terça-feira, 2 de novembro de 2021

Rio e “Chicão” estão a envergonhar a democracia portuguesa

 



Rio e “Chicão” estão a envergonhar a democracia portuguesa

 

Não se vai para eleições nacionais a fugir de eleições partidárias. Ninguém vota em dois cobardes para tomar conta de um país.

 

João Miguel Tavares

2 de Novembro de 2021, 0:00

https://www.publico.pt/2021/11/02/politica/opiniao/rio-chicao-estao-envergonhar-democracia-portuguesa-1983246

 

Percebo a tentação – não consigo perceber a tentativa. A tentação nasce de uma frustração compreensível: Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos andam há anos a penar na oposição, e agora que têm finalmente uma hipótese séria de chegar ao poder, aparecem dois rivais para lhes tirar o pão da boca. É chato, sem dúvida – António José Seguro que o diga. Mas, apesar de muito chato e de muito frustrante, não há forma democraticamente aceitável de passar da tentação de manter o poder à tentativa de subverter as regras básicas de um partido político. Não há legitimidade externa sem legitimidade interna. Não se vai para eleições nacionais a fugir de eleições partidárias. Ninguém vota em dois cobardes para tomar conta de um país.

 

Ainda que em termos jurídicos seja possível argumentar que os mandatos de Rio e “Chicão”​ estão em vigor até Janeiro, e que por isso seria legítimo, com a cumplicidade dos conselhos nacionais, desmarcar congressos e adiar eleições até às legislativas; em termos políticos essa é uma opção totalmente absurda e um escancarado golpe palaciano – sobretudo a partir do momento que as eleições e os congressos estavam com data marcada e que havia rivais declarados para disputar a liderança. Paulo Rangel e Nuno Melo não caíram do céu após o chumbo do orçamento. Surgiram antes; estavam convencidos de que o orçamento passava; e não se propuseram deitar abaixo direcções de forma traiçoeira: apresentaram-se como candidatos legítimos à liderança dos seus partidos porque os mandatos de Rui Rio e de Francisco Rodrigues dos Santos estão no fim e têm de ser renovados.

 

Esta ideia estrambólica de que a democracia interna tem de ser suspensa a bem da democracia externa só convence oportunistas ou tontos Marcelo só tem um gesto a fazer: marcar eleições para 30 de Janeiro ou para 6 de Fevereiro de 2022

 

Assistir a Rui-banho-de-ética-Rio, em entrevista à SIC Notícias, com a boca cheia de “interesse nacional”, a garantir que os “portugueses não compreenderiam” que o PSD andasse internamente aos “tiros” nesta hora, apenas demonstra aquilo que já aqui disse muitas vezes: a cultura democrática de Rio tem mais buracos do que um queijo suíço. Ele chama “tiros para dentro” a eleições internas, e pergunta estrondosamente: “Quem é o meu adversário? É o dr. Paulo Rangel ou o dr. António Costa?” Eu ajudo na resposta: primeiro, é o dr. Paulo Rangel, e se o PSD e o país tiverem alguma sorte, nunca chegará a ser o dr. António Costa. Rio mente tão bem a si próprio que já acredita nas suas próprias mentiras. Convém repor a verdade: tal como acontece com Francisco Rodrigues dos Santos, Rui Rio não está a colocar os interesses do país à frente dos interesses do partido. Está apenas a colocar o seu interesse pessoal à frente de tudo o resto.

 

Quando aqueles partidos que nunca concordam sobre coisa alguma se entendem subitamente em torno de eleições no dia 16 de Janeiro, importa perceber o que é que isso significa. Rio e “Chicão”​ propõem o dia 16 porque acham que a data os ajuda a sobreviver internamente. PS, Bloco, PCP e Chega propõem o dia 16 porque querem muito que eles sobrevivam. O que é que há aqui de genuíno “interesse nacional”? Aproximadamente zero. Para o país, mais 15 dias ou menos 15 dias não faz diferença alguma. Para o PSD e para o CDS, faz toda a diferença.

 

Esta ideia estrambólica de que os interesses do país são contraditórios com os interesses do maior partido de oposição, e que a democracia interna tem de ser suspensa a bem da democracia externa, só convence oportunistas ou tontos. Não sendo Marcelo nem uma coisa nem outra, só tem um gesto a fazer: marcar eleições para 30 de Janeiro ou para 6 de Fevereiro de 2022.

Sem comentários: