quarta-feira, 21 de junho de 2017

Eucaliptugal, o ecocídio da floresta nacional


Eucaliptugal, o ecocídio da floresta nacional

JOÃO CAMARGO  10.10.2013 às 15h16

Portugal tem a maior área de eucalipto plantado de toda a Europa
Portugal é hoje provavelmente o país com maior área de eucaliptal plantado em toda a Europa. Não falamos em termos relativos, mas em termos absolutos de área plantada. Portugal, o pequeno jardim à beira-mar plantado, tem a maior área de eucalipto plantado de todo o continente.

Em 2008 o território português era já o maior produtor mundial de Eucalyptus globulus, à frente de Espanha e da Austrália. A área de eucaliptal na altura era de mais de 700 mil hectares. Cresceu. Hoje o Eucalyptus globulus atinge oficialmente os 812 mil hectares de área plantada no espaço florestal em Portugal. Em termos de área total de eucaliptos plantados, Portugal fica apenas atrás da Índia, do Brasil, da China e da Austrália.

- A área da Índia é 32 vezes a área de Portugal.

-  A área da Austrália é 84 vezes a de Portugal.

- A área do Brasil é 92 vezes a de Portugal.

- A área da China é 104 vezes a de Portugal.

No entanto Portugal compete diretamente com estes países em termos de área plantada de eucalipto, com os seus modestos 91 mil 470 km², onde 8,8% são eucaliptos, 26% de toda a área florestal, recorde mundial.

Na Austrália, país de que são originários os eucaliptos, o Eucalyptus globulus é conhecido como Tasmanian Blue Gum (Árvore da Seiva Azul da Tasmânia), Southern Blue Gum (Árvore da Seiva Azul do Sul), Fever Tree (Árvore da Febre) e até mesmo Gasoline Tree (Árvore Gasolina). Os nomes comuns das árvores costumam ter forte ligação às suas características próprias. Algumas das características deste eucalipto promoveram a sua expansão por todo o mundo, ocupando hoje uma área estimada em 22 milhões de hectares. Este eucalipto é uma árvore de rotação curta e crescimento rápido, o que permite que seja utilizada com uma elevada produtividade e com rápido retorno nos investimentos, o que anda a par com a escolha da economia de curto prazo vigente nos dias de hoje.

Se o eucalipto for introduzido em territórios onde não exista falta de água, ao contrário do seu terreno natural, este crescimento será ainda mais rápido, com elevada voracidade de absorção de água e nutrientes dos solos. E é assim que em Portugal e Espanha temos boas condições para o eucalipto, razão pela qual os mais altos Eucalyptus globulus do mundo se encontram na Península Ibérica e não na Oceânia O eucalipto está perfeitamente adaptado a Portugal, o problema é que Portugal não está perfeitamente adaptado ao eucalipto.

As árvores não podem nem devem avaliadas segundo as suas características próprias como se fossem boas ou más. As suas características derivam das condições naturais em que as mesmas evoluíram e dos fatores que levaram ao seu sucesso nesses mesmos ecossistemas. As condições nas quais este eucalipto evoluiu favoreceram uma série de características próprias excelentes para o seu desenvolvimento no sul da Austrália e na Tasmânia, que poderão não ser as mais adequadas à sua plantação por todo o mundo.

O eucalipto é altamente inflamável, em particular a partir dos 6/7 anos de idade. As folhas do eucalipto libertam o agradável aroma que todos conhecemos, que se compõe de terpenos e de ácidos fenólicos, óleos e compostos que não só inibem o desenvolvimento de microrganismos nos solos das florestas de eucaliptos como também impedem o crescimento de ervas nestes solos, inibindo o desenvolvimento de raízes de sementes de outras espécies. Esta é uma característica importante para o desenvolvimento do eucalipto na Austrália, onde compete com outras espécies para a ocupação de poucos recursos, nomeadamente para absorção de água e minerais. Apesar de altamente inflamável, não é comum o eucalipto morrer em incêndios. A sua casca incendeia-se muito rapidamente, explode e emite projeções da sua casca incandescente até centenas de metros de distância. A elevada acumulação de biomassa das folhas no leito da plantação aumenta o material disponível para a combustão, de difícil decomposição pelos microrganismos.

Os solos das plantações deste eucalipto são altamente hidrofóbicos e os microrganismos têm dificuldade em digerir as folhas e a casca que caem da árvore, razão pela qual há pouca variabilidade de microrganismos presente nas plantações de eucalipto. Consequentemente há menos invertebrados nestas "florestas", menos cogumelos e menos ervas. A possibilidade de qualificar um eucaliptal como passível de integrar um sistema agro-silvo-pastoril ignora o facto de que tanto cabras como ovelhas ou vacas são incapazes de digerir as folhas de eucalipto.

A maior parte das espécies que come matéria vegetal estará portanto afastada das plantações de eucalipto, em todos os locais exceto aqueles em que existem eucaliptos há milhares de anos e onde as espécies como o koala conseguem de facto comer e digerir as folhas do eucalipto. Considerando a difícil habitação da maior parte das espécies num eucaliptal plantado fora do seu habitat, alguém lembrou-se um dia de lhe chamar a estas plantações de "desertos verdes".

Mitos, dirão os produtores deste eucalipto e da pasta branca de papel, apontando estudos que não confirmam nem desmentem uma série de pequenos aspetos passíveis de discussão. Apontarão problemas de gestão para justificar os impactos dos eucaliptos nos solos, os seus efeitos nos níveis de água, tentando negar as características responsáveis pelo sucesso económico do eucalipto: ele cresce rapidamente porque metaboliza rapidamente os nutrientes, absorve mais água e utiliza-a de forma mais eficiente para extrair dos solos a sua riqueza. Depois é cortado e leva essa riqueza consigo.

Não é um complot do eucalipto, é a forma como ele é utilizado. E as únicas formas de gestão do eucalipto que o compatibilizariam com um desenvolvimento harmonioso seriam a negação das características desta árvore que, sendo benéficas para o crescimento económico a curto prazo, são pelas mesmas características prejudiciais ao território, às características dos incêndios, ao esgotamento dos solos da água, à incompatibilidade com a biodiversidade local. E diploma algum em qualquer parte do mundo permitirá mudar a biologia por decreto administrativo.

Se considerarmos além disto que a previsão atual é de que a temperatura no país possa subir até 10ºC nos próximos 75 anos e que o mercado mundial do papel está em declínio, ficam perguntas: qual é o objetivo de tudo isto? Porquê um eucaliptugal, um portugalipto? Quem ganha com este ecocídio? E quando é que vamos deixar de vez de aceitar que espezinhem o nosso direito universal a um ambiente saudável? Quando já não houver?

