A rã na panela (que já está a ferver)
João Correia
Não tenhamos ilusões quanto ao facto de que travar as
emissões de carbono para a atmosfera vai requerer sacrifícios pesados a um
segmento da humanidade cuja maior dificuldade que enfrentou nos últimos anos
foi prescindir dos sacos de plástico descartáveis e passar a usar palhinhas de
papel.
2 de Agosto de
2022, 12:24
https://www.publico.pt/2022/08/02/azul/opiniao/ra-panela-ja-ferver-2015781
Está quase a
completar-se um ano desde a publicação do artigo “A rã na panela”, que me valeu
o muito simpático convite para ser orador na Conferência de Natal Ciência Viva.
Quase 52 greves de Greta à sexta-feira depois, tivemos a (recente) Conferência
dos Oceanos promovida pelas Nações Unidas em Lisboa, durante a qual quase sete
mil delegados debateram formas de proteger os oceanos, que são o coração da
máquina que regula o clima do planeta. Adorava dizer que foram feitos enormes
progressos durante esta última volta ao Sol, mas todos sabemos que o nariz me
iria crescer até derrubar o monitor de computador que tenho à frente.
Sou o primeiro a
admitir que, nesta matéria, oscilo entre o optimismo moderado e o pessimismo
exacerbado. Por um lado, vemos soluções tecnologicamente cada vez mais
avançadas no domínio do hidrogénio, que se afirma progressivamente como a
solução mais robusta no combate à nossa colossal pegada de carbono.
Curiosamente, é a China que lidera esse processo, enquanto a América do Norte
continua teimosamente agarrada à queima de combustíveis fósseis.
Por outro lado, à
beira de chegarmos ao quarto deste século ainda temos um coro de vozes que
clamam que nada disto merece a relevância que os “cientistas” lhe dão porque se
tratam, afinal de contas, de fenómenos cíclicos e as últimas ondas de calor que
assolaram o nosso continente não são, de forma alguma, as primeiras que
enfrentámos. Mas muitas das metas recentemente ultrapassadas, como no Reino
Unido, foram efectivamente inéditas, como os 40 graus que esta ilha – sem ares
condicionados – saboreou pela primeira vez e múltiplos outros recordes.
Como explicar a
estas almas que uma concentração de dióxido de carbono na atmosfera superior a
410 ppm (partes por milhão) é algo que nunca ocorreu nas dezenas de milhares de
anos ao longo dos quais a nossa espécie tem percorrido os montes, vales e
planícies deste planeta? Mas será assim tão difícil aceitar a correlação entre
esse aumento de 47% no último século e o efeito acumulado da actividade
industrial da espécie humana? Como pode uma mente com o mínimo de lucidez achar
que as duas coisas são uma coincidência?
Proponho um teste simples: deixem um carro a trabalhar no
interior da garagem do vosso prédio durante dez minutos e digam se o ambiente
fica agradável. Agora imaginem mil e quinhentos milhões de carros, camiões,
aviões, navios, fábricas e motores de combustão variados a trabalharem há 150
anos. Para onde foram esses gases?
E que dizer aos
teimosos que pintam essa mesma actividade cíclica histórica como
negligenciável, face à grandiosidade da natureza? Talvez os devamos lembrar que
os clorofluorcarbonetos (CFC) que tínhamos nos sprays desodorizantes, lacas e
afins abriram um buraco épico na camada de ozono em poucas décadas. Podíamos
ainda lembrar que as frotas de pesca industrial do planeta provocaram reduções
nos principais stocks de peixes em muitos casos na ordem dos 80% (ou mais),
como é o caso dos atuns, espadarte, bacalhau e tubarões. E não esqueçamos a
percentagem da imensa floresta amazónica que já foi perdida, particularmente no
reinado bolsonarista, com relatos mais austeros a falarem em 17%.
