmaras têm poder arbitrário nas questões da contenção
Este é o cenário atual, com as regras como existem. Como vê o futuro do alojamento local, com estas novas regras, dentro de um ano?
Vamos separar duas regras: uma delas é o poder municipal de restringir o alojamento local. E essa, se for mal aplicada, tem um poder enorme de criar grandes constrangimentos à atividade. E outra coisa são as regras de funcionamento que servem para todo o país e que estão a ser pouco discutidas. Muitas dessas regras vemos como positivas: seguro obrigatório de responsabilidade civil — desde que não seja uma coisa inviável — todos nós achamos que é importante; a necessidade de informar os condomínios da atividade de alojamento local; a obrigatoriedade de ter manuais e dar informação explícita sobre as regras do condomínio aos hóspedes. Tudo isso é preventivo e construtivo e ajuda a criar sustentabilidade. Desde que isso não seja pretexto para criar regras que inviabilizem a atividade, é bem-vindo. Podem até ser tecnicamente mal-feitas — o seguro foi mal feito, mas vai ser resolvido.

E riscos?
O risco que tem é a arbitrariedade que se deixou para as câmaras na questão da contenção. Sem indicadores claros, deixou-se para cada câmara a possibilidade de inventar o que quiser. Claro que a lei diz que tem de ser fundamentado, mas nós já vimos o que uma fundamentação… ‘eu crio zonas e faço o que quiser delas’. Depois ninguém entende. Por isso é que é fundamental Lisboa dar o exemplo. O regulamento [de cada câmara] dá uma margem que nenhum país conseguiu. Nós somos o único país que tem uma lei nacional [sobre o alojamento local] e isso permite criar uma regra homogénea para todo o país. Depois a sua adaptação às zonas de pressão é feita por cada município. Isso permite a cada município não seguir só a linha da suspensão cega.

Diz que há uma forma cega de lidar com as coisas. Mas há fiscalização efetiva aos alojamentos locais? Ou há regras rígidas impostas à cabeça porque as autoridades receiam dificuldades em aplicá-las?
Eu acho que nem é tanto por aí. Na nova lei, o que eu vejo é que muitas dessas regras que parecem mais emblemáticas são medidas de mensagens políticas, para parecerem duras. Mas na verdade muitas delas não são aplicáveis, não têm sentido prático nenhum. Algumas delas só vão criar confusão. É o tal erro de que quando eu transformo isso numa coisa mediática, política. E depois é decidida onde? Isto foi decidido numa comissão de ordenamento do território. Ou seja, [à partida] o alojamento local já era apenas um problema de habitação. O turismo não estava envolvido… havia um único membro, do PSD, que era do grupo de trabalho do turismo. Portanto, à partida foi logo completamente visto de uma forma única e parcial.


Nova lei foi decidida em comissão de ordenamento do território. "Era parcial logo à partida", diz Eduardo Miranda.

E de que forma é que essa visão influenciou as regras adotadas?
Exemplos concretos? A situação do limite dos sete [alojamentos locais por cada proprietário]. Se for olhar o processo, vai entender perfeitamente. A primeira proposta disso era uma proposta meramente de acordo político, para receber ali algumas das mensagens políticas mais à esquerda. Então, o PS coloca uma proibição de limite de sete no país inteiro. No país inteiro. Isto é discriminatório. Porquê sete? Porquê, se não há pressão nenhuma, se não há motivo nenhum para impedir, porquê sete? Quer dizer que um associado meu, num caso prático, que quer recuperar vinte aldeias no interior, não pode. Porquê? Porque é um capitalista? Porque os sinais de riqueza são proibidos no país? Ele está a reconstruir casas em aldeias… qual é racionalidade?

Mas a regra não ficou assim.
Percebendo que isto era uma mensagem política, feita num acordo, nitidamente um acordo para passar uma mensagem de que estavam a conter os capitalistas e os grandes, o que é que fizeram? ‘Metem isso dentro da zona de contenção’. Eu estou a dizer isto porque é público, se for ver as propostas, estão lá. E isto de um dia para o outro. Estamos a falar de negociações que acontecem entre o dia 2 ou 3 de julho e o dia 18 de julho. E quase todas decididas no dia 17, na véspera. É impossível coordenar bem. E meteram isto na zona de contenção. A proposta era uma mensagem política, mas como não fazia muito sentido meteram na zona de contenção. Só que neste momento isto é uma medida inócua, porque se suspender para todos, tanto faz se eu tenho um ou se tenho sete. Não faz sentido e é difícil de explicar, assim como outras medidas.

Quais?
A placa identificativa obrigatória. É um problema complicado, até de segurança. Colocar ali a placa é o mesmo que dizer ‘venham cá, porque aqui há atividades interessantes para assaltos e tudo mais’. Até de privacidade, para quem faz isso no Algarve e noutras zonas duas ou três semanas por mês. E depois, as únicas em que não é preciso pôr placas identificativas são as moradias. Não é preciso. Então, mas porquê? Hostels. Os hostels precisam de ter uma placa identificativa, mas não pode ser na porta do apartamento, tem de ser na porta exterior do prédio. Isto foi um potpourrie de medidas, de uma negociação de mensagens políticas.

Lei do Alojamento Local em Portugal trata todos por igual, do pequeno ao grande
Mas no entender da ALEP também há aspetos positivos nas regras, certo?
Primeiro, para não estar só a criticar, já mencionei alguns pontos que são positivos: seguros, condomínios, a informação aos hóspedes, etc. E talvez o mais positivo é que se conseguiu mostrar um discurso, a certa altura, mais equilibrado, que é um grande trunfo a nível nacional. E evitaram-se as medidas completamente radicais que destruíam o alojamento local. E nós sabemos a origem dessas medidas todas: a questão de só se poder fazer alojamento local na residência própria permanente, que nós já vimos o quão irreal é este tipo de situação. Felizmente, afastaram-se disso. São coisas que estão a ser usadas numa estratégia de contenção do alojamento local internacional e que aqui não faziam sentido. Felizmente, aqui não passaram essas medidas porque somos um dos únicos países — para já, na Europa, o único que eu conheço — que trata todos, desde o pequenino, ao médio, ao grande, como profissionais, em termos de obrigações e fiscalidade.

Mas isso é bom.
Aquilo que eu considero, para os nossos associados, é: isto é desproporcional para os mais pequenos, é verdade. Mas nós estamos aqui para ajudar. Eu prefiro ter uma carga adicional de trabalhos desde que seja viável, desde que não signifique matar a atividade, mas que ninguém possa dizer que nós não estamos a trabalhar dentro da lei, a contribuir em termos fiscais. É o único país em que se pode dizer que se passou de 100 milhões para 170 milhões na retribuição direta e indireta do alojamento local. Isto é inédito a nível internacional. Passamos de 14 mil para 70 e tal mil registos, muitos desses era atividade que existia em paralelo, ilegais, e que hoje estão na economia formal. Ou seja, é um esforço enorme. Se existem ainda alguns? Ainda existem, como em qualquer atividade, mas cada vez menos. Nós hoje somos um exemplo de como é que se consegue integrar e legalizar uma atividade.

E a hotelaria tradicional? O novo ministro da Economia é casado a presidente executiva da Associação da Hotelaria Portuguesa, que faz lobbi pelo setor. Tem receio de algum favorecimento aos hotéis?
Começo pela questão do ministro. Não vejo isso como um problema, mal de nós se tivéssemos um ministro a favorecer a mulher. Mais, eu diria que é quase como um obstáculo, porque dificulta, vai ter um escrutínio muito maior e uma monotorização muito maior. Porquê? Porque todo o lobby, no sentido da influência — não estamos a falar aqui de nenhuma ilegalidade — todo o lobby já foi feito antes, já foi feito a todos os níveis. Portanto, o trabalho de casa [da hotelaria] já foi feito e muito bem feito, em termos de lobby para contrariar o alojamento local. Isso não está em causa e eu nunca colocaria essa relação pessoal… acho que até vai criar obstáculos. Agora, a nossa questão principal é que esse trabalho já foi feito e a visão hoteleira já está impregnada nos mais diversos setores.

"Mal de nós se tivéssemos um ministro a favorecer a mulher. Mais, eu diria que é quase como um obstáculo, porque dificulta, vai ter um escrutínio muito maior e uma monotorização muito maior."
Em que consistiu essa visão hoteleira para o alojamento local em Portugal?
Esta não é uma questão nacional, é uma questão internacional. Aliás, podemos começar por aquilo a que chamaram o Plano da Hotelaria para Combater o Airbnb. Isso é público, não é uma teoria da conspiração, saiu no New York Times, no Wikileaks. A associação americana de hotelaria dizia qual era a estratégia, que depois passou para a Europa, onde é igualzinha e tem os mesmos princípios. É isto que está impregnado nos mais diversos setores. Qual era a estratégia essencial, a primeira prioridade para acabar com o alojamento local? Mudança de utilização. Mudar o uso de ‘habitacional’ para ‘comércio’, mudar o uso para ‘turístico’. Esta é a bandeira número um, porque isto acaba com a atividade do alojamento local. Nós avisamos sobre isto, na altura, quando havia propostas nesse sentido.

Ou seja, influenciar os decisores para que as regras obriguem a equiparar uma casa que tem alojamento local a um edifício criado especificamente para turismo.
Como tem atividade económica, já não é habitação, é uma atividade turística. Então é preciso obter uma licença turística.

Essa pretensão não passou.
Não passou a nível nacional. Mas a semana passada — em Lisboa começa a ouvir-se — saiu na semana passada um artigo, outra vez, a dizer que fontes oficiais da CML estavam a ponderar a mudança do uso no urbanismo, estavam a pensar mudar o uso para turístico no alojamento local. Isso é matar o alojamento local. Isso é o que nós chamamos transformar o alojamento local num alojamento local com perfil hoteleiro, que é só para prédios inteiros e grandes. Obviamente, eu espero que isso sejam apenas rumores e boatos porque o próprio presidente da CML, com muito bom senso, disse ‘não quero ir por esse caminho, porque além de matar um terço da oferta turística, eu ainda estou a roubar a habitação’.

"Esse dossiê americano identificava muito bem a questão: ‘aproximem-se de todas as associações e partidos de esquerda que estão a defender a habitação'. E venderam perfeitamente a ideia. Veja a proposta do Bloco e algumas do PCP e do PS (...) é interessantíssimo ver que encaixam exatamente com as propostas de interesse da hotelaria."
Qual é o principal problema prático dessa obrigatoriedade, caso venha a acontecer?
É que exige autorização sem oposição de todo o condomínio. É quase impossível de conseguir. E mesmo que se consiga, depois mais tarde o apartamento não volta à habitação, porque o proprietário vai ter o mesmo problema da unanimidade. Isso é um tiro no pé gigantesco que só interessa aos… atenção, quando eu falo da hotelaria, eu estou a falar institucionalmente, das associações que se defendem, um grupo muito específico de uma hotelaria mais tradicional. Há grandes hoteleiros com visões bastantes pragmáticas e visões bastante avançadas. E há grandes hoteleiros que conhecem bem o alojamento local, sabem o que vale, sabem que não é concorrência. Portanto, é uma coisa muito mais corporativa e institucional, de um determinado grupo que se sente mais ameaçado. Mesmo associações, como a do Algarve, não fala nisso.

Quais eram as outras estratégias propostas pela hotelaria?
A outra estratégia era o limite das noites. E uma outra é colocar os condomínios contra o alojamento local, obrigando à autorização do condomínio. Agora veja como é engraçado: se olhar para a proposta da Associação de Hotelaria de Portugal falava justamente disto. Engraçado porque a estratégia é mundial, não é nacional. É ‘mudança de uso’, ‘limite de noites’ — 60, 90, tanto faz — e ‘contar com os condóminos’. Foi esta visão — um trabalho muito bem feito — que conseguiu impregnar-se em todos os setores. Esse dossiê americano identificava muito bem a questão quando lá estava escrito ‘aproximem-se de todas as associações e partidos de esquerda que estão a defender a habitação’. E venderam perfeitamente a ideia. Veja a proposta do Bloco de Esquerda e algumas do PCP e do PS, também na questão dos condomínios, é interessantíssimo ver que encaixam exatamente com as propostas de interesse da hotelaria. Como é que se conseguiu conciliar aqui pólos que pareciam tão opostos? Os partidos de esquerda, o Bloco de Esquerda e o PCP, nas suas propostas, a defenderem, sabendo ou não, exatamente os pontos que estavam na proposta da AHP.




Hugo Pires detém empresas que se dedicam ao alojamento turístico

Habitação. Novo coordenador do PS tem empresas no setor imobiliário
Deputado Hugo Pires, que substitui Helena Roseta, tem 50% de uma imobiliária e é proprietário e gerente de uma empresa de arquitetura, engenharia e construção que declara, entre as suas atividades, o alojamento turístico

Susete Francisco
24 Outubro 2018 — 17:31

"Aproveitando o amplo conhecimento em torno do mercado imobiliário a CRIAT potencia o valor do património arquitetónico através da conversão de imóveis devolutos em alojamentos turísticos".

Este é um dos 'cartões de visita' que pode ler-se no site da CRIAT, empresa de Braga que trabalha no setor da "Arquitetura, Engenharia e Construção" - e que é detida a 100% e gerida pelo deputado socialista Hugo Pires, o nome escolhido pelo PS para dirigir o grupo parlamentar de trabalho sobre habitação, em substituição de Helena Roseta, que na terça-feira bateu com a porta - e foi entretanto afastada do grupo de trabalho.

Os dados constam da declaração de interesses do deputado, entregue na Assembleia da República no início da legislatura. De acordo com o documento, Hugo Pires é titular da totalidade do capital social da CRIAT e foi sócio-gerente da empresa entre 2014 e 2015, sendo então remunerado. Segundo o mesmo registo, o deputado é agora gerente não remunerado, situação que teve início a 1 de abril deste ano. A rubrica relativa ao fim desta atividade está em branco.

O parlamentar socialista é igualmente detentor de 50% do capital social de uma outra empresa, a CRIAT Imobiliária, com sede em Amares e especializada em "investimentos Imobiliários".

Arrendamento e alojamento para turistas
Constituída em agosto de 2015, esta segunda empresa foi registada, na classificação por atividades económicas, tendo por objeto a compra e venda de bens imobiliários, a promoção imobiliária, o arrendamento de bens imobiliários e o alojamento mobilado para turistas, de acordo com o registo da empresa consultado pelo DN.

Ao DN, o deputado admite que é este o registo das atividades económicas, mas acrescenta que a empresa nunca se dedicou nem ao arrendamento, nem ao alojamento turístico. "Algumas delas não as exerço nem está no meu horizonte profissional exercê-las", afirma o parlamentar.

"Tenho participações sociais em empresas dessa área, mas julgo que não há incompatibilidade. A atividade imobiliária não é sobre o arrendamento de casas, não atuo nessa área", refere Hugo Pires, que admite, no entanto, pedir uma clarificação. "Solicitarei um parecer para ver se há ou não incompatibilidade. Não quero que haja aqui alguma confusão", remata.

Já quanto à CRIAT Unipessoal, Lda, o registo que consta do Portal da Justiça especifica que a empresa tem como fim a "prestação de serviços de arquitetura e consultoria no âmbito da reabilitação urbana, planeamento e ordenamento do território e a elaboração de projetos de arquitetura e de especialidades, urbanismo e planeamento, e o controle, administração, gestão e execução de obras e respetivo licenciamento e construção civil".

O site da empresa é mais pormenorizado. "A CRIAT conjuga prospeção imobiliária, análise da viabilidade de investimento, reabilitação e apoio a financiamento para que lhe seja mais fácil encontrar a casa à sua medida ou o projeto de investimento mais rentável", lê-se no site, que diz também potenciar "o valor do património arquitetónico português através da conversão de imóveis devolutos em alojamentos turísticos, explorando-os e dando-os a conhecer a quem quiser viver um pouco mais da nossa cultura".

Um nome para substituir Helena Roseta
O grupo parlamentar de trabalho sobre habitação foi coordenado, até este terça-feira, pela deputada independente pelo PS Helena Roseta, que se demitiu das funções em divergência com o novo pedido de adiamento das votações feito ontem pelos socialistas, uma iniciativa que remete todo o processo para dezembro.

O grupo de trabalho tem em cima da mesa cerca de duas dezenas de propostas, com destaque para três diplomas do governo, que definem os termos legais para a criação de uma bolsa de arrendamento acessível, bem como a previsão de benefícios fiscais para os senhorios que optem por este mecanismo de rendas acessíveis, ou por contratos de arrendamento de longa duração. Medidas que visam incentivar os proprietários a manter as casas no arrendamento habitacional, em detrimento de opções como o alojamento local.

Quem é Hugo Pires
O nome escolhido pelo PS para substituir Roseta é arquiteto de profissão, sendo o secretário nacional do PS para a Organização. Antigo presidente da concelhia de Braga, integra a comissão parlamentar de Economia, Inovação e Obras Públicas.