 João Camargo

Engenheiro Zootécnico

Engenheiro do Ambiente


Técnico de Intervenção da Liga para a Protecção da Natureza

A economia política dos fogos


A economia política dos fogos
RAQUEL VARELA
Posted on June 20, 2017

Estava há 2 dias com uma dúvida – algo se passava que eu não compreendia, um puzzle a que faltavam peças. A pergunta que estava na minha cabeça é porque é que o Presidente da Liga dos Bombeiros, que disse as coisas mais irresponsáveis e panfletárias que alguém pode dizer nesta situação foi entrevistado 100 vezes mais do que os especialistas em fogos florestais com 60 anos de trabalho acumulado.
Quero recordar-vos que Jaime Marta Soares em cima de um fogo fora de controlo a meio da noite deu declarações em directo aos jornalistas a dizer que “tinha os meios necessários” e que as pessoas quando foram para aquela estrada certamente pensavam que o fogo estava a kms e «inadvertidamente, olhando a distância a que estaria o fogo» – contínuo a citar – não tiveram “a serenidade, o sangue frio, para fugir a essa situação”. Hoje sabe-se que as pessoas estavam a fugir não de um fogo a kms mas das suas casas a arder, onde os bombeiros, dele, não conseguiram sequer chegar. Desconfia-se de pior – algumas teriam sido direccionadas para aquela estrada pela GNR. Coloco no condicional a questão da estrada porque ao contrário de M.S. aguardo o inquérito. Ele não, ele fez o balanço da sua actuação em directo, qual presidente do clube de futebol local. Tem sido juiz em causa própria – não há em Portugal uma entidade independente que fiscalize a sua actuação, mas nem era preciso porque ele em directo, no local, no meio da catástrofe fez análises, tirou conclusões, e os jornalistas publicaram-nas. É o mesmo que eu dar nota 20 aos meus alunos sem ter olhado sequer para as teses. Esta passagem de M.S. a Deus é certamente influenciada pela ideia de que bombeiros não são políticos, ainda que o cargo de M.S. seja esse – presidente de uma Liga de Corporações que eu não faço ideia (os jornalistas fazem?) como funciona, quem representa, quem votou nele, se é por voto, nada. M.S. foi o homem que anunciou ao país, também na hora – contra a opinião dos meteorologistas e silvicultores, com cargos e doutoramentos – que tudo aconteceu por uma situação “inédita e imprevisível”. A tal que todos, sem excepção, que trabalham na área previram.
Hoje fui andar a pé, um par de horas, sozinha para pensar nesta questão – como uma Liga de Bombeiros ganhou este poder? Estamos na mão de um dirigente de colectividades que do alto da sua sabedoria fez saber ao país, em directo, tudo o que tinha acontecido, ainda estava a acontecer. E nada aconteceu como disse.
Penalizo-me por ter levado dois dias a compreender. Há uma economia do fogo – tantos o disseram e bem. Mas o que significa isso? Significa que o dinheiro é canalizado para o combate e não para a prevenção. Muitos o escreveram já. Mas o que significa isto realmente? Significa que se o nosso dinheiro de impostos é gasto na prevenção em guardas florestais esse dinheiro é usado em salário, força de trabalho, não tem, para além do consumo do trabalhador (casa, comida, roupa) nenhum impacto na economia que implique produção de lucro. Ele vai trabalhar com o cérebro e os olhos e uns binóculos. Mas são precisos muitos, ou alguns, espalhados. Mas, se o dinheiro é gasto no combate ele é massivamente usado em compra de carros de combate, equipamentos/roupas complexos, aviões, importações – adivinho alemãs – e ao que parece 500 milhões para um sistema de comunicações…que falhou. Dizem que há redundância dos equipamentos mas as pessoas estiveram quase 24 horas na aldeias sem conseguir ligar a ninguém, dependentes de um vulgar telemóvel que custa 80 euros. O paralelo com a saúde é evidente, há uma economia política da doença – se a pessoa for ao médico e aprender a alimentar-se e tiver um salário decente come bem; se ficar obesa vai mobilizar 1/6 do orçamento do SNS para medicação e afins para os diabetes. A «conversa» do médico ou do enfermeiro não dá lucro a ninguém, é um serviço, com custos exclusivos em força de trabalho. A diabetes porém é uma das mais lucrativas áreas de tratamento do mundo.
Espero não ter que repetir depois deste artigo o óbvio. O fogo não é causado por bombeiros, mas pelas razões que todos já apontaram estes dias de ordenamento da floresta. Os bombeiros são heróis. Necessários, deviam ter salários decentes e ser profissionalizados e respeitados porque ganham – cito um bombeiro numa carta aberta a Marta Soares – o mesmo num dia a trabalhar que um bombeiro alemão 1 hora de prevenção. Mas estava na hora de perguntar a muitos destes heróis se não aceitam ter formação e ser guardas florestais. Estava na hora de termos uma economia política das pessoas. A Marta Soares lamento mas do que assisti nestes dias não tenho palavra alguma de alento para lhe dar – num país a sério já estava demitido. Como estamos numa nação em decadência está ao lado da Ministra a dar conferências de imprensa, a tal ponto que às vezes me pergunto se a Ministra é que é assessora de Marta Soares.

António Costa tem passado por tudo isto com a inteligência que passa desde que tomou poder – pede calma, não tira conclusões, diz que não sabe o que se passou, e deixa que todos falem por si e digam asneiras, quanto ele é um sereno – e discreto – PM de um país em ansiedade profunda. Costa inventou a forma de fazer política: é preciso que não falem de mim.

Lusitano Clube retomará em Setembro actividade em casa nova em São Vicente


Lusitano Clube retomará em Setembro actividade em casa nova em São Vicente
POR O CORVO • 21 JUNHO, 2017 •

Ao fim de longos meses de impasse e de inactividade, o Lusitano Clube encontrou, por fim, novas instalações. A partir de Setembro, ou mesmo no final de Agosto, a colectividade de Alfama funcionará num edifício arrendado à Câmara Municipal de Lisboa (CML), nos números 25 a 29 das Escolas Gerais, perto da Igreja de São Vicente de Fora. A mudança do rés-do-chão do 81 da Rua São João da Praça, onde estava desde a fundação, em 1905, para o imóvel municipal obrigará a uma redefinição do papel da instuição, que passará a estar mais virada para a educação e a formação e não tanto para o lazer e o entretenimento que a vinham notabilizando nos dois últimos anos, quando uma nova direcção tomou posse. “Vamos ter de nos reiventar e funcionar como uma bandeira do rejuvenescimento das colectividades. Isto tem que ser como um grito de revolta, algo que traga esperança”, diz a O Corvo David Costa, presidente da direcção.

 Assumindo o cansaço e o desgaste provocados tanto pelo processo de despejo a que o clube foi sujeito, iniciado há cerca de um ano, como pela incerteza prolongada sobre o desfecho da busca de novas instalações, o dirigente reconhece que o Lusitano conhecerá uma existência algo diferente. As limitações do novo espaço – a rondar uma centena de metros quadrados, quase três vezes inferior ao anterior – e o ambiente em redor, com a muita vizinhança ali existente a impossibilitar a realização de actividades barulhentas, obrigam uma redefinir de prioridades. “Vamos reiventarmo-nos, apostar na educação e na formação. Teremos aulas e workshops, onde tentaremos dar um contributo no combate à iletarcia digital da população sénior ou realizar aulas de código de programação aos miúdos”, explica David Costa, assumindo que as festas e a música ao vivo serão uma raridade. “O local não se coaduna com concertos, embora dê para realizar algo mais acústico”, diz.

 Em todo o caso, o tempo é ainda de “identificar pontos de interesse” que permitam à colectividade integrar-se no novo poiso, o qual, embora seja ainda no bairro de Alfama, se localiza na freguesia de São Vicente – as antigas instalações situavam-se na freguesia de Santa Maria Maior. O objectivo passa por “envolver mais a população, bem como as outras colectividades e a junta de São Vicente”, a qual respondeu de imediato à solicitação do Lusitano Clube para apontar e discutir quais as actividades que ali poderão vir a ser desenvolvidas. “Queremos intervir para construir algo com a comunidade, para não estarmos de costas voltadas”, afirma David Costa, imaginando o grande potencial que tal relação poderá ter. “Nesta zona, percebemos que ainda existe vida, há aqui ainda muita gente a viver e com a qual será possível estabelecer uma relação. No outro lado, na Rua de São João da Praça, sinto que está a ficar moribunda, entregue apenas ao turismo”.

 Mas os desafios à existência futura do Lusitano não deixarão de ser uma preocupação constante. Antes de mais, porque o valor da renda mensal acompanhou numa relação inversamente proporcional a mudança no espaço disponível. Ou seja, se a área é agora três vezes inferior ao que existia, a prestação a pagar todos os meses ao senhorio subiu na mesma conta. Se antes era pouco mais de 300 euros, será agora ligeiramente inferior a um milhar de euros mensais. “Já não há rendas como aquelas a que as colectividades estavam habituadas. Vai ser, por isso, mais duro. Teremos um grande desafio pela frente, sem dúvida, que é o de fazer receitas suficientes para assegurar a nossa existência”, considera o presidente da direcção, sem deixar de agradecer à Câmara de Lisboa a ajuda dada na pesquisa por um novo lugar.

 “A realidade será agora três vezes mais dura, devido ao valor da renda e às limitações de espaço. Além disso, este processo foi longo e moroso. Estamos parados há demasiados meses. Mas conseguimos ficar em Alfama e, assim, manter as nossas raízes. Mas vamos ter de nos saber reiventar, olhando para o que podemos fazer com as populações”, afirma David Costa, sublinhando a importância simbólica desta nova prova de resistência do Lusitano – instituição que já conheceu outros momentos de grande dificuldade ao longo dos seus quase 112 anos de existência. Nas Escolas Gerais, o primeiro ano será de teste, assume o dirigente, vislumbrando o segundo ano nas novas instalções como um momento de consolidação do projecto. “A partir do terceiro ano, ou isto funciona ou vamos ter de procurar outro caminho. Tem de haver uma grande resiliência, um acompanhamento semanal, para que isto resulte”, diz. Por agora, há que preparar o regresso após as férias do verão.


