segunda-feira, 3 de junho de 2019

US Ambassador wants NHS and chlorinated chicken included in UK trade deal

The Truth About Chlorinated Chicken review – an instant appetite-ruiner / VIDEO:The Truth About Chlorinated Chicken | Trailer | Coming Soon




The Truth About Chlorinated Chicken review – an instant appetite-ruiner
4 / 5 stars 4 out of 5 stars.    
Just in time for Trump’s UK visit, Channel 4’s Dispatches looked at the food standard implications of a post-Brexit trade deal with the US. It wasn’t a pretty sight

Tim Dowling
 @IAmTimDowling
Mon 3 Jun 2019 20.30 BST Last modified on Tue 4 Jun 2019 07.00 BST

Donald Trump has come to Britain, and in honour of his state visit, Channel 4 devoted half an hour to something equally toxic that may soon follow in his wake: an invading army of chlorinated chickens.

In Dispatches: The Truth About Chlorinated Chicken, the presenter Kate Quilton travelled to the United States to investigate American poultry production. It was the kind of programme best viewed after eating. You wouldn’t be terribly hungry when it finished.

Chlorinated chicken is an emotive subject, and a slightly misleading one: as disgusting as it sounds, the chlorine itself is not the problem. American chicken doesn’t taste like a swimming pool. Most of it tastes a bit like chicken.

The problem is that the practice of chlorine washing (though sometimes other chemicals are used) is said to be a poor substitute for the hygiene measures that should take place earlier in the processing chain, but, in the US, are not legally required. For this reason, chlorinated chicken has been banned from the EU for 22 years. If and when Brexit happens, the UK may well be obliged to accept chlorinated poultry as part of any separate trade deal with the US. Agricultural exports are a priority for US negotiators – it would be difficult to make an exception for chicken.

EU rules put limits on flock densities and transport times, with a view to preventing the spread of salmonella and campylobacter, both of which can cause food poisoning and possible death. In the absence of such regulations, American poultry processors address hygiene concerns at the end of the process by rinsing all the chicken in chlorine before packing. This kills 90% of the harmful bacteria present in the poultry – the question is whether that is enough. It sounds to me as if it isn’t.

“You don’t need that many bacteria to form an infectious dose,” Professor Bill Keevil from the University of Southampton told Quilton. “Even 10% surviving is a risk factor.” In his lab they have bottles of a branded medium for growing pathogens – called Salmonella Plus. I wonder if we import that from the US.

Indeed, chlorine washing may prevent the detection of contaminants through ordinary testing, because it partially masks the problem. Quilton had no trouble finding a Texas restaurant owner who will swear there is nothing wrong with American chicken – “Not a thing. Superior quality and flavour”. But the numbers speak for themselves: US rates of campylobacter infection are 10 times higher than in the UK. The US records hundreds of salmonella deaths a year; the UK has in recent years recorded none.

Central to the programme was footage shot inside a giant processing plant by an undercover employee. Looking at it, a former EU meat inspector was able to identify several flagrant violations of good hygiene practice and even the plant’s own policies, but there was more sickening stuff on display: a supervisor is overheard talking about “a trend of adulterated product”, by which she means glass in the chicken, and also making reference to a recent “amputation”. To me, the word amputation brings to mind an operation performed by a professional for the good of a patient, and not, as in this instance, some poultry worker losing three fingers in a machine.

One study found 95 such “amputations” over a single year in American poultry processing, making it one of the most dangerous occupations in the US. Debbie Berkowitz, a former chief of staff at the Occupational Safety and Health Administration (OSHA), who now campaigns for employment rights, maintains that the industry is also exploitative: employees, her office found, were routinely denied basic rights, including toilet breaks. “Workers did not want to have to soil themselves,” she said. “So they wore diapers on the line.”

In response to the programme’s investigation, a statement issued by the US Food Safety and Inspection Service offered not just blanket denials, but a kind of breezy contempt: “Unfounded allegations from former OSHA staffers are not credible contributions to this dialogue.”

The whole programme was enough to put you off chicken for a week – possibly for life – but, as Quilton concluded, it was about more than chicken. “It’s about food standards, it’s about worker’s rights, it’s about animal welfare,” she said. It’s also about money: thanks to the less robust regulatory regime, American chicken is a fifth cheaper than its UK counterpart. The chlorine, you get for free.

Brexit: The Hidden Danger of Chlorinated Chicken. With Stephen Fry

domingo, 2 de junho de 2019

"O crescimento do turismo de massas e do low-cost flying é profundamente criminoso", por António Sérgio Rosa de Carvalho




O crescimento do turismo de massas e do low-cost flying é profundamente criminoso

O Bureau de Turismo de Amsterdão passou a dedicar-se precisamente ao oposto da sua função original. Ou seja a sua nova função será o desencorajamento do turismo.

António Sérgio Rosa de Carvalho
31 de Maio de 2019, 21:44

As viagens aéreas low cost permitiram o acesso a uma inédita mobilidade, traduzida num verdadeiro ‘tsunami’ turístico, que invadiu de forma avassaladora, as cidades europeias.

O termo ‘invasão’ é aqui utilizado de forma consciente, pois os efeitos negativos na ecologia urbana, e as alterações dos seus equilíbrios locais, são nitidamente reconhecíveis e visíveis, e já foram vezes sem conta, diagnosticadas.

O que, sim, é intuitivamente sentido, mas nunca diagnosticado, são os efeitos erosivos resultantes da exposição permanente e diária dos cidadãos a um caos e anarquia sem gestão, onde os seus direitos básicos e fundamentais, nas áreas da segurança e sossego, direito à habitação, custo de vida, direito ao transporte etc., ou seja, o espaço vital de sobrevivência e vida e da identidade são postos em causa.

E aqui, chegamos ao prestígio e credibilidade da imagem da Democracia e da efectividade da sua gestão.

Desta vez, em vez, de falarmos de Lisboa, vamos deslocarmo-nos a Amsterdão, cidade que habito e experimento na vida quotidiana.

Amsterdão é importante pois devido à sua pequena escala e espaço disponível limitado, transformou-se num laboratório directo, in extremis, destes desafios. Mais ainda do que Veneza pela simples razão que Amsterdão, apesar do êxodo motivado pelas tensões diárias das suas vivências e pela expulsão dos habitantes locais devido à espiral de especulação imobiliária, ainda é habitada por um milhão de pessoas.

Em Outubro de 2018 foi tomada uma decisão do mais alto valor simbólico e que representa uma viragem radical da concepção da gestão do Turismo. A autarquia decidiu retirar do ponto estratégico e emblemático, em frente ao Rijksmuseum, em Dezembro de 2018, o famoso letreiro I AMSTERDAM, e anunciou que as verbas destinadas à promoção do turismo iriam ser reduzidas, e o respectivo Bureau do Turismo iria a partir desse momento dedicar-se à gestão distributiva do mesmo turismo.

Por outras palavras, o Bureau iria dedicar-se precisamente ao oposto da sua função original. Ou seja a sua nova função será o desencorajamento do turismo.

A nova alcaide de Amsterdão,  Femke Halsema, abriu e definiu várias frentes de urgente regulação; rigoroso regulamento para o Alojamento Local, forte limitação do turismo no red light district, novo regulamento limitativo para a navegação nos canais, etc.

A cidade de Amsterdão está, por falta de espaço e por um crescente número de pessoas a utilizarem este limitado espaço de forma autista, egocêntrica e anárquica, a ‘rebentar pelas costuras’.

Para especificar apenas através de um exemplo. O trânsito em Amsterdão é dominado pelas muitas centenas de milhares de ciclistas que circulam numa rede bem desenvolvida de ciclovias. Nos últimos anos, estas ciclovias foram também invadidas por scooters. Isto, e o facto de que estes ciclistas, motorizados ou não, frequentemente não respeitarem os sinais de trânsito, invadirem os passeios, e demonstrarem uma indiferença egocêntrica que põe em perigo permanente os peões (muitas tensões hostis entre habitantes e especialmente com turistas que não estão habituados às ‘regras’ arbitrárias da ‘roleta russa’) levou a situação a um ponto de ruptura. Assim foi estabelecido que a partir de 8 de Abril não seria permitido às scooters circularem nas ciclovias e seria obrigatório o uso de capacete, estabelecendo-se um período de tolerância de dois meses. O problema é que, sem fiscalização, quase ninguém respeita as regras pois Amsterdão, durante o ciclo neoliberal de privatização e de desconstrução das instituições centrais do Estado, fechou muitas esquadras de polícia.

Quando os efeitos múltiplos destes fenómenos resultantes de uma conjugacão de factores globalizadores (turismo de massa tornado possível pelo low-cost flying,  falta de espaço, destruição da identidade e autenticidade local através de uma actividade monofuncional, expulsão dos habitantes locais devido a uma espiral especulativa, etc.) atingem o ponto de uma ‘tempestade perfeita’, aí, como em Veneza, torna-se impossível negar o crescer da irritação e da hostilidade dos habitantes e as tensões tornam-se bem visíveis e explícitas.

Neste ponto de malaise a atitude liberal de laissez faire, laissez passer torna-se insustentável do ponto de vista político e as autarquias são confrontadas com um crescente cepticismo por parte dos habitantes locais que se sentem cada vez menos representados nas suas ansiedades e desesperam com a ausência de uma autoridade central reguladora e de referência estimulante de pedagogia democrática.

Em Democracia, ‘A Sua Liberdade Termina Quando Começa a do Outro’.

As cidades são também ecosistemas e portanto não podem comportar o conceito de crescimento ilimitado. A salvaguarda dos equilíbrios da civilitas na ecologia urbana precisa de uma regulação e vigilância permanente por parte de uma autoridade central responsável e portadora de uma visão estratégica.

O nosso futuro vai ser de forma crescente dominado pelo desafio ecológico e pelas alterações climáticas. Nesta perspectiva, o crescimento do turismo de massas e do low-cost flying não é só insustentável mas é profundamente criminoso.

Portanto não é de espantar que a implementação de impostos nos bilhetes e no combustível no transporte aéreo é urgentemente necessária e inevitável.

A Europa vai reunir-se sobre esta questão em Junho.

Historiador de Arquitectura

Donald Trump to land in UK amid rising anger over trade demands / The Guardian view on Trump’s state visit: the president is not welcome / Trump trip II: No happy ending for May





Donald Trump to land in UK amid rising anger over trade demands

US ambassador’s suggestion that NHS should be ‘on the table’ in future negotiations sparks alarm

Jessica Elgot and Patrick Wintour
Sun 2 Jun 2019 22.30 BST Last modified on Mon 3 Jun 2019 05.20 BST

Donald Trump will land in the UK on Monday amid anger over comments made by his ambassador suggesting the NHS should be “on the table” in future trade negotiations.

His visit also came as cabinet ministers vying for the Tory leadership suggested they could tear up plans for the Chinese tech giant Huawei to build parts of the UK’s 5G network, after the ambassador, Woody Johnson, warned it was “a big risk”.

Trump, who will meet the Queen at Buckingham Palace on the first day of his state visit, will be met by thousands of protesters in London the following day during a visit packed with pomp, pageantry and controversy that has seen numerous calls for its cancellation.

Johnson stoked opposition on Sunday after suggesting the UK would need to allow US agricultural products, including chlorinated chicken, on to the UK market as part of any post-Brexit trade deal, as well as US private sector involvement in the NHS.

The administration is said to see the visit as an opportunity for a “reset moment” on trade, with Theresa May set to formally resign on Friday.

Addressing the prospect of a transatlantic trade deal, Trump told reporters before leaving the US: “(We’re) going to the UK. I think it’ll be very important. It certainly will be very interesting. There’s a lot going on in the UK. And I’m sure it’s going to work out very well for them.

“As you know, they want to do trade with the United States, and I think there’s an opportunity for a very big trade deal at some point in the near future. And we’ll see how that works out.”

May called the visit “a significant week for the special relationship and an opportunity to further strengthen our already close partnership”. She stressed the need to build closer trading ties.

“We are the largest investors in each other’s economies and our strong trading relationship and close business links create jobs, opportunities and wealth for our citizens,” she said, adding that the government was looking forward to “building on the strong and enduring ties between our countries”.

Trump, who has endorsed the Tory leadership frontrunner Boris Johnson, had been a vocal critic of the prime minister’s proposed Brexit deal, which would have kept a customs arrangement with the EU for free movement of goods, which the US believed would scupper any comprehensive deal.

 Woody Johnson, US ambassador.
Facebook Twitter Pinterest  Woody Johnson, US ambassador: ‘I think the entire economy, in a trade deal, all things that are traded would be on the table.’ Photograph: HANDOUT/Reuters
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The health secretary, Matt Hancock, became the first leadership contender to explicitly rule out any trade deal that put the NHS on the table.

“I love our NHS – it’s been there for me and my family when we have needed it most, and I want to make sure it is always there for all families,” he said ahead of the president’s arrival. “So I have a clear message: the NHS is not for sale and it will not be on the table in any future trade talks.”

The US ambassador, who is a close friend of the US president, said every area of the UK economy would be up for discussion when the two sides brokered a trade deal.

Asked if the NHS was likely to form part of trade negotiations, he told the BBC’s Andrew Marr Show: “I think the entire economy, in a trade deal, all things that are traded would be on the table.” Asked if that specifically meant healthcare, he said: “I would think so.”

His comments prompted an alarmed reaction from opposition politicians. The shadow health secretary, Jon Ashworth, said the comments were deeply concerning.

“The ambassador’s comments are terrifying and show that a real consequence of a no-deal Brexit, followed by a trade deal with Trump, will be our NHS up for sale. This absolutely should not be on the table,” he said. “Nigel Farage and the Tories want to rip apart our publicly-funded and provided NHS. Labour will always defend it.”

Johnson was also pressed on whether the US would seek a loosening of agricultural standards, including the importation of chlorinated chicken. He said the products should be offered to British consumers who could decide whether to buy them.

“There will have to be some deal where you give the British people a choice,” he said. “American products can come over … but if the British people like it, they can buy it; if they don’t like it, they don’t have to buy it.”

In his Sunday interview, the US ambassador also issued a veiled warning to May’s successor over the involvement of Huawei in UK infrastructure, saying he would “caution” the British government not to make any rushed decisions.

The highly controversial decision is reported to have been given the go-ahead after a tense national security meeting where May had the casting vote to allow Huawei to build “non-core” parts of the network, despite cabinet opposition. The defence secretary Gavin Williamson was sacked for leaking details of the meeting.

Speaking to CBS, the foreign secretary, Jeremy Hunt, underlined the growing UK government doubts about Huawei being given access to UK 5G networks.

He said that China “have said they want to have an 80% market share of telecoms technology and in other areas like artificial intelligence, they want a 90% market share by 2025 … And we have to ask as western countries whether it’s wise to allow one country to have such a commanding monopoly in the technologies that we’re all of us going to be depending on.”

He added that the UK would “never take a decision that affected our intelligence-sharing capability with the United States”.

Sajid Javid, who is also running to be Tory leader, said he would oppose Huawei’s involvement in the network. “I would not want any company, whatever country it is from, that has this high degree of control by a foreign government, to have access to our very sensitive telecommunications network,” he said.

Other topics likely to be on the president’s agenda will include the Middle East peace plan, set out in meetings with British officials by Jared Kushner, Trump’s son-in-law and architect of the so-called “deal of the century”, though the UK is likely to warn the plan needs more emphasis on political rights for Palestinians.

The Trump team are also likely to probe Downing Street to see if, once outside the EU, the UK might support US economic sanctions to force Tehran to reopen the nuclear deal. The US has hopes that a Boris Johnson premiership might back Trump’s approach.

Trump will be accompanied by his wife Melania and his four adult children for the three-day visit. He will attend a state banquet at Buckingham Palace with May and the Queen on Monday. The Labour leader, Jeremy Corbyn,, the Commons Speaker, John Bercow, and the Lib Dem leader, Sir Vince Cable, have declined invitations to attend.

Trump is expected to meet May for formal talks in Downing Street on Tuesday and on Wednesday will travel to Portsmouth for the 75th anniversary of the D-day landings at Southsea Common, alongside over 300 D-day veterans and other world leaders.

The Stop Trump coalition said it was expecting huge crowds at its demonstration on Tuesday, after an estimated 250,000 people protested during Trump’s last visit. A giant inflatable Trump baby blimp, last seen when it was flown at his previous trip in June 2018, will fly again on Tuesday.

The protests have been backed by a senior Church of England bishop, who suggested Christian followers of Trump in the US were misinterpreting the faith. Paul Bayes, the bishop of Liverpool, said Trump’s populist way of doing politics was “toxic and dangerous”.

He said: “I don’t agree with him, I think he’s mistaken in many of his policies, and I think that the Christians who identify with him, especially in the US, are not properly responding to what our Christian faith says they should do.”


 The Guardian view on Trump’s state visit: the president is not welcome
Editorial
Hobnobbing with the royals will boost the president’s ego. But this is not the greatest danger of rolling out the red carpet now

Sun 2 Jun 2019 18.50 BST Last modified on Sun 2 Jun 2019 22.00 BST
https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/jun/02/the-guardian-view-on-trumps-state-visit-the-president-is-not-welcome


Two and a half years after Theresa May rushed to become the first world leader to meet the newly inaugurated President Trump in Washington, she has chosen to make a state visit that should not be taking place the final act of her premiership. While the prime minister’s poor political judgment and obstinacy have been hallmarks of her three years in office, the spectacle of the next three days will make a particularly awful ending. Mr Trump is only the third US president ever to be honoured with a state visit, the others being George W Bush and Barack Obama. Inviting him in the first place was a crass error. Following through in the midst of the UK’s current political crisis is an act of gross irresponsibility.

That’s because, though such visits are symbolic occasions, there is more at stake here than pomp and circumstance. Mr Trump is a demagogue who represents a threat to peace, democracy and the climate of our planet. As elected leader of the UK’s closest ally, he can’t be ignored. But making him, his wife and four adult children the honoured guests of the Queen risks legitimising his destructive policies, his cronyism and his leanings towards autocracy.

Mr Trump’s vanity is a joke to his detractors – and the target of the Trump Baby balloon that is set to fly over London again this week. His power makes his personality a legitimate source of fascination. But the greatest danger of the visit, which will see the president meet royals at Buckingham Palace, St James’s Palace and Clarence House as well as at the D-day 75th anniversary commemorations in Portsmouth, is not that it will boost his ego. The more serious threat to the host nation is that Mr Trump’s presence and public statements will boost anti-democratic and rightwing populist elements here.

Indeed, this has already happened. Mr Trump’s suggestion that Nigel Farage should be involved in future negotiations with the EU was widely reported. So were his declaration of support for no-deal-supporting Boris Johnson in the Conservative leadership contest, and his advice against paying the EU’s divorce bill. Before the official visit has even begun, and four days prior to a byelection in which the Brexit party aims to win its first parliamentary seat, Mr Farage has been gifted an endorsement from the most powerful man in the world – while diplomatic norms have once again been trashed.

For the government of a nation in the throes of what threatens to become a full-blown constitutional crisis to invite such irresponsible interference is a form of national self-harm. But the harm caused by the choice to indulge Mr Trump will ripple beyond our shores too. Last week’s comments by special counsel Robert Mueller reignited debate over whether the president should face impeachment. House leader Nancy Pelosi has so far opposed this. Some have interpreted Mr Mueller’s remarks as a message that she should reconsider. Meanwhile, Mr Trump’s widening of his trade war from China to Mexico – with the threat of new tariffs – set international nerves jangling, and Louisiana became the latest state to dramatically restrict abortion, ramping up the threat to women’s reproductive rights that Mr Trump has enabled.

It is incumbent upon Mrs May and others to challenge him directly – or risk appearing to give the assault on women’s rights, and bullying of neighbouring states, a seal of approval. The climate emergency should be on every agenda – including Prince Charles’s. The protesters, whom police have wrongly barred from the entrance to Downing Street, are justifiably angry. So is London’s mayor, Sadiq Khan, whom Mr Trump has previously insulted, and who hit back on Saturday in the strongest terms. Others will rightly add their voices in the coming days to the chorus of disapproval against this costly and destructive jamboree.


 Trump trip II: No happy ending for May
Preparations for state visit now in ‘disaster management’ territory, UK official says.

By          TOM MCTAGUE, GABRIELLA ORR AND RYM MOMTAZ     6/1/19, 5:06 PM CET Updated 6/2/19, 11:19 PM CET

U.S. President Donald Trump (left) and British Prime Minister Theresa May hold a joint press conference following their meeting at Chequers on July 13, 2018 | Brendan Smialowski/AFP via Getty Images

LONDON — Theresa May has been liberated, but don’t expect a "Love Actually" moment with Donald Trump.

Having finally raised the white flag in her battle to extricate Britain from the European Union before she leaves office, the U.K. prime minister has a final duty to perform: hosting the U.S. president.


Trump's visit has been long in the making — conceived during May’s first trip to Washington as prime minister back in 2016 when she was riding high in the polls and was the first world leader to visit the Trump White House.

Trump has already made one visit to the U.K. as U.S. president, in July last year, when he attracted widespread protests and was involved in an unseemly row over whether he kept Queen Elizabeth waiting. But this is his first trip to be classed as a "state visit," involving extra pomp and pageantry.

Despite the uneasy relationship that has developed between the U.S. leader and the British prime minister, May had been looking forward to the visit, senior U.K. officials familiar with her preparations told POLITICO. It was a chance to put the special relationship back on a firmer footing amid growing signs of disinterest in Washington.

Yet, since May’s forced resignation announcement, planning for the visit is now in “disaster management” territory, according to one official close to the prime minister. With Brexit unresolved and the Conservative Party leadership race already exploding into life ahead of May's official end date of June 7, the Trump visit could hardly be more badly timed.

Even before setting off, Trump waded into British domestic politics. He expressed admiration for Brexit Party leader Nigel Farage and Boris Johnson, who is aiming to replace May as Tory leader and prime minister. They are both “very good guys” and “very interesting people,” Trump told reporters. He doubled down with vocal backing for Johnson in an interview just ahead of the trip.

Once on British soil, will Trump boost Johnson's leadership credentials further or weigh in on May’s failures? Will the U.S. president use the opportunity to stoke the flames of populism many in the U.K. government believe are now engulfing Westminster and the U.K.’s relationship with Europe? British officials are ready for anything.

“The thing is, he is who he is and he is the type of president he is,” said a second aide close to the prime minister who wished to remain anonymous. “He will say what he will say. That is already built into expectations.”

“She will be perfectly comfortable speaking direct to him, but I wouldn’t expect a 'Love Actually' moment” — Aide to Theresa May

Yet, if that is the known unknown — in Rumsfeldian terminology — what of the other less-discussed question mark hanging over the trip: Is a liberated Theresa May any different to the one that went before?

Freed from some of the electoral concerns of office, will a transformed U.K. prime minister be on display — one more likely to challenge the U.S. president she may never see again?


“She’s already been pretty straight talking with him,” the second aide close to May said. “She will be perfectly comfortable speaking direct to him, but I wouldn’t expect a 'Love Actually' moment.”

In the sickly Richard Curtis flick, an offended British prime minister played by Hugh Grant finally loses his patience with an obnoxious U.S. president, portrayed by Billy Bob Thornton, humiliating his host. The mild-mannered British leader wins public affection for standing up to a bully in public.

Those close to May insist the chances of such a public outburst — whatever the provocation — are minimal, though they insist this does not mean the PM will not challenge the U.S. leader where she disagrees with him.

“Where we have slightly different views of how to achieve broadly similar aims, she’s just said them straight to him and that will be the same this time round,” the second aide said.

