Palácio do Patriarcado vai ser convertido em habitação de
luxo
Edifício emblemático no Campo Mártires da Pátria, que foi
sede do Patriarcado e recebeu João Paulo II, está devoluto há anos. Vai ter 39
apartamentos de luxo, num projeto que teve parecer negativo do Conselho
Consultivo da Carta Municipal do Património Edificado e Paisagístico de Lisboa.
Susete Francisco
21 Dezembro 2020
— 19:27
O Palácio do
Patriarcado, no Campo Mártires da Pátria, vai transformar-se em habitação de
luxo. A proposta foi aprovada nesta segunda-feira em reunião extraordinária da
Câmara Municipal de Lisboa, com os votos contra do PCP e do Bloco de Esquerda.
O projeto agora
aprovado - que integra um conjunto de três edifícios, sendo o Palácio do
Patriarcado o mais proeminente - prevê a construção de 39 apartamentos de luxo,
de tipologias T1, T2, T3 e T5 e 57 lugares de estacionamento em cinco caves.
Para o Palácio do Patriarcado está prevista uma cobertura com piscina.
Próximo do
Instituto Goethe e da Embaixada da República Federal da Alemanha, o palácio,
datado do século XVIII, terá sido projetado por João Frederico Ludovice,
arquiteto alemão que se naturalizou português e que projetou também o Palácio
Nacional de Mafra para D. João V.
No final do
século XIX o palácio era propriedade dos irmãos Costa Lobo, que o herdaram do
pai, já após a ampliação do edifício original. Um dos irmãos acabaria por legar
a sua parte à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o outro deixou-o à mulher,
Joséphine Costa Lobo. Em 1913, a parte que pertencia à Santa Casa é alugada
para sede do Patriarcado. Dez anos depois as autoridades eclesiásticas compram
a parte do palácio na posse de Joséphine Costa Lobo e em 1926 adquirem, em
hasta pública, a área que pertencia à Santa Casa, ficando assim com a
totalidade do edifício.
O palácio fica na
posse do Patriarcado durante cerca de 80 anos - é ali que fica instalado o Papa
João Paulo II durante a visita a Lisboa, em 1982.
O Patriarcado
acabaria por abandonar o edifício - que está atualmente devoluto. Já há mais de
uma década foi anunciado um hotel de luxo para o imóvel, mas este cenário
acabou por nunca se concretizar.
"Para que
serve a Carta Municipal do Património?"
O PCP, que nesta
segunda-feira votou contra o projeto, lembra que quer o Palácio do Patriarcado,
quer o Palácio Valmor - que integra também o conjunto que agora vai ser destinado
a habitação de luxo - constam da Carta Municipal do Património Edificado e
Paisagístico de Lisboa, cujo conselho consultivo deu parecer negativo às
alterações propostas, "considerando que o projeto não cumpre o Plano
Diretor Municipal e que o projeto, interior e exteriormente, não salvaguarda,
protege e respeita o património edificado". O parecer é, no entanto,
meramente consultivo. Já a posição da Direção-Geral do Património Cultural
(DGPC) é vinculativa. Num primeiro momento a DGPC indeferiu o projeto que foi
apresentado à câmara, mas acabou por emitir um parecer positivo após a
introdução de algumas alterações.
"Para que
serve a Carta Municipal do Património se não há qualquer diferença entre a
intervenção que é feita nos edifícios que têm esta classificação municipal e
outro qualquer?", critica a vereadora comunista Ana Jara, sublinhando que
o Palácio Valmor é "todo demolido interiormente".
"Esta
intervenção é desadequada, não salvaguarda nem respeita o património de
edifícios que têm valor para a cidade", aponta a também arquiteta, que diz
que "é sempre surpreendente continuar a assistir" e "em
particular neste momento da cidade" a projetos de reabilitação que apostam
na demolição, deixando muitas vezes apenas as fachadas dos edifícios.



Sem comentários:
Enviar um comentário