 Texto: Samuel Alemão         Fotografia: Hugo David

terça-feira, 20 de junho de 2017

Câmara de Lisboa ignora assembleia e vai aprovar hotel polémico no Chiado


Câmara de Lisboa ignora assembleia e vai aprovar hotel polémico no Chiado

Projecto prevê uma "reinterpretação contemporânea" da arquitectura pombalina para um edifício dos anos 70 e decorado com azulejos de António Vasconcelos Lapa.

JOÃO PEDRO PINCHA 20 de Junho de 2017, 8:42

Foi quase por unanimidade que os deputados da Assembleia Municipal de Lisboa votaram, em Março último, um documento que pedia à câmara municipal que não autorizasse a transformação de um prédio da década de 1970 num hotel com estética pombalina, como é proposto por uma empresa de investimentos imobiliários para um imóvel perto do Chiado. Essa recomendação surgiu depois de uma petição pública nesse sentido ter recolhido 1.235 assinaturas em poucos dias. Já antes, em Fevereiro, PCP e BE tinham avançado com iniciativas semelhantes, também aprovadas por larga maioria.

A câmara, no entanto, ignorou esses pedidos e o projecto deverá ser aprovado na reunião privada desta quinta-feira.

Como o PÚBLICO noticiou em Fevereiro, a intenção do promotor é que o edifício do número 20 do Largo Rafael Bordalo Pinheiro e um outro, situado mesmo ao lado, sejam transformados num hotel de cinco estrelas. Para tal, propõe-se que a actual estética modernista do prédio – construído entre 1974 e 1977 para a companhia de seguros Império – seja substituída por "uma imagem arquitectónica mais integrada com a envolvente edificada" e reflicta uma "reinterpretação contemporânea" da arquitectura pombalina.

Além de uma mudança profunda do aspecto exterior do imóvel, a proposta pressupõe também que sejam retirados os 33 painéis de azulejos que o ceramista António Vasconcelos Lapa desenhou para a fachada. Perante as dúvidas levantadas pela Estrutura Consultiva Residente do Plano Director Municipal face à retirada dos azulejos, a câmara pediu – e o promotor aceitou – que os painéis fossem recolocados no interior do futuro hotel.

Mas as recomendações dos deputados da assembleia municipal iam mais longe. “A cidade não é só feita de ‘neo-pombalino’, nem tão pouco queremos transformar Lisboa numa Disney do pombalino. Queremos antes que a cidade deixe transparecer na sua malha urbana as diferentes intervenções arquitectónicas feitas no seu tempo histórico, mas também no que se refere à sua história mais recente”, escreveu Simonetta Luz Afonso, deputada do PS que elaborou um relatório sobre a petição. Esse documento foi aprovado por unanimidade pelos deputados que compõem as comissões de Urbanismo e da Cultura da Assembleia Municipal de Lisboa.

No relatório, a eleita socialista considerou que o edifício está “muito bem integrado” no largo e, por isso, “não existe necessidade de lhe pôr uma qualquer roupagem pseudo-histórica na sua linguagem pós-moderna.” E acrescentou: “É nosso dever preservarmos essa memória, estando certa que o prédio se manterá no seu desenho original, assim como os seus elementos decorativos azulejares que tão bem integram a composição rítmica e cromática da sua fachada. Seguramente será possível fazer a sua adaptação funcional para hotel, sem com isso alterar as suas características arquitectónicas e decorativas.”

Simonetta Luz Afonso escreveu também algo que diria ao vivo mais tarde, em plenário. “Verbalmente, o senhor vereador Manuel Salgado mostrou-se receptivo em acompanhar as preocupações dos signatários e da relatora, manifestando a sua intenção de manter integralmente a fachada.”

Mas foram só palavras. A proposta que Manuel Salgado leva esta quinta-feira a deliberação camarária prevê que o projecto seja aprovado apenas com ligeiras alterações ao inicialmente estabelecido.

Uma das recomendações aprovadas pela assembleia municipal, apresentada pelo Bloco de Esquerda, propunha que o edifício fosse classificado como "bem de interesse municipal", o que teria suspendido imediatamente o processo em apreciação na câmara. Tal como o nome indica, as recomendações são apenas isso e a câmara municipal pode ou não aceitá-las.


“Sempre fomos contra o crime da eucaliptização desordenada e contínua. Fomos vilipendiados, maltratados, injuriados, fomos chamados à Judiciária, etc. Mas sabíamos que tínhamos razão.” / JORGE PAIVA / 2016


Altri ameaça travar investimentos se Portugal "demonizar" o eucalipto

Paulo Fernandes deixa aviso ao Governo na assinatura de contratos de 125 milhões de euros na Celbi e Celtejo. Primeiro-ministro responde com linha de financiamento para subir produtividade na floresta de eucalipto.
Altri ameaça travar investimentos se Portugal "demonizar" o eucalipto

António  Larguesa António Larguesa alarguesa@negocios.pt
16 de janeiro de 2017 às 14:27

Paulo Fernandes garantiu esta segunda-feira, 16 de Janeiro, que "a Altri está disposta e comprometida a investir em Portugal", mas avisou que "se continuarmos a tratar mal o nosso 'petróleo verde', que é a nossa floresta, dentro da sua diversidade, será sempre mais difícil encontrar racional para esses investimentos". "A simples proibição do plantio de determinada espécie de árvore, neste caso o eucalipto, preferindo que aí floresça mato, é a todos os títulos pouco recomendável", alertou.

"Não somos apologistas de monoculturas. O nosso desafio é, sim, aumentar a produtividade na floresta de eucalipto, mas também rentabilizar áreas abandonadas. Não comungamos é com aqueles que, sentados em gabinetes e que não sabendo o que é a floresta, se limitam a criar obstáculos, como se o piorar das condições de gestão na floresta aproveitasse em favor da sociedade e do país, criticou o presidente da Altri.

Na sessão de assinatura de dois contratos no valor de 125 milhões de euros, a realizar nas fábricas da Celtejo, em Vila Velha de Ródão, e da Celbi, na Figueira da Foz, Paulo Fernandes assinalou que estes investimentos no sector da pasta de papel traduzem "a confiança que o grupo tem em Portugal e mostra o seu compromisso de longo prazo em investir no país quando, porventura, outros mercados apelam aos seus investimentos". Porém, falando perante o primeiro-ministro, António Costa, o empresário antecipou "alguns constrangimentos que são críticos para a produção" de pasta de papel.

"No meio de mitos e demagogias várias, demoniza-se a floresta de eucalipto e, com ela, toda a criação de riqueza que ela proporciona, sobretudo no espaço rural. O desenvolvimento económico não é incompatível com a preservação da biodiversidade, muito pelo contrário. Só uma floresta organizada, rentável, que tenha incentivos à sua renovação, conduz à criação de riqueza e de preservação dos habitats. A alternativa é o abandono e a substituição de floresta por mato improdutivo e que ciclicamente é objecto de incêndios", frisou o líder do grupo Altri, empresa que partilha o núcleo accionista e de gestão com a Cofina (dona do Negócios).

Segundo dados do Eurostat e do Global Forest Watch, Portugal foi o único país da UE que nos últimos 25 anos reduziu a área florestal, estimando-se que o recuo nos últimos 15 anos tenha atingido um quarto da área total. Sustentando que não há mais eucalipto, mas apenas que o seu peso aumenta face a uma área florestal cada vez menor, onde não se refloresta e onde as áreas de mato são as únicas que crescem, Paulo Fernandes insistiu que "num país com parcos recursos endógenos e com uma indústria que compara positivamente com os mais exigentes mercados, é um crime andar à boleia de ideias velhas, mitos e preconceitos".