Então tentemos
raciocinar um pouco: se ninguém duvida dos efeitos perturbadores – à escala
planetária – anteriores, que estão mais do que documentados e à vista da miopia
mais traiçoeira, como é que alguém ainda tem coragem de afirmar que um século e
meio a retirar carbono que esteve alojado na crosta terrestre e a mandá-lo para
uma atmosfera finíssima não tem impacto nenhum num sistema tão delicado como o
que regula o clima terrestre?
Proponho um teste
simples: deixem um carro a trabalhar no interior da garagem do vosso prédio
durante dez minutos e digam se o ambiente fica agradável. Agora imaginem mil e
quinhentos milhões de carros, camiões, aviões, navios, fábricas e motores de
combustão variados a trabalharem há 150 anos. Para onde foram esses gases? Dica:
não foram para o espaço; ficaram todos cá e foram-se acumulando por cima das
nossas cabeças, aquecendo a nossa panela lenta e gradualmente.
Surpreender-vos-á
aprender que a diferença entre o deserto do Sara e a floresta amazónica é de
dois ou três graus centígrados? Ambos têm temperaturas similares, mas com uma
diferença significativa, que é a quantidade de água em cada um. O primeiro tem
árvores e vegetação variada, com as camadas de folhas superiores a
disponibilizarem sombra às inferiores, o que ajuda a reter humidade. Mas basta
aumentar o termómetro dois ou três graus e as folhas superiores secam, definham
e deixam de fazer sombra, o que provoca um efeito bola de neve que culmina na
ausência de água e desertificação de um espaço numa questão de décadas, ou
menos.
Já o vimos em
diversas partes do planeta e estamos a observá-lo na Amazónia, mas mesmo assim
continuamos a achar que estes fenómenos são lentos e temos muito tempo para
resolver isto antes que se torne um problema sério. Mas não temos. As mentes
mais brilhantes andam a dizê-lo há décadas e nós a ignorá-las.
Os habitantes das
ilhas remotas do Pacífico sabem-no bem, porque perdem território para o mar
anualmente. Não falta mesmo nada para que os seus países desapareçam sob um mar
que não pára de subir, porque o gelo terrestre do Árctico e a Antárctida não
páram de derreter e água não pára de se expandir.
Mas nós, aqui na
Europa e América do Norte, continuamos a assobiar para o lado, precisamente
porque o problema está muito distante. Sim, levámos com quase 50 graus há uns
dias e isso assustou-nos. Mas já voltámos a ter de levar um casaquinho quando
vamos jantar, por isso está tudo bem. Em Washington D.C. também se torra
durante o dia quando se anda ao sol, mas há sempre uma loja ou escritório de ar
condicionado tão gelado que temos de vestir uma sweatshirt quanto entramos.
O próprio
Presidente Joe Biden tinha prometido tomar medidas decisivas para acalmar o fim
do mundo que se avizinha, esperando que a China e Índia lhe seguissem o
exemplo, mas índices de popularidade cada vez menores, e falta de apoio
político, levam-no a focar-se noutros aspectos que o levem a ser reeleito.
Ironicamente, são os países asiáticos que, cada vez mais, apontam o caminho e
não o contrário.
Ou seja, as
dificuldades que enfrentamos no Velho e Novo Mundo não se comparam com as que
países como a Síria, Somália e Iémen vivem. Nesses sítios, que conhecem secas
tão profundas que levaram a êxodos em massa, as crianças roem os dedos de tanta
fome. Aqui temos incêndios, que são cada vez mais devastadores, como vimos em
Pedrógão Grande há cinco anos, ou na Austrália há dois. Mas, no mundo
ocidental, os incêndios são apagados e a vida continua, apesar da devastação
(física, financeira e emocional) que deixam para trás. Também temos seca, mas
uma fila de camiões-cisterna dos bombeiros resolve esse problema. Mas há sítios
no mundo que ardem até já não terem nada para além de pedra. Há sítios onde
ninguém vai lá levar cisternas cheias de água.
