Ex-líder do Chega do Porto pede desfiliação imediata do
partido. "Lei da rolha é intolerável"
07.12.2020 às
16h05
Jorge Pires pediu o cancelamento da militância do Chega
com efeitos imediatos. Requerimento de desfiliação aconteceu no dia em que
André Ventura proibiu referências críticas ao partido e o agora dissidente
soube que era visado num processo disciplinar "a pedido" do vice
Diogo Pacheco Amorim
Isabel Paulo
ISABEL PAULO
O ex-líder da
distrital do Porto enviou à direção do Chega um pedido de desvinculação, “com
efeitos imediatos”, por não concordar nem se identificar com o rumo do partido
nos últimos meses. Na missiva, enviada sexta-feira, Jorge Pires refere que não
procede à entrega de cartão de militante, “pois o mesmo, embora pago” nunca lhe
foi entregue e agradece “resposta rápida ao seu pedido”.
A gota de água
que fez transbordar a paciência do militante 915, que aderiu ao Chega há um ano
e se demitiu da liderança da distrital portuense em abril após uma moção de
censura da comissão política local, foi a proibição de André Ventura a todas as
referências negativas na imprensa ou nas redes sociais “que causem danos à
imagem” do partido e saber que era um dos visados na purga “a quem ousa
discordar da direção”.
“Num país
democrático, a tentativa de unanimismo de opinião e a perseguição a quem se
atreve a criticar o rumo negativo que o partido está a tomar é intolerável”,
afirma o até agora apoiante de Ventura, que adianta que soube por fonte
oficiosa ser um dos alvos dos“ processos sancionatórios”. Embora seja contra “o
insulto gratuito de militantes nas redes socais ou a guerrilha interna movida
pela sede de palco e lugares”, o antigo presidente da distrital portuense
defende que nada é pior para a imagem do Chega do que “a imposição de uma lei
da rolha que visa punições, como a suspensão ou até a expulsão, por delito de
opinião”.
“Eu aderi ao
Chega por acreditar em André Ventura e no programa de um partido de direita,
conservador e que se proponha resolver os problemas reais dos portugueses,
sobretudo os mais esquecidos, que vivem no interior do país e se debatem todos
os anos com falta de médicos, de professores, de emprego, e são apenas
lembrados nas campanhas eleitorais”, diz Jorge Pires, confessando-se desiludido
por ver que, afinal, o partido, “em vez de abraçar causas, está mais preocupado
com a imagem externa, à semelhança dos partidos tradicionais”.
O militante
lamenta que André Ventura “dê mais ouvidos a quem faz fretes e não a quem faz
críticas construtivas internas”, nos órgãos próprios do partido. “Nunca fui
para as redes sociais fazer insultos gratuitos ou denegrir militantes, mas não
admito que haja represálias dirigidas a quem critica, em Conselho ou Convenção
Nacional, más práticas dentro do partido, como a alteração de mesas de voto na
véspera das últimas eleições da Distrital do Porto, ou que o Conselho
Jurisdicional não se digne sequer responder à impugnação de um ato eleitoral”.
Para Jorge Pires,
“é um enorme orgulho” que o processo que o partido se preparava para lhe mover
“fosse a pedido de Diogo Pacheco Amorim”. “Como foi incapaz de me responder no
local próprio às críticas que lhe fiz, o que se prova que não tinha argumentos
para me rebater, manobrou nos bastidores para que me fosse instaurado uma ação
disciplinar, que tudo leva a crer fosse para me expulsar por dizer o que
penso”, acrescenta.
Na última
Convenção do partido, em setembro, Jorge Pires criticou o facto de Pacheco
Amorim ser membro da Fundação De Paço, criada pelo empresário luso-americano
Caeser DePaço com sede em Cascais, quando o partido já se manifestou ser contra
fundações.
“Como é possível
querer que o Chega seja um partido credível quando apregoa uma coisa e faz
outra?”, questiona Jorge Pires, que lembra as críticas de“ promiscuidade entre
a política e futebol” de Ventura a António Costa por integrar a Comissão de
Honra de Luís Filipe Vieira, “mas permite que o seu vice faça parte de uma
Fundação que detém a SAD de um clube de futebol (Canelas)”.
“Se calhar estas
derivas e tiques autoritários são dores de crescimento de um partido novo que
se quer impor no panorama nacional, após ter conseguido viabilizar o Governo
dos Açores, mas eu prefiro sair a pactuar com injustiças e perseguições”, alega
o presidente da Associação de Pediatria Oncológica do Hospital de São João.
A diretiva de
André Ventura para silenciar os críticos internos poderá, segundo Jorge Pires,
levar ao abandono de mais militantes nos próximos dias. "Sei que há mais
apoiantes de primeira hora do partido que não se revêm nesta forma de fazer
política", salienta o dissidente. Já este sábado, o Chega suspendeu Bento
Marçal Mestre, presidente da Mesa de Setúbal, avançou o Observador.

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