Costa aponta à produtividade

Portugal importa anualmente 22% da madeira que consome, o que representa mais de 180 milhões de euros por ano. "É um contra-senso ter a maioria do território apto, mas que, ano após ano, tem cada vez mais áreas improdutivas. Temos sempre escolhido deixar o território ser tomado pelo mato, ao invés de promover novas plantações. (...) Não raras vezes procura-se obstaculizar quem investe através de todo o tipo de entraves e normativos, favorecendo uma realidade que a ninguém interessa sob nenhum prisma", contestou o presidente e co-CEO do grupo Altri, que tem uma capacidade de produção superior a um milhão de toneladas por ano, exporta 94% do que produz e que em 2015 gerou um volume de vendas que superou os 665 milhões de euros.

Depois de ouvir estas críticas da primeira fila do auditório improvisado, o primeiro-ministro respondeu que "o grande desafio na plantação do eucalipto é a melhoria da produtividade média por hectare, que é baixíssima", notando que "não são só os matos que estão ao abandono". Melhorar a gestão, o ordenamento e as condições de exploração da própria terra são áreas em que as empresas podem investir, avisando que a solução "não [passa] necessariamente por aumentar a área do eucalipto".

Na mesma sessão de assinatura dos contratos, que decorreu na fábrica da Celbi, na Figueira da Foz, e em que estiveram também os ministros Caldeira Cabral, Capoulas Santos e o presidente da AICEP, Miguel Frasquilho, António Costa adiantou que o Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural vai abrir durante este ano um concurso de 18 milhões de euros para financiar investimentos na melhoria da produtividade da área de eucalipto, acreditando que essa medida "vai responder à procura crescente para a produção de pasta de papel".


A Altri não é a primeira empresa a ameaçar travar investimentos. A Navigator também já disse que os seus investimentos dependem dos termos da nova lei para o eucalipto. A empresa, antiga Portucel, quer conhecer os termos da nova lei para as plantações de eucalipto para decidir se avança ou cancela os projectos que tem para Cacia e Figueira da Foz, no valor de mais de 200 milhões de euros. Esta posição foi assumida em Novembro, quando a empresa apresentou os resultados do terceiro trimestre.


OVOODOCORVO revisita este artigo fundamental do biólogo JORGE PAIVA, publicado no Público em 2006
“Sempre fomos contra o crime da eucaliptização desordenada e contínua. Fomos vilipendiados, maltratados, injuriados, fomos chamados à Judiciária, etc. Mas sabíamos que tínhamos razão.”

Os incêndios e a desertificação do Portugal florestal
JORGE PAIVA 23/01/2006 - 00:00

Antes da última glaciação, Portugal estava coberto por uma floresta sempre-verde (laurisilva). Durante essa glaciação a descida drástica da temperatura fez desaparecer quase por completo essa laurisilva, tendo sido substituída por uma cobertura florestal semelhante à actual taiga. Após o período glaciar, a temperatura voltou a subir, ficando o país com um clima temperado como o actual. Assim, a floresta glaciar foi substituída por florestas mistas (fagosilva) de árvores sempre-verdes (algumas delas relíquias da laurisilva) e outras caducifólias, transformando o país num imenso carvalhal caducifólio (alvarinho e negral) a norte, marcescente (cerquinho) no centro e perenifólio (azinheira e sobreiro) para sul, com uma faixa litoral de floresta dominada pelo pinheiro-manso e os cumes das montanhas mais frias com o pinheiro-da-casquinha (relíquia glaciárica). Por destruição dessas florestas, particularmente com a construção das naus (três a quatro mil carvalhos por nau) durante os Descobrimentos (cerca de duas mil naus num século) e da cobertura do país com vias férreas (travessas de madeira de negral ou de cerquinho para assentar os carris), as nossas montanhas passaram a estar predominantemente cobertas por matos de urzes ou torgas, giestas, tojos e carqueja. A partir do século XIX, após a criação dos "Serviços Florestais", foram artificialmente re-arborizadas com pinheiro-bravo, tendo-se criado a maior mancha contínua de pinhal na Europa. A partir da segunda década do século XX, apesar dos alertas ambientalistas, efectuaram-se intensas, contínuas e desordenadas arborizações com eucalipto, tendo-se criado a maior área de eucaliptal contínuo da Europa. Sendo o pinheiro resinoso e o eucalipto produtor de óleos essenciais, produtos altamente inflamáveis, com pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas.
Sempre fomos contra o crime da eucaliptização desordenada e contínua. Fomos vilipendiados, maltratados, injuriados, fomos chamados à Judiciária, etc. Mas sabíamos que tínhamos razão. Infelizmente não vemos nenhum dos que defenderam sempre essa eucaliptização vir agora assumir as culpas destes "piroverões" que passámos a ter e que, infelizmente, vamos continuar a ter. Também sempre fomos contra o delapidar, por sucessivos Governos, dos Serviços Florestais (quase acabaram com os guardas florestais). Isso e o êxodo rural (os eucaliptos são cortados de 10 em 10 anos e o povo não fica 10 anos a olhar para as árvores em crescimento tendo, por isso, sido "forçado" a abandonar as montanhas e a ficar numa dependência económica monopolista, que "controla" o preço da madeira a seu belo prazer) tiveram como resultado a desumanização das nossas montanhas pelo que, mal um incêndio florestal eclode, não está lá ninguém para acudir de imediato e, quando se dá por ele, já vai devastador e incontrolável.
Infelizmente vamos continuar a ter "piroverões" por mais aviões "bombeiros" que comprem ou aluguem. Isto porque, entre essas medidas, não estão as duas que são fundamentais, as que poderiam travar esta onda de incêndios devastadores que nos tem assolado nas últimas décadas. Uma, é a re-humanização das montanhas, que pode ser feita com pessoal desempregado que, depois de ter frequentado curtos "cursos de formação" durante o Inverno, iria vigiar as montanhas, percorrendo áreas adequadas durante a Primavera e Verão. A outra medida fundamental seria, após os incêndios, arrancar logo a toiça dos eucaliptos e replantar a área com arborização devidamente ordenada. Isto porque os eucaliptos rebentam de toiça logo a seguir ao fogo, renovando-se a área eucaliptada em meia dúzia de anos, sem grande utilidade até porque o diâmetro da ramada de toiça não é rentável para as celuloses. Mas como tal não se faz, essa mesma área de eucaliptal torna a arder poucos anos após o primeiro incêndio e assim sucessivamente. Muitas vezes, essas mesmas áreas são também invadidas por acácias ou mimosas, bastando para tal que exista um acacial nas proximidades ou nas bermas das rodovias, pois as sementes das acácias são resistentes aos fogos e o vento ajuda a dispersá-las por serem muito leves. As acácias, como são heliófitas (plantas "amigas" do Sol), e não havendo sombra de outras árvores após os incêndios, crescem depressa aproveitando a luminosidade e ocupando aquele nicho ecológico antes das outras espécies se desenvolverem.
Mas como vivemos numa sociedade cuja preocupação predominante é produzir cada vez mais, com maior rapidez e o mais barato possível, as medidas propostas são economicamente inviáveis por duas razões: primeiro, porque é preciso pagar aos vigilantes e respectivos formadores; segundo, porque arrancar a toiça dos eucaliptos é muito dispendioso (custa o correspondente ao lucro da venda de três cortes, isto é, o lucro de 30 anos). É bom também elucidar que os eucaliptais só são lucrativos até ao terceiro corte (30 anos). Depois disso, estão a abandoná-los, o que os torna um autêntico "rastilho" ou, melhor, um terrível "barril de pólvora", áreas onde os seus óleos essenciais, por vaporização ao calor, são explosivos e, quando a madeira do eucalipto começa a arder, provocam a explosão dos troncos e respectiva ramada, lançando ramos incandescentes a grande distância. Este "fenómeno" tem sido bem visível nos nossos "piroverões".
Por outro lado, pelo menos uma destas medidas (arranque da toiça e re-arborização ordenada) não tem resultados imediatos mas a longo prazo. Por isso os governantes não estão interessados na aplicação dessas medidas, pois interessa-lhes mais resultados imediatos (as eleições são de quatro em quatro anos...) do que de longo prazo.
Assim, sem resultados imediatamente visíveis e com uma despesa tão elevada, os governos nunca vão adoptar tais medidas. Preferem gestos por vezes caricatos, como distribuir telemóveis aos pastores, mas que nunca não acabarão com os "piroverões".
Finalmente, após a referida delapidação técnica e funcional dos Serviços Florestais (antigamente, os incêndios florestais eram quase sempre apagados logo no início e apenas pelo pessoal e tecnologia dos Serviços Florestais), esqueceram-se da conveniente profissionalização e apetrechamento dos bombeiros, melhor adaptados a incêndios urbanos.
Se os nossos governantes continuarem, teimosamente, a não querer ver claramente o que está a acontecer, caminharemos rapidamente para um amplo deserto montanhoso, com a planície, os vales e o litoral transformados num imenso acacial, tal como já acontece em vastas áreas de Portugal. Biólogo


Tirar a floresta das mãos do eucalipto

As condições para a existência de tragédias como Pedrógão Grande não se repetirão só nos próximos verões: repetir-se-ão já este verão.