No. 10's spin doctors may hope that the media focus will be on the pageantry and historical context of the visit. Trump will be hosted by Queen Elizabeth for a state banquet on Monday evening after a private lunch with the monarch and a visit to Westminster Abbey. On Wednesday, May and Trump will attend a D-Day memorial event at Portsmouth Naval Base. The following day, they both head to Normandy for another D-Day 75th anniversary commemoration, hosted by French President Emmanuel Macron.

One item that will not be on Trump's agenda is an address to the British parliament — an opportunity afforded to at least two of the president's recent predecessors, Barack Obama and Bill Clinton.

The White House struggled to decide whether to request such an honor, according to two U.S. administration officials, but concluded it wasn’t worth the potential embarrassment of a rejection. That scenario seemed likely after John Bercow, the speaker of the House of Commons, declined to formally invite the U.S. leader to deliver remarks.

“A majority of the president’s advisers agreed that it would be better to limit [Trump’s] public remarks to his joint press conference [with May],” one of the officials said.

The trip will not be all pomp and no policy. Despite leaving office, the prime minister hopes to use the president's visit to align Britain and the U.S. more closely on a range of strategic issues, including the challenges posed to both countries by China, Russia and Iran, as well as talking global trade policy.

“The systems speak to each other all the time [on] different levels,” the second British aide said. “But having conversations face to face allows us to correct any misunderstandings, and we don’t know if it's the same message coming from the president.”

“The world doesn’t stand still to wait for us to sort out Brexit. And the issues with China, Iran, Russia are live and dynamic," the aide said. "Making sure we have a good relationship and a good understanding with our strongest and most important ally is incredibly important.”

Trump's last visit to France to mark Remembrance Day still looms large in French memories.

Britain shares the Trump administration’s assessment that China poses a potential strategic threat, but believes it is better to work with — rather than against — Beijing to encourage it to stick to a rules-based international order. The two allies' differences on China come into sharp focus in their approach to Chinese telecoms giant Huawei. Washington has warned the U.K. that if Huawei builds 5G networks in Britain, London could lose access to U.S. intelligence information.

The U.K. also takes a different line on Iran to the U.S. government, continuing to support the international deal meant to curb Tehran's nuclear program that Trump has abandoned. However, on Russia, it is the U.K. which has appealed for a tougher stance than many in Europe and the U.S.

For France, Trump's visit is a delicate balancing act between honoring its centurieslong alliance with the U.S. and standing its ground on increasingly contentious issues between the two countries such as trade, climate policy and Iran — ideally, without provoking a salvo of tweets.

The D-Day commemoration will be an opportunity to "recall that the U.S. is an unshakeable friend ... that it helped us remain an independent France just like we helped it 150 years prior to achieve its independence," said an Elysée Palace official.

The two presidents will honor the fallen at the Franco-American cemetery in Normandy before holding close to three hours of talks.

"Iran and trade will be the main course on the menu," said another Elysée official.

Like the U.K., France is sticking by the Iran nuclear deal. The official said France would encourage the U.S. to sign onto a common political strategy on Tehran "to be able to both respond to its legitimate concerns and at the same time not box ourselves into a confrontation."

Trump's last visit to France to mark World War I Remembrance Day still looms large in French memories. He attacked Macron via Twitter soon after arriving, shortly after leaving and again a few weeks later — a diplomatic assault by a U.S. president on his French counterpart described as "unprecedented" by the second Elysée official.

This time around, Trump has already taken a dig at Macron by claiming that the Yellow Jacket protest movement that erupted in France late last year over a carbon tax showed he had made the right call by pulling out of the Paris climate pact — an agreement staunchly defended by the French president.

A estratégia da extrema-direita para os media




GUERRA DE PROPAGANDA NA EUROPA
A estratégia da extrema-direita para os media

Uma investigação da revista austríaca Falter apresenta em detalhe as estratégias que os partidos da extrema-direita utilizam para obter o controlo dos meios de comunicação social e influenciar a opinião pública. Uma das principais constatações é a de que o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) é um modelo a seguir pela extrema-direita do resto da Europa. A avaliar pelos resultados das europeias, esta teia mediática parece estar a resultar. Este trabalho foi finalista do European Press Prize.

Nina Horaczek /Falter 2 de Junho de 2019, 6:23

Pegando mais uma vez num copo de vodka e Red Bull naquela noite fatídica na ilha de Ibiza, Heinz-Christian Strache, então líder do partido populista de direita austríaco FPÖ, disse: “De qualquer maneira, os jornalistas são as maiores putas do planeta”. No Verão de 2017, o principal rosto do FPÖ dizia a uma suposta sobrinha de um oligarca russo que queria construir uma teia mediática como aquela que o primeiro-ministro Viktor Orbán tinha erguido na Hungria. Strache aconselha a alegada sobrinha rica a entrar no capital do jornal diário austríaco de maior circulação, o Kronen Zeitung, para que, a partir desse título, o FPÖ pudesse ser levado até à liderança política do país. Em troca, e assim que o FPÖ vencesse as eleições e chegasse ao Governo com o seu apoio, Strache prometia à mulher russa que as empresas que ela viesse a criar receberiam grandes encomendas do sector público, como a construção de auto-estradas.

O chamado “vídeo de Ibiza” foi secretamente gravado em 2017 e dura mais de seis horas. Foi tornado público há duas semanas e por causa do seu conteúdo Strache, então vice-chanceler, foi obrigado a renunciar ao cargo, provocando também a queda do Governo austríaco, que era liderado por Sebastian Kurz (do Partido Popular, ÖVP). Para além da tempestade política que provocou, este vídeo põe a nu a conduta moral do populismo de direita, de uma forma que ainda não tinha sido vista na Áustria. Mas também revela como os populistas e extremistas de direita de toda a Europa estão a trabalhar numa estratégia de controlo hegemónico dos media dos seus países.

A presença de meios de comunicação social de extrema-direita está a tornar-se mais comum na Europa. A situação política em cada país pode ser diferente, mas a estratégia para dominar os media nacionais é surpreendentemente parecida: a partir da oposição política, construir uma máquina de propaganda na comunicação social disfarçada de “notícias alternativas”; após chegar ao governo, colocar os meios do serviço público sob controlo e condicionar os media independentes e críticos. Pode-se dividir esta estratégia em sete passos:

Primeiro passo
Construir o nosso próprio império de comunicação social 
Berlim, Jakob Kaiser-Haus, sala 6630. Por trás desta porta, num prédio anónimo na zona administrativa de Berlim, existe um estúdio de gravação do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland, AfD). É uma sala pequena, com uma parede divisória azul decorada com o símbolo da AfD, uma tela chroma key verde, uma câmara e projectores. Com a ajuda da equipa da AfD de Unter den Linden, é aqui que o partido pretende produzir as emissões noticiosas com as quais espera afastar os alemães das Tagesschau, os muito populares serviços públicos de notícias, e em seu lugar atraí-los para a AfD-News, fiel ao partido.

O equipamento para este assalto ao serviço público de notícias provém de Viena. Foi aí que Joachim Paul, deputado da AfD na Renânia-Palatinado, foi durante algum tempo o chamado “Madchen fur Alles” (“a rapariga faz-tudo”) do site de extrema-direita Unzensuriert.at, com sede num edifício de uma associação pan-germânica em Viena. Regressado à Alemanha, Paul lançou, para a AfD, o canal online AfD Rheinland-Pfalz. Agora, a AfD-News está a alargar-se a toda a Alemanha. Segue como modelo a FPÖ-TV, a emissão de Internet que o FPÖ, de extrema-direita, lançou na Áustria em 2012. Através da FPÖ-TV Direkt, o Partido da Liberdade começou recentemente a oferecer um programa noticioso para utilizadores de dispositivos móveis.

