CRÓNICA ACÇÃO
PARALELA
Nós, os auto-móveis
António Guerreiro
3 de Junho de
2022, 10:00
https://www.publico.pt/2022/06/03/culturaipsilon/cronica/automoveis-2008473
Uma polaridade
política já sedimentada reemergiu com alguma força em Lisboa. Trata-se da
oposição entre os que defendem a ampliação dos condicionamentos, nalgumas zonas
da cidade, à circulação dos automóveis, e os que contestam essas medidas com o
argumento de que elas servem apenas para satisfazer uma série de tendências
fúteis que o ar do tempo promove de maneira irresponsável e demagógica, tais
como deslocar-se nesse meio de transporte neo-freak que é a bicicleta. Não se
trata da luta entre peões e automobilistas porque o mais comum é cada um de nós
ser as duas coisas alternadamente e sabermos que isso é causa de uma
esquizofrenia cheia de consequências. Esse esquizofrénico prolonga-se na
hostilidade constitutiva do automobilista face a todos os outros que são seus
pares, embora tendencialmente inimigos. O inferno é sempre o carro dos outros,
a proliferação automóvel no exterior. Dentro da nossa carroceria estamos
instalados numa bolha micro-climatizada.
Tal polaridade
não se elimina através de consensos sobre o que, neste domínio, é razoável,
necessário e pragmático, em função do presente e do futuro, porque há uma
ideologia automobilista fortíssima cujo núcleo está inscrito desde logo no seu
nome, que exalta o movimento próprio, inerente, livre, individualista,
autónomo: desejamos ser auto-móveis e a condição da mobilidade é a aceleração.
Que o excesso de mobilidade proporcionado pela carroça automóvel tenha como sua
consequência mais comum, nas grandes cidades, o engarrafamento, a imobilidade,
a perda completa da autonomia, não altera em nada a ideologia automobilista
porque as ideologias não soçobram face aos factos e entre elas e as
experiências vividas há sempre um ecrã. Além disso, é preciso perceber que a
ideologia do automobilismo coincide inteiramente com a ideologia neoliberal,
que exige dos seres que eles sejam auto-móveis, que se movam por si próprios
para perseguir os bens, providenciar a auto-realização e obter o reconhecimento
social que é um capital precioso para investir noutras auto-mobilidades. É a
isso que se chama empreendedorismo. E não há nenhum verdadeiro empreendedor que
não seja, acima de tudo, empreendedor de si próprio, isto é auto-empreendedor.
Em suma: auto-móvel. E, dizendo isto, fico em dívida para com um economista e
filósofo francês chamado Frédéric Lordon, que descreve os Idealtypen do
neoliberalismo como “automobilistas alegres”, jubilantes, sempre em movimento.
Há países na
Europa onde se formaram partidos de automobilistas. Com algum rigor, podemos
dizer que são partidos populistas e reaccionários, já que devem a sua
existência a um “povo” que reage. Mas o mais comum é que os automobilistas
sejam defendidos por lobbies, como acontece em Portugal, e não por partidos. O
lobby automóvel existe, é poderoso e acha que a automobilidade é tudo,
exactamente ao contrário daquela associação francesa que tinha como slogan:
“Tout, plutôt que l’automobile”. Sim, o ódio aos carros também existe e até
sabe justificar muito racionalmente os seus motivos. De resto, já desde os anos
70 do século passado que se defende e profetiza o fim da era do automóvel, a
“cultura automóvel”, digamos assim, já que a palavra “cultura” pode ser
declinada com tudo e de todas as maneiras. Mas, tal como muitas outras
certidões de óbito, também esta foi bastante precipitada e actualmente mais de
70% dos cidadãos ocupam individualmente cinco a dez metros quadrados do espaço
público com as suas carrocerias metálicas. Há quem diga que os carros
representam a obsolescência do humano, mas nada do que vemos e fazemos confirma
este enunciado de tipo milenarista.
Os obstáculos
erigidos localmente e temporariamente contra os automóveis correm o risco de
ser como as medidas a que chamamos, em inglês, greenwasching. Talvez mais
eficaz seria deixar os automobilistas completamente à vontade, até o
engarrafamento se tornar permanente, a guerra civil entre automobilistas e
peões radicalizar-se e o desejo de auto-mobilidade conduzir à paralisia
absoluta.
Entretanto,
chegam-nos notícias de que faltam componentes para o fabrico de automóveis e em
certos casos já é preciso esperar mais de um ano para ter um carro novo. Há
falta de carros novos, dizem os industriais. E se um deus ironista, desdenhando
da ideologia automobilista, quisesse a obsolescência técnica dos automóveis, a
seguir à obsolescência do homem?


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