O deputado integra também a comissão de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação, no âmbito da qual funciona o grupo de trabalho que visa estabelecer novas regras para o arrendamento. Mas isso acontece apenas há alguns dias - era suplente nesta comissão, tendo passado a efetivo com a saída do deputado João Torres para o governo, na passada semana.

Eleito pelo círculo eleitoral de Braga, com 39 anos, Hugo Pires é deputado desde o início da presente legislatura, em 2015. Já tinha estado no Parlamento durante o último governo de José Sócrates.

Foi vereador a tempo inteiro da Câmara Municipal de Braga, entre 2009 e 2013, no executivo camarário de Mesquita Machado. Entre 2013 e 2017 foi vereador da oposição, após a vitória do PSD nas autárquicas.

Hugo Pires foi um dos cinco ex-vereadores socialistas que foi a julgamento no caso do favorecimento de Mesquita Machado a uma filha e a um genro, na compra de três imóveis em redor do Palácio das Convertidas, em que o ex-presidente da autarquia foi condenado a três anos de prisão, com pena suspensa. Todos os vereadores foram absolvidos: o tribunal considerou que não tinham conhecimento do negócio feito por Mesquita Machado.

Com Paulo Ribeiro Pinto

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Não! Medina e Costa não leêm ‘estas coisas’!




Não! Medina e Costa não leêm ‘estas coisas’!
OVOODOCORVO

Airbnb can’t go on unregulated – it does too much damage to cities
Steven Poole
Barcelona is an extreme case, but certainly the law needs to catch up so Airbnb doesn’t price locals out of their community
Barcelona … ‘Airbnb is a parasitic monster that squats over cities and hoovers up vast sums of money through its slimy proboscis.’

Wed 24 Oct 2018 09.30 BST Last modified on Wed 24 Oct 2018 13.18 BST

Remember the “sharing economy”? That rhetoric looks more comically disingenuous than ever in light of the news that a single Airbnb user in Barcelona is managing a portfolio of properties that brings in an eye-watering £33,000 a day in high season. Old neighbourhoods are being overrun with short-term tourists and shops selling souvenir tat. Rents for residents are being driven up, in Barcelona as well as Berlin, New York and elsewhere. Airbnb is a parasitic monster that squats over cities and hoovers up vast sums of money through its slimy proboscis. So what can be done?

Airbnb, short for “airbed and breakfast”, originally sold itself as a way for travellers to stay in people’s spare rooms and get an authentic feel of a foreign culture. This friendly idea is still present in the company’s vocabulary – “hosts”, not landlords, and “hospitality” in place of “business” – even though the vast majority of its listings are now for self-contained apartments or houses. In Barcelona, it used to cost €250 (£221) for a short-term rental permit. Now that such permits are no longer being issued, they change hands for up to €80,000. It’s “sharing” for the rich, maybe, but not for the rest of us.

During their early rapid growth, sharing economy companies started operations around the world without regard to local laws on the basis that existing regulations had not envisaged the radical and disruptive new ideas they embodied. But the tide slowly turned as the whizzy tech rhetoric wore off and it became clear that Uber was in fact a taxi company and Airbnb was in effect a hotel business.

So should we just ban them? No, as they can be useful services and more attractive than the alternatives. The question is how can they be made to behave better. Consumer boycotts, however well intentioned, don’t have the desired effect. The law, however, can. Uber is playing super-nice after Transport for London shocked it last year by refusing at first to renew its licence. So here comes its clean-air plan, involving a 15p-per-mile surcharge on trips to enable its driver to buy electric cars. Regulation works.

The first thing potential regulators need to know, though, is what is actually happening, which is surprisingly difficult since Airbnb keeps its data secret. But enterprising sleuthing can uncover some interesting facts. Tom Slee, the author of What’s Yours Is Mine: Against the Sharing Economy, found that the most expensive Airbnb listing in Rome was one of several luxury rentals bought for the purpose by an American tech entrepreneur.

Meanwhile, the Spanish scholars Albert Arias Sans and Alan Quaglieri in 2016 tested Airbnb’s claims against data from Barcelona to illuminating effect. Airbnb claims its business “revitalises neighbourhoods” – so it is perhaps surprising that “the neighbourhoods with the highest presence of Airbnb are the ones losing population to a larger degree”, which you might think looks like residents being forced out by higher rents.

One answer, some suggest, is for local authorities to be more responsive and fluid in their decision-making. A team of four researchers conducted a close study of Airbnb’s impact on London in 2016, and suggested that every property owner could have the “right to engage in a short-term rental for a given period of time”. These rights could be traded on a market operated by the local council, which would split revenues between local neighbourhood groups and itself. Councils could thus respond to real-time activity to avoid turning areas into hotspots.

In extreme cases such as Barcelona, the only answer might be a clampdown. (It would certainly help if Airbnb could be bothered to pay the €600,000 fine the city levied on it in 2016.) In other places, a more nuanced approach might be appropriate. Many cities now put a cap on how many nights per year a property can be rented short-term and it may be a good idea, too, to cap the number of properties a single owner can list, or limit the number of permits enabling owners to list property in a particular area. The lesson should be that no company is above the law.

In Airbnb’s case, the key to changing its behaviour will be forcing it to be more transparent about its operations. In a 2018 analysis of Airbnb in Australia, the researcher Laura Crommelin and her colleagues argued that the company should make its data about who is listing homes where available to city authorities so they can make informed decisions. After all, if the company really is all about being “open” and “sharing”, what has it got to hide?