O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán implementou uma estratégia para os media muito antes. Depois de ter sido derrotado nas eleições legislativas em 2002, rapidamente encontrou um culpado: os media independentes, que tinham criticado demasiado o seu partido, o Fidesz (União Cívica Húngara). A partir da oposição, Orbán dedicou-se a construir para si meios de comunicação leais. Oligarcas ligados ao Fidesz tiveram um papel decisivo, adquirindo jornais independentes e emissoras privadas. Hoje, os seguidores do Fidesz dominam o mercado de comunicação húngaro. Um novo estudo levado a cabo pela investigadora e especialista de media húngara Agnes Urban mostra que, actualmente, 78% dos media na Hungria são controlados por Orbán. Nas eleições europeias, o partido do primeiro-ministro húngaro alcançou um dos melhores resultados a nível europeu, com 52% dos votantes a escolherem o Fidesz.

Não é uma surpresa que no “vídeo de Ibiza”, o então líder do FPÖ ambicionasse um sistema mediático como o de Orbán. Certo é que desde há muito que o FPÖ tem tentado fazer o mesmo na Áustria, tendo ao longo dos últimos dez anos investido em empresas de comunicação leais ao partido. “Tentámos tirar partido de uma certa necessidade comunicacional”, afirmou numa entrevista o ex-secretário-geral do partido, Herbert Kickl.

O Zur Zeit — desde há muito ligado à chamada imprensa azul (azul refere-se à extrema-direita) — é um semanário fundado em 1997 pelo dirigente do FPÖ Andreas Molzer. O jornal denunciou racialmente o futebolista David Alaba, insultou o fundador do Life Ball [evento anual em Viena para portadores de HIV/SIDA] Gery Keszler como sendo um “maricas profissional”, e recentemente apelou a que se retirasse o direito de voto a “grupos antinativos” e à “reintrodução de ‘workhouses’” [asilos para indigentes e trabalhadores forçados]. De acordo com um comunicado divulgado pelos editores do Zur Zeit duas semanas após a publicação desta notícia, o texto terá “escapado” para a edição “por engano”.

Por seu lado, a plataforma online Unzensuriert.at, que está muito ligada ao FPÖ e cujo director-executivo, Walter Asperl, é funcionário do grupo parlamentar do partido, incita contra muçulmanos, refugiados e homossexuais. A revista Info-Direkt, publicada no Norte da Áustria, é um ponto de encontro para os identitários e nacionalistas da extrema-direita e do FPÖ. Aí encontramos artigos como “Schluss mit dem Gutmenschenterror” (“Fim ao terror das pessoas boas”) ou “Der Informationskrieg beginnt jetzt” (“A guerra da informação começa agora”). O ano de 2016 foi aquele em que “o sistema dos media” foi “atingido e ferido”, diz a Info-Direkt. “Na guerra da informação, agora é a altura de atacar, de quebrar a opinião tradicional e do centro.” Os jornais de extrema-direita conseguiram alcançar este objectivo com a ajuda do FPÖ, que compra espaço de publicidade na Info-Direkt, com slogans como “Die Islamisierung gehört gestoppt” (“A islamização tem que ser travada”).

Existe uma ligação permanente entre meios de comunicação social austríacos e alemães. O editor-chefe da versão online da revista Wochenblick, publicada no norte da Áustria e também apoiante do FPÖ, trabalhou anteriormente para a Blaue Narzisse e para a Sezession, duas novas publicações de extrema-direita ligadas à AfD. Chris Ares, um rapper nacionalista da Alemanha (“Du mein Deutschland, Lied für Chemnitz” – “Tu, minha Alemanha, canção para Chemnitz”), é um identitário nacionalista alemão e colunista na Info-Direkt.

Na edição de 2016 do congresso Verteidiger Europas (Defensores da Europa), organizado na cidade austríaca de Linz por identitários nacionalistas, Jurgen Elsasser, editor-chefe da revista alemã Compact, foi um dos oradores. No congresso havia bancas que, para além da Compact e de anúncios ao site Unzensuriert.at, vendiam a Alles Roger? e a publicação de “rechtsintellektuelle” (“direita intelectual”) Sezession, cujo fundador, Gotz Kubitschek, esteve presente, chegando ao local com dez caixotes de revistas na bagageira do seu automóvel. Na mesma ocasião, a Info-Direkt entrevistou Paul Hampel, actualmente porta-voz para os Negócios Estrangeiros da AfD. Por seu lado, Manuel Ochsenreiter, um enérgico jornalista de extrema-direita alemão, discursou, na condição de “especialista no Médio Oriente”, sobre como a Síria é um país suficientemente seguro para se poder deportar pessoas para lá.

Em França, o Rassemblement National (RN) de Marine Le Pen — como a União Nacional (UN) agora se auto-intitula — está a seguir um caminho semelhante. No ano passado, o porta-voz para a imprensa da sobrinha de Le Pen, Marion Maréchal, fundou a L’Incorrect, uma luxuosa revista destinada a um público jovem. A linha editorial é clara: “Vamos espremer 1968!”

A L’Incorrect não é o único meio de comunicação sob a influência da UN de Le Pen. O alcance das publicações da extrema-direita, especialmente no seu formato online, chegou a uma tal ubiquidade em França que já foi cunhada uma expressão para a descrever: “fachosphère”, uma esfera fascista na Internet. Fdesouche, por exemplo, é uma abreviatura para François Desouche. Tal como o Unzensuriert.at, o site fdesouche incita abertamente contra emigrantes e outras minorias e tornou-se uma das plataformas mais populares da “fachosphère”. De acordo com o site de análise e pesquisa Alexa, em 2016 sete dos dez sites políticos da Internet mais lidos em França pertenciam à extrema-direita. Nas eleições europeias, a UN chegou aos 24,9% do total de votos, tornando-se no maior partido de França.

Uma das explicações para o sucesso de Le Pen pode estar no facto de em França a influência da extrema-direita se estender aos media conservadores tradicionais. O diário conservador Le Figaro, por exemplo, tem como colunista Éric Zemmour, uma das estrelas da direita, que Le Pen gostaria de ver no cargo de ministro da Cultura. Zemmour afirma publicamente que os empregadores têm o direito de rejeitar árabes ou negros, e disse à apresentadora de televisão francesa Hapsatou Sy, cuja mãe é originária do Senegal, que o seu nome próprio é “um insulto à França”.
Segundo passo
Inspirar medo através de notícias falsas
Os populistas de direita auxiliam-se mutuamente a nível internacional. A 20 de Março de 2018, pouco antes das eleições húngaras, a Duna Médiaszolgáltató, emissora de serviço público da Hungria, abordou a Alemanha. Numa reportagem televisiva, um homem na rua queixou-se que tinha sido obrigado a abandonar a sua casa porque se tinham instalado emigrantes no seu bairro; uma mulher disse que Hamburgo estava tão perigosa que apenas saía de sua casa armada com uma lata de gás-mostarda.   

Mas os entrevistados eram, afinal, dirigentes da AfD. A fraude foi exposta por Márta Orosz, uma jornalista húngara a trabalhar no Correctiv, um centro de investigação e pesquisa na Alemanha. Orosz indicou pelo menos sete ocasiões em que políticos da AfD tinham falado na televisão estatal húngara sem terem mencionado a sua filiação partidária.

Orosz trabalhara como correspondente na Alemanha para os canais estatais húngaros. Mas quando o seu editor em Budapeste fez cortes numa reportagem sua sobre as eleições alemãs de 2017, nomeadamente a parte de que “nas fileiras da AfD também se incluem extremistas de direita”, demitiu-se.

No início de 2016, outro canal de televisão estatal húngaro, o M1, emitiu imagens de violência sexual na Praça Tahrir, no Cairo, de 2012 como sendo gravações dos incidentes da passagem de ano em Colónia. Em Junho desse ano, os húngaros ficaram a saber, através das emissoras públicas, que a cidade alemã de Essen tinha-se renomeado como “Fasten” (Jejum), devido ao mês muçulmano do Ramadão. Esta história tinha sido efectivamente publicada na Alemanha, mas numa plataforma satírica.

Os editores de media franceses de extrema-direita também olham para o exterior. Em Outubro de 2018 surgiu uma reportagem na revista L’Incorrect, ligada à UN, sobre as “dramáticas” condições em Viena, que estava tão “globalizada” que em determinadas áreas já não se falava alemão. “Bem-vindos à segunda maior cidade turca a seguir a Istambul!” era a manchete da L’Incorrect acerca do Mercado Viktor Adler, na zona de Favoriten. “À nossa volta, mulheres de hijab empurram os seus carrinhos de bebé.” Na Hungria, por seu lado, “o Sol brilha até no Outono”. Porque o país “é tudo menos uma terrível ditadura, ao contrário do que afirmam os media ocidentais”.

Já os meios de comunicação social de direita da Áustria noticiam que os húngaros a viver na Alemanha ou na Suécia fugiram desses países “devido à emigração em massa” (no site Unzensuriert.at) ou que Angela Merkel é “louca pela emigração” (Info-Direkt).

Terceiro passo
Difamar quem nos critica
Antoni Szpak é acusado de ter insultado o povo polaco. Quando o presidente da República, Andrej Duda, agradeceu ao fundador da ultrarreligiosa estação de rádio católica Rádio Maria pelo seu apoio ao partido no poder, PiS, o humorista Szpak comentou que “apenas num país estúpido e tacanho pode surgir uma tal paranoia”. Por causa deste comentário, o procurador do Ministério Público “quer levá-lo a tribunal por ter insultado o povo polaco”, escreveu o diário alemão Süddeutsche Zeitung.

O Estado polaco também está a perseguir o conhecido jornalista Tomasz Piatek, colunista da Gazeta Wyborcza. Este publicou um conceituado livro acerca de ligações perigosas e suspeitas entre o ministro da Defesa, Antoni Macierewicz, a Máfia russa e os serviços secretos. Agora o gabinete do procurador das Forças Armadas está a investigar se Piatek não terá atacado o ministro da Defesa. Enquanto está a ser ameaçado com perseguição em tribunal no seu país natal, Piatek recebeu o prestigiado Prémio Leipzig para a liberdade e o futuro dos media, na Alemanha. “Apesar das cada vez mais difíceis condições para os jornalistas, Tomasz Piatek não fica intimidado pelas ameaças ao seu trabalho de investigação”, explicou o júri.

Na Hungria, as campanhas eleitorais recorrem a golpes baixos. “Orbán quer quebrar o meu espírito”, afirmou Gábor Vona, então presidente do partido húngaro de extrema-direita Jobbik, que concorria contra Orbán, para impedir a maioria absoluta deste. Os meios de comunicação social ligados ao Fidesz espalharam o rumor de que Vona era homossexual para tentar condicionar os eleitores conservadores, que dificilmente apoiariam um candidato gay, especialmente nas zonas rurais.

Por outro lado, os jornalistas que criticam demasiado Orbán e a sua equipa acabam em listas negras. Em Abril de 2018, o jornal húngaro pró-Fidesz Magyar Idok publicou os nomes de alegados jornalistas antigovernamentais, incluindo numerosos correspondentes estrangeiros. E sob o título “Os empregados do especulador”, o semanário Fygyelo publicou os nomes de 200 alegados “mercenários” ao serviço do multimilionário norte-americano de origem húngara George Soros. Na lista surgiam também os editores do portal noticioso Direkt36.hu, que tinha anteriormente revelado acusações de corrupção no governo de Orbán.

Uma “rede Soros” foi também identificada na Áustria pela revista Alles Roger?, dada a teorias da conspiração e ligada ao FPÖ. Os supostos cabecilhas desta rede são o ex-chanceler e líder do Partido Social-Democrata Christian Kern, o presidente Alexander Van Der Bellen, o ex-chanceler Wolfgang Schüssel, do partido conservador (ÖVP), bem como músicos de esquerda, activistas de direitos humanos, media liberais e até banqueiros.

Na mesma edição, na qual a Alles Roger? colocou o “plano secreto de Soros” na capa, Herbert Kickl (FPÖ), que era na altura ministro do Interior, concedeu uma entrevista, e o seu ministério tinha aí comprado um espaço de publicidade a pedir candidatos para ingresso na polícia.

Quarto passo
Usar o Facebook como amplificador!
Os novos media de extrema-direita funcionam melhor em combinação com o Facebook. Quando o ex-líder do FPÖ Heinz-Christian Strache partilhava um post do Unzensuriert.at, da Wochenblick ou de uma página da mesma tendência política, essa mensagem alcançava quase 800 mil seguidores no Facebook.

O pingue-pongue virtual de partilha de temas funciona muito bem em interacção com os chamados “jornais de boulevard” — diários populares vendidos na rua. Numa entrevista à revista mensal Fleisch, o editor-chefe do maior site tablóide austríaco, o Krone.at, Richard Schmitt afirmou há alguns anos: “Estamos empenhados num combate com media da extrema-direita, com o Unzensuriert.at. e outros sites.” Mas também confirma que as suas notícias online beneficiavam do grande alcance do ex-líder do FPÖ no Facebook: “Se Strache partilha uma qualquer notícia normal nossa no Facebook, isso aumenta a nossa penetração em 150%. E o mesmo acontece no sentido contrário, obviamente, ele também obtém mais tráfego quando partilhamos os posts dele.”

Esta estratégia também é seguida por outros partidos de extrema-direita. A dirigente do RN francês, Marine Le Pen, tem 1,5 milhões de seguidores no Facebook; o ministro do Interior de Itália e dirigente da LEGA (Liga Norte), Matteo Salvini, tem 3 milhões de seguidores. Salvini concentra a estratégia online da sua LEGA no Facebook. O anterior jornal diário do partido, La Padania, foi descontinuado em 2014; a Rádio Padania da LEGA emite apenas online. Tudo passa pela página do seu líder no Facebook.

No Facebook Salvini faz discursos de cariz político enquanto a sua filha de 4 anos entra e sai da imagem; o ministro do Interior da LEGA salta para uma piscina de uma mansão da máfia que acabou de ser confiscada pela polícia; ou então Salvini diz aos seus 3 milhões de fãs via mensagem de vídeo: “São vocês que me pagam o salário. Apenas tenho que prestar contas a vocês.”

O líder da LEGA fala menos cordialmente sobre os jornalistas. Em 2013, o Corriere della Sera citou-o como tendo dito que o seu partido ia “dar um bom pontapé em alguns desses jornalistas manhosos e sem espinha”. Os eleitores parecem atraídos por este tipo de discurso truculento. Nas últimas europeias, Salvini obteve 34,9% do total de votos e tornou-se no maior partido de Itália.  

Salvini, amigo íntimo do FPÖ, vai ainda mais longe, propagandeando as virtudes do mundo paralelo e “alternativo” dos media de extrema-direita. Strache, ex-líder do FPÖ, foi orador convidado na Quarta-feira de Cinzas Política da AfD na Baviera, Alemanha, em 2017: “Não importa qual é o jornal que compro, não interessa qual o canal de televisão que ligo, a cobertura é igual.” Disse ainda que percebia por que razão cada vez mais pessoas preferem os “media alternativos”.

Quinto passo
Colocar pressão sobre a liberdade de imprensa
Na Alemanha, a AfD exclui sistematicamente jornalistas da agenda do partido, por estes serem demasiado críticos, segundo o ponto de vista da AfD. Repórteres do Frankfurter Allgemeine Zeitung, da Der Spiegel e das emissoras públicas ARD e ZDF têm sido impedidos de fazer o seu trabalho. Os líderes da AfD também não gostam de ser criticados no espectro dos meios de comunicação social da extrema-direita. Devido a uma cobertura abertamente crítica da AfD, foi decidido, no início de Janeiro de 2017, num encontro de partidos europeus de extrema-direita que teve lugar na Alemanha, que a revista de direita Compact deveria “por favor, manter-se afastada”. 

Na Áustria, na noite das eleições regionais de Viena em 2015, a repórteres da revista Falter foram proibidos de entrar na tenda do FPÖ. O secretário-geral do partido, Herbert Kickl, explicou que liberdade de imprensa significa que o FPÖ selecciona quais os jornalistas que podem cobrir as suas actividades eleitorais. Quando Kickl se tornou ministro do Interior da Áustria (cargo de que foi demitido na sequência do escândalo do “vídeo de Ibiza” envolvendo Strache), nomeou o ex-chefe do site Unzensuriert.at, Alexander Hoferl, para director de comunicação do ministério. A sua interpretação de liberdade de imprensa ficou clara num email de serviço, no qual o porta-voz do ministério pedia que a polícia apenas fornecesse o mínimo de informação legalmente exigido aos meios de comunicação “críticos”: o Standard, o Kurier e a Falter.

Sexto passo
Adquirir uma “rádio pública”
Na Hungria e na Polónia, os populistas de direita forçaram os canais públicos a seguir a linha do partido após este ter chegado ao poder. Jornalistas críticos deram por si despedidos e postos na rua, e em seu lugar colocados membros leais do partido, outros rapidamente elevados aos lugares de executivos. Pessoas como Daniel Papp fizeram carreira assim. O antigo porta-voz para a imprensa do partido de extrema-direita Jobbik tornou-se recentemente director da rádio estatal húngara. Em 2011, tinha chegado às páginas dos jornais por ter falsificado uma notícia acerca de Daniel Cohn-Bendit, político dos Verdes e crítico de Orbán. A reportagem de Papp indicava que quando Cohn-Bendit fora questionado numa conferência de imprensa sobre se os abusos sexuais a crianças eram um direito fundamental na Europa, este teria abandonado a sala em silêncio. O certo é que o político dos Verdes respondeu à questão detalhadamente.

Desde que Orbán reestruturou os meios de comunicação social estatais, todas as notícias para os canais públicos provêm da agência noticiosa estatal MTI. Assim, a diversidade de conteúdos e perspectivas é excluída à partida.

Para além disso, a MTI disponibiliza os seus conteúdos sem custos aos canais privados húngaros. Nesta situação, tanto ganham as emissoras comerciais como o governo. Os canais privados poupam nas despesas ao não necessitarem de ter uma redacção própria, e o governo pode espalhar a sua propaganda.

Quando, na Primavera de 2017, mais de 50 mil pessoas protestaram de forma pacífica em Varsóvia contra a reforma judicial planeada pelo partido no poder, PiS, que iria retirar competências aos órgãos judiciais independentes, a televisão estatal denegriu os acontecimentos. Falou de “agressão e má educação” nas ruas de Varsóvia; que os manifestantes eram “defensoras de pedófilos”; avisou sobre um “possível golpe de Estado da oposição”; alertou que os “amigos de Soros” estavam “a tentar derrubar o governo polaco”; e que a revolta nas ruas era “uma tentativa de trazer emigrantes islâmicos para a Polónia”.   

O que já está totalmente implementado na Hungria e na Polónia — onde, em vez de serviço público há canais de propaganda do governo — está apenas a começar a acontecer na Áustria e na Itália.

Desde Outubro passado, a RAI, a radiotelevisão pública de Itália, tem um novo patrão, Marcello Foa. O sindicato de media italianos FNSI considerou esta decisão “um golpe mortal na independência e gestão autónoma do serviço público de rádio e televisão”. Foa é amigo do dirigente da LEGA, Salvini, e mantém uma boa relação com os populistas do Movimento Cinco Estrelas, que governa o país em coligação com a Liga Norte. Foa atraiu a atenção do público no passado, quando, no seu blogue Il Giornale, descreveu os gays como “anormais”, as vacinas para as crianças como sendo “perigosas”, e os denominados meios de comunicação tradicionais como “mentirosos”. O jornal liberal-conservador La Stampa definiu o novo patrão da RAI como “um apoiante de Putin, apoiante de Salvini, e tudo menos moderado”. A direcção e a administração da RAI sofreram, entretanto, várias alterações.

Os populistas do Movimento Cinco Estrelas aplaudiram o anúncio destas mudanças. “Estamos agora a embarcar numa verdadeira revolução cultural na RAI, de forma a livrar-nos dos parasitas”, rejubilou o vice-primeiro-ministro italiano, Luigi Di Maio.

Na Áustria, o serviço público de radiotelevisão também estava para ser reestruturado. Quando o FPÖ ainda estava no governo, tencionava financiar a ORF directamente através do Orçamento do Estado — pelo que o então o director da ORF teria que ir todos os anos bater à porta do governo a pedir financiamento, situação que levaria à perda de independência. O plano falhou porque o governo austríaco caiu prematuramente.

Sétimo passo
Destruir financeiramente quem nos critica
Até à Primavera de 2016, o Gazeta Wyborcza era lido e apreciado nos tribunais polacos. O diário de referência é um dos jornais de maior circulação no país. Mas assim que os populistas de direita do PiS chegaram ao poder, o ministério da Justiça ordenou aos tribunais que cancelassem as assinaturas do Wyborcza. Pouco depois, outros ministérios tomaram a mesma decisão.

Simultaneamente, o Wyborcza deixou de receber publicidade de empresas ligadas ao Estado. Depois foram as empresas privadas que já não se atreviam a comprar publicidade no jornal. É do conhecimento público que nenhum contrato governamental é atribuído a empresas que tenham ligações com media críticos. Devido a estas perdas financeiras, o Wyborcza despediu jornalistas.

Na Hungria, o maior jornal diário independente, o Népszabadság, foi adquirido por uma empresa detida por um apoiante de Orbán e depois simplesmente encerrado. Com a compra da editora que publicava o Népszabadság, os apoiantes de Orbán conseguiam retirar de cena um jornal fortemente crítico. A editora também detinha a propriedade de uma dúzia de jornais regionais, populares nas zonas rurais. Os editores destes jornais locais foram rapidamente substituídos por jornalistas favoráveis ao governo. O impacto destas medidas ficou demonstrado no ano passado, quando um portal online publicou a primeira página de todos esses jornais regionais no mesmo dia. Todos tinham nela a mesma fotografia de Orbán, com um artigo idêntico.

Depois, na Primavera de 2018, o diário independente Magyar Nemzet também desapareceu. Este título, fundado em 1938, sobrevivera à ocupação nazi na clandestinidade, bem como à censura do regime comunista. Quando Lajos Simicska, empresário húngaro e proprietário do jornal, se desentendeu com Orbán, em 2015, o Magyar Nemzet tornou-se uma das principais vozes críticas do regime no país. Após Orbán ter ganho as eleições parlamentares pela terceira vez na Primavera de 2018, Simicska deixou de financiar o jornal.

Por sua vez, o serviço de notícias online húngaro Origo não foi fechado, mas reformulado. Em Junho de 2014, o editor-chefe desta plataforma noticiosa de grande sucesso soube da sua demissão. “Medidas de reestruturação” foi a razão que a empresa proprietária, uma subsidiária húngara da German Telekom, deu para justificar a sua demissão. O Origo tinha publicado anteriormente provas de que políticos de topo do Fidesz ficavam em hotéis de luxo pagos com o dinheiro dos contribuintes.

Hoje, os conteúdos do Origo são muito diferentes. Por exemplo, um vídeo mostra uma mulher idosa numa igreja a ser atacada aos gritos de “Allahu akbar!” (“Alá é Grande!”). O título era: “Europa 2017 — Queremos mesmo isto?” Como demonstrou a revista independente HVG, o vídeo não era de um ataque muçulmano na Europa, mas de um assalto numa igreja norte-americana dois anos antes. O vídeo foi visto centenas de milhares de vezes e ainda está online, apesar de ser uma farsa deliberada.

Na Polónia, os meios de comunicação social mantêm uma maior diversidade porque vários jornais são propriedade de editoras estrangeiras. Mas mesmo aí o governo polaco está a preparar grandes alterações. Em Julho de 2018, a deputada Krystyna Pawlowicz, do PiS, citada pela Gazeta Wyborcza, anunciou em frente a um grupo de media independentes no Parlamento polaco: “Depois das férias de Verão, finalmente vamos tratar de vocês”. Não foi ainda tornada pública qualquer lei nesse sentido, mas os jornais independentes poderão em breve ser obrigados a limitar a quota de acções na posse de investidores estrangeiros.

