sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

 


TAP corta 230 milhões em custos com trabalhadores já em 2021

 

Além de reduções de pessoal, plano entregue em Bruxelas contempla o corte de 25% dos salários acima dos 900 euros, pelo menos até 2025.

 

Luís Villalobos

Luís Villalobos 10 de Dezembro de 2020, 23:00

https://www.publico.pt/2020/12/10/economia/noticia/tap-corta-230-milhoes-custos-trabalhadores-ja-2021-1942568

 

O plano de reestruturação da TAP, entregue esta quinta-feira pelo Governo em Bruxelas, contempla um corte de custos com pessoal de 230 milhões de euros no ano que vem. Este objectivo será atingido através de duas formas: saídas de trabalhadores, voluntárias ou não, e um corte transversal de 25% dos salários a quem ficar. Neste último caso, segundo informou esta quinta-feira à noite a empresa, ficou estabelecido que o montante mínimo acima do qual incidirá a redução salarial será de 900 euros, “considerando para o efeito o vencimento base”. Para o ano que vem, a empresa estima receitas da ordem dos 1300 milhões de euros, 60% abaixo do valor de 2019.

 

Ao nível do corte de custos com salários, a estratégia passa por manter a pressão durante vários anos, subindo a poupança anual até aos 325 milhões em 2023, voltando o valor aos 230 milhões em 2025 (mais uma vez, face a um cenário sem este tipo de medidas). Os dados constam de uma apresentação do plano da empresa.

 

O cenário em cima da mesa engloba a dispensa de 2000 trabalhadores efectivos (750 tripulantes de cabine, 750 trabalhadores de terra e 500 pilotos). No final de 2019, o grupo empregava 10.952 pessoas, das quais 9006 na TAP, SA. Pelo meio, há já um elevado número de contratos sem renovação (1600 este ano).

 

Em 2019, o valor dos gastos com pessoal foi de 751,9 milhões de euros, dos quais 678,6 milhões dizem respeito à TAP, SA (a companhia aérea teve um incremento de 11,7% nesta rubrica, face a 2018, muito devido a novas contratações).

 

Para o corte de 25% dos salários, a TAP conta com a suspensão dos acordos de empresa em vigor no grupo, situação que deverá durar pelo menos até 2025, de acordo com fonte ligada ao processo. Nessa altura, poderá haver novas negociações com os trabalhadores.

 

Numa primeira fase, de modo a ser atingido o objectivo proposto, vai ser apresentado um programa de adesões voluntárias, do qual constarão propostas como “rescisões por mútuo acordo, licenças não remuneradas de longo prazo, trabalho a tempo parcial e outros mecanismos voluntários”. Conforme decorra este processo, que terá início nos próximos dias, isso determinará a segunda fase, a dos despedimentos. “Quanto maior for a adesão, menos será a necessidade de outras medidas a decidir futuramente”, avisou já a administração.

 

Neste momento, não há a expectativa de uma grande adesão ao regime voluntário, de acordo com os sindicatos ouvidos pelo PÚBLICO. Henrique Louro Martins, presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), afirmou ao PÚBLICO que, “se houver dez [a aderir às rescisões], já seria um sucesso”, e que mesmo a questão do trabalho a tempo parcial não terá grande expressão, pelo nível do corte de trabalho proposto – seis meses num ano, de acordo com este responsável sindical.

 

Sem programa de reformas antecipadas

 

Em sentido contrário, diz o sindicalista, um regime de pré-reformas ou reformas antecipadas poderia contar com a adesão da ordem de 200 tripulantes de cabine. Só que essa é uma medida que não está em cima da mesa. De acordo com os sindicatos, a administração informou que “até ao momento não há abertura do Governo para ponderar essa solução”.

 

José Sousa, do Sitava (pessoal de terra), também considerou que a probabilidade de adesão de trabalhadores às rescisões é muito baixa, até por falta de outras oportunidades de trabalho, e que o mesmo aconteceria com o regime de reformas, uma vez que a idade média dos trabalhadores de terra é baixa para esse efeito.