• Steven Poole is the author of Rethink: The Surprising History of New Ideas


 Airbnb
Airbnb and the so-called sharing economy is hollowing out our cities
Gaby Hinsliff
The plight of Barcelona shows the damage Airbnb can do, exacerbating urban inequality and freezing out young locals
Fri 31 Aug 2018 08.06 BST

The banner hung from a third-floor balcony, unfurling itself almost all the way down to the cobbles of the square. Barcelona no està en venda, it read, in large hand-painted letters: the city is not for sale. It wasn’t the first such slogan we’d seen in only an hour or so strolling around the narrow, winding streets of Barcelona’s beautiful old quarter last week, and naturally our curiosity was piqued. Something to do with gentrification, or developers maybe? Well, partly. But, disconcertingly, it turned out to have quite a lot to do with people like us, and possibly you too.

Or to be more precise, with the multibillion-pound global phenomenon that is Airbnb. As it happens, I’m boringly old school enough to have stayed in a hotel this time, but the airport bus was full of young families chattering about picking up their flat keys via the site that is famous for letting people rent their houses out to strangers. And Barcelona is far from the only place in which Airbnb is accused of turning summer sour.

Amsterdam is heavily restricting short-term lets by residents after street protests against the swamping of the city by tourists last year. It’s the same story from Paris to Berlin, Venice to Lisbon. Even in Cornwall, at the height of this summer’s heatwave, tourist chiefs took the unusual step of asking holidaymakers to avoid some popular beaches after coastal roads became gridlocked, leaving locals struggling to get on with their daily lives. People in Cornwall are more than used to being overrun in August, but lately something seems to be upsetting the eternally delicate balance between grockle and local, and chief suspect seems to be an unplanned, somewhat unpredictable explosion in Airbnb lets on top of the longstanding hotel and holiday cottage trade.

At least in the West Country things tend to calm down in September. Barcelona is a city-break destination practically all year round, which means it’s struggling with more than just a surfeit of drunken stag parties and queues outside tapas bars. Landlords have realised they can make more money out of short lets to well-off Airbnb users than from renting to conventional tenants who live and work in the city year round, so when contracts come up for renewal it’s not uncommon to find the rent suddenly shooting up to levels that young Spaniards can’t pay. Once they’re forced out of the neighbourhood, the empty flat promptly disappears into what’s still sometimes euphemistically known as the “sharing economy”, although what happens next sounds like the antithesis of sharing. Those lucky enough to own a desirable property get steadily luckier, by pimping it out to the highest bidders. Meanwhile, those who don’t have such an asset become ever less likely to get one, as property prices are pushed up across the city. Thus does inequality harden, and resentment deepen, while the failure of mainstream parties to solve the problem drives the young and frustrated ever closer to the political fringes.

The young woman in a Barcelona barber’s shop who matter-of-factly explained what the slogans were about, while running her scissors over my husband, had long ago given up on buying in the city where she grew up. But now she’s not even sure how long she’ll be able to rent. The tourist’s dilemma has always been that descending on idyllic places tends to ruin them for people who live there, but what’s unusual in this case is that the effects run so deep.

So much for the earnestly hippyish vibe of the original Airbnb model, which was supposed to be all about creating a cosy-sounding “global community” by linking up adventurous strangers in search of more authentic, home-from-home travel experiences. And so much, too, for the idea of democratising the travel industry by letting the little guy make a buck on the side. In some tourist hotspots Airbnb is now morphing from an amateur operation into a slick professional one, with landlords amassing multiple properties just as they once did with buy-to-let, and using agencies to manage their burgeoning empires.

The romantic, if sometimes risky, fantasy of swapping lives with a local for a few nights and seeing the city through their eyes is being replaced with a more corporate, impersonal experience. Sign here for the keys; check out promptly in time for the next guest to arrive. Too bad that what could have been a young couple’s starter flat is now just another asset to be sweated, and one that probably stands empty half the time.

‘Along with other Spanish cities, Barcelona has moved to limit the Airbnb effect, with licensing schemes and curbs on new rentals in the old town.’ Photograph: Alamy

And if it’s uncomfortable knowing that your cheap getaway comes at such a hidden cost, guilt seems unlikely to put many travellers off. After all, pangs of conscience about climate change didn’t stop millions of us taking cheap no-frills flights back in the days when it was easyJet that was disrupting the holiday market. But this is about more than what individuals choose to do with their summers. It’s about how modern markets function, and what happens when governments either won’t intervene or can’t quite work out how to do so quickly enough. Along with other Spanish cities, Barcelona has moved to limit the Airbnb effect with licensing schemes and curbs on new rentals in the old town. But if we’ve learned anything from the Ubers and the Amazons and the Facebooks, it’s that by the time the unwanted human consequences of digital disruption become obvious, much of the damage is often already done.

What really struck the Barcelona hairdresser, however, was that when she travelled she heard similar stories. Cities all over the globe seem to be eating themselves, squeezing out the young and the skint and the creative, who are all too often the people who made them achingly hip in the first place. It manifests itself differently in different places, of course: London had a housing affordability crisis before Airbnb was even invented. Soaring prices from Berlin to Vancouver to Sydney have been blamed on everything from cheap borrowing and foreign speculation to changing demographics and government failure to build enough social housing, none of which are remotely the fault of second-home owners turning a quick profit.

But the common thread is a sense that, for whatever reason, markets are not delivering for the young in a post-crash world; that digital disruption only makes things more unpredictable; and that years of politicians earnestly promising to do something about it have come to pitifully little. All of which is a statement of the bleeding obvious now, a truth so universally accepted that it’s almost completely lost its power to shock – until seen from a slightly fresh perspective. But then that’s the thing about travel. Sometimes you go halfway round the world only to notice what was under your nose all along.

• Gaby Hinsliff is a Guardian columnist

Vistos Gold. Portugal à venda .




