Rio e “Chicão” estão a envergonhar a democracia
portuguesa
Não se vai para eleições nacionais a fugir de eleições
partidárias. Ninguém vota em dois cobardes para tomar conta de um país.
João Miguel
Tavares
2 de Novembro de
2021, 0:00
Percebo a
tentação – não consigo perceber a tentativa. A tentação nasce de uma frustração
compreensível: Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos andam há anos a penar
na oposição, e agora que têm finalmente uma hipótese séria de chegar ao poder,
aparecem dois rivais para lhes tirar o pão da boca. É chato, sem dúvida –
António José Seguro que o diga. Mas, apesar de muito chato e de muito
frustrante, não há forma democraticamente aceitável de passar da tentação de
manter o poder à tentativa de subverter as regras básicas de um partido
político. Não há legitimidade externa sem legitimidade interna. Não se vai para
eleições nacionais a fugir de eleições partidárias. Ninguém vota em dois
cobardes para tomar conta de um país.
Ainda que em
termos jurídicos seja possível argumentar que os mandatos de Rio e “Chicão”
estão em vigor até Janeiro, e que por isso seria legítimo, com a cumplicidade
dos conselhos nacionais, desmarcar congressos e adiar eleições até às
legislativas; em termos políticos essa é uma opção totalmente absurda e um
escancarado golpe palaciano – sobretudo a partir do momento que as eleições e
os congressos estavam com data marcada e que havia rivais declarados para
disputar a liderança. Paulo Rangel e Nuno Melo não caíram do céu após o chumbo
do orçamento. Surgiram antes; estavam convencidos de que o orçamento passava; e
não se propuseram deitar abaixo direcções de forma traiçoeira: apresentaram-se
como candidatos legítimos à liderança dos seus partidos porque os mandatos de
Rui Rio e de Francisco Rodrigues dos Santos estão no fim e têm de ser
renovados.
Esta ideia estrambólica de que a democracia interna tem
de ser suspensa a bem da democracia externa só convence oportunistas ou tontos
Marcelo só tem um gesto a fazer: marcar eleições para 30 de Janeiro ou para 6
de Fevereiro de 2022
Assistir a
Rui-banho-de-ética-Rio, em entrevista à SIC Notícias, com a boca cheia de
“interesse nacional”, a garantir que os “portugueses não compreenderiam” que o
PSD andasse internamente aos “tiros” nesta hora, apenas demonstra aquilo que já
aqui disse muitas vezes: a cultura democrática de Rio tem mais buracos do que
um queijo suíço. Ele chama “tiros para dentro” a eleições internas, e pergunta
estrondosamente: “Quem é o meu adversário? É o dr. Paulo Rangel ou o dr.
António Costa?” Eu ajudo na resposta: primeiro, é o dr. Paulo Rangel, e se o
PSD e o país tiverem alguma sorte, nunca chegará a ser o dr. António Costa. Rio
mente tão bem a si próprio que já acredita nas suas próprias mentiras. Convém
repor a verdade: tal como acontece com Francisco Rodrigues dos Santos, Rui Rio
não está a colocar os interesses do país à frente dos interesses do partido.
Está apenas a colocar o seu interesse pessoal à frente de tudo o resto.
Quando aqueles
partidos que nunca concordam sobre coisa alguma se entendem subitamente em
torno de eleições no dia 16 de Janeiro, importa perceber o que é que isso
significa. Rio e “Chicão” propõem o dia 16 porque acham que a data os ajuda a
sobreviver internamente. PS, Bloco, PCP e Chega propõem o dia 16 porque querem
muito que eles sobrevivam. O que é que há aqui de genuíno “interesse nacional”?
Aproximadamente zero. Para o país, mais 15 dias ou menos 15 dias não faz
diferença alguma. Para o PSD e para o CDS, faz toda a diferença.
Esta ideia
estrambólica de que os interesses do país são contraditórios com os interesses
do maior partido de oposição, e que a democracia interna tem de ser suspensa a
bem da democracia externa, só convence oportunistas ou tontos. Não sendo
Marcelo nem uma coisa nem outra, só tem um gesto a fazer: marcar eleições para
30 de Janeiro ou para 6 de Fevereiro de 2022.
Sem comentários:
Enviar um comentário