 

O PÚBLICO contactou também o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), mas não teve resposta.

 

Desde Abril que os trabalhadores têm tido cortes nos vencimentos, primeiro ao abrigo do layoff simplificado, depois ao abrigo ao apoio à retoma. Já este mês, a TAP prescindiu desse apoio, sendo que um dos requisitos de acesso é o de não efectuar despedimentos.

 

A administração sublinhou que a empresa terá de ser alvo de “um forte e transversal corte de custos”, porque só assim se vai “evitar o fim da TAP”, cujo controlo voltou à esfera do Estado (72,5% é agora de capitais públicos, cabendo 22,5% a Humberto Pedrosa e 5% a trabalhadores/pequenos investidores).

 

O plano, desenhado com o apoio da consultora Boston Consulting Group e do Deutsche Bank, contempla também outras poupanças nos custos fixos, como é o caso dos aviões, e nos custos variáveis. O objectivo é demonstrar à Comissão Europeia que a empresa é viável economicamente sem mais apoios do Estado, tendo que em 2025 ter capacidade de gerar resultados que lhe permitam recomeçar a pagar as dívidas. Antes disso, em 2023, a TAP terá de ter um resultado operacional equilibrado.

 

Na parte da apresentação em que constam estes dados, a administração alerta que Bruxelas “pode impor medidas adicionais” para atingir estes dois objectivos, tidos como pilares para a aprovação do plano.

 

Certo é que neste momento, refere-se, a estrutura de custos “não é compatível com o actual e projectado nível da receita”, afirmando a gestão que a operação, nos próximos anos, “será reduzida em 30% a 50%”.

 

No caso dos aviões, a ideia é chegar às 88 aeronaves no ano que vem, quando o grupo detinha 108 em Junho – medida ligada ao corte de pessoal e que terá também impacto no número de rotas e de frequências. Depois, esse número deverá voltar a subir, atingindo os 101 aviões em 2025.

 

Queda abrupta

Depois de quatro anos a crescer em tamanho, com novas contratações e aviões, a TAP sofreu uma queda abrupta na sequência da pandemia de covid-19, iniciada em Março. Desde esse mês até Outubro, perdeu 11 milhões de passageiros e os prejuízos nos primeiros nove meses atingiram os 700 milhões de euros. Com a realização de viagens a cair a pique, seja por restrições dos governos seja por receio das pessoas, organismos internacionais apontam para que a recuperação dos níveis de 2019 surja só em 2024 ou 2025.

 

Os concorrentes da TAP também estão a reduzir a sua dimensão em termos de aviões, em encargos com trabalhadores e a redesenhar rotas. Companhias de bandeira, como a Lufthansa e a Air France, também receberam apoios estatais. Outras, como a Easyjet e a Ryanair, estão a financiar-se no mercado.

 

Para a Comissão Europeia, a diferença entre companhias como a Lufthansa e a TAP é que a transportadora aérea portuguesa já tinha um historial de prejuízos, não podendo, assim, receber apoio no quadro extraordinário criado por Bruxelas para combater os efeitos da pandemia. Além dos 1200 milhões de euros de empréstimo este ano, valor que pode, no seu todo ou em parte, ser convertido em capital, estão pensados mais 2,1 mil milhões de euros em garantias públicas para ajudar a empresa a financiar-se no mercado, dos quais 970 milhões em 2021.

 

O plano entregue em Bruxelas pode ainda sofrer alterações, mas estas partirão da Comissão Europeia, que terá de aprovar o desenho final, um processo que deverá demorar alguns meses. Quanto aos sindicatos, ainda não está claro que margem há para negociações. Esta sexta-feira, o ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, deverá fazer uma conferência de imprensa dedicada ao plano de reestruturação da TAP.

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