JOÃO CAMARGO
19 de Junho de 2017, 19:41

Estavam 40ºC ao fim da tarde em Lisboa. Em Santarém, o termómetro batia nos 45ºC. Ao mesmo tempo, em Pedrógão Grande, estavam 41ºC, e ventos fortes e irregulares. Parece que os incêndios entre o Norte do Alentejo e Coimbra tinham começado muito mais cedo, provocados por invulgares trovoadas secas. A Sul do país e em Lisboa tinha mesmo chovido, e, com um calor infernal e gotas grossas caindo, poderia dizer-se que estávamos bastante a sul, num clima tropical. No site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera dizia “Estamos fora do período crítico até 30 de Junho” em relação ao risco de incêndio, o que é o velho “normal”. No ano passado, na Madeira, em Agosto, com um clima bem mais húmido mas não menos quente, os incêndios florestais chegaram à noite à cidade do Funchal e também colheram vidas à sua passagem. Qual será o “novo normal” do clima onde vivemos? Ainda estamos a descobrir.

Mas, e o velho clima? Por que é que Portugal arde tanto mais que os restantes países mediterrânicos? O clima da zona mediterrânica é, de facto, propício à ocorrência de incêndios florestais no verão, fenómeno natural e ao qual a nossa flora e fauna (incluindo a humana) estavam adaptados. Ora, as últimas décadas viram um aumento da ocorrência de incêndios florestais, de área ardida e de ignições em Portugal. Um aumento que não foi acompanhado pelos nossos vizinhos de clima: Espanha, Grécia, Itália, Marrocos, Argélia. Em 1980, Portugal teve um registo de 2349 ocorrências de incêndios florestais e uma área ardida de 44 mil hectares. Em 2016, ano de baixas ocorrências, Portugal teve um registo de 13.079 e uma área ardida de 160 mil hectares. Em média passámos de 73 mil hectares de área ardida por ano na década de 80 para 150 mil hectares de área ardida por ano na década de 2000. O que mudou?

Além do clima, mudou o abandono rural e florestal, que explodiu e foi alimentado e explorado pela expansão descontrolada das plantações industriais de eucalipto e pela pequena plantação desordenada de eucalipto e pinheiro. Com o abandono, Portugal passou a ter uma floresta de matos, acácias, mimosas e eucaliptos para abastecer as fábricas da agora Navigator Company (ex-Portucel), da Altri, da Europac&Kraft e da Renova. E querem mais, como nos recordaram há menos de um ano atrás, que “Portugal devia estar orgulhoso de ter o eucalipto”. Nunca referem que somos o país com a maior área relativa do planeta. Nem Austrália, nem China, nem Brasil, mas Portugal. Mais de 9% de toda a área do país.

Não é uma novidade que o clima vai ficar mais quente. Além disso vai ficar menos húmido, o que significa que as condições para a existência de tragédias como Pedrógão Grande não só se repetirão nos próximos verões: repetir-se-ão ainda este verão. E os verões, que fruto das alterações climáticas podem perfeitamente começar em Maio e terminar em Outubro, farão com que o “período crítico” de incêndios passe de três meses a seis. Aliás, só entre 1 de Janeiro e 12 de Abril deste ano, Portugal já tinha registado 2900 incêndios florestais. A natureza do Eucalyptus globulus é que não vai mudar, o facto de ser altamente inflamável, de se incendiar rapidamente e de projectar cascas incandescentes a mais de dois quilómetros de distância também não.


O nome das coisas: o Decreto-Lei nº 96/2013 é a "Lei do Eucalipto Livre"



JOÃO CAMARGO  27.11.2013 às 15h18
Esta lei simplifica plantações de eucaliptos, mas complica a plantação de espécies florestais autóctones como o sobreiro, o castanheiro, o carvalho ou a azinheira
Na imagem: Produção de Eucaliptos no viveiro de Espirra, o maior viveiro de plantas florestais da Europa. Esta unidade dos Viveiro Aliança, do grupo Portucel Soporcel, tem capacidade para criar 6 milhões de plantas de eucalipto

A onomástica é o estudo explicativo dos nomes. Nos dias em que vemos o significado das palavras perder-se, em que os nomes se vão desligando do que significam, é importante realizar exercícios de onomástica para chamar as coisas pelos seus nomes.

Por estes dias discutiu-se no Parlamento, na Comissão de Agricultura e Mar, o Decreto-Lei nº 96/2013, de 19 de Julho. Para aumentar a confusão que este número de série produz na cabeça das pessoas, não tem sequer um subtítulo. Discutido anteriormente como Regime das Acções de Arborização e Rearborização, seria difícil explicar o que ele faz através deste subtítulo. Mais difícil ainda é explicar que a única importância decisiva e histórica deste decreto é liberalizar a plantação de eucaliptos, pelo que o seu nome verdadeiro não poderia ser outro que não "Lei do Eucalipto Livre".

Nesta Comissão Parlamentar estiveram várias organizações: de produtores, de académicos, ambientalistas, de cooperativas, e até empresas como a Portucel e a Altri. Algumas das entidades presentes afirmaram que esta lei não era sobre o eucalipto, como defendeu o próprio Secretário de Estado das Florestas, mais que uma vez, dizendo que o decreto visava apenas acabar com a burocracia na floresta.

Mas a "Lei do Eucalipto Livre" tem exclusivamente que ver com eucaliptos e com a liberalização da sua plantação. Senão vejamos: esta lei simplifica plantações de eucaliptos, mas complica a plantação de espécies florestais autóctones como o sobreiro, o castanheiro, o carvalho ou a azinheira, que passa a ter que ser comunicada. Que simplificação da burocracia é esta, quando passa a ter que ser comunicada, por exemplo, a plantação de sobreiros no meio do montado alentejano ou de carvalhos no Douro?

Os autores e os defensores desta lei afirmam que ela deixa de discriminar o eucalipto em relação às outras árvores. Discriminar? A espécie predominante da floresta portuguesa é uma espécie discriminada? Alguém pode defender que uma espécie plantada em 812 mil hectares, 8,9% da área do país, é uma espécie atacada? Afirmam ainda que esta lei não liberaliza a plantação de eucaliptos, uma vez que a comunicação prévia, que é um deferimento tácito à plantação de eucaliptos, apenas se aplica a áreas arborizadas abaixo dos 2 hectares. Mas se observarmos objetivamente que mais de 80% das propriedades florestais do país têm menos de 2 hectares de área ou que o prédio rústico tem em média de 0,5 a 1,2 hectares, podemos concluir que há um deferimento tácito para plantação de mais de 80% das propriedades florestais do país com eucalipto.

É nas áreas de plantação de eucalipto e pinheiro desordenadas, como aquelas que esta lei criará em grandes e contínuas extensões, que o país mais arde, ano após ano. São estas áreas que a "Lei do Eucalipto Livre" pretende continuar a expandir, entregando a floresta portuguesa nas mãos da fileira da celulose, que não quer ter nenhuma responsabilidade pela floresta e pela sua manutenção, ordenamento ou equilíbrio, mas apenas a possibilidade de extração máxima de madeira produzida pelos milhares de pequenos proprietários que arcarão com todo o risco.

O relatório mais recente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas aponta uma subida de temperatura global em cerca de 4,8ºC. Para a Península Ibérica, este valor chega a uma previsão máxima de aumento de 10ºC, sendo a previsão mínima de 1,5ºC no Verão. Com uma área de eucaliptal desordenado em expansão, uma das maiores do mundo, as consequências são claras, e por isso a "Lei do Eucalipto Livre" é também a "Lei do  Incêndio Livre".

