terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Palácio do Patriarcado vai ser convertido em habitação de luxo




Palácio do Patriarcado vai ser convertido em habitação de luxo

 

Edifício emblemático no Campo Mártires da Pátria, que foi sede do Patriarcado e recebeu João Paulo II, está devoluto há anos. Vai ter 39 apartamentos de luxo, num projeto que teve parecer negativo do Conselho Consultivo da Carta Municipal do Património Edificado e Paisagístico de Lisboa.

 


Susete Francisco

21 Dezembro 2020 — 19:27

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-dez-2020/palacio-do-patriarcado-vai-ser-convertido-em-habitacao-de-luxo-13161122.html?fbclid=IwAR3pwe1bPfi0xPllkFh-XdJfMmrbdHSRfclI_CwFTAeUigb631rntiRXB2k

 

O Palácio do Patriarcado, no Campo Mártires da Pátria, vai transformar-se em habitação de luxo. A proposta foi aprovada nesta segunda-feira em reunião extraordinária da Câmara Municipal de Lisboa, com os votos contra do PCP e do Bloco de Esquerda.

 

O projeto agora aprovado - que integra um conjunto de três edifícios, sendo o Palácio do Patriarcado o mais proeminente - prevê a construção de 39 apartamentos de luxo, de tipologias T1, T2, T3 e T5 e 57 lugares de estacionamento em cinco caves. Para o Palácio do Patriarcado está prevista uma cobertura com piscina.

 

Próximo do Instituto Goethe e da Embaixada da República Federal da Alemanha, o palácio, datado do século XVIII, terá sido projetado por João Frederico Ludovice, arquiteto alemão que se naturalizou português e que projetou também o Palácio Nacional de Mafra para D. João V.

 

No final do século XIX o palácio era propriedade dos irmãos Costa Lobo, que o herdaram do pai, já após a ampliação do edifício original. Um dos irmãos acabaria por legar a sua parte à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o outro deixou-o à mulher, Joséphine Costa Lobo. Em 1913, a parte que pertencia à Santa Casa é alugada para sede do Patriarcado. Dez anos depois as autoridades eclesiásticas compram a parte do palácio na posse de Joséphine Costa Lobo e em 1926 adquirem, em hasta pública, a área que pertencia à Santa Casa, ficando assim com a totalidade do edifício.

 

O palácio fica na posse do Patriarcado durante cerca de 80 anos - é ali que fica instalado o Papa João Paulo II durante a visita a Lisboa, em 1982.

 

O Patriarcado acabaria por abandonar o edifício - que está atualmente devoluto. Já há mais de uma década foi anunciado um hotel de luxo para o imóvel, mas este cenário acabou por nunca se concretizar.

 

"Para que serve a Carta Municipal do Património?"

O PCP, que nesta segunda-feira votou contra o projeto, lembra que quer o Palácio do Patriarcado, quer o Palácio Valmor - que integra também o conjunto que agora vai ser destinado a habitação de luxo - constam da Carta Municipal do Património Edificado e Paisagístico de Lisboa, cujo conselho consultivo deu parecer negativo às alterações propostas, "considerando que o projeto não cumpre o Plano Diretor Municipal e que o projeto, interior e exteriormente, não salvaguarda, protege e respeita o património edificado". O parecer é, no entanto, meramente consultivo. Já a posição da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) é vinculativa. Num primeiro momento a DGPC indeferiu o projeto que foi apresentado à câmara, mas acabou por emitir um parecer positivo após a introdução de algumas alterações.

 

"Para que serve a Carta Municipal do Património se não há qualquer diferença entre a intervenção que é feita nos edifícios que têm esta classificação municipal e outro qualquer?", critica a vereadora comunista Ana Jara, sublinhando que o Palácio Valmor é "todo demolido interiormente".

 

"Esta intervenção é desadequada, não salvaguarda nem respeita o património de edifícios que têm valor para a cidade", aponta a também arquiteta, que diz que "é sempre surpreendente continuar a assistir" e "em particular neste momento da cidade" a projetos de reabilitação que apostam na demolição, deixando muitas vezes apenas as fachadas dos edifícios.


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