Vistos Gold. Portugal à venda .
Nacionalidade Portuguesa pode ser comprada com dinheiro de origem duvidosa e por “gente” com motivações desconhecidas, muitas vezes ligada à corrupção, lavagem de dinheiro e constituindo séria ameaça de segurança.
“Estes esquemas deviam simplesmente ser banidos. A União Europeia não devia autorizar a venda de passaportes”.
Não é preciso ser do BE ou do PCP, ou aderente do Marxismo, para reconhecer que a Nacionalidade não pode estar à venda.
OVOODOCORVO


Costa admite avaliar, mas BE quer “pura e simplesmente” acabar com vistos gold

O Governo abriu a porta a uma avaliação a seguir ao Oçamento. “Sem dúvida que a disponibilidade para analisar criticamente o assunto é positiva. Agora, o que o Governo vai retirar daí ainda é uma incógnita”, diz José Manuel Pureza.

MARIA JOÃO LOPES e MARIA LOPES 23 de Outubro de 2018, 6:24

Apesar de não fechar a porta a qualquer ideia que pretenda limitar o regime dos vistos gold e mostrando-se agradado com o facto de o primeiro-ministro ter demonstrado disponibilidade para rever o programa, o Bloco de Esquerda insiste naquilo que é o essencial do projecto de lei do partido: “revogar, pura e simplesmente” aquela figura de autorização de residência em troca de investimento. O PEV admite que esta é “uma matéria a ser revista” e o PAN revela ao PÚBLICO que irá apresentar um diploma para extinguir “os actuais pressupostos” dos vistos dourados.

O assunto não entusiasma os outros partidos. O PCP está mais concentrado no Orçamento e, mais à direita, PSD e CDS não defendem alterações a uma lei que nasceu em pleno Governo Passos-Portas. Já os socialistas atiram a discussão para mais tarde. "O PS aguarda pela reavaliação do Governo", diz o líder parlamentar do partido, Carlos César, ao PÚBLICO.

O deputado do BE, José Manuel Pureza, assume a posição bloquista. O partido não rejeita outras ideias – como as defendidas pela deputada Helena Roseta, autora da proposta do PS para a Lei de Bases da Habitação, ou do autarca de Lisboa, Fernando Medina –, mas o objectivo último do BE continua a ser um: “revogar, pura e simplesmente, esta figura. Tudo aquilo que fique aquém disso, parece-nos, não cumpre os seus objectivos. Mas nós não estaremos evidentemente desinteressados de quaisquer passos que vão no sentido, e que se prove efectivamente que vão no sentido de, por exemplo, diminuir o potencial de especulação imobiliária”, diz José Manuel Pureza.

"Nós não estaremos evidentemente desinteressados de quaisquer passos que vão no sentido, e que se prove efectivamente que vão no sentido de, por exemplo, diminuir o potencial de especulação imobiliária"
José Manuel Pureza, BE

Em causa, está, por exemplo, a sugestão de Fernando Medina, para quem o programa podia ser adaptado às necessidades de cada região ou a ideia de Helena Roseta, segundo a qual os vistos gold podiam ser usados nas áreas de baixa densidade populacional ou para recuperar casas que fossem, depois, disponibilizadas a preços acessíveis. “Eu não lhes chamo vistos gold nesta lei de Base, mas sugiro que esse investimento, que é importante, deve ser direccionado. Eu gostava de vê-lo direccionado para o interior e para os programas de arrendamento acessível”, explicou a deputada numa entrevista ao PÚBLICO.

“Não estamos aqui numa lógica de tudo ou nada. Não é isso. Essa solução [de Helena Roseta] é uma solução que analisaremos com cuidado, com interesse. Agora, não resolve o essencial”, continua Pureza, frisando que “o essencial é aquilo que foi apontado no relatório da Transparency International: a propensão provada, em todos os países que têm regimes de vistos gold, de uma articulação muito forte entre crimes de corrupção, criminalidade económica e, no caso português, também esta duplicidade, este dualismo tão grande, tão obsceno, no plano político e moral, entre quem compra autorizações de residência, porque tem muito dinheiro, e quem tem um calvário, porque não tem dinheiro”.

Critérios mais rígidos
No mesmo dia em que foi conhecido este relatório, o tema voltou à Assembleia República. A 10 de Outubro, no debate quinzenal, a coordenadora do BE, Catarina Martins perguntou ao primeiro-ministro se estaria disponível para revogar o programa e António Costa respondeu estar disponível para o avaliar fora do Orçamento do Estado, sugerindo que se visse o que se passa nos outros países “para não haver desigualdade fiscal.”

"O regime de atribuição tal como está estabelecido permite situações que a nosso ver são absolutamente inaceitáveis"
Partido Ecologista Os Verdes
Sem indicar caminhos, o Partido Ecologista Os Verdes reconhece que os vistos gold “poderão ter um impacto positivo do ponto de vista económico”, mas admite que o regime de atribuição tal como está estabelecido abre a porta a situações “absolutamente inaceitáveis”.

“O actual regime permite, por exemplo, que quem tem dinheiro possa comprar o direito de residência e um cidadão que vem para o nosso país trabalhar num sector como a construção civil, hotelaria, etc, não consiga o visto de residência. É esta dualidade de critérios que para Os Verdes é preciso rebater, tornando-se uma matéria a ser revista”, reconhece o partido em resposta ao PÚBLICO sobre se defende mudanças neste regime.

Já o deputado André Silva, do Pessoas-Animais-Natureza, defende que “a autorização de residência para actividade de investimento não deve ser estigmatizada mas sim adaptada a investimentos estruturalmente importantes para o tecido social, económico e ambiental do país”. Por isso, o PAN irá apresentar uma proposta de lei que visa extinguir os actuais pressupostos dos vistos gold, “maioritariamente ligados à captação de investimento no sector imobiliário de luxo e na transferências de capitais”. A ideia deste partido é estabelecer “critérios mais rígidos e definidos de investimentos, nomeadamente na criação de empregos sustentáveis e de longa duração, tal como em áreas estruturais como a preservação do ambiente”.