Doravante
precisaremos de fazer mais; infinitamente mais. Usar transportes públicos em
vez de privados é só o início. É imprescindível reduzir o consumo de energia e
garantir que a produção desta não envolve transferir (mais) carbono do solo
para o céu. É urgente reduzir (e muito) o consumo de água. Reduzir o consumo de
tudo, ponto.
Nesses sítios não
há o luxo de votar em candidatos que sejam contra ou a favor das ciclovias,
como em Lisboa, onde a última eleição autárquica se focou nesse ponto e todos
vimos como acabou. Ainda me recordo do desconforto que senti ao ler cartazes
com frases como “Vamos devolver Lisboa aos automobilistas”, que mais valia
dizerem “Vamos aumentar o lume na panela…”
Posso acrescentar
que, antigamente, os almoços de domingo da minha família (ribatejana) eram
pautados pelo quentíssimo (ironicamente…) tema “touradas”, sendo eu o único a
defender o fim de uma prática tão flagrantemente abominável cuja proibição
imediata devia ser evidente para além de qualquer argumentação. Hoje em dia sou
o chato que defende as ciclovias, porque precisamos de tirar carros
particulares das cidades e apostar no transporte público. Mesmo que isso
diminua o número de faixas da Av. Almirante Reis [em Lisboa] e dificulte o
tráfego, até ao momento glorioso em que já não lá poderão circular veículos
particulares, como vai sucedendo em cada vez mais capitais.
Não tenhamos
ilusões quanto ao facto de que travar as emissões de carbono para a atmosfera
vai requerer sacrifícios pesados a um segmento da humanidade cuja maior
dificuldade que enfrentou nos últimos anos foi prescindir dos sacos de plástico
descartáveis e passar a usar palhinhas de papel, de integridade tão precária
que raramente aguentam – sem colapsar – duas horas de uma produção de
Hollywood. Doravante precisaremos de fazer mais; infinitamente mais. Usar
transportes públicos em vez de privados é só o início. É imprescindível reduzir
o consumo de energia e garantir que a produção desta não envolve transferir
(mais) carbono do solo para o céu. É urgente reduzir (e muito) o consumo de
água. Reduzir o consumo de tudo, ponto.
Temo-nos safado –
à grande e à francesa – de torturas deste género, porque é o resto do mundo que
as está a sofrer por nós e sem qualquer escolha. Nós ainda vamos podendo fazer
escolhas, mas isso não irá durar para sempre.
A pergunta de um
milhão de dólares é se vamos esperar por um futuro distópico em que estas
concessões nos serão impostas sob lei marcial, para garantir a sobrevivência da
humanidade, ou se teremos o juízo que demonstrámos quando foi hora de
prescindir dos CFC para salvarmos o buraco do ozono, que está felizmente a
regredir.
Foi um dos
momentos mais decisivos da nossa história colectiva e passou despercebido à
maioria da população. Tal como em tantas outras ocasiões, a ciência deu-nos uma
solução, que nos salvou não só das chuvas ácidas, mas, também, de um aumento
estratosférico na taxa de melanomas a nível global, entre tantos outros
problemas. A ciência já nos apontou caminhos que travam a taxa a que
transferimos carbono do solo para o ar. Resta ver se vamos ouvir as (muitas)
vozes que nos tentam meter juízo na cabeça, ou se vamos continuar a ser surdos,
cegos e mudos.
Como pai de uma
criança de três anos, a minha escolha foi feita muitos anos ainda antes do seu
nascimento. Mas eu sou um dos privilegiados que compõe um terço da população do
planeta que pode fazer escolhas. Os outros dois terços lutam diariamente com
essa falta de escolha, enquanto os filhos lhes morrem nos braços, de sede, fome
e calor.
Já estava na hora
de deixarmos de pôr likes nos seus pedidos suplicantes e tomarmos medidas
efectivas que aliviem o sofrimento em que vivem porque, quanto mais temos, mais
lhes tiramos.
Temos de ter
menos. Temos de ser menos.

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