sábado, 4 de junho de 2022

Joana Vasconcelos quer ter um museu? Ela que o pague

 



OPINIÃO

Joana Vasconcelos quer ter um museu? Ela que o pague

 

Só mesmo num país parolo, com elites pouco alfabetizadas e sem qualquer respeito pelo dinheiro dos contribuintes é que pode medrar esta ideia absurda de pagar museus a artistas vivos.

 

João Miguel Tavares

3 de Junho de 2022, 23:56

https://www.publico.pt/2022/06/03/opiniao/opiniao/joana-vasconcelos-quer-museu-pague-2008810

 


Diga-me, caro leitor: já visitou o museu David Hockney? O museu Jeff Koons? O museu Cindy Sherman? O museu Damien Hirst? O museu Jasper Johns? Desconfio que não, por uma razão simples: esses museus não existem. São cinco dos maiores artistas contemporâneos. Estão todos vivos. As suas obras valem milhões. E, no entanto, nenhum deles está a ser disputado pela câmara de Londres ou de Nova Iorque para a construção de um museu na cidade. Porque será?

 

Mas sabem quem está a ser disputada para a construção de um novo museu em Lisboa ou em Oeiras? Joana Vasconcelos. Ficámos a saber pelo Expresso que Carlos Moedas e Isaltino Morais andam a cortejar a artista para acolher o futuro AMA – Ateliê Museu Aberto, um edifício que se pretende “localizado perto do rio Tejo” com o objectivo de “acolher o seu acervo”, e cuja construção se estima custar a modesta quantia de “entre 10 e 15 milhões de euros”.

 

Sejamos muito claros: só mesmo num país parolo, com elites pouco alfabetizadas e sem qualquer respeito pelo dinheiro dos contribuintes é que pode medrar esta ideia absurda de pagar museus a artistas vivos. Já tínhamos a Casa das Histórias de Paula Rego em Cascais. Agora preparamo-nos para ter o AMA de Joana Vasconcelos em Lisboa ou Oeiras. E, de seguida, teremos uma fila de artistas portugueses à porta das câmaras municipais por esse país fora, a dizer que se a Joana tem ele também merece, porque se um expôs em Versalhes, o outro expôs no Louvre.

 

De seguida, teremos uma fila de artistas portugueses à porta das câmaras municipais por esse país fora, a dizer que se a Joana tem ele também merece, porque se um expôs em Versalhes, o outro expôs no Louvre

 

Tudo está errado neste processo. A razão por que não se oferecem museus a artistas vivos é por se acreditar que é o tempo, e só o tempo, que decide o valor da obra, e não a popularidade do momento, ou a capacidade de insinuação junto do poder político. De artistas vivos fazem-se exposições temporárias. De artistas mortos, e bem mortos, fazem-se grandes museus. E para espaços intermédios existem os museus de arte contemporânea. Aquilo que não existe em nenhuma grande cidade é a oferenda de edifícios a artistas com uma carreira de 30 anos, como é o caso de Joana Vasconcelos, cujo valor da obra já é disputado no presente, e que ninguém faz patavina de ideia de quanto valerá daqui a 50 ou 100 anos.

 

Os artistas vivos têm ainda outra desvantagem: dão problemas. A Casa das Histórias de Paulo Rego tem dado muitos problemas em Cascais, e, em 2012, aquando da extinção pelo governo da fundação da pintora, correram rumores de que ela poderia levar o acervo para fora de Portugal. Aliás, se um artista é, de facto, internacionalmente relevante, os seus melhores trabalhos já não estão na sua posse, e os melhores que estão na sua posse são cedidos apenas a título de empréstimo, para proteger os interesses da família, exigindo intricados protocolos que são magníficos para promover conflitos futuros e duradouros entre o Estado e os verdadeiros donos da colecção, como se está a ver no museu Berardo.

 

A propósito desta pindérica competição pelo museu Joana Vasconcelos, o Expresso perguntou a Carlos Moedas pelo Museu das Descobertas. Resposta: “Está mais atrasado, até porque criou alguma celeuma junto da sociedade.” É extraordinário que um Museu das Descobertas, dos Descobrimentos, do Achamento ou do que quer que lhe queiram chamar esteja atrasado por causa da “celeuma”, mas já passar um cheque de 10 ou 15 milhões para Vasconcelos expor a sua obra não cause celeuma alguma. Joana Vasconcelos tem todo o direito a ter o seu museu, como é óbvio. Desde que o pague do seu próprio bolso.

 

O autor é colunista do PÚBLICO

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