"A autorização de residência para actividade de investimento não deve ser estigmatizada mas sim adaptada a investimentos estruturalmente importantes para o tecido social, económico e ambiental do país"
André Silva, PAN

Como seria de esperar, PSD e CDS, que em 2012 introduziram na lei a figura da “autorização de residência para a actividade de investimento”, são contra o seu fim. Em 2015, ainda antes de o anterior Governo ter aliviado as condições do investimento necessário – reduziu de 30 para 10 os postos de trabalho a criar e abriu o leque aos investimentos na cultura, no património e em fundos de capitais -, a revogação dos vistos gold foi chumbada pela direita e pelo PS.

No parecer sobre o diploma deste ano do Bloco, o deputado Carlos Peixoto, vice-presidente da bancada do PSD, defende que as vantagens deste regime dependem da sua “fiscalização e controlo”, ou seja, da “verificação concreta e rigorosa de cada candidatura”. Carlos Peixoto realça que a “eventualidade” de os vistos gold “poderem, em abstracto estar associados à prática ou ao encobrimento de crimes” não pode ser justificação para a revogação do programa. Se for esse o caso, pode-se sempre revogar a autorização e expulsar os cidadãos infractores.

O deputado argumenta com o impacto social (a entrada de famílias) e económico (com poder de compra alto), mas também com o “interesse directo e indirecto” que o país desperta em mercados estrangeiros na área turística. Acabar com um programa que tem tantos “benefícios e oportunidades” pode ter um impacto mais negativo do que os efeitos nefastos que o Bloco lhe aponta, diz Carlos Peixoto.

O vice-presidente da bancada do PSD aproveita para deixar, no entanto, alguns reparos ao funcionamento dos vistos gold: o Estado tem-se demitido da promoção institucional do programa, o que tem levado a que este seja visto preferencialmente como um instrumento para o mercado imobiliário e menos para o empresarial e científico; o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras demora muito tempo a avaliar os processos; e as estatísticas não incluem os resultados do Visto do Empreendedor que tem um custo de 10% dos vistos gold. com Sónia Sapage


 Vistos Gold: Transparência Internacional denuncia riscos de corrupção e segurança

Organizações não governamentais de combate à corrupção apelam à intervenção de Bruxelas, através da abertura de procedimentos de infracção ou aplicação de sanções aos países que não escrutinem devidamente estes programas.

 Rita Siza
RITA SIZA (em Bruxelas) 10 de Outubro de 2018, 15:32

Os riscos de corrupção e de segurança, tanto ao nível nacional como para a União Europeia, causados pelos actuais esquemas de residência ou cidadania em troca de investimento não justificam a manutenção de nenhum dos actuais programas de vistos gold existentes em 15 dos 28 Estados membros. “Estes esquemas deviam simplesmente ser banidos. A União Europeia não devia autorizar a venda de passaportes”, defendeu a eurodeputada socialista, Ana Gomes, na apresentação de um relatório sobre “O mundo pantanoso dos vistos gold” promovido pela Transparência Internacional e a Global Witness, esta quarta-feira em Bruxelas.

De acordo com os dados apurados por aquelas organizações não governamentais de combate à corrupção, Portugal está no “top 5” dos países que obtém mais receitas e concede mais autorizações de residência ao abrigo do esquema. Desde 2012, o programa de Autorização de Residência para a Actividade de Investimento (ARI) terá canalizado para o país mais de quatro mil milhões de euros de investimento — cerca de 670 milhões de euros anuais —, sem qualquer verificação ou investigação das autoridades nacionais à proveniência ou origem desses fundos ou à legitimidade da riqueza dos candidatos, critica o relatório.

Vistos gold: investimento chinês cai, turco mais que duplica
Vistos gold: investimento chinês cai, turco mais que duplica

A maior parte do dinheiro foi investida na aquisição de bens imóveis (3,6 mil milhões de euros), com uma parcela mais modesta de 370 mil euros proveniente da transferência de capital. Essa discrepância leva Ana Gomes a constatar que, apesar de criados para aumentar a receita e promover o investimento privado, “não é verdade que estes programas tragam prosperidade, a não ser à indústria que foi montada em torno da promoção dos vistos gold”. O efeito do programa em Portugal, lamentou, foi a “distorção do mercado imobiliário” e o afastamento das populações residentes nos centros das maiores cidades.

No mesmo período de seis anos, cerca de 17 mil pessoas terão beneficiado desta facilidade para obter um visto de residência, seja directamente na qualidade de investidor (6498 indivíduos, segundo os números do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), seja indirectamente pela via da reunificação familiar — um procedimento que levanta dúvidas a estes activistas, que apontam para a possibilidade de haver inúmeros “cavalos de tróia” entre os potenciais investidores estrangeiros que submetem pedidos.

China, Brasil e Rússia
Apesar de o Governo português não publicitar o número de candidaturas nem fornecer a identidade dos requerentes, sabe-se que é da China que chegam mais pedidos (3936), seguido do Brasil (581). Sabe-se também que entre os beneficiários de vistos gold portugueses estão cidadãos chineses procurados pelas autoridades; indivíduos de nacionalidade brasileira envolvidos na mega-investigação de corrupção Lava-Jato ou ainda angolanos ligados à exploração de recursos naturais.

Noutros países, caso da Hungria ou Chipre, foram concedidos vistos gold a nacionais da Rússia que levaram a cabo operações ilícitas de espionagem, oligarcas ucranianos com bens congelados ou ainda familiares de Bashar al-Assad e membros do seu regime debaixo de sanções internacionais à Síria.

