quinta-feira, 4 de agosto de 2022

O violento embate entre Governo e Endesa em dez assaltos

 



OPINIÃO

O violento embate entre Governo e Endesa em dez assaltos

 

Se as críticas do Governo a Nuno Ribeiro da Silva são compreensíveis, o despacho de retaliação assinado por António Costa é absolutamente inaceitável.

 

João Miguel Tavares

4 de Agosto de 2022, 0:31

https://www.publico.pt/2022/08/04/opiniao/opiniao/violento-embate-governo-endesa-dez-assaltos-2016076

 

1. A entrevista do presidente da Endesa Portugal ao programa Conversa Capital foi um desastre. Não se pontapeiam aumentos de 40% para o pinhal sem a devida justificação. Ora, Nuno Ribeiro da Silva não explicou a lógica daquele número, nem a Endesa explicou porque é que a factura da luz iria ter aumentos de tamanha magnitude já a partir deste mês.

 

 

2. Aquilo que a Endesa fez, após a polémica entrevista, foi enviar um comunicado para as redacções a garantir que a empresa vai “manter os preços contratuais com os seus clientes residenciais em Portugal até ao final do ano” e que “cumprirá os compromissos estabelecidos no quadro regulatório português e no mecanismo ibérico”. Ora, um comunicado a explicar que os contratos serão mantidos e que os compromissos serão cumpridos é um não-comunicado.

 

 

3. Donde, ninguém percebeu qual foi a intenção de Nuno Ribeiro da Silva. Ele acusou o Governo de “empurrar com a barriga a questão até ela se manifestar”, o que não custa a acreditar que seja verdade – essa é uma boa definição dos governos de António Costa. Mas para evitar saídas de sendeiro, convém estar à altura dos rugidos de leão.

 

4. Nuno Ribeiro da Silva não esteve. E não será por inexperiência: ele foi político durante mais de uma década (1985-1996), tendo sido inclusivamente secretário de Estado da Energia entre 1986 e 1991, durante os governos de Cavaco Silva. Deveria ser sensível ao peso das palavras.

 

5. A questão da energia é um tema no qual é muito fácil atacar o Governo, mas em que, neste momento, ele só merece ser atacado com críticas precisas e fundamentadas. Os actuais preços do gás, da luz ou dos combustíveis são uma consequência directa da guerra da Ucrânia, na qual o Governo não mete prego nem estopa e em relação à qual todos devemos ser solidários. É o pior dos campos para censuras populistas e alarmismos abstractos.

 

6. Se as críticas do Governo a Nuno Ribeiro da Silva são compreensíveis, o despacho de retaliação assinado por António Costa é absolutamente inaceitável.

 

7. A razão pela qual a expressão de Jorge Coelho “quem se mete com o PS leva” se tornou tão popular, apesar de proferida há mais de duas décadas, é porque ano após ano, Governo após Governo, o PS faz questão de demonstrar a sua veracidade. A apatia guterrista foi uma vacina para a vida. Desde 2005, o PS não perde uma oportunidade para exercer a sua autoridade e mostrar quem manda, ainda que de forma totalmente despudorada.

 

8. Se aquele despacho não é ilegal, devia ser. É um ataque frontal a uma única empresa, por delito de opinião do seu presidente. Ameaça a Endesa com o não pagamento de facturas no sector do Estado e insta os serviços públicos a procurarem “novos prestadores de serviços que mantenham práticas comerciais adequadas” – como se não fosse essa a prática habitual.

 

9. Pior: o despacho confunde ostensivamente o Governo com o Estado, e é esse desrespeito contínuo pela sua autonomia que transforma o funcionalismo público numa colónia partidária, com os resultados miseráveis que qualquer pessoa pode testemunhar sempre que é obrigada a recorrer aos serviços públicos em Portugal.

 

10. Se o tempo do secretário de Estado da Energia pode ser despendido a aprovar facturas, há certamente quem faça o mesmo serviço muito mais barato. Seguindo a lógica do seu despacho, talvez António Costa deva “proceder cautelarmente” a novas consultas no mercado dos secretários de Estado, para evitar a repetição desta lamentável farsa.

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