ANÁLISE
Merkel: hoje, amanhã e depois de amanhã
TERESA DE SOUSA
10 de Dezembro de
2020, 6:33
https://www.publico.pt/2020/12/10/mundo/analise/merkel-hoje-amanha-amanha-1942380
1. “O que fará a
Europa quando a Mutti se for embora?” O site Politico-Europe começa assim a sua
breve justificação para a escolha de Angela Merkel como uma das principais
figuras políticas de 2021. “Nada reflecte melhor o estado actual da política
europeia do que o facto de alguém que já está de saída continuar a ser a sua
porta-estandarte”. Talvez seja um exagero dizer que Merkel já está de saída. É
verdade que há eleições legislativas na Alemanha em Setembro e que a chanceler
disse que não seria candidata. Mas também é verdade que muita coisa pode mudar
até lá, neste tempo em que a incerteza é a única certeza. Como é verdade que,
se as coisas correrem bem para Merkel e para a Europa, nada a impede de vir a
ocupar um cargo europeu. Até lá, não vale a pena ter grandes dúvidas. O capital
político que acumulou interna e externamente, somado ao facto de liderar o país
mais poderoso da União, fazem dela a líder mais influente do continente
europeu. O que não quer dizer que tudo lhe corra de feição.
2. Merkel
ambicionava uma presidência alemã do Conselho da União Europeia à altura do
legado que quer deixar à Europa. A pandemia trocou-lhe as voltas, mergulhando o
continente na sua maior crise de sempre e tomando conta da agenda europeia.
Como é próprio da sua maneira de agir, no início da crise pandémica a chanceler
hesitou. As instituições europeias levaram algum tempo a reagir. Ninguém estava
preparado para o que aconteceu. A Europa envolvera-se numa infindável polémica
sobre a melhor maneira de garantir a sustentabilidade do euro no longo prazo,
para evitar crises idênticas à que ia destruindo a união monetária na crise de
2010-2015. Berlim opunha-se a qualquer ideia de orçamento próprio da zona euro
ou de emissão de dívida conjunta. As negociações do Orçamento Plurianual
(2021-2027) arrastavam-se penosamente. Os países chamados “frugais”, com o
beneplácito alemão, recusavam-se a colmatar as perdas resultantes da saída do
Reino Unido, um dos maiores contribuintes líquidos dos cofres de Bruxelas. Os
países da coesão não aceitavam cortes volumosos nos fundos estruturais. As
inimagináveis consequências económicas da pandemia vieram pôr tudo em causa.
Contra todas as expectativas, em Julho deste ano, no início da presidência
alemã, os líderes europeus conseguiram chegar a acordo sobre um pacote de
ajudas à economia de uma dimensão nunca vista (1,8 biliões de euros), cujo
financiamento inclui a emissão de dívida conjunta pela Comissão Europeia.
Levaram menos de quatro meses. Caíram vários tabus.
Merkel não chegou
a este resultado sozinha. O Presidente francês foi decisivo para convencê-la. O
seu ministro das Finanças - que, como lembrava alguém, não se chama Schauble,
mas Scholz e é social-democrata - deu uma preciosa ajuda. Merkel abriu com
chave de ouro a sua presidência europeia. Gostaria de encerrá-la da mesma
maneira. Será difícil.
3. Conseguirá,
provavelmente, uma solução de compromisso com os governos da Polónia e da
Hungria para desbloquear a aprovação do pacote financeiro. Assegurar este
compromisso, evitando o recurso a uma “cooperação reforçada” a 25, era um ponto
de honra para a chanceler. Citando o historiador britânico Timothy Garton Ash,
a Alemanha quer estar no centro da Europa, desde que esteja rodeada de Ocidente
por todos os lados, ou seja, de democracias. “De amigos”, como dizia Kohl. As
derivas iliberais e autoritárias de Varsóvia e de Budapeste, somadas aos
múltiplos sintomas das fragilidades de alguns outros países do Leste europeu,
continuarão a ser um problema que a União não pode ignorar ad eterno.
Nunca quis a
saída do Reino Unido. “Em parte, devido ao papel económico, político e
diplomático de Londres, mas também pelo que significa para os equilíbrios de
poder na Europa”, escreve Judy Dempsey, do Carnegie-Europe. Ainda corre o risco
de ver os britânicos saírem sem um acordo, aumentando a distância entre os dois
lados da Mancha e enfraquecendo a Europa.
4. A última
prova, talvez a mais importante, nos meses que lhe restam na chancelaria, é a
relação com os Estados Unidos. O Conselho Europeu vai aprovar a proposta de uma
“nova agenda global” para a renovação das relações transatlânticas, apresentada
pela Comissão. É ambiciosa e vai no bom sentido. Ao contrário de Macron, que
via em Trump um sinal definitivo do afastamento inexorável entre os dois lados
do Atlântico, Merkel preferiu sempre olhar para o seu mandato como uma
“anomalia”, que acabaria por ser superada, embora soubesse que mais quatro anos
poriam definitivamente em causa um dos dois pilares em que assentou o regresso
da Alemanha ao concerto das nações civilizados, depois da II Guerra: a aliança
com os EUA. “A Alemanha teve inúmeras surpresas geopolíticas nos anos
recentes”, escreve Constanze Stelzenmuller, da Brookings Institution. “Mas a
pior, de muito longe, não foi a agressão da Rússia às portas da Europa, a
estratégia chinesa de domínio global ou os conflitos provocados pela Turquia no
Mediterrâneo Oriental. Foi a eleição de Donald Trump como Presidente dos EUA”.
Biden é um enorme alívio e uma oportunidade. Há, diz a mesma investigadora, “um
novo sentimento de urgência em Berlim”, que implica escolhas muito difíceis.
Entre os seus interesses económicos, para os quais o mercado chinês foi uma
bênção, e os seus interesses estratégicos. Entre uma visão geoeconómica da sua
influência mundial e uma visão geopolítica. Entre um contributo limitado para a
capacidade militar europeia e o seu dever de “partilhar o fardo” com os EUA e
com a França e o Reino Unido. “A nova desordem mundial coloca escolhas
inevitáveis. Há momentos em que as nações – incluindo a Alemanha – têm de tomar
partido”, diz Edward Luce no Financial Times.


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