Simultaneamente, há países, como por exemplo Malta, cujos programas de vistos gold são geridos por entidades privadas que também representam (e cobram comissão) aos “clientes” do esquema, o que segundo a Transparência Internacional configura uma situação clara de conflito de interesses. Segundo o relatório divulgado, a sociedade Henley & Partners, concessionária do programa até Junho de 2017, obteve mais de 19 milhões de euros de lucros, enquanto a nova responsável pela administração dos vistos gold, a Identity Malta, já recebeu mais de 23 milhões de euros. Sobre as duas empresas recaem ainda suspeitas de participação em operações internacionais de lavagem de dinheiro.

“Os problemas não são apenas nacionais, são europeus”, insistiram os oradores da conferência, notando que quem compra um passaporte no Chipre ou obtém residência em Portugal está ao mesmo tempo a assegurar a livre circulação noutros 27 Estados membros da União Europeia. Por isso, o acesso de indivíduos com perfil de alto risco ou a movimentação de fundos de origem criminosa devem ser considerados problemáticos pelos países que não dispõem deste tipo de programas. “É a segurança de toda a UE que está a ser comprometida, e por causa disso consideramos que Bruxelas não só tem competências para intervir, como tem a responsabilidade de o fazer”, afirmou a directora europeia da Global Witness, Rachel Owens, notando que poderiam ser abertos procedimentos de infracção ou aplicadas sanções aos Estados membros que desrespeitem o princípio de cooperação sincera.

“Este é um esquema imoral, ao abrigo do qual os Estados membros que não permitem a entrada de migrantes pobres aceitam a importação do crime organizado e da lavagem de dinheiro”, denunciou Ana Gomes, lamentando que as capitais assistam impassíveis à perversão do sistema de Schengen. Mas a eurodeputada também apontou outras questões sensíveis, relacionadas por exemplo com a concorrência desleal (uma “corrida para o fundo” entre os países que promovem esquemas de vistos gold) ou com a salvaguarda da integridade dos processos democráticos, que na sua opinião tornam estes programas insustentáveis.

O eurodeputado húngaro da bancada dos Verdes, Benedek Jávor, também não encontra nenhum argumento a favor da manutenção destes programas, nomeadamente do valor do investimento canalizado para território europeu. “Defender estes programas porque eles representam um negócio de 25 mil milhões de euros é um disparate. As drogas são um negócio muito superior e ninguém vem dizer que não se deve agir para combater os traficantes. Não há razão nenhuma para um Estado membro colaborar com indivíduos corruptos”, sustentou.

Como Ana Gomes, e os representantes da Transparência Internacional e Global Witness, também Jávor insistiu que a realidade demonstrou que estes programas constituem uma ameaça, não só em termos de corrupção e outras actividades criminosas, como até se tornaram um “risco directo à segurança nacional”, com impacto geopolítico global.


 VISTOS GOLD Estrangeiros envolvidos em casos de corrupção obtiveram vistos gold em Portugal 

Foto:DR Dinheiro Vivo/Lusa 18.09.2017 / 23:02

Vários empresários estrangeiros envolvidos em casos de corrupção obtiveram autorização de residência em Portugal


Vários empresários estrangeiros envolvidos em casos de corrupção, como os brasileiros Otávio Azevedo e Pedro Novis, ligados a duas construtoras, obtiveram autorização de residência em Portugal, segundo uma investigação conjunta do semanário Expresso e do jornal britânico The Guardian. A investigação, divulgada hoje nos dois jornais, revela que vários estrangeiros implicados em casos de corrupção “compraram de forma sigilosa o seu acesso à Europa através do Governo português”, obtendo uma Autorizações de Residência para Investimento (ARI), conhecida como ‘visto gold’. “O setor imobiliário tem sido atraente para os criminosos, pelo potencial que tem para lavar grandes quantidades de dinheiro numa única transação”, afirmam os dois jornais. Entre os cidadãos revelados na investigação estão Otávio Azevedo, antigo presidente da multinacional brasileira de construção Andrade Gutierrez, condenado em 2016 a 18 anos de prisão por crimes de corrupção. Em 2014 o empresário comprou um imóvel em Lisboa de 1,4 milhões de euros e pediu um ‘visto gold’. Também em 2014, o presidente daquela empresa, Sérgio Lins Andrade, comprou um imóvel em Lisboa através do regime de vistos dourados por 665.000 euros. O nome do empresário surge ligado à investigação “Lava Jato”, no Brasil. Entre os nomes que constam no documento estão familiares do vice-presidente de Angola Manuel Vicente, que até 2012 liderou a companhia petrolífera estatal Sonangol e que está acusado em Portugal por corrupção. Pedro Novis, antigo presidente da construtora Odebrecht, e o secretário de Estado angolano para as Tecnologias de Informação, Pedro Sebastião Teta, também aparecem referenciados. O regime de ‘vistos gold’, em vigor desde 2012, permite que cidadãos estrangeiros “possam obter uma autorização de residência temporária para atividade de investimento” sem precisar de “visto de residência para entrar” em Portugal. Em troca da autorização, têm de cumprir determinados requisitos, como, por exemplo, transferir capitais no montante igual ou superior a um milhão de euros ou criar pelo menos dez postos de trabalho ou comprar bens imóveis no valor de, pelo menos, 500.000 euros. De acordo com os dados mais recentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), desde 2012 foram atribuídas 5243 ARI, representando 3,2 mil milhões de euros (3.223.403.061,34 euros) de investimento. Deste montante, 311 milhões de euros foram captados por via da transferência de capital e 2,9 mil milhões de euros mediante o critério da compra de bens imóveis. Com dados disponíveis até julho, o SEF indica que só este ano foram atribuídas 1041 autorizações. A maioria dos cidadãos que obtém aquele visto é da China, seguindo-se os de nacionalidade brasileira, sul-africana, russa e libanesa.