sábado, 4 de junho de 2022

Nós, os auto-móveis

 



CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

Nós, os auto-móveis

 

António Guerreiro

3 de Junho de 2022, 10:00

https://www.publico.pt/2022/06/03/culturaipsilon/cronica/automoveis-2008473

 

Uma polaridade política já sedimentada reemergiu com alguma força em Lisboa. Trata-se da oposição entre os que defendem a ampliação dos condicionamentos, nalgumas zonas da cidade, à circulação dos automóveis, e os que contestam essas medidas com o argumento de que elas servem apenas para satisfazer uma série de tendências fúteis que o ar do tempo promove de maneira irresponsável e demagógica, tais como deslocar-se nesse meio de transporte neo-freak que é a bicicleta. Não se trata da luta entre peões e automobilistas porque o mais comum é cada um de nós ser as duas coisas alternadamente e sabermos que isso é causa de uma esquizofrenia cheia de consequências. Esse esquizofrénico prolonga-se na hostilidade constitutiva do automobilista face a todos os outros que são seus pares, embora tendencialmente inimigos. O inferno é sempre o carro dos outros, a proliferação automóvel no exterior. Dentro da nossa carroceria estamos instalados numa bolha micro-climatizada.

 

Tal polaridade não se elimina através de consensos sobre o que, neste domínio, é razoável, necessário e pragmático, em função do presente e do futuro, porque há uma ideologia automobilista fortíssima cujo núcleo está inscrito desde logo no seu nome, que exalta o movimento próprio, inerente, livre, individualista, autónomo: desejamos ser auto-móveis e a condição da mobilidade é a aceleração. Que o excesso de mobilidade proporcionado pela carroça automóvel tenha como sua consequência mais comum, nas grandes cidades, o engarrafamento, a imobilidade, a perda completa da autonomia, não altera em nada a ideologia automobilista porque as ideologias não soçobram face aos factos e entre elas e as experiências vividas há sempre um ecrã. Além disso, é preciso perceber que a ideologia do automobilismo coincide inteiramente com a ideologia neoliberal, que exige dos seres que eles sejam auto-móveis, que se movam por si próprios para perseguir os bens, providenciar a auto-realização e obter o reconhecimento social que é um capital precioso para investir noutras auto-mobilidades. É a isso que se chama empreendedorismo. E não há nenhum verdadeiro empreendedor que não seja, acima de tudo, empreendedor de si próprio, isto é auto-empreendedor. Em suma: auto-móvel. E, dizendo isto, fico em dívida para com um economista e filósofo francês chamado Frédéric Lordon, que descreve os Idealtypen do neoliberalismo como “automobilistas alegres”, jubilantes, sempre em movimento.

 

Há países na Europa onde se formaram partidos de automobilistas. Com algum rigor, podemos dizer que são partidos populistas e reaccionários, já que devem a sua existência a um “povo” que reage. Mas o mais comum é que os automobilistas sejam defendidos por lobbies, como acontece em Portugal, e não por partidos. O lobby automóvel existe, é poderoso e acha que a automobilidade é tudo, exactamente ao contrário daquela associação francesa que tinha como slogan: “Tout, plutôt que l’automobile”. Sim, o ódio aos carros também existe e até sabe justificar muito racionalmente os seus motivos. De resto, já desde os anos 70 do século passado que se defende e profetiza o fim da era do automóvel, a “cultura automóvel”, digamos assim, já que a palavra “cultura” pode ser declinada com tudo e de todas as maneiras. Mas, tal como muitas outras certidões de óbito, também esta foi bastante precipitada e actualmente mais de 70% dos cidadãos ocupam individualmente cinco a dez metros quadrados do espaço público com as suas carrocerias metálicas. Há quem diga que os carros representam a obsolescência do humano, mas nada do que vemos e fazemos confirma este enunciado de tipo milenarista.

 

Os obstáculos erigidos localmente e temporariamente contra os automóveis correm o risco de ser como as medidas a que chamamos, em inglês, greenwasching. Talvez mais eficaz seria deixar os automobilistas completamente à vontade, até o engarrafamento se tornar permanente, a guerra civil entre automobilistas e peões radicalizar-se e o desejo de auto-mobilidade conduzir à paralisia absoluta.

 

Entretanto, chegam-nos notícias de que faltam componentes para o fabrico de automóveis e em certos casos já é preciso esperar mais de um ano para ter um carro novo. Há falta de carros novos, dizem os industriais. E se um deus ironista, desdenhando da ideologia automobilista, quisesse a obsolescência técnica dos automóveis, a seguir à obsolescência do homem?

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