A "Lei do Eucalipto Livre" está neste momento em apreciação parlamentar na Assembleia da República. Esta é a altura de participarmos e de nos manifestarmos acerca da mesma. É altura de contactarmos os representantes eleitos e em particular a Comissão de Agricultura e Mar, que é a primeira responsável pelo parecer que será transmitido ao Plenário do Parlamento sobre esta lei. É altura de contactarmos os deputados e deputadas dos vários grupos parlamentares: Vasco Cunha, Jorge Fão, Abel Baptista, Mário Simões, Isabel Santos, Manuel Isaac, João Ramos, Helena Pinto, José Luís Ferreira, Cristóvão Norte, Fernando Marques, Luís Pedro Pimentel, Maria José Moreno, Nuno Serra, Pedro Alves, Pedro do Ó Ramos, Pedro Lynce, Ulisses Pereira, Fernando Jesus, Glória Araújo, Miguel Freitas, Renato Sampaio e Rosa Maria Bastos Albernaz. Porque é importante que nos lembremos não apenas do nome das coisas, mas também do nome das pessoas. Perante uma lei que tem um impacte histórico desta dimensão, é importante darmos os nomes certos às pessoas e às leis. Contactem os deputados da Comissão através do site da Assembleia da República, neste link: http://www.parlamento.pt/sites/COM/XIILEG/7CAM/Paginas/Composicao.aspx.

Se esta lei for revogada, não será a garantia de que no futuro tudo correrá melhor. Se esta lei não for revogada, temos a garantia de que no futuro, na nossa floresta e no nosso território as coisas correrão bastante pior. Se ela seguir avante, poderemos prever para o ano de 2113 importantes alterações onomásticas, e provavelmente os nomes Silva, Pinheiro ou Carvalho terão perdido todo o significado. Talvez na aldeia de Eucaliptal de Cima, o Sr. Eucalipto se venha a casar com a Dona Fogo para tentar emigrar para o grande Deserto do Sul. Não temos tempo a perder com confusões linguísticas.

Revogar é a única palavra que temos de associar a este decreto-lei.



Deixem-se de lágrimas de crocodilo


A única pergunta que realmente me interessa ver respondida é sobre a cabeça de cada português: que dimensão precisa de ter uma tragédia para mudar o rumo de um país?

João Miguel Tavares
20 de Junho de 2017, 6:30

Pelas televisões passam jornalistas, bombeiros, políticos, engenheiros, especialistas em protecção civil, e eu sinto a falta dos antropólogos, dos psicólogos e dos neurocientistas, porque a única pergunta que realmente me interessa ver respondida é sobre a cabeça de cada português: que dimensão precisa de ter uma tragédia para mudar o rumo de um país? Quantos mortos são necessários para que se faça uma revolução na gestão da floresta? Será que a tragédia de Pedrógão foi suficientemente grande e grave para que seja enfim possível alterar as políticas de reflorestação, os métodos de prevenção e combate aos incêndios e o ordenamento de um território cada vez mais desertificado?

As perguntas sobre o que aconteceu e porque aconteceu já foram respondidas pelo PÚBLICO com um título perfeito: “O que é que falhou neste sábado? Tudo, tal como falha há décadas.” É isso mesmo. Há anos e anos sem fim que as pessoas que percebem de floresta e de combate aos incêndios andam a gastar o seu latim em estudos, livros, entrevistas e artigos, com opiniões que são hoje perfeitamente consensuais entre especialistas: um fogo daquela dimensão não se consegue apagar com meios humanos – só termina quando não houver mais combustível; os bombeiros deveriam ser forças profissionais que limpam no Inverno o que não querem que arda no Verão; no terreno deveriam existir mais pás e escavadoras e menos autotanques e mangueiras; um bom rebanho de cabras pode impedir mais fogos do que um regimento de sapadores; não se pode pedir a populações envelhecidas e empobrecidas que assumam elas a limpeza das suas florestas; é preciso alterar radicalmente a gestão do território rural. E por aí fora.

Quantas vezes já ouvimos isto? O Observador republicou há dois dias um texto de Agosto de 2016, escrito após o fogo do Funchal. Chamava-se “Porque arde Portugal?” e acabava assim: “Ficou provado que quando as coisas correm mal, correm realmente mal. Resta saber como — ou quando — será a próxima vez.” A próxima vez foi no sábado. As razões pelas quais temos tragédias cíclicas são as mesmas pelas quais temos falências cíclicas – porque somos bons a reagir (vejam-se os numerosos actos de heroísmo e a onda de solidariedade) mas péssimos a agir. E a verdade é esta: não existe capacidade reformista para fazer tudo aquilo que é preciso de forma a evitar incêndios calamitosos. Um reordenamento do território teria custos altíssimos, que nenhum político está disponível para pagar. Pior: que nenhuma população está disponível para tolerar. Porque hoje choramos os mortos de Pedrógão, mas se amanhã o governo quisesse tirar a um cidadão o pinhal abandonado que está na família há três gerações, a revolta seria imediata.

Voltemos à pergunta inicial: será que a tragédia de Pedrógão foi suficientemente grande e grave para mudar alguma coisa? A minha resposta é um rotundo “não”. Apaziguamos a alma com donativos. Vemos o presidente da República desculpar toda a gente ainda antes de saber o que aconteceu. Distribuímos afectos. Publicamos decretos. Escrevemos textos bonitos sobre dor e lágrimas. Mas após o Verão vem o Inverno e ninguém mexe uma palha. Querem respeitar os mortos de Pedrógão? Então evitem as lágrimas de crocodilo e a proclamação de grandes soluções a partir dos sofás da capital. A melhor homenagem que podemos prestar aos mortos é não fingir que a sua morte serviu para alguma coisa. Não serviu. Os fogos descontrolados vão continuar. Os mortos também.


Portugal’s ‘killer forest’

Deadly wildfire calls into question Portugal’s embrace of eucalyptus.

By           PAUL AMES        6/19/17, 9:49 PM CET Updated 6/19/17, 11:17 PM CET

A woman reacts to the devastation caused by the fire in Pampilhosa da Serra | Paulo Novais/EPA

LISBON — Before it gained global infamy as the “road of death,” Estrada National 236-1 was a bucolic drive, winding in a succession of lazy curves through the thickly wooded hills of central Portugal.

The surrounding greenery, however, brought no joy to environmentalists who have long warned that Portugal was courting disaster through decades of planting the eucalyptus trees which line that roadside and cover much of the country.

On Saturday, a lightning strike is believed to have ignited vegetation, bone dry after a drought and heat wave that pushed temperatures over 40C. Gusting crosswinds fanned the flames which roared through the forests killing at least 63 people, many trapped in their cars on EN236-1.

As the country united to come to terms with the “unprecedented tragedy” and 3,000 firefighters battled on several fronts to contain the conflagration, President Marcelo de Sousa spoke for the political class Monday when he said it was too early to debate “causes, reflection, analysis” of what might be to blame.

For many, however, it was clear the eucalyptus played a part.

 “The eucalyptus is more dangerous than other trees,” said João Branco, president of Quercus, an environmental campaign group.

“The leaves and the bark are very flammable, strips of bark hang off the trunks and are carried by the wind, spreading the flames,” Branco, a forestry engineer, added. “Large parts of the center and north of the country are almost completely covered by eucalyptus and it contributes to this type of fire.”


A native of Australia, the eucalyptus was first introduced in Europe as an ornamental plant in the 18th century. It thrived in Portugal, where the fast-growing species was later used in reforestation and to prevent erosion.

It really took off from the mid-20th century to provide raw material for the paper and paper pulp industry.

Thousands of jobs

Now the Aussie import is Portugal’s most common tree.

It covers over 900,000 hectares, a quarter of total forest land, displacing native oaks, laurels and chestnuts. Forests of the tall, slender tree fill up vast tracts of the country, from the hills around the site of this week’s disaster to lowland forests stretching southeast from Porto.

A policeman walks past burned out cars after the Portuguese wildfire | Patricia De Melo Moreira/AFP via Getty Images
A policeman walks past burned out cars after the Portuguese wildfire | Patricia De Melo Moreira/AFP via Getty Images
Aside from the fire hazard, conservationists say the eucalyptus sucks up scarce ground water, wipes out competing native species and destroys habitat for native animal life.

For decades, efforts to contain its growth ran into opposition from Portugal’s powerful paper industry lobby.

