OPINIÃO
O violento embate entre Governo e Endesa em dez assaltos
Se as críticas do Governo a Nuno Ribeiro da Silva são
compreensíveis, o despacho de retaliação assinado por António Costa é
absolutamente inaceitável.
João Miguel
Tavares
4 de Agosto de
2022, 0:31
1. A entrevista
do presidente da Endesa Portugal ao programa Conversa Capital foi um desastre.
Não se pontapeiam aumentos de 40% para o pinhal sem a devida justificação. Ora,
Nuno Ribeiro da Silva não explicou a lógica daquele número, nem a Endesa
explicou porque é que a factura da luz iria ter aumentos de tamanha magnitude
já a partir deste mês.
2. Aquilo que a
Endesa fez, após a polémica entrevista, foi enviar um comunicado para as
redacções a garantir que a empresa vai “manter os preços contratuais com os
seus clientes residenciais em Portugal até ao final do ano” e que “cumprirá os
compromissos estabelecidos no quadro regulatório português e no mecanismo
ibérico”. Ora, um comunicado a explicar que os contratos serão mantidos e que
os compromissos serão cumpridos é um não-comunicado.
3. Donde, ninguém
percebeu qual foi a intenção de Nuno Ribeiro da Silva. Ele acusou o Governo de
“empurrar com a barriga a questão até ela se manifestar”, o que não custa a
acreditar que seja verdade – essa é uma boa definição dos governos de António
Costa. Mas para evitar saídas de sendeiro, convém estar à altura dos rugidos de
leão.
4. Nuno Ribeiro
da Silva não esteve. E não será por inexperiência: ele foi político durante
mais de uma década (1985-1996), tendo sido inclusivamente secretário de Estado
da Energia entre 1986 e 1991, durante os governos de Cavaco Silva. Deveria ser
sensível ao peso das palavras.
5. A questão da
energia é um tema no qual é muito fácil atacar o Governo, mas em que, neste
momento, ele só merece ser atacado com críticas precisas e fundamentadas. Os
actuais preços do gás, da luz ou dos combustíveis são uma consequência directa
da guerra da Ucrânia, na qual o Governo não mete prego nem estopa e em relação
à qual todos devemos ser solidários. É o pior dos campos para censuras populistas
e alarmismos abstractos.
6. Se as críticas
do Governo a Nuno Ribeiro da Silva são compreensíveis, o despacho de retaliação
assinado por António Costa é absolutamente inaceitável.
7. A razão pela
qual a expressão de Jorge Coelho “quem se mete com o PS leva” se tornou tão
popular, apesar de proferida há mais de duas décadas, é porque ano após ano,
Governo após Governo, o PS faz questão de demonstrar a sua veracidade. A apatia
guterrista foi uma vacina para a vida. Desde 2005, o PS não perde uma oportunidade
para exercer a sua autoridade e mostrar quem manda, ainda que de forma
totalmente despudorada.
8. Se aquele
despacho não é ilegal, devia ser. É um ataque frontal a uma única empresa, por
delito de opinião do seu presidente. Ameaça a Endesa com o não pagamento de
facturas no sector do Estado e insta os serviços públicos a procurarem “novos
prestadores de serviços que mantenham práticas comerciais adequadas” – como se
não fosse essa a prática habitual.
9. Pior: o
despacho confunde ostensivamente o Governo com o Estado, e é esse desrespeito
contínuo pela sua autonomia que transforma o funcionalismo público numa colónia
partidária, com os resultados miseráveis que qualquer pessoa pode testemunhar
sempre que é obrigada a recorrer aos serviços públicos em Portugal.
10. Se o tempo do
secretário de Estado da Energia pode ser despendido a aprovar facturas, há
certamente quem faça o mesmo serviço muito mais barato. Seguindo a lógica do
seu despacho, talvez António Costa deva “proceder cautelarmente” a novas
consultas no mercado dos secretários de Estado, para evitar a repetição desta
lamentável farsa.


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