EDITORIAL
O ministro entrou “em pânico” com o SEF
Amílcar Correia
9 de Dezembro de
2020, 19:06
https://www.publico.pt/2020/12/09/sociedade/editorial/ministro-entrou-panico-sef-1942371
O Governo remeteu
a demissão de Cristina Gatões da direcção nacional do Serviço de Estrangeiros e
Fronteiras para o rodapé de um comunicado às redacções, por manifesto embaraço
do Estado pelo seu silêncio sobre a morte de um cidadão ucraniano no Aeroporto de
Lisboa, e porque o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, premiu o
“botão de pânico”.
É verdade que as
circunstâncias desumanas da morte de Ihor Homenyuk nas instalações de um
serviço público, encobertas por uma série de funcionários, originaram várias
demissões e a Inspecção-Geral da Administração Interna elaborou um relatório
contundente. Mas também é verdade que o Espaço Equiparado a Centro de
Instalação Temporário da Portela tinha sido objecto de críticas por parte de
organizações internacionais e pela provedora de Justiça por abusos de direitos
dos detidos.
Mas porque é que
Cristina Gatões, que reconheceu que Ihor Homenyuk foi sujeito a tortura nas
instalações do SEF, só interrompeu o seu silêncio uma vez, recentemente, para
dizer nunca ter equacionado pôr o cargo à disposição e só se demitiu (ou foi
demitida) noves meses depois? O facto de não se ter prontamente demarcado do
caso, no qual três inspectores são acusados de homicídio qualificado, só
contribuiu para o “anátema geral, segundo o qual todos os inspectores do SEF
são responsáveis”, como aqui escreveu Acácio Pereira, presidente do sindicato
dos funcionários do SEF.
Inexplicavelmente,
este caso foi ignorado, à esquerda e à direita, durante demasiado tempo. E a
pandemia nem tudo explica. A manutenção da directora do SEF tornou-se
insustentável para Eduardo Cabrita a partir do momento em que a comissária
europeia dos Assuntos Internos se pronunciou sobre esta “violação horrível dos
direitos humanos”, a oposição despertou para o tema e a presença do ministro e
da directora-geral foram requeridas pelo Parlamento.
A saída de
Cristina Gatões foi embrulhada num plano de reestruturação do organismo que
separa a componente administrativa da componente policial e na instalação de
“botões de alarme” nos quartos das instalações. Panaceias ineficazes para o mau
comportamento para com a vítima e a sua família. O Governo reconhece agora que
o SEF deve lidar com a imigração numa abordagem “mais humanista e menos
burocrática”, simplesmente, porque entrou “em pânico” com a crescente
indignação pela forma como lidou com a suspeita de um homicídio qualificado
praticado em nome do Estado.

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