A política para a comunicação social também se alterou na Áustria durante a estada do FPÖ no poder. Em vez dos media críticos e independentes, subitamente foram extremistas de direita anteriormente desconhecidos como a Wochenblick ou a Alles Roger? que começaram a receber verbas de publicidade estatal. A ORF, pública, exibiu o ex-vice-chanceler Strache a fortalecer os seus músculos num ginásio e o ex-ministro dos Transportes, Norbert Hofer, a subir aos céus num avião privado.

Os eleitores do FPÖ nem sequer culparam o ex-líder do FPÖ, Heinz-Christian Strache, por dizer abertamente no “vídeo de Ibiza” que ambicionava restringir a liberdade de imprensa. Nem mesmo o facto de querer usar oligarcas russos para influenciar a linha editorial do maior jornal diário da Áustria deixou os simpatizantes do partido irritados. É verdade que Strache teve que renunciar ao cargo de vice-chanceler por causa daquele vídeo. Mas nas eleições europeias que aconteceram apenas uma semana depois do escândalo rebentar, o seu FPÖ recolheu 17,2% dos votos. E o próprio Strache, apesar de estar em último lugar na lista do partido, recebeu tantos votos preferenciais que tem agora direito a um mandato como eurodeputado.

Nota: Este artigo, originalmente publicado na revista austríaca Falter, foi elaborado como parte do “Europe’s Far Right” (Extrema-Direita na Europa), um trabalho de investigação que começou na Primavera de 2018 em Berlim e que actualmente engloba cinco países europeus. A Falter é o parceiro austríaco desta rede. Os parceiros individuais deste projecto são: HVG, revista semanal independente da Hungria; Libération Links, do jornal diário liberal sedeado em Paris; taz Deutschlands linke, do jornal diário sedeado em Berlim; Gazeta Wyborcza, jornal diário independente da Polónia. Este texto foi finalista do European Press Prize, cujos vencedores foram conhecidos no dia 23 de Maio, tendo sido actualizado expressamente para o P2 em função do resultado das eleições para o Parlamento Europeu, bem como de outros acontecimentos relevantes para a manutenção da sua actualidade.

Tradução: Eurico Monchique

sábado, 1 de junho de 2019

Populismo em Portugal: um gigante adormecido


Populismo em Portugal: um gigante adormecido
01.06.2019 às 11h27

https://expresso.pt/sondagens/2019-06-01-Populismo-em-Portugal-um-gigante-adormecido

Para que seja consequente, o populismo depende não apenas de uma procura social, que em Portugal claramente existe, mas também de uma oferta política e de oportunidades. Por outras palavras, precisa de ser "activado” politicamente.

PEDRO MAGALHÃES

Procuremos, mesmo que seja apenas por alguns minutos, não sucumbir à tentação de usar a palavra “populista” pejorativamente. Tomemos também em conta o facto de que, enquanto o uso do termo se expandiu com significados cada vez mais indeterminados no comentário político, existe, pelo contrário, uma tendência na academia para crescentes convergência e rigor na definição do termo. Quem estiver interessado em medir, junto da opinião pública, a prevalência de atitudes “populistas”, como o poderá fazer?

Em 2014, Cas Mudde, um dos mais conhecidos especialistas do tema, propôs e testou, num trabalho realizado com Agnes Akkerman e Andrej Zaslove, um conjunto de questões a colocar em inquéritos de opinião com o objetivo de medir atitudes populistas entre a população. Primeiro, é preciso começar por definir “populismo”. Para Mudde, trata-se de uma “ideologia que considera que a sociedade está, em última análise, dividida entre dois grupos homogéneos e em antagonismo, o povo ‘puro’ e a elite ‘corrupta’, e onde a política deveria ser a expressão da ‘vontade geral’ do povo”. Dito de outra forma, o populista tende a imaginar um povo homogéneo e virtuoso, envolvido num conflito moral com uma elite também homogénea, mas na sua perversidade. Isto tem duas implicações. Por um lado, o populista olha com ceticismo para o pluralismo de interesses e preferências entre a população e para tudo o que, nas democracias representativas, foi engendrado para o gerir – instituições e regras que impõem limites à hegemonia de uma única ideia e obrigam a cedências e compromissos. Por outro, encara a “classe política” com hostilidade, recusando a divisão de tarefas entre representados (o povo) e os representantes (os políticos) e desconfiando da ideia de que os segundos agem primariamente segundo a vontade dos primeiros.

Deste ponto de vista, quem partilha atitudes “populistas” em Portugal? Muita, muita gente, segundo os resultados da Sondagem ICS/ISCTE. Questionados sobre se concordam com a frase “As diferenças políticas entre a elite e o povo são maiores que as diferenças políticas que existem no povo”, 73% concordam ou concordam totalmente, enquanto 58% fazem o mesmo em relação à ideia de que “em política, aquilo a que se chama ‘chegar a um compromisso’ significa na verdade abdicar dos próprios princípios”. Em suma, para maiorias expressivas dos portugueses, a principal divisão na sociedade é entre “elites” e “povo” e o compromisso político é uma falha moral. Já no que toca às atitudes em relação à própria classe política, as maiorias também são claras: as decisões mais importantes deveriam ser tomadas pelo povo e não pelos políticos (63% concordam), aos deputados cabe seguir a vontade desse povo (84% concordam), os portugueses preferiam ser representados por um cidadão comum em vez de um político profissional (60% concordam) e, claro, “os políticos falam de mais e fazem de menos” (86% concordam). Conjugadas as respostas a todas estas perguntas numa única escala, cerca de metade dos inquiridos concordam com todas as seis afirmações. No extremo oposto, em 802 inquiridos, apenas 2 (dois) discordam de todas elas.

Mas o mais interessante sobre o caso português não é bem isso. Em vários países do mundo esta bateria de perguntas tem sido aplicada com resultados não muito diferentes dos encontrados entre países como, por exemplo, Grécia, Itália, ou Polónia. A diferença aparece quando se procura determinar o perfil sociológico e político dos eleitores “populistas”. Quem são, e como votam? Sociologicamente, em estudos realizados em países como a Bélgica ou a Grécia, as atitudes populistas parecem ser particularmente intensas entre indivíduos com menor instrução e baixo rendimento — aparentemente apoiando teorias que colocam os reais ou potenciais “perdedores da globalização” como principais portadores desse ideário. Outros estudos mostram ainda que é entre os mais inquietos com a situação económica que as atitudes populistas prevalecem. Em países como Holanda, Itália, Espanha, França ou Grécia, a concordância em inquéritos com as questões apresentadas acima está também correlacionada com a propensão para apoiar determinados partidos, de esquerda ou de direita, dependendo dos casos. E em Portugal? Quando procuramos determinar que tipo de perfis políticos e sociológicos estão associados à partilha destas ideias, os resultados são completamente frustrantes. Homens vs. mulheres, urbano vs. rural, grupos de simpatia partidária, níveis de instrução, situações e atividades profissionais, perceções sobre o estado da economia, posicionamentos ideológicos ou em relação à integração europeia: as diferenças com relevância estatística são poucas, e todas elas de magnitude muito reduzida. Somos todos igualmente “populistas”.

Se pensarmos bem, é possível que não haja grande mistério nisto. Para que seja consequente, o populismo depende não apenas de uma procura social, que em Portugal claramente existe, mas também de uma oferta política e de oportunidades. Por outras palavras, precisa de ser “ativado” politicamente. Em todos os outros países que mencionei anteriormente, líderes e partidos adotaram um discurso populista em torno de temas concretos e salientes para determinados segmentos do eleitorado em determinados momentos. Sem isso, o populismo permanece social e politicamente difuso. Ao mesmo tempo, o sucesso dessa ativação aumenta quando uma sociedade está a passar por situações de crise reais (economia, escândalos políticos) ou imaginadas (“ondas de crime”, “invasões de refugiados”). O momento português atual também nisto não parece particularmente favorável. Usando uma imagem batida nestes assuntos, mas particularmente propícia, o populismo em Portugal é um gigante, mas um gigante adormecido. Por enquanto.