“Restricting the most important raw material of the paper industry would dramatically affect its competiveness and the country’s trade balance,” the industry body CELPA warned in response to government proposals to ban new eucalyptus plantations. “The ban would destroy thousands of forestry jobs, many in badly depressed regions.”

The industry’s concerns carry weight. From high-quality printing sheets to trendy black toilet rolls, paper exports are big for Portugal.

Last year pulp and paper accounted for 4.9 percent of all exports, worth around €3 billion. The industry employs around 3,000 people, often in rural areas.

Due to the sensitivity of the situation as the fire continued to rage, CELPA declined to respond to questions on the eucalyptus fire risk issue, but an official said privately that much of the criticism is based on “myths.”

In its April statement, the industry association dismissed claims that cutting back the eucalyptus would reduce Portugal’s wildfire risk as “erroneous and prejudiced.”

Banning new plantings will lead to more rural land being abandoned, increasing the risk of fires, it said, stating that uncultivated land represented 49 percent of territory burned in the past 15 years.

On its website, however, the industry recognizes that much of the eucalyptus forest — most of which is on private land, much of it run by small-scale producers — suffers from “insufficient levels of management, poorly adjusted density, aging and bad health” that leave it at risk from fire, pests and disease.

 “It’s become vital to promote good practice in forest management generally, and particularly for the eucalyptus,” CELPA said when it launched a “Better Eucalyptus” awareness campaign in 2015.

‘Firefighter trees’

Environmentalists agree on the importance of reversing rural depopulation and improved forest management to help reduce the bushfire risk.

However, they say, measures such as mandatory clearing of dead material from the undergrowth, wider firebreaks, or safety zones along highways and around homes must be combined with restrictions on eucalyptus.

Campaigners want “species substitution” and the planting of barriers of native species to serve as “firefighter trees” that are more resistant to fire — oak and chestnut are reputedly very effective. Most of all, they want the Socialist government to push through its proposal to limit further expansion of the eucalyptus forest.

The fire, which broke out in the Pedrogao Grande district, has killed at least 62 people and injured more than 50 | Miguel Riopa/AFP via Getty Images
The fire, which broke out in the Pedrogao Grande district, has killed at least 62 people and injured more than 50 | Miguel Riopa/AFP via Getty Images
The cabinet sent the bill to parliament in April, but Quercus and other campaign groups complain of feet dragging under pressure from the paper industry.

After this week’s disaster, pressure to move ahead will grow.

“We’ve allowed an uncontrolled invasion of eucalyptus. Even in inaccessible highlands, huge areas are occupied by a monoculture of eucalyptus that’s an ideal fuel for forest fires,” Vital Moreira, a veteran Socialist politician, wrote in his blog.

“It’s not enough to cry for the dead … We have once and for all to deal with this powder keg represented by the forest we chose to have,” he wrote. “We have to recognize that we’ve created a killer forest.”

Fecho iminente da estação de metro de Arroios deixa comerciantes preocupados




Fecho iminente da estação de metro de Arroios deixa comerciantes preocupados

POR O CORVO • 20 JUNHO, 2017 •

De mãos enterradas numa bandeja de bifanas a exalar tempero e ainda por fritar, Fernando Correia vai fazendo contas à vida. À sua e à dos outros quatro empregados da Ribeirão Preto, a casa de pasto que gere há 11 anos, e está situada num dos cantos da Praça do Chile, mesmo ao lado da saída nascente do átrio norte da estação de metropolitano de Arroios. O fecho desta, a partir de 19 de julho e por um período mínimo de 18 meses, para obras de alargamento e requalificação, era coisa de que já havia ouvido falar de forma remota, confessa, mas estava ainda longe de ver como real.

 “É mesmo assim?”, pergunta, enquanto os olhos parecem perder-se num ponto imaginário situado algures depois da porta do estabelecimento. “Vamos ver como será. Passam aqui muitas pessoas por causa do metro, claro. Grande parte dos nossos clientes são passageiros. Isto pode levar a uma quebra da facturação entre 60% a 70%”, diz. Na zona em redor da estação, mas sobretudo na Rua Morais Soares, cresce a preocupação com os tempos que se avizinham, a um mês do encerramento. Ao ponto de ter levado ao ressuscitar de uma quase moribunda associação de comerciantes locais.

 Quase toda a gente já ouvi falar, por ali, do há muito programado encerramento da estação de metro de Arroios, que depois de profundas obras poderá acolher composições com seis carruagens – embora, para alguns tal cenário ainda se lhes apresente como uma genuína notícia. “Isto já não é o que era, mas olhe que uma coisa dessas é bem capaz de ter impacto. Depende se meterem autocarros, mas já ouvi tanta coisa, que não sei”, afirma, atarefada com a arrumação de cabidos, a empregada de uma loja de roupa, localizada paredes-meias com a Ribeirão Preto.

 Embora um rápido inquérito junto dos lojistas permita verificar o quão diversos são os níveis de conhecimento sobre a radical, embora temporária, alteração dos hábitos de mobilidade anunciada para a zona, percebe-se que a apreensão sobre o futuro próximo dos negócios é um sentimento comum – apesar de haver também quem se diga nada preocupado. Certo é que são já vários os comerciantes a pedir a tomada de medidas que mitiguem o impacto do encerramento da estação localizada numa das áreas mais densamente povoadas da capital.

“É claro que estou preocupada. Eu e toda a gente. Isto vai ser complicado, vai ter um grande impacto no comércio aqui desta zona”, afirma a O Corvo Ana Silva, com a autoridade dada por três décadas atrás do balcão do pronto-a-vestir Condestaque, situado na parte de baixo da Rua Morais Soares, artéria com um forte densidade comercial, mas que já viu melhores dias. Ana acredita que o fechar de portas, por um período tão longo, deverá constituir um rude golpe no já de si decrescente movimento comercial. O assunto tem ocupado a mente dos patrões, que já têm tido conversas sobre ele com outros donos de lojas da zona.

 Em abril passado, vários empresários da rua reuniram-se para debater a melhor forma de lidar com o problema e terão contactado as juntas de freguesia de Arroios e da Penha de França – circunscrições territoriais entre as quais se divide a Morais Soares -, dando conta da sua imensa preocupação com os esperados efeitos de uma provável queda abrupta de circulação de pessoas naquela área – “Vamos ter uma descida na facturação, sim. Estou preocupado”, confessa Abdul Gafar, da papelaria Isabasa. Tais receios terão levado os comerciantes a pedir, recentemente, uma clarificação da Câmara Municipal de Lisboa (CML) em relação à necessidade da adopção de medidas de contingência.

 Isso mesmo é confirmado por Jorge Santos, gerente da conhecida mercearia Japão, já a fazer contas aos prejuízos antevistos. “Estamos extremamente preocupados com que aí vem. A maior afluência de clientes é de pessoas que passam a caminho dos transportes públicos”, avisa, acrescentando críticas à Câmara de Lisboa por “deixar abrir todo o tipo de lojas”. “A concorrência é cada vez maior e isto não vem ajudar”, diz o responsável pela gestão de uma loja que fará um século de existência em 1918 e cuja média diária de clientes oscila entre os quatro e os cinco mil.

 Algo que, teme, poderá mudar substancialmente, muito em breve. Mesmo o prometido reforço das ligações de autocarros, para minorar o efeito desta interrupção de um dos principais pontos da linha verde do metro, está longe de deixá-lo descansado. Até porque, diz, dando voz a um temor generalizado: o de que os trabalhos venham a derrapar no tempo, prolongando o prazo para a sua conclusão e consequente regresso à normalidade. “Sabemos bem como estas coisas são. Dizem 18 meses, mas isso pode ser dois anos, dois anos e meio ou até mais”, ouve-se amiúde entre lojistas.

 Tais preocupações levaram ao reactivar da Associação de Comerciantes da Rua Morais Soares, que estava semi-adormecida, reconhece o responsável técnico de uma farmácia daquela artéria. “Obviamente, isto vai baixar muito. Estas obras são necessárias, sabemo-lo bem, mas tem que haver alguma sensibilidade. Há várias exemplos de ruas, em várias cidades, que entraram em obras e os comércio tiveram que fechar. Mesmo aqui em Lisboa. Veja-se o caso do Areeiro, que era uma zona cheia de vida e viu o comércio ser morto por aquelas obras que nunca mais acabam”, diz o responsável, preferindo manter-se sob anonimato. A “aceleração do calendário das obras” e a concessão de “subsídios” para apoio aos comerciantes são sugeridos como possíveis saídas.

