OPINIÃO
Joana Vasconcelos quer ter um museu? Ela que o pague
Só mesmo num país parolo, com elites pouco alfabetizadas
e sem qualquer respeito pelo dinheiro dos contribuintes é que pode medrar esta
ideia absurda de pagar museus a artistas vivos.
João Miguel
Tavares
3 de Junho de
2022, 23:56
https://www.publico.pt/2022/06/03/opiniao/opiniao/joana-vasconcelos-quer-museu-pague-2008810
Diga-me, caro
leitor: já visitou o museu David Hockney? O museu Jeff Koons? O museu Cindy
Sherman? O museu Damien Hirst? O museu Jasper Johns? Desconfio que não, por uma
razão simples: esses museus não existem. São cinco dos maiores artistas
contemporâneos. Estão todos vivos. As suas obras valem milhões. E, no entanto,
nenhum deles está a ser disputado pela câmara de Londres ou de Nova Iorque para
a construção de um museu na cidade. Porque será?
Mas sabem quem
está a ser disputada para a construção de um novo museu em Lisboa ou em Oeiras?
Joana Vasconcelos. Ficámos a saber pelo Expresso que Carlos Moedas e Isaltino
Morais andam a cortejar a artista para acolher o futuro AMA – Ateliê Museu
Aberto, um edifício que se pretende “localizado perto do rio Tejo” com o
objectivo de “acolher o seu acervo”, e cuja construção se estima custar a modesta
quantia de “entre 10 e 15 milhões de euros”.
Sejamos muito
claros: só mesmo num país parolo, com elites pouco alfabetizadas e sem qualquer
respeito pelo dinheiro dos contribuintes é que pode medrar esta ideia absurda
de pagar museus a artistas vivos. Já tínhamos a Casa das Histórias de Paula
Rego em Cascais. Agora preparamo-nos para ter o AMA de Joana Vasconcelos em
Lisboa ou Oeiras. E, de seguida, teremos uma fila de artistas portugueses à
porta das câmaras municipais por esse país fora, a dizer que se a Joana tem ele
também merece, porque se um expôs em Versalhes, o outro expôs no Louvre.
De seguida, teremos uma fila de artistas portugueses à
porta das câmaras municipais por esse país fora, a dizer que se a Joana tem ele
também merece, porque se um expôs em Versalhes, o outro expôs no Louvre
Tudo está errado
neste processo. A razão por que não se oferecem museus a artistas vivos é por
se acreditar que é o tempo, e só o tempo, que decide o valor da obra, e não a
popularidade do momento, ou a capacidade de insinuação junto do poder político.
De artistas vivos fazem-se exposições temporárias. De artistas mortos, e bem
mortos, fazem-se grandes museus. E para espaços intermédios existem os museus
de arte contemporânea. Aquilo que não existe em nenhuma grande cidade é a
oferenda de edifícios a artistas com uma carreira de 30 anos, como é o caso de
Joana Vasconcelos, cujo valor da obra já é disputado no presente, e que ninguém
faz patavina de ideia de quanto valerá daqui a 50 ou 100 anos.
Os artistas vivos
têm ainda outra desvantagem: dão problemas. A Casa das Histórias de Paulo Rego
tem dado muitos problemas em Cascais, e, em 2012, aquando da extinção pelo
governo da fundação da pintora, correram rumores de que ela poderia levar o
acervo para fora de Portugal. Aliás, se um artista é, de facto, internacionalmente
relevante, os seus melhores trabalhos já não estão na sua posse, e os melhores
que estão na sua posse são cedidos apenas a título de empréstimo, para proteger
os interesses da família, exigindo intricados protocolos que são magníficos
para promover conflitos futuros e duradouros entre o Estado e os verdadeiros
donos da colecção, como se está a ver no museu Berardo.
A propósito desta
pindérica competição pelo museu Joana Vasconcelos, o Expresso perguntou a
Carlos Moedas pelo Museu das Descobertas. Resposta: “Está mais atrasado, até
porque criou alguma celeuma junto da sociedade.” É extraordinário que um Museu
das Descobertas, dos Descobrimentos, do Achamento ou do que quer que lhe
queiram chamar esteja atrasado por causa da “celeuma”, mas já passar um cheque
de 10 ou 15 milhões para Vasconcelos expor a sua obra não cause celeuma alguma.
Joana Vasconcelos tem todo o direito a ter o seu museu, como é óbvio. Desde que
o pague do seu próprio bolso.
O autor é
colunista do PÚBLICO



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