As eventuais medidas de alívio dos prejuízos, no entanto, não serão suficientes para evitar o fecho por parte de algumas lojas. É o caso da Alfaiataria do Chile. “Acho que vai ser horrível. Olhe, vamos acabar por fechar mais cedo, talvez já no próximo mês. Isto já estava tão mal”, desabafa Anabela Vieira, 64 anos, funcionária da casa há já 41 anos. “A rua, que está muito longe daquilo que foi em tempos, vai ficar morta”, profetiza sobre um cenário em que sobreporão os efeitos do fecho da estação de metro com os que se adivinham decorrentes daqueles previstos pelo início, em 2018, das obras de requalificação do espaço público da Praça do Chile e da Rua Morais Soares, no âmbito do programa Uma Praça em Cada Bairro. Haverá obras por todo o lado, estaleiros sobrepostos.

Essa assume-se, de facto, como uma dor de cabeça acrescida para muitos. Como é o caso de António Pimenta, dono de um quiosque de jornais situado mesmo a meio do traçado da rua. O fecho da estação de Arroios provocará, por certo, uma quebra de 20% a 30% nas vendas dos títulos de imprensa, por estes dias já nada animadoras, mas António contempla com verdadeira preocupação, isso sim, o começo dos trabalhos de reabilitação e reperfilamento desta importante artéria comercial que liga a Praça do Chile ao Alto de São João. Algo que até aqueles que não mostram apreensão com o efeito do fecho da estação concordam. “As obras na rua é que vão ter muito mais impacto na vida das pessoas”, diz a O Corvo Ana Matos, gerente da pastelaria Flôr do Império.

Tanto assim é que há quem chame a atenção para o facto de aquela ser uma área da cidade muito envelhecida. A conjugação das duas grandes empreitadas tornará a vida dos idosos ainda mais difícil, avisam. “Vamos ter pessoas que não vão sair de casa”, prognostica o tal responsável técnico de uma farmácia. O mesmo diz Alexandra Canuto, empregada de uma loja de uma conhecida cadeia de bejuteria, que teme também o impacto que o fecho da estação terá na vida de muitos funcionários dos estabelecimentos comerciais e empresas da área.


Texto: Samuel Alemão

Britain is leaving the EU – just as Europe is on the up


Britain is leaving the EU – just as Europe is on the up
Natalie Nougayrède

Merkel and Macron are planning for a ‘golden decade’ and won’t let Brexit negotiations derail them

Sunday 18 June 2017 19.52 BST Last modified on Sunday 18 June 2017 22.09 BST

That Helmut Kohl, the man who oversaw the reunification of Germany and was for so long a giant on the European stage, should die on the eve of negotiations leading to Britain’s withdrawal from the EU seems symbolic. The former German chancellor made the best of the extraordinary circumstances and public mood that followed the collapse of communism and the opening up of eastern Europe.

Today’s European leaders are, by contrast, confronted with an especially adverse set of circumstances. Trump, Putin, Erdoğan, terrorism, unprecedented flows of migration, unemployment, the rise of populism and, of course, Brexit. But, just as Kohl and his French contemporary François Mitterrand relaunched the European project in the early 1990s, Angela Merkel and Emmanuel Macron are, as Britain prepares to leave, readying their ambitions and vision for the continent.

At stake is no less than Europe’s role in defending liberal democratic values and a rules-based international order at a time when – as one former Obama administration official put it to me recently – Trump’s America is “missing in action and the UK is disappearing into oblivion”. The words may be harsh, but they underscore that Britain’s central weakness lies not only in its internal political confusion – but also with a dangerous ignorance of what its European neighbours are setting their sights on.

The Franco-German engine is not focusing on Brexit but rather on consolidating the 60-year-old European project through further integration and cooperation. At the heart of this stands an emerging Macron-Merkel deal, intended to act as Europe’s new powerhouse. On 15 May, the French and German leaders met and spoke of a new “roadmap” for the EU. The thinking goes like this: in the next two to three years, as France carries out structural economic reforms to boost its credibility, Germany will step up much-needed European financial solidarity and investment mechanisms, and embrace a new role on foreign policy, security and defence.

For Britain, being aware of the wider European context should be an important part of assessing options. The sobering fact, from Britain’s perspective, is that however important a challenge Brexit may represent, it is hardly the sole topic other Europeans are focused on. Brexit is not their obsession, but a British one. Continentals mostly see it as a tedious burden whose outcome can only be bad for everyone so the task is about limiting damage.

Outside Britain, the mood in the EU is on the upswing. Europe’s economic situation has improved. Unemployment in the eurozone is at its lowest since 2009 (but still at 9.5%). Growth has returned. Mario Draghi, the head of the European Central Bank, speaks of “a solid and broad recovery”. Populist forces have suffered political defeats, in Austria, the Netherlands, France, Italy and Finland.

Across the continent, citizens’ support for the EU is on the rise, according to Eurobarometer surveys. Polls show Europeans are increasingly in favour of a “multiple speed” or “flexible” EU, in which ad hoc groups of member states would forge ahead with new projects. For all the headlines about a populist movement eating away at the EU’s foundations, it seems all the shockwaves the continent has felt in recent years have brought a renewed sense of belonging, and an appetite for better, if not more, integration.

To be clear: this is not thanks to Brexit, but despite it. Strengthening the EU project and opening up horizons is what Germany, France and the European commission are intensely working on. To believe that Europeans are gloating, or cynically happy to capitalise on Brexit, is to fall into a Trump-like vision of a zero-sum world in which one side’s gain is the other’s loss. When occasional continental voices claim they relish the thought of Brexit, be sure there is more provocation at play than sound appreciation of the meaning of the process, or of its consequences.

The point is that the EU has turned a corner, and feels more confident. It wants to develop its capacities to act internationally beyond its borders – not just perpetually fix its internal problems. It has no other choice, because of its geopolitical environment. Some of this predates the Brexit referendum.
A European defence fund is now being discussed, notably for joint procurement efforts (but don’t expect a European army to emerge). Also, there is talk of setting up a European Monetary Fund, and increasing investments for job creation.

One German official told me his country was undergoing “a sea change” because public opinion had come around to the view that “Europe should take on more responsibility” if the US retreated. This was not to say, he quickly added, that Merkel should be seen as the leader of the west or a new embodiment of the Statue of Liberty – she herself has called that “absurd”. But in recent discussions with European experts and officials, I heard the following comment: “A golden decade may be dawning for Europe.” A new narrative is in the air.

There are many caveats, no doubt. Anxieties are rife about Italian banks, for example. Resistance in Germany’s finance ministry about anything that may weigh on German taxpayers has by no means gone away. Germany’s role in security and defence still stirs gruelling domestic debates – even as the country deploys troops in Lithuania as part of Nato’s deterrence of Russia. Much will depend on the outcome of German elections in September. The populist wave in Europe may have ebbed, but it hasn’t disappeared, nor all the factors that fuelled it. Brexit will be time consuming and will take up huge amounts of energy.

Still, the scenario of a European reawakening shouldn’t be discarded – especially not in Britain, as it heads for a wrenching exit. With Trump and Brexit, Europe now has a role in defending values and international institutions in a way that was “unprecedented”, insists a former Obama official. “Europe needs to hold the fort, as long as Trump remains in office. It’s Europe’s moment.”

A Luxembourg foreign minister once infamously proclaimed that 1992 would be “the hour of Europe”. The expression drew bitter irony as Europe dismally failed to put an end to the human catastrophe in the former Yugoslavia. But 1992 was also the year when, under Kohl and Mitterrand’s guidance, the Maastricht treaty transformed the European Economic Community into a formal union. The real emphasis in Europe, 25 years on, is not on Brexit or breakups, but on how, in a shifting world, the EU can acquire new, indispensable significance.

Just as Kohl and Mitterrand seized the opportunities that history presented to them, Merkel and Macron are, in different circumstances, identifying their path towards a common European endeavour. After a decade of crisis, Europe may now be pulling out of it. More British awareness of this might help avert bad choices.


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